G. KOMİSYONA SUNULAN ÖNERGELER
4.2. SÜRDÜRÜLEBİLİR HAMMADDE TEDARİK ZİNCİRİ
No tópico anterior, apresento como minhas interlocutoras se percebem enquanto travestis no contexto social em que vivem, promovendo um cruzamento com alguns discursos das travestis pesquisadas por Benedett (2005), Silva (2007) e Kulick (2008). Neste tópico, me detenho na apresentação de como alunos(as), professores(as) e gestores(as) as interpretam. Este campo se estabelece em meio a conflitos de culturas e interesses. De um lado, temos os três citados segmentos35, que em sua maioria estão adequados à cultura heteronormativa legitimada pelo determinismo biológico; por outro, as travestis que são queers, rompendo com o binarismo entre os sexos ao se apoiarem no gênero que representa. Os primeiros estão
34 Uso o termo corporalmente para representar corpo, mente e relações do corpo com o meio. ―[...] não é o corpo,
ou só ele, que muda. Opera-se uma alteração em todos os planos: interno/psíquico/moral, quanto externo/corporal/físico.‖ (PELÚCIO, 2009, p.232).
35 Segmentos das Escolas ―A‖, ―B‖ e ―C‖ que participaram dos questionários: alunos(as), professores(as) e
reproduzindo o pensamento hegemônico, os discursos que regulam a sexualidade, que dizem como proceder na vida social; já as segundas tentam subverter esta ordem para garantir sua própria existência. Sendo a escola este campo de conflito, temos de ouvir todos que fazem parte deste contexto.
Primeiramente devemos ouvir as motivações e as ideologias daqueles que praticam o costume, crença ou ação. É assim fazendo que podemos entender o sistema ideológico em estudo percebendo sua tessitura interna, descobrindo seus pontos contraditórios e como tais conflitos são vivenciados, justificados e percebidos pelos seus membros. [...] Antes de termos aferido o evento pelo nosso sistema de classificação é preciso saber como a sociedade em estudo o faz. (DA MATTA, 1987, p.163-164).
Com base no que expõe o autor, entendo que o primeiro conflito a ser analisado neste trabalho é como as travestis se percebem (tópico anterior) e como elas são percebidas, partindo de como são identificadas por alunos(as), professores(as) e gestores(as). O significado que cada um destes atribui à palavra travesti revela muito de como pensam e se socializam com elas dentro e fora da escola.
A tendência, principalmente na escola, quando precisamos muito descobrir o significado de uma palavra, é procurar por um dicionário da língua portuguesa, abrir e fechar as suas páginas e analisar uma ou várias sequências de palavras, de acordo com a ordem alfabética, em busca dos possíveis significados. Lapidamos, ou dilapidamos, a linguagem para poder utilizá-la, de forma culta ou coloquial, nas produções escritas ou nas comunicações verbais. Louro (1997, p. 65-67) diz:
Dentre os múltiplos espaços e as muitas instâncias onde se pode observar a instituição das distinções e das desigualdades, a linguagem é, seguramente, o campo mais eficaz e persistente – tanto porque ela atravessa e constitui a maioria de nossas práticas, como porque ela nos parece, quase sempre, muito ‗natural‘. Seguindo regras definidas por gramáticas e dicionários, sem questionar o uso que fazemos de expressões consagradas, supomos que ela é, apenas, um eficiente veículo de comunicação. No entanto, a linguagem não apenas expressa relações, poderes, lugares, ela os institui; ela não apenas veicula, mas produz e pretende fixar diferenças. [...] a linguagem institui e demarca os lugares dos gêneros não apenas pelo ocultamento do feminino, e sim, também, pelas diferenciadas adjetivações que são atribuídas aos sujeitos, pelo uso (ou não) do diminutivo, pela escolha dos verbos, pelas associações e pelas analogias feitas entre determinadas qualidades, atributos ou comportamentos e os gêneros (do mesmo modo como utiliza esses mecanismos em relação às raças, etnias, classes, sexualidades etc.).
O dicionário, portanto, funciona como mecanismo normatizador enquanto um aluno ou um professor lê desprevenidamente suas páginas; pode-se acreditar que o glossário é
um retrato do real, os autores nomeiam os significados definindo a linguagem usual. Porém, como sabemos, as palavras e os significados foram escolhidos e passaram por um processo de transformação, foram embelezados ou destituídos de sua beleza, foram montados e remontados, foram classificados ou desclassificados, estão em ordem alfabética ou não estão em ordem alguma.
Isso não significa que as palavras que estão ausentes, sem significado e sem significância, não existam. Pelo contrário, elas existem, os ―caçadores de palavras‖ é que não conseguem capturar esse oceano de representações; o máximo que conseguem é navegar por ele, mapear algumas ilhas, desenvolver algumas técnicas de navegação e construir o seu glossário. Podem chegar às profundezas, ou mesmo buscar os significados em profundidade, mas não podem fotografar tudo, não conseguem capturar tudo porque o dicionário é apenas um submarino, e a linguagem é um mar de possibilidades.
Quando usamos o dicionário como ferramenta de busca, à qual eventualmente recorremos, esperamos encontrar uma verdade e, de preferência, uma verdade absoluta. Sabemos que esta não existe, mas procuramos por ela. Nós sabemos que cada letra, cada palavra, cada significado, cada elo que os autores usam para relacionar um significado com outro é uma construção humana. Mas continuamos, na maioria das vezes, procurando o significado correto, como o aluno ou o professor que não percebe que por trás de cada palavra existe uma intenção e uma tensão inconscientes, que é resultado da vida em sociedade.
Na biblioteca da Escola ―B‖, busquei o termo travesti nos livros, incluindo os didáticos, mas encontrei referência apenas no Dicionário de Língua Portuguesa Aurélio (1999), apresentando: ―S.m. Gal. Disfarce no trajar. S. 2g. 2. Indivíduo que, geralmente em espetáculos teatrais, se traja com roupas do sexo oposto.‖ Nessa perspectiva, a travesti refere- se limitadamente ao traje com o qual as pessoas vestem ―com roupas do sexo oposto‖, ―tra- vestir-se‖.
Obviamente, os dicionários têm o papel de disponibilizar os significados das palavras de forma sucinta, sendo que seus autores não têm como apresentar a complexidade do ser travesti em poucas linhas, mas o simples fato de existir uma seleção de palavras, que é inevitável, nos faz refletir sobre o que induz à inclusão de uma visão em detrimento de outras. Entendo que a funcionalidade do dicionário é disponibilizar uma visão limitada e objetiva, fazendo isso muito bem, exceto quando apresentam as identidades humanas, limitando-as a uma característica fixa em detrimento do conjunto de características não apenas físicas, mas psicológicas, a exemplo das ―travestilidades‖. Os significados para os termos identitários presentes no dicionário são insuficientes para sua real complexidade, fazendo-se necessário
recorrer a trabalhos de pesquisadores no assunto. Como esta pesquisa ocorre nas salas de aula do Ensino Médio e para este público de alunos(as), professores(as) e gestores(as), em sua maioria, o dicionário expressa o real significado das palavras, principalmente quando elas estão cercadas de tabus.
Durante a aplicação dos questionários nas Escolas ―A‖, ―B‖ e ―C‖ com alunos(as), professores(as) e gestores(as), alguns solicitaram para ver o significado de travesti no dicionário e, quando visualizavam os livros que eu conduzia, ficavam perplexos por existir livros abordando especificamente esta temática. É neste contexto que o dicionário além de ser muito útil pode, na sua rotineira funcionalidade, estar sendo utilizado na escola de forma equivocada; por exemplo, quando professores leigos no assunto compreendem e disseminam que o dicionário é uma ―verdade‖ para o significado das identidades. Outro elemento recorrente é que os dicionários em versões antigas ou atualizadas estão em todas as escolas, ao contrário de enciclopédias e livros especializados. Mesmo que estes existissem na escola, dificilmente seriam utilizados por alunos(as), professores(as) e gestores(as) devido à sobrecarga de conteúdo, que não permite aprofundamento, principalmente se o tema não está previsto no currículo e no livro didático, como observei nas escolas em estudo.
Outra forma de pesquisar os significados das palavras na escola é recorrendo à utilização dos computadores com internet no Laboratório Educacional de Informática (LEI)36, um espaço disponível nas três escolas da pesquisa. O procedimento é simples: coloca-se a palavra desejada em um site de busca e logo é obtida a resposta desejada. É rápido e gratuito – isto quando os computadores e a internet da escola estão funcionando. Entretanto, administrando sites e programas de computador, existem humanos (autores) cobertos de intencionalidade que reproduzem conscientemente o que consideram ―verdade‖ sobre as pessoas e as coisas, assim como no dicionário. Para visualizar esse processo de busca dos significados das palavras na internet, fui ao LEI da Escola ―C‖ e digitei a palavra ―travesti‖ em um site de busca; uma relação de sites surgiu. Acessei aquele que considerei mais interessante por estar relacionado ao movimento social (GLS) e à educação sexual (edusex): o GLS Site, disponível em <www.glssite.net/edusex/edusex/glossario.htm>. O significado
36 Neste espaço, existe um professor específico para coordenar as atividades orientando os(as) alunos(as) no
manuseio da máquina e das ferramentas disponibilizadas. Este educador tem também a função de manter a ordem e a disciplina, inclusive no que está sendo acessado pelos(as) educandos(as). Os sites e o que deve ser pesquisado pelos(as) alunos(as) é algo que o professor da sala e o professor coordenador do LEI estabeleceram em seus planejamentos antes da chegada dos alunos ao local. Mas os(as) alunos(as) acabam em algum momento subvertendo a ordem, acessando sites não recomendados pela escola, com conteúdos alheios ao planejamento e ao currículo escolar. Durante minha permanência nos LEIs das escolas estudadas, inúmeras vezes ouvi professor(as) destes espaços reclamando dos(as) alunos(as) por acessarem sites ―proibidos‖, sendo a maioria relacionada a sexo e sexualidade.
apresentado da palavra travesti foi: ―Pessoa (homem ou mulher) que sente-se (sic) bem em se vestir com roupas do sexo oposto. Em alguns casos, os homens fazem implantes de silicone e/ou tomam hormônios e, as mulheres podem tomar hormônios. Nem todo travesti é homossexual‖ (Acesso em 8 dez. 2009, às 17h).
Essa outra forma de apresentação, como podemos perceber, difere um pouco da encontrada no citado dicionário, mas continua, de modo geral, com uma ideia parecida, pois identifica a travesti como um homem, negando seu assumido gênero feminino. Criaram definições que podem, ou não, ser usadas para identificar uma parte das travestis, mas que não dão conta da complexidade e da diversidade das identidades que são fluidas, que são líquidas, podendo mudar de estado, passando a sólidas ou gasosas, podem ainda se condensar e passar por um estado de fusão. O importante aqui não é definir um modelo às travestis, mas sim perceber o trânsito e as trajetórias que podem ser maiores e mais abrangentes do que as apresentadas. Definições desta natureza são disseminadas e induzem alunos(as), professores(as), gestores(as) e até as próprias travestis a incorporar tais descrições como determinantes para a materialização do ser travesti na sociedade. Não é por acaso que, ao responderem à questão aberta: ―Para você, o que é travesti?‖, presente no questionário aplicado a alunos(as), professores(as) e gestores(as) das Escolas ―A‖, ―B‖ e ―C‖, consegui dividir tais respostas em cinco categorias que relacionam a travesti diretamente a: 1. Veste; 2. Transexual; 3. Normal/igual; 4. Homossexual; 5. Prostituta; 6. Outros; conforme Gráfico I:
Gráfico 1- Definições de Travesti Apresentada no Geral Fonte: Pesquisa in loco.
Fazendo uma espécie de ―balanço geral‖, podemos afirmar que a maioria dos(as) alunos das Escolas ―A‖ (66,66%), ―B‖ (28,2%) e ―C‖(25%), dos(as) professores(as) das Escolas ―A‖ (42,82%) ―B‖ (70%) e ―C‖ (66,66%) e dos(as) gestores(as) das Escolas ―B‖ (66,66%) e ―C‖(66,66%) das três escolas, com exceção dos(as) gestores(as) da Escola ―A‖ (0%), apresentaram uma definição para travesti alinhada àquela presente no dicionário Aurélio e/ou nas pesquisas da internet. No momento da aplicação do questionário, não houve consulta a material algum, equipamento ou pessoa; os participantes revelaram o que pensavam, mas é possível que tenham tido acesso a estas ferramentas direta ou indiretamente, antes da pesquisa, passando a reproduzir tal conceito. Mas qual o significado dessa indicação? Que reflexões podemos fazer com base nessa escolha? Para os(as) participantes, ou para a maioria dos(as) participantes, o que determina a identidade travesti são as vestes, que no entanto estariam em desacordo com o sexo biológico. Essa definição foi descrita de forma semelhante nas três escolas, onde podemos ver as seguintes variações à palavra travesti:
É o homem que se veste como mulher” (alunos de Russas, Tabuleiro do
Norte e Fortaleza). “É uma pessoa que, nascendo de um determinado sexo (masculino ou feminino), opta se vestir e agir como do sexo oposto e sente atração por pessoas do mesmo sexo” (aluna de Fortaleza). “É uma pessoa que, apesar de ser biologicamente de um determinado sexo, tem tendências contrárias e se realiza com essas tendências, se veste de modo oposto ao seu sexo” (gestora de Russas). “É um homem que se transforma em mulher em momentos desejáveis como: festa, comemorações, baladas, apresentações, etc.” (gestora de Russas). “Um homossexual que se veste de acordo com a
sua opção sexual. Biologicamente homem – se veste de mulher;
Norte). “É uma pessoa que tem um sexo, mas se veste com roupas de outro sexo e as suas ações são do sexo contrário” (professor de Tabuleiro do
Norte). “É uma pessoa que se veste como o sexo oposto ao seu” (professor
de Russas e gestor de Tabuleiro do Norte). (Informações dos questionários).
Como podemos perceber, a identificação da travesti parte inicialmente de alguns referenciais de gênero utilizados para representar as mulheres. O olhar da maioria dos(as) alunos(as), dos(as) professores(as) e dos(as) gestores(as) se direciona para a vestimenta, não apenas para a roupa em si, mas para os ―adereços‖ que a sociedade convencionou chamar de femininos. Ao mesmo tempo em que a travesti é vista, ou melhor, sentida, pela sua geografia corporal, pela sua cartografia da feminilidade, pela sua engenharia estética e pela sua autocriação poética, é identificada também pela negação de toda essa obra de arte.
A identificação acontece através dos olhos, que vê a cenografia do corpo, mas acontece também através do olfato, que sente o cheiro da maquiagem, dos perfumes, dos hormônios. A identificação acontece através do tato, do contato, da convivência, dos conflitos, da resolução dos conflitos, da necessidade humana de classificar e dividir as pessoas em categorias abstratas, que aparentemente são concretas e objetivas. A identificação que citamos faz parte de uma construção social que se baseia em uma ideia específica de mulher que só surgiu na segunda metade do século XX e no início do século XXI. A feminilidade é historicamente localizada e não podemos acreditar em uma essência feminina ou em uma natureza a-histórica.
As ―travestilidades‖ não se baseiam na mulher, dita de forma simples e no singular; elas se baseiam nas mulheres, em toda a sua complexidade e pluralidade corporal e sociocultural. É por isso que elas são históricas. A vestimenta e as representações da veste são construídas em tempos e espaços específicos, em épocas e lugares distintos, e podem, dependendo de quando e de onde ela é feita, ganhar uma diversidade de formas e de cores. Porém, essa diversidade poética, essa multiplicidade estética, essa heterogeneidade afetiva e erótica não podem ser relacionadas apenas com a definição de que a maioria dos(as) alunos(as), professores(as) e gestores(as) escolheu. Por mais que haja essa identificação com o traje e com o trajeto feminino, com a trajetória das mulheres, a tendência é buscar uma origem, é perguntar pelo masculino, é violar o corpo e retirar a roupa, no sentido metafórico e, às vezes, no sentido literal, é procurar o macho que se encontra no falo, que se encontra no pênis, que se encontra na ereção e que, segundo nossa cultura, é o símbolo da masculinidade e a essência do ser (biológico).
Essa identificação, que se baseia ao mesmo tempo na ideia de ser e de não ser, na afirmação e na negação, faz questão de se aproximar das representações feministas para criar uma definição de travesti, no sentido de traje e de trajetória, afirmando assim sua outra parte feminina, que é social e culturalmente construída. Contudo, essa mesma representação pode ser violentamente negada por causa do machismo e do mito da masculinidade, que dão aos homens uma forma de poder, o poder sobre as mulheres, o poder superior, sendo as mulheres inferiores, o poder de impedir que as mulheres assumam os lugares que convencionamos chamar de masculinos, o poder de impedir que os homens assumam os lugares que convencionamos chamar de femininos. Um poder que se diz original, que se considera sagrado (discurso religioso), que se afirma através da história e da ciência, que tem origem biológica, que se define através das interpretações da Bíblia, através de heróis que são masculinos, através de uma ―penistocracia‖ que se afirma através do falo e da fala, do corpo e da linguagem.
Quando os(as) participantes da pesquisa – alunos(as), professores(as) e gestores(as) – afirmam que a identidade travesti se revela através das vestes e que estas estão em desacordo com o sexo biológico, estão reproduzindo um discurso milenar que se baseia na dualidade entre macho e fêmea, entre homem e mulher, entre Adão e Eva, entre José e Maria. Para as sociedades ocidentais, que são em sua grande maioria judaico-cristãs, não existe outra forma de organização social. A vida está estruturada com base em dois pilares: masculino e feminino.
Esses dois princípios não podem ocupar o mesmo corpo, são construídos em corpos distintos e adestrados para atender a um rótulo social que começa com a exposição simbólica do órgão genital (slogan mais importante) e termina com uma prescrição detalhada que se encontra na própria embalagem corporal; são as representações que construímos em torno do corpo. Existe uma espécie de ―código de defesa dos consumidores de costumes tradicionais‖ que define, direta ou indiretamente, o que deve ter e o que não pode ter dentro do invólucro, o que deve ser e o que não deve ser aceito pela sociedade. Para Louro (1997, p.76-77):
Se pretendemos ultrapassar as questões e as caracterizações dicotomizadas, precisamos reconhecer que muitas das observações – do senso comum ou provenientes de estudos e pesquisas – se baseiam em concepções ou em teorias que supõem dois universos opostos: o masculino e o feminino. Também aqui é evidente que a matriz que rege essa dicotomia é, sob o ponto de vista da sexualidade, restritamente heterossexual. Como uma conseqüência, todos os sujeitos e comportamentos que não se "enquadrem"
dentro dessa lógica ou não são percebidos ou são tratados como problemas e desvios.
Essas embalagens e esses códigos foram construídos social e historicamente; existem outras expressões culturais e outras embalagens corporais que não seguem a fórmula ocidental; existem pessoas, no próprio Ocidente, que não se enquadram, em sua totalidade, na prescrição que, supostamente, é a norma mais original (heterossexual). Quando as travestis entram em cena, nos fazem perceber que parte do masculino e do feminino que existe nos homens e nas mulheres não é natural, que as relações de gênero remetem às normas estabelecidas, ―aos valores, aos símbolos, às representações‖ (Vale, 2005) e passam a ser ―percebidas como problemas e desviantes‖.
A segunda definição de maior incidência, com 15,78% dos participantes, foi a que identifica a travesti como transexual37: ―é uma pessoa que nasce com um sexo e quer ter o outro. Como um menino que nasce menino e quer ser menina ou ao contrário‖. A maioria dos gestores da Escola ―A‖ (66,66%) interpreta o ser travesti desta forma, assim como foi a segunda indicação dos (as) aluno (as) das Escolas ―A‖ (10,25%) e ―B‖ (23,07%), professores(as) das Escolas ―B‖ (20%) e C (16,66%), além da terceira mais informada por professores da Escola ―A‖ (14,28%). Nenhum gestor das Escolas ―B‖ e ―C‖ informou esta característica.
Nesta definição, ao contrário da descrição anterior, não é a veste o elemento demarcador da travesti, mas o desejo de mudar o sexo, retirando o pênis e construindo uma vagina por meios cirúrgicos. Os trabalhos de Benetti (2005, p. 18) e Kulick (2008, p. 22) apresentam esta definição como uma característica das transexuais e representam a principal diferença entre estas e as travestis.
A terceira característica mais reincidente (14,03%) entre os participantes define a travesti como ―Uma pessoa normal como qualquer outra pessoa da sociedade‖. Sendo a terceira definição mais apresentada pelos alunos das Escolas ―A‖ (20,51%) e ―B‖ (16,66%), além dos professores da Escola ―A‖ (14,28%), sendo a quarta mais apresentada entre os alunos da Escola ―A‖ (5,12%). Nenhum dos professores das Escolas ―B‖ e ―C‖ e gestores das três escolas descreveram as travestis desta forma. Nesta caracterização da travesti, ela é percebida como igual às demais pessoas, sendo consideradas ―normais‖, sem distinção, sem
37 Mesmo compreendendo que transexualidade não tem nada a ver com sexualidade (BENTO, 2006),
empiricamente á compreensão dos participantes da pesquisa é oposta. Neste caso as identidades são importantes politicamente para conquista de direitos e por este motivo considero as singularidades das travestis em relação às transexuais, pois apesar das semelhanças apresentam diferenças que refletem em suas sociabilidades e expressões culturais.
singularidade. Esta definição induz que seus autores não têm preconceitos com as travestis e/ou por não saberem diferenciar e/ou por terem medo de externar preconceito, preferindo torná-las iguais a todos.
A quarta forma mais apresentada para referenciar o termo travesti entre os participantes (5,26%) foi: ―Uma pessoa que gosta do mesmo sexo‖. Sendo a terceira mais indicada pelos alunos da Escola ―C‖ (16,66%), a quarta entre os alunos da Escola ―B‖ (12,82%) e a quinta para os da Escola ―A‖ (2,53%). Nenhum professor e gestor das três escolas apresentaram esta descrição. Esta definição apresenta como ideia central a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo, porém, para Trevisan (2007, p.33), esta descrição refere-