G. KOMİSYONA SUNULAN ÖNERGELER
4.1. MEVCUT DURUM
4.1.2. Türkiye’de Mevcut Durum
Quando conheci Bianca, ela morava vizinha ao mercado do peixe de Morada Nova, local onde minha mãe vendia refeições. Ela pertencia a uma das famílias mais tradicionais da cidade, cujo avô foi ex-governador do estado do Ceará. Na época, ela atendia pelo nome masculino e era meu melhor amigo, pois nos identificávamos no jeito de ser feminino. Mesmo sendo de uma família de muitos recursos, éramos na infância e na adolescência, não na mesma intensidade, discriminados pelos garotos, que se recusavam a brincar conosco. Não revelávamos nossos desejos ocultos por homens um para o outro, mas sabíamos que era isso que nos mantinha unidos nas brincadeiras diárias.
Ele estudava em uma escola particular considerada a melhor da cidade, se destacava pela inteligência e tinha o acompanhamento de sua mãe, diretora em uma escola pública estadual, além de professores particulares. Muito tempo depois, encontrei este amigo, que na verdade não era mais amigo, e sim amiga.
Éramos duas travestis com históricos completamente diferentes, uma de família rica e a outra de família pobre; uma que estudou em escola particular e a outra de escola pública; uma garota de programa e a outra professora; uma superproduzida e a outra simples; uma com muito dinheiro e a outra só se mantinha com um salário mínimo; uma com Ensino Médio incompleto e a outra mestre; uma ícone de beleza física e a outra no estudo.
Passamos a ser espelhos para as futuras travestis do município de Morada Nova e de outras cidades. Algumas sonhavam em ser como eu, estudar e ter um trabalho legitimamente reconhecido, mas a maioria sonhava em ser como Bianca, em se transformar em garota de programa e morar no exterior para conseguir com maior brevidade seus sonhos de consumo como carro, casa, joias, vestidos, plásticas, etc. Assim, influenciamos direta ou indiretamente as jovens travestis com nossas trajetórias de vidas.
Em 2007, o governador eleito promoveu o governo itinerante em Aracati, e neste momento fui convidada pela nova coordenadora interina da 10ª CREDE para apresentar à secretária de educação do estado e sua equipe o projeto PIM. A atual coordenadora, ao contrário de sua antecessora, passou a explorar meus conhecimentos e me senti valorizada e respeitada, porém ela não ficaria no cargo por muito tempo. Com o reconhecimento, voltei a me dedicar totalmente à minha profissão de educadora e percebi que poderia contribuir se continuasse na educação para orientar a comunidade escolar a conviver, na prática, com as diferenças, oportunizando a outras travestis outro modelo a ser seguido.
Com a posse do novo coordenador da 10ª CREDE, este resolveu compor sua equipe por processo de seleção e fui aprovada, passando a ocupar a função de assessora técnica da 10ª CREDE, no município de Russas. A 10ª CREDE é uma extensão da SEDUC. Passei, então, a coordenar 26 escolas estaduais distribuídas em 13 municípios (Russas, Quixeré, Limoeiro do Norte, Morada Nova, Tabuleiro do Norte, Alto Santo, Aracati, Icapuí, Fortim, Itaiçaba, Palhano, Jaguaruana e São João do Jaguaribe).
A primeira ação do novo grupo gestor da 10ª CREDE foi ir às escolas para apresentar sua equipe. Minha presença como uma das gestoras causou certo incômodo, mas minha fala desconstruía os preconceitos por onde eu passava, e o espaço de poder que passava a ocupar também impunha isso. Escolas da 10ª CREDE que antes não compreendiam a diversidade cultural passaram a sentir a necessidade de compreendê-las e, consequentemente,
diminuir os preconceitos. Mesmo com tal cuidado, algumas ações de preconceito para comigo escaparam do controle dos gestores das escolas.
A exemplo da primeira vez que fui à escola de Tabuleiro do Norte para ser apresentada aos(às) alunos(as), fui recebida aos gritos em uma quadra esportiva repleta de alunos chamando-me de ―viado‖ sucessivamente, como palavra de ordem. Naquele momento, pensei em largar tudo, sair dali correndo em busca de proteção, mas procurei forças em meu interior e percebi que, se assim procedesse, perderia a oportunidade de transformar aquela realidade e aqueles jovens. Eu estava pronta para abrir caminho, mas ainda não sabia com o que poderia me deparar.
Diante de tamanha discriminação, falei aos presentes, e todos em silêncio passaram a ouvir minha história de vida e, ao final, pediam desculpas pela recepção agressiva. Atualmente, sou tratada com equidade por gestores e professores, mas sei que muitas vezes isso ocorre por causa do cargo, embora outros me admirem pela minha capacidade e pelos conhecimentos que possuo. Quanto aos alunos, depende muito de como o assunto é explorado na escola; em alguns lugares, sou apenas observada por olhares admiradores, mas em outros sou vista por alguns(as) alunos(as) como um ―monstro‖, o que me torna alvo de violência verbal e gestual. Esta oscilação entre ser desejada e odiada também foi percebida por Kulick (2008, p. 47):
Mas se alguns homens mostram-se publicamente atraídos por travestis, muitos outros lhes são francamente hostis. Elas precisam estar preparadas para enfrentar comentários desairosos (que partem tanto de homens quanto de mulheres) e tentativas de agressão física (por parte daqueles). Travestis se vêem obrigadas a reafirmar a cada instante seu direito de ocupar o espaço público. Elas sabem que, a qualquer momento, podem tornar-se alvo de agressão verbal e/ou violência física por parte daqueles que se sentem ofendidos pela simples presença de travestis nesse espaço.
Sempre apresentei os difíceis momentos para mostrar aos alunos a diversidade humana e o multiculturalismo atrelados à minha história de vida. Percebi que a escola não está trabalhando o assunto, às vezes porque os professores e/ou gestores não possuem conhecimentos sobre o assunto, noutras pela vergonha e ainda por medo da reação dos familiares dos alunos ou por, infelizmente, concordarem com a discriminação.
Vários projetos e ações para o exercício da diferença na escola têm sido realizados, inclusive o I Colóquio da Diversidade, promovido pela 10ª CREDE com todos os gestores das escolas estaduais. Não podemos ignorar os excluídos e os discriminados que
ocupam os cargos de gestão, os quais se superaram, pois estes podem se tornar grandes lideranças e no seu lugar de trabalho promover a metáfora e a prática do devir.24
Para permanecer e/ou conquistar novos espaços, com maior poder de intervenção, tenho de provar o tempo todo que sou capaz, e cada conquista passa a ser uma tática e um novo tipo de poder que posso usar para subverter a norma. Neste jogo, busquei conquistar uma vaga no Doutorado, na tentativa de encontrar mais conhecimentos que me auxiliassem a continuar trilhando novos caminhos, reinventando o percurso. Neste meio tempo, fui aprovada na seleção do Doutorado em Educação da UFC (Universidade Federal do Ceará), onde desenvolvo minha pesquisa.
No dia da apresentação do projeto de pesquisa para a banca examinadora, eu estava um pouco tensa. Ao ser chamada, fui muito bem recepcionada pelo presidente da banca, mas ao entrar na sala todos ficaram parados, ninguém falava nada, estavam espantados. Até que resolvi acabar com aquele silêncio perguntando quem iniciaria. Um dos integrantes pediu para o presidente iniciar. Sabia que aquilo não era de praxe, pois parecia que haviam iniciado os trabalhos naquele momento, não sabiam quem começava nem como começar. Apesar de tantas leituras, aquilo tudo era inédito para aqueles pesquisadores, que tinham campo amplo de atuação no Brasil e fora deste.
Iniciei o curso de Doutorado e me deparei com situações que jamais pensei encontrar, como colegas que mudavam a fisionomia facial ao me verem em sala e durante algumas aulas questionavam minha sexualidade.
Outro fato que me indignava era a forma como alguns professores, ao serem procurados pela imprensa para falar sobre o que achavam de uma travesti fazendo Doutorado, respondiam que era normal, que não viam nada de excepcional nisso. Normal? Comum? Essas observações me deixavam perplexa, pois eles tentavam passar algo que só existe na teoria como sendo uma prática real, quando na verdade é completamente diferente; se fosse tão simples, eu não teria sido a primeira travesti do Brasil a cursar um Doutorado, outras estariam nas academias, mas poucas travestis sequer chegam a concluir o Ensino Fundamental e Médio, segundo a Associação Nacional das Travestis (ANTRA).
24 ―Devir é nunca imitar, nem fazer como, nem se conformar a um modelo, seja de justiça ou de verdade. Não há
um termo do qual se parta, nem um ao qual se chegue ou ao qual se deva chegar. Tampouco dois termos intercambiantes. A pergunta 'o que você devém?' é particularmente estúpida. Pois à medida que alguém se transforma, aquilo em que ele se transforma muda tanto quanto ele próprio. Os devires não são fenômenos de imitação, nem de assimilação, mas de dupla captura, de evolução não paralela, de núpcias entre dois reinos.‖ (DELEUZE; PARNET, 1998, p.8).
Não posso negar que houve uma evolução no trato com as travestis; antes elas não podiam ter acesso à escola e, consequentemente, às universidades, mas no presente momento a travesti vem sendo, na maioria das vezes, tolerada na escola e/ou nas universidades.
A aprovação no Doutorado me atribuía um selo (simbólico) de qualidade, pois a partir daí teria mais respaldo para colocar em prática minhas ideias e projetos e continuar abrindo a trilha, seguindo meu caminho, que está para além da universidade. Foi assim que novas conquistas surgiram, como o nome social que passou a vigorar no crachá do trabalho, a utilização do banheiro feminino, as roupas mais sensuais (mas dentro dos padrões da instituição), o salto alto, os acessórios, as maquiagens, que passaram a ser usados com maior liberdade na 10ª CREDE e nas visitas que fazia às escolas.
Quando assumi o cargo na 10ª CREDE, passei a morar no município de Russas e tive conhecimento de situações de extrema discriminação com os homossexuais nas escolas e nas ruas; em alguns casos, tive de procurar os gestores das escolas denunciadas e/ou fazer um boletim de ocorrência (BO) na delegacia, com o intuito de solucionar os problemas. A cada dia que passava, eram mais frequentes os casos de violência contra homossexuais. Diante do exposto, decidi fundar a Associação Russana da Diversidade Humana (ARDH), que atua no combate aos preconceitos de qualquer natureza. Realizamos a I Parada da Diversidade Humana no dia 5 de dezembro de 2009, no município de Russas, e contamos com o apoio de grande parcela da sociedade. Estima-se que cerca de cinco mil pessoas acompanharam o trio que passou ao lado da Igreja Matriz e da Praça do Estudante, na avenida principal da cidade.
Em termos de experiência profissional, reúno uma gama de conhecimentos que vão da teoria à prática, pois na condição de travesti e educadora passei por todas as etapas da escola: fui aluna, professora e gestora, conhecendo assim o que é ser diferente no espaço escolar.