G. KOMİSYONA SUNULAN ÖNERGELER
2.4. EĞİTİM VE BİLİNÇLENDİRME FAALİYETLERİ
3.1.2. Tarımsal Üretim
Mesmo em um ambiente escolar de negação da minha forma de brincar e de ser, eu tinha um projeto que superava a dor física e psicológica que vivenciava diariamente, era estudar e aprender, objetivando conseguir um bom emprego para ajudar minha família. Esta trajetória escolar foi em escolas públicas, e como eu me destacava passei a ensinar os conteúdos aos meus colegas. Assim, conquistei meu espaço na escola e o reconhecimento dos(as) educandos(as) e educadores(as), ganhando destaque estadual com trabalhos nas feiras estaduais de ciências.
Entre meus 10 e 15 anos, vivi um conjunto de conflitos, em que meu desejo por homens tinha de ser negado para que eu me adequasse aos padrões de que homem tem de desejar sexualmente mulheres. Foi assim que minha vontade foi silenciada para atender às expectativas familiares e sociais, mesmo sendo para mim algo quase impossível, pois enquanto eu negava a homossexualidade meu corpo, meus gestos e minhas palavras me denunciavam. De tal modo que era alvo de muitas brincadeiras maliciosas do público adolescente que a escola atendia no período diurno. Resolvi, então, pedir remoção para o turno noturno, pois previa que pudesse ser mais respeitada e que fosse mais fácil conviver com os adultos.
Inicialmente a diretora resistiu, alegando que eu era muito jovem e me prejudicaria nos estudos, mas de tanto eu insistir ela cedeu. Passei a estudar à noite e era a pessoa mais jovem da turma, mas não tive problemas, pois como não trabalhava e canalizava meus desejos sexuais para os estudos acabava sendo a melhor aluna da turma e no momento das avalições sempre ajudava meus colegas, ao que retribuíam com respeito e proteção; era uma relação de poder que soube aproveitar. Estudando à noite, tive mais liberdade,
21As expressões ―pedagogia da violência‖ e ―professores do crime‖ não se referem, necessariamente, à escola ou
aos seus funcionários, a pedagogia do cotidiano está relacionada com a aprendizagem de todas as pessoas. As duas expressões estão intimamente ligadas com a expressão anterior: ―estética do preconceito e da morte‖. Essas estéticas são aprendidas e ensinadas através de múltiplas ―pedagogias‖ que podem mudar de acordo com a época e com a sociedade.
22 Os ―professores do crime‖ são todas as pessoas que utilizam essa pedagogia (dentro ou fora da escola) para
conversava com pessoas mais experientes, desabafava com algumas amigas e falava sobre meu desejo de me transformar em travesti. Mas sabia que sofreria muito caso me transformasse, pois a mídia da época era um dos principais inimigos. Apresentava a identidade travesti totalmente negativa, e esta influenciava, como ainda influencia, a forma de pensar da sociedade brasileira, tal qual expressa Kulick (2008,
p. 26):
O problema, entretanto, é que várias travestis ‗são‘ ameaçadoras. Os meios de comunicação no Brasil retratam-nas como marginais, isto é, delinqüentes perigosas ou criminosas. Durante toda minha permanência no país, fui seguidamente advertido por algumas pessoas para que não me aproximasse das travestis, não confiasse nelas, não permitisse que elas chegassem perto dos meus pertences, não acreditasse em nada do que elas porventura me dissessem, enfim, e de modo geral, que eu ficasse longe delas.
Diante dessa imagem satânica, não me restava alternativa senão rejeitar a identidade desejada com a ajuda da religião de minha avó – através da igreja Assembleia de Deus, que prometia curar homossexuais. Mesmo tentando controlar meus desejos sexuais me dedicando à religião, nada parecia dar controle a minha mente e meu corpo, que reivindicavam mesmo nas poluções noturnas. Nesse período, tentei até namorar mulheres, na tentativa de reverter a situação, mas isso só confirmou que eu as desejava apenas como amigas.
Na igreja, eu tinha um amigo da sala de aula, era com quem eu disputava as melhores notas das avaliações escolares. Percebi sua ausência por vários dias e descobri que ele havia enlouquecido. Este foi um momento de choque e reflexão, pois a pressão pela qual eu estava passando na igreja poderia acabar também por me enlouquecer.
Decidi afastar-me da igreja para buscar uma saída menos traumática para meu suposto ―problema‖ e passei a ser integrante do grupo de renovação carismática da Igreja Católica. Na nova religião, encontrei vários colegas que buscavam sair daquela ―maldição‖ de desejar homens. Com o tempo, no entanto, descobri que aquela situação de fuga dos desejos estava me fazendo mal, pois as religiões não ajudavam na libertação do ―pecado‖, pelo contrário, a cada dia a atração sexual por homens ficava mais forte, até perder o controle e resolver me livrar das religiões, permitindo-me ―pecar‖ conscientemente.
Na última série do 1º grau (atualmente, 9º ano do Ensino Fundamental), fui líder de sala, chegando a ser escolhida para participar como delegada do congresso da União Nacional dos Estudantes Secundaristas (UNE), na cidade de São Paulo. Eu ainda era menor, então um amigo homossexual foi meu responsável. Durante a viagem, aprendi muito com ele,
o que serviu de ponte para eu me aproximar e conhecer de perto algumas travestis. Usei roupas mais femininas e me libertei, conquistei admiradores e, finalmente, me senti desejada. Percebi que, quanto mais feminina me apresentava, mais era paquerada. Foi dessa forma que descobri o encanto de ser travesti, de não apenas desejar homens, mas ser desejada por eles.
Passei a viver efetivamente meus desejos proibidos e encarcerados, sem controle e amarras, passando inclusive a iniciar o processo de transformação, deixando o cabelo crescer e adquirindo algumas roupas femininas, assim como sandália, maquiagem, etc. A viagem foi um divisor de águas; passei a buscar minha felicidade e, consequentemente, minha metamorfose física e mental na busca do feminino. Pensava em ser mulher de todas as formas, inclusive na cama, o que me localizava, enfim, numa identidade transexual23.
No retorno para minha casa, passei a guardar a indumentária feminina escondida em uma sacola plástica dentro da estante da sala de minha casa; somente fazia uso dela na ocasião de viagens para outras cidades. Eu vivia duas vidas: uma para satisfazer minha família e a sociedade e outra para minha satisfação pessoal e a de meus amantes secretos. Neste período, meu pai vivia cobrando de minha mãe satisfações por eu ainda não ter namorada, ao que esta respondia, reproduzindo minha resposta: ―Este não é o momento para namoro, mas para estudar, buscar um futuro melhor.‖ Desse modo, os estudos funcionavam como álibi perfeito, todos se convenciam por vivenciarem minha dedicação aos estudos, e creio que isso contribuiu para o meu sucesso. A escola e os estudos funcionaram como um trampolim para que eu alcançasse espaços nunca imaginados para uma travesti.
Apesar do álibi perfeito, sabia que as cobranças advindas dos meus pais tinham origem nas brincadeiras jocosas de conhecidos e amigos, que, além de discriminarem minha orientação homossexual, aproveitavam para diminuir e zombar dos meus familiares. Minha irmã, que não duvidava da minha orientação homossexual, foi a primeira a descobrir o esconderijo de minhas roupas femininas, assessórios, maquiagem e sapatos. Ela não se conteve ao encontrar meu esconderijo e mostrou tudo para minha mãe. As duas travaram várias discussões sobre minha possível homossexualidade, por mais que tudo estivesse claro. Minha mãe fingia não saber e meu pai só reclamava com minha mãe. Às vezes, eu tomava conhecimento das discussões pela minha irmã, tempos depois, mas preferia me recolher e deixar a preocupação para eles.
Sei que minha irmã era uma das que apaziguavam os atritos, pois minha mãe sabia que eu estudava muito e qualquer desgaste mental que por ventura passasse poderia me
23 ―[...] a transexualidade é um desdobramento inevitável de uma ordem de gênero que estabelece que a inteligibilidade dos
prejudicar, me desviar da rota e da trajetória previsível para todos aqueles e aquelas que são exímios estudantes. Talvez por essa razão o silêncio imperasse, mantendo-me intocável, inviolável, por mais que tudo estivesse tão exposto. Nunca expus à família quem eu era, deixava subentendido; como não havia perguntas, preferia não me apresentar abertamente. Minha família foi muito importante, pois foi fingindo não saber de minha sexualidade que meus familiares encontraram maneiras de me apoiar, de se fazerem presentes em minha vida, de não me incomodarem e estarem comigo nos momentos mais difíceis.
No 2º grau (atual Ensino Médio), a meritocracia foi uma forma de superação. Recebi um convite para estudar em uma escola particular com bolsa de estudo integral, mas não queria deixar a escola pública, então resolvi estudar em ambas. Na escola pública, eu estudava à noite, no curso de contabilidade; na segunda, no curso científico, que foi menos difícil, não apenas com relação aos estudos, mas também quanto à socialização, que era mais fácil do que na outra modalidade de ensino. Continuei me destacando nas duas escolas. As notas eram boas, participava de feiras de ciências e, como eu conhecia minha sexualidade naquele momento, já sabia me defender.
E, para me sentir protegida, tanto na escola pública como na particular, me relacionava diretamente com amigos homossexuais, pois nos sentíamos mais protegidos e menos solitários em grupo. A escola foi o lugar mais importante e exclusivo para minha socialização com pessoas homossexuais; foi nesse espaço que realizei descobertas e me encontrei, até me permitir extravasar meus sentimentos, discutindo sobre minha sexualidade e desejos íntimos com amigos homossexuais.