D. KOMİSYON ÇALIŞMALARI SÜRECİ
D.1. Komisyonda Yapılan Toplantıların Konusu, Bilgi Alınanlar ve Tutanaklar
A fim de enfrentar o problema do tráfico no nosso País, faz-se necessário manter uma conduta séria e a levar em conta a textura veraz das vidas dos traficados, em especial mulheres e crianças, ao invés de abstraí-las e admitir apenas estudos teóricos do problema. Em primeira instância, é necessário desenvolver no País uma política racional e de planejamento contra a prática do tráfico de pessoas e que não seja meramente uma peleja contra a comercialização do sexo, tampouco uma campanha nativista e etnocêntrica de repressão dirigida aos clientes estrangeiros de prostitutas brasileiras. É relevante, portanto, analisar conceitos sociológicos e jurídicos básicos, tais como: discriminação, globalização, imperialismo e direitos humanos. Assim, ter-se-á uma visão geral da questão, passando-se,
dessa forma, para a etapa de equacionamento, adotando-se métodos preventivos e de remediação do tráfico.
O governo brasileiro não preenche completamente os padrões mínimos para a prevenção e repressão do tráfico de seres humanos. Não obstante estar envidando alguns esforços, há evidente restrição orçamentária e ausência de coordenação entre os níveis federal e estadual. Em nível local, o tráfico é agravado pela corrupção, até mesmo por parte de alguns policiais, que permanecem inertes, pretendendo auferir algum tipo de vantagem financeira mediante a omissão 17.
É de vital interesse considerar, ainda, a questão concernente às dificuldades encontradas pela polícia e pelo governo brasileiros para prevenir e controlar a prática do tráfico. Uma das causas a ser apontada é a questão da incompatibilidade das legislações estrangeiras com a legislação brasileira, malgrado os diversos tratados internacionais, considerando que muitos não foram ratificados ou não são cumpridos. Também pode ser ressaltada a precariedade na infra-estrutura da polícia nacional, seus departamentos e servidores, carecedores de capacitação para aptidão na luta contra o tráfico. E, finalmente, uma das maiores práticas que tolhem a atividade repressora de tal atividade criminosa é a conivência dos familiares das vítimas com os traficantes.
Destarte, sob uma perspectiva de direitos humanos, além de medidas de extrema relevância (realização de pesquisas e conseqüente criação de banco de dados, além do treinamento de policiais e capacitação das vítimas), devem ser considerados padrões que “têm como objetivo proteger e promover o respeito pelos direitos humanos das pessoas que foram vítimas do tráfico, incluindo aquelas que foram submetidas à servidão involuntária, trabalho forçado e/ou práticas análogas à escravidão” 18. Tais padrões, definidos pela OSC Padrões de Direitos Humanos (PDH) são os seguintes: princípio da não-discriminação, segurança e tratamento justo, acesso à Justiça, acesso a ações civis e a reparações, estatuto de residente, saúde, repatriação e reintegração e cooperação entre Estados 19.
17 Cf. JESUS, Damásio de. Op. Cit., p.p. 3-12. 18
Cf. JESUS, Damásio de. Op. Cit., p. 11.
CONCLUSÃO
Observa-se que o tráfico de pessoas, com ênfase no tráfico de mulheres, é um dos mais sérios problemas da humanidade atualmente, no sentido de que fere diretamente o princípio da dignidade da pessoa humana, tão exaltado na nossa Carta Magna, bem como defendido durante séculos, tanto por meio de lutas sangrentas, bem como por intermédio de mentes inquietantes de filósofos obstinados.
Em meio a tantas práticas delituosas no que concerne ao tráfico de mulheres, o Brasil figura como palco no qual ocorrem casos de seres humanos em sua distintas regiões, assim como figura como país de destino para outros países, o que caracteriza o delito em sua perspectiva interna e internacional, o que classifica o Brasil como um país com alto índice de casos de tráfico de pessoas, em especial mulheres e adolescentes do sexo feminino, conforme a UNODC.
Durante muito tempo, a prática do tráfico foi sempre associada à prostituição, na qual as principais vítimas eram sempre as mulheres, que eram retiradas de seu país ou região de origem e levadas até partes distantes para trabalharem como prostitutas e escravas sexuais, sendo, não esporadicamente, ludibriadas por ofertas falsas de trabalho e condições dignas de vida. Tal característica sobre o tráfico humano predominou até o início do século XX, em diversos países, nos quais surgiram documentos de âmbito internacional acerca do tema e que influenciaram a legislação penal interna dos países signatários e aderentes de tais documentos.
Atualmente, o cenário mundial vem se modificando continuamente, transformando-se e junto com ele o fenômeno do tráfico de seres humanos que, com a intensa transformação ocorrida nos últimos anos, acabou por globalizar de forma intensa e sem precedentes a economia e o mercado, o que culminou na criação de um cenário favorável ao desenvolvimento de determinadas regiões no mundo e, em contrapartida, o empobrecimento de outras.
Essa nova faceta do mundo, repercute nas atividades do tráfico e permeou debates que acabaram por preceder a elaboração do Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas
Contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, especialmente mulheres e crianças, conhecido como Protocolo de Palermo, aonde as assinaturas começaram a ser permitidas no mês de dezembro de 2000. De tráfico de mulheres para fins de prostituição, o conceito de tráfico de pessoas apresentado pelo Protocolo supracitado o considera atualmente como o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou ao uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios a fim de obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração. Tal delito irá incluir a exploração da prostituição de outrem ou outras formas de exploração sexual, o trabalho ou serviços forçados, a servida ou a remoção de órgãos, a escravatura ou práticas similares.
Sabe-se que o Brasil está inserido na rota de tráfico de pessoas, e esse delito é praticado no país de forma interna, quando as vítimas são deslocadas de uma região para outra, ou ainda de um município ou estado para outro, ou ainda na perspectiva internacional, quando pessoas são retiradas do Brasil e levadas para outros países. O Brasil ratificou todos os documentos internacionais que tratam do tema do tráfico, ainda incluiu o tipo tráfico internacional de mulheres em sua legislação penal, desde o código de 1890, e promoveu diversas reformas legislativas no sentido de modificar o texto legislativo, uma vez que os acordos internacionais que ratificava, tratavam o tema sob uma perspectiva mais abrangente.
Apesar da modificação de tráfico de mulheres para tráfico de pessoas no âmbito do Código Penal Brasileiro, o conceito de tráfico de pessoas na legislação do País continua, entretanto, a vincular o tema à prostituição e com fortes marcas de discriminação em relação ao gênero, uma vez que, embora não seja uma atividade exercida tão-somente por mulheres, estas estão em maior número em tal prática. Entretanto, mais do que um problema de sexualidade, o problema de tráfico de seres humanos no Brasil e, mais especificamente, no Estado do Ceará, está intrinsecamente ligado a questões de desigualdade entre regiões, pobreza, necessidade de salários e trabalhos dignos e a ineficácia do Estado em fiscalizar possíveis casos de explorações do trabalho, e suas diversas faces.
Deve-se ter em mente que a legislação brasileira atual deve ser modificada, tanto sobre tráfico interno como também acerca do tráfico internacional de pessoas, desvinculando o
delito da prostituição a fim de seguir a idéia apresentada conceitualmente no Protocolo de Palermo, isto é, a utilização de diversos meios fraudulentos para deslocar uma pessoa para fins de exploração sexual de seu trabalho em diversos setores da economia. Além disso, por ser um crime que acaba por violar o princípio prescrito na Constituição Federal Brasileira da dignidade da pessoa humana, deveria ter sua pena sensivelmente acrescida.
É interessante, ainda, que se firmem acordou com outros Estados, quer de ordem multilateral ou bilateral, Estados esses que recebem emigrantes brasileiros ou mesmo os que enviem emigrantes para o Brasil, assim como aqueles que se ligam ao país em decorrência de casos de tráfico de seres humanos, para que se possa garantir tratamento digno aos cidadãos de todas as partes do planeta, seja na integração, recepção ou até em casos de deportação, tudo devendo ser praticado com observância e respeito aos tratados relacionados com os direitos do ser humano. Ademais, o Brasil deve praticar o fomento de pesquisas sobre tal problemática, não só em seu território, como também no exterior, para que se possa conhecer, progressivamente, a face desses problemas e pensar em medidas que equacionem e combatam tal prática delituosa.
Em relação ao estado do Ceará, o governo cearense deve ter comprometimento com políticas públicas que promovam melhoria na educação, nas melhores condições de vida e de trabalho da sua população e que possibilite a inserção igualitária de gênero no mercado de trabalho. Ainda, o governo do Ceará tem o dever de apoiar e colaborar com as instituições de ordem governamental e não governamental que progridam intelectualmente com projetos e atividades destinados à prevenção, repressão e punição em caos de tráfico de pessoas e que, conseqüentemente, possibilitem condições de atendimento adequadas às vítimas.
É desalentador constatar que milhões de pessoas são vítimas do tráfico todos os anos e que esse número não tem diminuído. Mais desesperador ainda é saber que as mulheres são as maiores prejudicadas e que muitos países, incluindo o Brasil, não iniciaram, de forma empreendedora, a luta contra a prática do tráfico de seres humanos.
Ademais, o problema da discriminação em relação ao gênero é algo sério e que precisa ser discutido. Sabe-se bem que as relações entre os gêneros se articulam com as de classe, etnia e raça. Mas não há como fechar os olhos para a situação de vulnerabilidade em que se encontram as mulheres frente à classe masculina. Quando notícias estampadas em jornais
informam que quase quatro mil mulheres foram mortas de forma intencional e violenta na América Central, desde o ano de 2002, pelo simples fato de serem mulheres, nota-se que o feminismo não é um movimento improfícuo ou descabido de mulheres que querem mais direitos. Pelo contrário, vê-se que o feminismo é um elemento constitutivo de um projeto de ordem global em prol da transformação da sociedade que se compromete a criar condições de igualdade para todas e todos. Deve-se, portanto, ter em vista um compromisso ético-político comum, no sentido de haver a plausível possibilidade de igualdade de gêneros, reafirmando os reais conceitos de cidadania e fraternidade.