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EĞİTİM, TANITIM VE TOPLUMSAL BİLİNÇLENDİRME FAALİYETLERİNE İLİŞKİN

G. KOMİSYONA SUNULAN ÖNERGELER

5.8. EĞİTİM, TANITIM VE TOPLUMSAL BİLİNÇLENDİRME FAALİYETLERİNE İLİŞKİN

O PP da Escola ―C‖, segundo sua diretora, foi construído coletivamente com a participação dos profissionais da educação em conformidade com a citada lei, apresentando uma linguagem simples, mas, como não se tratava de uma cópia do PP de outra escola, pude perceber a singularidade da instituição. Durante a leitura, senti a invisibilidade do gênero feminino, pois em nenhum momento da leitura a mulher é referendada, sendo sempre representada na forma generalizada, no masculino, com artigos, preposições e verbos de combinação com este. Essa invisibilidade da mulher é preocupante, pois vinda de uma escola é pedagógica, no pior sentido do termo, mantendo uma cultura machista e preconceituosa. Interessante que, apesar do movimento feminista da década de 1960, ainda hoje, mesmo em uma escola liderada por uma mulher, se reproduz e se ensina a invisibilidade da mulher diretora, coordenadora, professora, funcionária, mãe e aluna.

Na introdução do PP, encontramos o ideal de escola desejado por sua comunidade escolar, nos deixando pegadas em um terreno movediço de como pensam conduzir jovens alunos(as) e o que na escola atual está distanciando de seus objetivos:

A escola, de um modo geral, tem que deixar de ser a escola da ensinagem e passar a ser a escola da aprendizagem. Para isso, formalidades importantes como a constituição brasileira, o estatuto da criança e do adolescente e o regimento escolar contribuem com a formação cidadã do aluno, tornando-o um ser capaz de pensar e agir criticamente, esclarecido perante as leis e gerenciador do seu próprio destino, fundamentado na ética e na moral. É um resgate histórico de disciplinas trabalhadas em outros tempos, como Educação Moral e Cívica, Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e Estudos Regionais, disciplinas que trabalhavam os direitos e os deveres do cidadão brasileiro. Tivemos a iniciativa de construir um acordo coletivo onde os professores definiram os principais desafios e as ações a serem aplicadas no dia-a-dia escolar pensando no aluno como foco principal da

educação escolar (PP da Escola “C”, grifos nossos).

No início dessa citação, é perceptível uma reivindicação da lei como elemento fundamental para a formação de educandos e educandas, devendo esta ser incorporada ao currículo escolar como forma de disciplinas, sugerindo retorno ou atividades similares a vivenciadas no passado pelas escolas com as disciplinas de Educação Moral e Cívica e OSPB. Reivindica-se, portanto, um modelo de formar cidadãos e cidadãs obedientes às normas e às regras vivenciadas por gestores(as), professores(as), funcionário(as), pais e mães de alunos(as) durante o período da ditadura militar para as juventudes atuais. Como conciliar formação cidadã e pensar criticamente com a orientação de disciplinas da época da ditadura

militar, como OSPB e Educação Moral e Cívica, que tornaram firme o propósito de adestramento? Ser travesti seria considerado ―atentado ao pudor‖ como naquela época? O que garante que um retorno a tais mecanismos teria maior eficácia no controle e na disciplina das juventudes nas escolas atuais?

Essa tentativa de resgatar experiências antigas e tradicionais para tentar manter o controle e a disciplina dos alunos que estão na escola (hoje) nos traz a ingênua ideia de que com os mesmos aparatos de controle do passado é possível manter os alunos sobre controle. Não perceberam que as culturas juvenis de hoje não são as mesmas vivenciadas nos anos de ditadura militar. É importante lembrar que nem mesmo os estudantes daquela época, que viviam em uma guerra sistêmica (capitalismo x comunismo) e atendiam aos anseios culturais, aceitavam os comandos, as ordens e a submissão ao sistema e aos ideais das citadas disciplinas, que contribuíam para formar cidadãos conformados e obedientes ao sistema ditatorial do qual fomos vítimas.

Como podemos pensar os jovens contemporâneos na mesma simetria dos jovens da ditadura militar? Que cidadania é esta que se deseja? Em que se fundamenta o desejo de resgate de técnicas do passado que aprisionavam os jovens em vez de libertá-los? Estamos em outro contexto histórico, no qual a tecnologia e a informação modificaram radicalmente as relações humanas e suas produções. Não podemos tentar educar as novas juventudes com o aparato tecnológico utilizado no passado, que tinha o ideal de prender em vez de libertar. Não podemos aceitar que a moral e os bons costumes ditados no passado atravessem o tempo e engessem as juventudes.

Que tipo de moral e cidadania é este reivindicado pela escola para seus alunos? Seria o mesmo que nos impuseram no passado? Os profissionais da educação reinvidicam alunos obedientes, disciplinados, calados, enquadrados em um modelo de homem e mulher hegemônico(a), e tudo que foge a isso se posiciona contra a moral e os bons costumes, devendo ser reprimido pela punição com o intuito de corrigir e servir de exemplo para os demais que se aventurarem a subverter a ordem e a norma instituídas na escola. A moral e os bons costumes reivindicados pela escola encontram fundamentação no ideal de homem pensado por ela:

O ser humano deste século é pouco objetivo, individualista, que valoriza muito mais o ter do que o ser. Esse homem, orgulhoso e movido aos interesses do consumo, é capaz de banalizar a vida, de tornar o respeito ao outro como obsoleto e que se contradiz, na medida em que toma o conhecimento científico em ritmo de crescimento acelerado, esquecendo os

valores importantes como a família, a escola e o religioso, que norteiam a

vida humana. (PP da Escola “C”).

Observamos nesse trecho o que não se deseja e o que é desejado para o homem e a mulher em nossa sociedade, sendo família, escola e religião os demarcadores do que é certo e do que é errado na ação humana em sociedade. Assim é fácil compreender quais comportamentos serão negados na escola e quais os modelos a serem apresentados e seguidos. Quando analisamos a comunidade escolar sob o ponto de vista da religião, percebemos que a maioria é católica, seguida de diversas denominações evangélicas e neopentecostais. Se considerarmos que a maioria dos estudantes e dos professores é cristã, podemos afirmar que a travesti se insere em um comportamento ou cultura que, na concepção deles, deve ser negada e extirpada da escola, pois contraria o pensamento religioso capturado pelas famílias e atua na rotina da escola.

Por mais que a escola seja uma instituição laica, a religião aparece de forma direta nos santos, calendários e crucifixos, e de forma indireta nas ações cotidianas de professores(as), gestores(as), funcionários(as) e alunos(as). Essa religiosidade, quando presente nos documentos de gestão, faz toda uma maquinaria de poder girar para o lado da norma, formando (pelo menos em tese) um modelo hegemônico de homem e de mulher. Na visão de muitos profissionais da educação, a travesti não entra nessa modelagem porque, em vez de ordenar, ela é capaz de borrar ou de ―avacalhar‖, como disse uma diretora à entrevistada Gabi.

No tópico 4.2 do documento que recebeu o título de Marco Doutrinal, encontramos o modelo de escola almejado:

Uma escola que não tenha apenas como foco os conteúdos e programas mas uma escola voltada para o ensinamento de valores morais e éticos, capazes de transformar nossos alunos em cidadãos competitivos e críticos. A escola do século XXI não representa apenas a formalidade de cumprimento de dias, horários e carga horária, mas um espaço de diversidade cultural, de pluralismo de ideias e ideais, que vença suas limitações e dê resultados, justificando seu trabalho coletivo, centralizado na figura essencial e exponencial do professor e na aprendizagem dos seus alunos. (PP da Escola “C”, grifos nossos).

Que valores morais e éticos relatados são capazes de transformar alunos(as) em cidadãos(ãs) críticos(as) na visão da escola? Ao mesmo tempo em que a escola delimita seu foco, apresenta também a diversidade cultural e o pluralismo de ideias presentes nela. Estaria a escola pensando com diversidade cultural e pluralismo de ideias apenas em um campo

permissível e delimitado de possibilidade? Mas onde fica a diversidade cultural e o pluralismo de ideias que divergem dos pensamentos religiosos e familiares na escola?

A escola estaria trabalhando para adequar as diversidades culturais ―desprovidas de valores morais e éticos religiosos‖ ao seu ideal de homem?

Outro ponto que se deseja alcançar na escola são os resultados. Que resultados são esses? Quando se fala em resultados nas escolas estaduais para gestores(as) e professores(as), não é estranho se isso for delimitado aos resultados alcançados pelos(as) alunos(as) nas avaliações externas, em especial a do SPAECE, a qual se limita a avaliar o aluno pelos conhecimentos nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática. Mesmo a escola trabalhando 13 disciplinas, todo o conhecimento do(a) aluno(a) é aferido apenas pelo que se conhece nas duas disciplinas citadas.

Por essa razão, todo o trabalho e empenho de gestores(as), professores(as), funcionários(as) e alunos(as) se concentra nas disciplinas utilizadas para aferir a meritocracia, criando uma hierarquia de valores. Este empenho não é por acaso, pois as escolas que obtiverem crescimento de cerca de 10% nos resultados de um ano para o outro em todas as séries avaliadas são contempladas com o Prêmio Aprender Pra Valer, o qual concede às escolas contempladas o 14º salário para todos(as) os(as) professores(as), gestores(as), funcionários(as) do quadro efetivo ou temporário. Os(As) alunos(as) que estiverem no nível adequado de sua série nas disciplinas avaliadas são contemplados(as) com um computador. Dessa forma, não é estranho que todo o aparato físico e ideológico da escola se direcione para esse fim, inclusive nas atividades extracurriculares, como podemos observar com os projetos da escola:

Projetos: Os principais projetos desenvolvidos em nossa escola foram o

Projeto ―X‖44, as aulas de campo/visitas, Conte Comigo, Oficinas de Redação, Jornal Escolar, Participação nas Olimpíadas e os Projetos Sociais.

Projeto “X”: Uma verdadeira revolução no pensar e agir em nossa escola

chegou com o Projeto ―X‖ [...] que chegou para ficar. Este projeto representa um estímulo ao aluno para o seu ingresso nas universidades públicas e particulares e no IFET. Não foi encontrado ponto negativo neste projeto, porque as aulas acontecem aos sábados, com cronograma das atividades e conteúdos pré-estabelecidos e os professores participam de maneira voluntária, pensando unicamente no aluno.

Aulas de campo/visitas: proporcionaram aos alunos uma atividade

diversificada e maior possibilidade de aprendizagem, além de outra forma de socialização; como dificuldades analisamos que nem todos os alunos foram contemplados devido a limitação na quantidade de pessoas (vagas), além da

falta de comprometimento da SEDUC no envio de transporte para as aulas de campo ou o atraso do mesmo. Esperamos que de agora em diante nós possamos ser melhor contemplados.

Conte Comigo: o projeto despertou o interesse por parte dos alunos que

chegaram a iniciar as suas atividades, mas por motivo de reforma da sala de multimeios, o projeto não teve continuidade; porém, será reimplantado em 2011.

Oficinas de Redação: proporcionou para os alunos participantes melhoria

na escrita e na organização das ideias e trabalhou a linguagem dos mesmos preparando-os para as provas externas. Para 2011, esperamos ter uma maior adesão da maioria dos alunos, principalmente aqueles que prestarão exames do ENEM, vestibular e IFET.

Jornal Escolar: divulgou as atividades e eventos da escola, proporcionou a

participação dos alunos na elaboração de textos jornalísticos, promoveu a criatividade dos nossos alunos e gerou uma socialização entre escola- comunidade do Serviluz-sociedade, na medida em que o jornal saiu dos limites da escola.

Participação nas olimpíadas escolares: a nossa participação nas olimpíadas

de Matemática, Redação e Geografia despertou nos alunos o espírito de competitividade, garantiu novos conhecimentos e uma confiança de superação; infelizmente, a concorrência desleal com alunos das escolas particulares é um fator desfavorável. Esperamos que nosso desempenho neste ano seja bem melhor do que em anos anteriores.

Projetos Sociais: englobamos aqui duas atividades desenvolvidas na escola:

bingo e bazar. Como positivo, destacamos o levantamento de recursos para despesas emergenciais na escola, como limpeza da área (retirada do mato) e compra de uma sirene para controle dos horários de entrada e saída dos alunos e professores; além disso, provoca um envolvimento da comunidade que visitou a escola para adquirir produtos usados a baixo custo (no caso do bazar) ou na compra das cartelas do bingo. Vale lembrar que em todas estas atividades, foi prestado conta do que foi arrecadado e como o recurso foi utilizado na escola, o que é muito importante para manter a transparência e a credibilidade da gestão. É uma atividade que certamente continuará em 2011. Finalmente, este ano a Escola Helenita Mota aderiu o Projeto Diretor de Turma para as 4 turmas de 1º ano. È um projeto que vem para acompanhar o rendimento, a assiduidade e a participação dos alunos do 1º ano e criar estratégias para solucionar problemas internos e externos a escola. (PP da Escola ―C‖, grifos meus)

Constatamos que a Escola ―C‖ tem um foco, um objetivo a ser alcançado, utilizando os sábados e os dias extras para que os(as) alunos(as) sejam preparados(as) para uma prova de vestibular (Projeto ―X‖). A leitura e a escrita estão presentes em quase todos os projetos apresentados: ―Conte Comigo‖; ―Oficina de Redação‖; ―Jornal Escolar‖ e ―Olimpíada de Redação‖. A Matemática é desenvolvida na sala de aula, no Projeto ―X‖ e também nas Olimpíadas de Matemática.

É inquestionável que, entre as relações de poder que ocorrem entre as disciplinas na escola, Matemática e Língua Portuguesa prevalecem entre as demais não apenas por terem a maior carga horária (5 h/a semanais), mas por extrapolarem, indo para além de seus horários, fazendo uso de contraturnos (horário fora do turno de estudo dos(as) alunos(as) e dias extras (sábados) para manter os(as) alunos(as) ocupados(as) em aprender, com foco nos resultados das avaliações externas, vestibulares, SPAECE, ENEM e outras.

Com essa prática, não podemos esperar que a escola trabalhe para eliminar ou minimizar a violência, os preconceitos, as discriminações, pois até mesmo nos projetos considerados sociais não há espaço para as disciplinas humanas de menor tempo na ―grade curricular‖ como sociologia, filosofia e arte, com 1h/a por semana para cada uma destas. O tempo limitado e insuficiente para trabalhar os conhecimentos das humanidades e suas complexidades (historicamente construídas) demonstram a mínima importância, ou nenhuma importância, que a escola atribui a estas na formação de seus jovens estudantes.

A atenção da comunidade escolar se concentra nos conhecimentos que considera mais relevantes, os quais se revelam na prática escolar com maior tempo e dedicação. Por essa razão, não podemos nos admirar que os únicos projetos considerados pela escola como sociais, Bazar e Bingo, apresentam desenvolvimentos e objetivos focados em conseguir recursos para aquisição de materiais e equipamentos de controle (sirene) para escola. Neste contexto, fica fácil também entender o perfil apresentado de seus(as) alunos(as):

Disciplina: os alunos deixam a desejar, são vulneráveis, ficam fora de sala,

pulam o muro, não respeitam o professor e o núcleo gestor, chegam atrasados e não tem educação ao falar, pois são agressivos.

Desejamos que as regras da escola sejam mais rígidas obedecendo o regimento escolar e uma maior quantidade de funcionários para melhor o andamento das aulas nas escola. (PP da Escola ―C‖, grifos nossos).

O(A) aluno(a) é visto como problema – visão funcionalista (Pais, 1993) –, o que pode estar contribuindo para a indisciplina apresentada dos(as) alunos(as), sinalizando para possibilidades ainda não pensadas e não focadas pela escola. Será que os conhecimentos desenvolvidos pela escola, em especial os mais privilegiados por ela, apresentam algum significado imediato e importância para a vida dos(as) alunos(as)? Como manter-se parado, sentado, calado por, no mínimo, quatro horas ouvindo e sendo forçado a aprender o que muitas vezes não encontra significado e utilidade? Qual a distância entre o que a escola deve ensinar e o que o(a) aluno(a) quer aprender? Qual a distância entre o desejo e a obrigação de

professores(as) em ter seus alunos(as) aprovados(as) em vestibulares, ENEM, SPAECE e IDEB e o desejo dos jovens para seus futuros?

A escola tenta moldar os jovens e seus sonhos em uma única forma, esquece que eles podem ter outros sonhos e objetivos distantes do que a escola tem a oferecer. Por que tentam enquadrá-los em suas metas e objetivos sem saber o que pensam? A escola, como podemos perceber, é disciplinar, mas não é apenas uma instituição panóptica; essa instituição em particular (Escola ―C‖) está ligada aos ideais religiosos, como acontecia no Brasil Colonial. Para o estabelecimento em questão, o que menos importa, ou o que não importa, são os desejos e os sonhos dos alunos. Na mesma linha dos antigos jesuítas e dos vigias do panóptico, que puniam através do exame, os gestores são capazes de usar a punição como forma de colocar o aluno na linha.

Defendemos uma escola que puna o aluno indisciplinado fundamentado no regimento escolar, onde ele tenha consciência de todas as leis que envolvem o ambiente escolar e que este ambiente seja o mais favorável possível para a realização de todo o processo educacional. E que esta punição seja bem clara na medida em que exista uma conscientização prévia mas que garanta tranqüilidade a todos, ligada com o Conselho Escolar da escola. (PP da Escola ―C‖, grifos nossos).

Como podemos verificar, o processo de funilação dos estudantes deve ser ―perfeito‖, não sendo admitida a diversidade de caminhos. Aqueles que se rebelarem são conscientes da regra e da norma e têm de acatar as penalidades às quais devem ser submetidos. A escola ainda utiliza a punição como forma de reparação da indisciplina e as jovens estudantes travestis, que carregam em seu próprio corpo a marca da indisciplina, já que são tratadas como anormais, devem receber as punições da escola legitimadas, de forma direta ou indireta, pelo regimento escolar.