G. KOMİSYONA SUNULAN ÖNERGELER
3.3. DESTEKLEME POLİTİKALARI
Ao ser aprovada, em 2002, na seleção do Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte – UERN, solicitei do município de Morada Nova licença para estudos e reivindiquei da coordenadora do Centro Regional de Desenvolvimento da Educação (CREDE) 10 lotação no laboratório de biologia do Centro Vocacional Tecnológico (CVT) para atender os educandos da rede estadual de ensino de Aracati-CE. Esta reivindicação deve-se ao fato de Aracati ser uma das cidades do Ceará mais próximas da UERN; e eu havia ministrado curso de capacitação na referida cidade para os
professores de Biologia da rede estadual com foco na utilização do laboratório. A solicitação foi prontamente atendida e passei a ser lotada na EEFM Beni Carvalho, porém com atuação no CVT.
O diretor da época, ao conhecer-me pessoalmente, dificultou minha lotação. Desta forma, comuniquei o fato à coordenadora do CREDE 10, e esta designou um funcionário para efetivar minha lotação na escola em questão.
Conhecia poucas pessoas em Aracati. Minha aparência física seria meu cartão postal, e isso me renderia muitas dificuldades. Os alunos, inicialmente, quando me viam, achavam que as aulas não seriam levadas a sério, afinal eu era uma travesti e a percepção que estes tinham era a pior possível. Ao entrar no laboratório ou em sala, estava sempre cercada por olhares e gestos que, mesmo subjetivamente, falavam por si, e eu me sentia agredida. No entanto, supunha que aquela situação mudaria, pois já conhecia e sabia o que fazer. Apresentei-me contando minha história de vida e, ao final, conquistei o grupo.
A forma clara e aberta de expor minha orientação sexual, logo no primeiro dia de aula, funcionava como dispositivo de poder; em vez de fingir que eu era cega em relação aos olhares escrutinadores que me feriam e violavam minha sexualidade, em vez de aceitar os gestos de negação, e até mesmo as expressões de rejeição, as violências simbólicas que eram dirigidas a minha pessoa, optei por revelar com palavras o que esteticamente já estava exposto. Eles ficaram pasmos e sem reação, não imaginavam que um(a) professor(a) pudesse revelar a todos o que para eles já estava claro.
Negar minha sexualidade ou fingir que não era inferiorizada e hostilizada por alguns alunos só iria reforçar o que eles imaginavam. Para tanto, preferi apresentar a mim e a minha sexualidade, a fim de sanar quaisquer dúvidas acerca de possíveis sentimentos de vergonha ou de inferioridade da minha parte por eu ser travesti. Este é um estágio muito profundo de intimidade entre professor(a) e aluno(a), sendo possível alcançá-lo somente com a convivência, que descortina os mitos criados sobre os professores GLBTT, que, assim como eles, são pessoas, seres humanos, com a ressalva de serem obrigados a contrariar o poder hegemônico e as normas sociais. Os laços de amizade ficaram solidificados a ponto de muitos confessarem intimidades e pedirem conselhos. Comecei, inclusive, a me aproximar de suas famílias, que antes de me conhecerem pessoalmente já sabiam de quem se tratava, pelos relatos dos(as) filhos(as). A maioria desses familiares contava que tinha curiosidade de conhecer esta professora que seus(as) filhos(as) relatavam como diferente, mas principalmente por querer conhecer uma travesti de perto. Nossa socialização fluía, pois estes já vinham preparados pelos(as) filhos(as) sobre meu desempenho na escola. A aproximação
dos pais comigo servia para averiguar se o que seus(as) filhos(as) haviam confidenciado era verídico.
O diretor, percebendo que eu ganhava, cada vez mais, o respeito de todos que faziam parte da escola, inclusive da família dos(as) alunos(as), sentiu-se incomodado, e fui chamada para uma conversa com o gestor, que disse claramente: ―Olha, isso tudo é passageiro. Eu também, quando cheguei aqui em Aracati, todos faziam o mesmo comigo e hoje não sou mais novidade.‖ Contrariando o pensamento do diretor, a cada dia eu ganhava mais admiração.
Fui convidada para palestrar sobre questões de saúde, como DST/HIV/AIDS, na rede de TV do município, a TV Sinal, principalmente no período de carnaval. O diretor da escola citada dificultava ainda mais minha vida a cada ano, fazendo a lotação dos temporários e, com isso, complementando até a carga horária de quem não era da área de Biologia, para dessa forma diminuir a lotação ou não me lotar. Como não era concursada do estado, ficava à mercê da vontade do diretor, o que me deixava numa situação humilhante. Ele fazia uso de seu poder de diretor para minimizar minha atuação na escola.
Lançado o edital do concurso para professor do estado com quatro vagas em Biologia para o município de Aracati, me inscrevi, mas o diretor e muitos colegas de trabalho desejavam que eu não passasse, e esta seria a forma de descartar-me. O resultado do concurso foi a aprovação de somente uma candidata, eu, a única aprovada na área de Biologia. Ingenuidade pensar que os problemas teriam acabado. O diretor recusava-se a fazer minha lotação, então procurei outra escola do estado para ser lotada, no mesmo município, e a resposta da diretora foi: ―Não temos vagas.‖ Mas como não teria vaga se existia uma carência para lotar quatro professores e só eu fui aprovada?
Neste caso, foi necessário recorrer mais uma vez à coordenadora da CREDE 10, que procedeu à lotação na EEFM Beni Carvalho, onde eu realizaria meu estágio probatório, com duração de três anos. Neste período, desenvolvi o Projeto Intimamente Mulher (PIM), que surgiu de um sonho que tive com minha mãe, que faleceu vítima de câncer no colo uterino. O projeto se estabeleceu numa parceria entre a Secretaria de Saúde Municipal e a escola, no atendimento exclusivo das alunas para o exame ginecológico.
O trabalho ganhou visibilidade, na escola e fora dela, a ponto de inserir mães, funcionárias, professoras e esposas/namoradas de alunos. No dia da avaliação do projeto, com a presença de alunos(as), pais/mães, conselho escolar, gestores e representantes da Secretaria de Saúde Municipal, ouvi vários depoimentos de agradecimento, pois graças ao projeto homens e mulheres ali presentes tiveram acesso aos tratamentos de câncer e DST. Uma
adolescente se pronunciou emocionada e me agradeceu em público, pois segundo ela foi devido à minha insistência para que fizesse o exame que possibilitou a descoberta de sua DST, que poderia vir a desenvolver câncer no colo do útero.
Inscrevi o PIM para o II Prêmio Ciências do Ensino Médio e fomos vencedores. O Governo Federal pagou todas as despesas para que eu fosse até Brasília receber R$ 20.000,00 do Ministério da Educação. A referida quantia era para ser gasta com a escola e, para minha surpresa, o Conselho Escolar resolveu investir na construção de um laboratório de ciências. No dia da inauguração, fui convidada para desatar o laço da faixa da placa de inauguração, e ao puxá-lo vi a seguinte escritura: ―Laboratório de Ciências Maria Nogueira Gomes‖, nome da minha mãe. Isso foi o suficiente para a emoção tomar conta do ambiente.
A imprensa local anunciou o evento para a comunidade aracatiense, e passei a ser convidada para entrevistas por ser a primeira vez que uma escola de Aracati recebia um prêmio nacional. Por um lado foi muito positivo, pois isso vinha a afirmar àqueles que não confiavam no meu trabalho que eu tinha capacidade, o que contribuiu para desconstruir a imagem deturpada que muitos ainda tinham de mim. Por outro lado, despertou ainda mais a competição dos colegas de trabalho, que se incomodavam com meu crescimento profissional, pois com o feito estavam sem fundamentação para perpetuar a imagem ―perversa‖ que propagavam de mim, visando minha exclusão da escola.
Tudo parecia sob controle, levando-me a crer ser esse o momento ideal para transformar radicalmente meu corpo com a cirurgia de implante de próteses de silicone nos seios. Paralelamente aos últimos acontecimentos, uma nova coordenadora do CREDE 10 entrou em exercício, articulada com a coordenadora administrativa financeira da escola; ambas, inconformadas por eu ter feito a referida cirurgia, resolveram utilizar-se deste acontecimento para me denunciar na ouvidoria da SEDUC, alegando que eu havia exposto os seios aos alunos em sala de aula. A intenção era a reprovação no estágio probatório. Da mesma forma que a premiação dava poder para outras possibilidades (implante das próteses, por exemplo), eu tinha de ter consciência de que deveria tomar muito cuidado, ao que passei a usar uma longa bata, cobrindo completamente os seios, pois qualquer erro de minha parte poderia me fazer perder tudo o que eu havia conquistado, inclusive o emprego.
Na presença da ouvidoria da SEDUC, provei com fotos que lecionava com os seios totalmente cobertos pela bata e apresentei um abaixo-assinado dos alunos e professores esclarecendo que a denúncia não era verdadeira e aquilo se tratava de uma ação discriminatória. Esclarecidos os fatos, concluí o estágio probatório e fui efetivada, o que me permitiu ter mais poder para livrar-me da bata. Passei, assim, a ter mais liberdade na escola e
comecei a ser efetivamente mulher nas vestimentas, nos acessórios, na maquiagem, sem estar o tempo todo na vigilância do meu corpo.
Esse foi um processo lento, as relações de poder foram o centro do processo. Eu precisei saber, com precisão, onde exatamente me encontrava e o momento certo para abrir a trilha. Essa atitude exigiu bastante cuidado, pois eu ainda poderia me deparar com muitas surpresas, muitos obstáculos. Cada novo passo deveria ser muito bem analisado. Os imprevistos surgiram, inclusive negativos, e os recuos foram necessários, mas para buscar o momento e a hora certa para prosseguir.
Inscrevi-me no concurso público para professora efetiva da UERN e apenas duas pessoas foram aprovadas na primeira etapa (dissertação): um rapaz e eu. No entanto, uma das integrantes da banca na segunda etapa (aula) me atribuiu nota mínima, o que me desclassificou do processo. Como cursava Mestrado na UERN, busquei saber mais sobre a desclassificação. Quando a professora soube que eu estava investigando o caso, procurou-me e tentou se justificar, alegando que a desclassificação não se deu pelo fato de ela ser evangélica, mas apenas não era meu momento, e desculpou-se. Tentei recorrer junto ao reitor, ao que alegou que uma das cláusulas do edital constava que o resultado era inquestionável. Na época, por falta de orientação, não levei o caso adiante e fiquei prejudicada.
Com este acontecimento, pensei que nunca teria serenidade, pois sempre estaria sob vigilância e controle; quase incorporei a ideia de que a profissão de educadora não poderia ser exercida por travestis. Cansada de tanta resistências e assujeitamentos para me manter na sociedade, pensei em aceitar o convite de Bianca, uma amiga de infância, para me prostituir na Itália, pois ganharia mais dinheiro e não precisaria controlar meu processo de feminilização.