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G. KOMİSYONA SUNULAN ÖNERGELER

2.4. EĞİTİM VE BİLİNÇLENDİRME FAALİYETLERİ

2.4.2. Halk Eğitim Merkezleri

Apesar das dificuldades apresentadas anteriormente, recebi todas as fichas do levantamento, assinadas pelos(as) supervisores(as) das CREDEs e da SEFOR, relativas ao ano de 2009. De posse dos dados, procedi com a transferência destes para gráficos e os disponibilizei nos resultados desta pesquisa. Com base nestas informações, selecionei as escolas que atenderiam aos seguintes critérios:

Escola PP – Escola pública estadual com maior número de travestis matriculadas, localizada na sede do município de Beberibe.

Escola JJJ – Escola pública estadual com maior número de travestis matriculadas em zona rural localizada no distrito de Taperuaba, município de Sobral.

Escola AC – Escola pública estadual de Fortaleza com maior número de travestis matriculadas.

Dentre as três selecionadas, a primeira que escolhi para realizar a visita foi a JJJ por ser a mais distante de Russas, cidade onde resido. Porém, ao chegar a esta escola, o diretor confirmou o número de seis travestis matriculadas, enfatizado: ―Só os assumidos, mas têm alguns que não são, mas têm jeito‖. Com essa fala, percebi que o diretor não informou os dados corretos, confundindo travestis com garotos efeminados, e lhe fiz a seguinte pergunta: ―Tem algum assim como eu, que se veste como mulher, tem seios?‖ E ele respondeu que não, pois só usavam alguns acessórios femininos, como maquiagem, brincos, pulseiras, etc. Ele ouviu falar que alguns alunos se vestiam totalmente de mulher, mas apenas em festas e/ou comemorações diversas fora da escola e de sua residência.

Fiquei decepcionada, pois naquela escola não havia travestis feitas, e sim garotos efeminados. Como em todos os trabalhos de campo, os resultados frequentemente são inesperados (GUIMARÃES, 1975). Da empreitada qualitativa para quantitativa, a análise serviu para informar tanto sobre as travestis quanto sobre a percepção de professores e gestores sobre elas.

Apesar da imprecisão do número real de travestis feitas frequentando as escolas, a pesquisa revelou uma mudança de comportamento, pois jovens ―masculinos‖ estão expondo e se expressando pelo corpo, pela roupa, pelos adereços uma feminilidade que contraria o papel social de ―homem‖ estabelecido pela sociedade e pela escola, fundamentada na condição biológica. Um dos aspectos que de certa forma contribuem para dificultar a identificação de travesti na escola é a transitoriedade identitária pela qual os jovens, principalmente na adolescência, revelam, sendo destinado um capítulo desta tese para o assunto. Assim escreve Dayrell (2007, p.8):

Podemos dizer que, no Brasil, o princípio da incerteza domina o cotidiano dos jovens, que se deparam com verdadeiras encruzilhadas de vida, nas quais as transições tendem a ser ziguezagueantes, sem rumo fixo ou predeterminado.

Deparando-me com esta realidade sobre os (as) jovens e sabendo qual o perfil dos sujeitos da pesquisa, continuei indo às escolas que indicaram a existência de alunas travestis para definir em quais delas a pesquisa poderia ser desenvolvida. Mediante a impossibilidade de visitar as 45 escolas do estado, resolvi ir àquelas de abrangência da 10ª CREDE e a algumas de Fortaleza. Constatei na maioria delas a mesma confusão identitária ocorrida na primeira escola que visitei, mas em outras me deparei com aquelas que seriam minhas interlocutoras. Neste caso, o levantamento não foi inútil, pois cumpriu seu objetivo principal, que era localizar aquelas que seriam os sujeitos da pesquisa, mas revelou para além disso a falta de compreensão do assunto dos educadores por não conseguirem diferenciar travesti de garoto gay, efeminado ou não. Uma hipótese importante surge desta empreitada, pois se travesti e garoto gay são percebidos na escola como ―os mesmos‖, entra em cena o determinismo biológico para indicar o tratamento masculino imposto a eles na escola, culminando na negação do gênero feminino das travestis. Na vivência com minhas interlocutoras na escola, poderia confirmar ou não esta hipótese.

Localizadas as minhas interlocutoras, considerei pertinente escolher três escolas com realidades distintas para aplicação do roteiro de entrevista para alunos(as), professores(as) e gestores(as), sendo estas: a ―A‖, localizada na capital, sem travestis matriculadas; a ―B‖, localizada na sede de Russas, com uma travesti matriculada (Linda); e a ―C‖, de um distrito de Tabuleiro do Norte, também com uma travesti (Fran). Mesmo não encontrando travesti matriculada na Escola ―A‖, esta foi selecionada para servir de comparação com as localizadas no interior do estado, além de poder contribuir com a pesquisa, trazendo evidências da confusão apresentada pelos gestores para identificar as interlocutoras. Nas Escolas ―B‖ e ―C‖, cada escola tinha uma travesti matriculada, mas em 2010 a Escola ―B‖ passou a ter mais uma (Bela). As escolas selecionadas do interior do estado também atenderam ao critério de maior proximidade de minha residência para possibilitar a melhor inserção nos lugares da pesquisa e na vida das alunas travestis. Ainda em 2010, outras duas travestis (Ana e Raquel) se matricularam em escolas localizadas no município de Russas; embora não fosse na Escola ―B‖ ou ―C‖, adicionei-as ao grupo das interlocutoras. No mesmo ano, fui informada do caso de uma travesti da cidade de Redenção que saiu da escola por não ser aceita, mas que, após intervenção da Associação de Travestis do Ceará (ATRAC) e da Coordenadoria de Políticas Públicas para LGBTTT junto à 13ª CREDE, foi reintegrada ao espaço escolar. Fiquei perplexa com a história quando a própria aluna relatou no I Encontro Estadual de Travestis e Transexuais, do qual eu estava participando, no município de Fortaleza. A jovem era a Gabi, a qual pude conhecer em uma de minhas viagens até Acarape,

quando ela ainda estava em processo de transformação; no momento, já está transformada completamente. Gabi passou a ser mais uma das interlocutoras. Assim, passava a ter ao todo cinco travestis matriculadas em escolas para participar da pesquisa. Aparentemente, pode ser um número pequeno, mas, em se tratando de travestis matriculadas em escolas, nem tanto. Para além da quantidade, este trabalho se propõe a desvendar significados, conforme expõe Isabel Travancas (2006, p. 98):

A questão da quantidade é um ponto importante e às vezes crítico na etnografia. Qual o número ideal de entrevistados? O que se entende como um grupo em termos de quantidade? Estes dados são muito flexíveis. Não há um número fixo, pré-determinado. Você pode estabelecer a priori, no projeto de pesquisa, o seu corpus, o que não quer dizer necessariamente que vá obtê-lo. Mas a busca não é pelos números, mas pelos significados. E a recorrência nos discursos é um indicativo (In: BARROS; DUARTE). Na busca dos significados e atendendo à sugestão da banca na segunda qualificação do trabalho, como contraponto, travestis que não estavam matriculadas em escolas foram adicionadas à pesquisa – Sara e Geuda. Elas desvendariam o olhar da travesti sobre a escola na perspectiva daquelas que estão fora do espaço escolar.

Para que esta pesquisa fosse desenvolvida com todo o rigor acadêmico, foi fundamentada nas metodologias quantitativa e qualitativa. No caso desta última, por necessitar ―da observação do cotidiano e do contexto de produção e apropriação cultural‖ das travestis nas escolas, o método etnográfico foi o mais explorado, incluindo questionários abertos e fechados (modelos em anexos – XI ao XIII) aplicados, na Escola ―A‖, a três gestores(as), sete professores(as) e 39 alunos(as); na Escola ―B‖, a três gestores(as), dez professores(as) e 39 alunos(as); na Escola ―C‖, a três gestores(as), seis professores(as) e 36 alunos(as), revelando a percepção destes sobre a expressão cultural das travestis na escola.

Ritos de passagem, definições de papéis relativos à idade ou ao gênero, elos entre gerações (pais/filos, mestres/aprendizes) sempre foram elementos importantes na análise etnográfica porque, ao demarcar posições e relacionamentos que a grande maioria das pessoas vivenciam, eles parecem fornecer pelo menos alguns pontos razoavelmente estáveis, no redemoinho do material com que trabalhamos. (GEERTZ, 1997, p.236).

Com este método, foi possível detectar o olhar externo de gestores (as), professores(as) e alunos(as) para com a travesti, e o interno proferido por elas em suas entrevistas. A análise dos documentos da gestão escolar, como o projeto político pedagógico

(PPP), o regimento escolar (RE) e o currículo, permitiu conhecer as normas das escolas, o que é permitido ensinar, os conhecimentos priorizados, os princípios e valores disseminados.

Além dos questionários e da análise documental, a ―entrevista em profundidade‖ foi uma técnica do método qualitativo utilizada com autorização por escrito das travestis. Utilizando-me de um gravador (MP4), gravei todas as entrevistas, exceto a de Gabi, que preferiu ser filmada, sendo esta, entre as realizadas, a entrevista mais reveladora no que diz respeito às resistências e aos constrangimentos possíveis de serem vividos por uma travesti na escola. As entrevistas possibilitaram conhecer as histórias de vida das jovens travestis, incluindo relacionamento familiar, descoberta do sexo e da sexualidade, amantes, preconceito, montagem, assujeitamentos, obstinações e vida cultural.

As transcrições das entrevistas e a convivência na escola com as travestis no período de 2009 a 2011 foram registradas em uma pasta na área de trabalho de meu notebook, que teve a mesma função do caderno de campo utilizado por antropólogos. Vivenciei o dia a dia das jovens travestis na escola e fora dela, o que gerou certa intimidade, levando-me inclusive a participar de perto dos preparativos da festa de formatura. Registrei detalhes do que observei durante todos os momentos em que estivemos reunidas para dar visibilidade a este trabalho, como propõe Weber (2009, p. 157):

Uma parte expressiva do ofício do etnógrafo reside na construção do diário de campo. Esse é um instrumento que o pesquisador se dedica a produzir dia após dia ao longo de toda a experiência etnográfica. É uma técnica que tem por base o exercício da observação direta dos comportamentos culturais de um grupo social, método que se caracteriza por uma investigação singular que teve Bronislaw Malinowski como pioneiro e que perdura na obra de um Marcel Maget, caracterizada pela presença de longa duração de um pesquisador-observador convivendo com a sociedade que ele estuda.

No diário de campo, são acumulados todos os dados da ―observação participante‖, podendo ser considerado um ―diário íntimo‖, por estabelecer grande similaridade com os ―diários autobiográficos onde são depositados os humores e as emoções de seu autor.‖ (WEBER, 2009). Para este autor e Caria (1999b), a etnografia, por trabalhar com história de vida, apresenta-se com uma estreita ligação com a escrita biográfica e autobiográfica; porém, Ferraroti (1988) busca legitimar a biografia com ―estatuto científico enquanto método autônomo de investigação‖ no seu artigo ―Sobre a autonomia do método biográfico‖; já para Barontini (2009), ―constitui um método consolidado [...] assumindo status de instrumento de investigação e formação‖.

Trabalhando nesta pesquisa também com as jovens travestis nas escolas, torna-se impossível não fazer um paralelo com o que vivenciei na escola como aluna, professora e gestora. A intenção é apresentar outra forma de ser e de se socializar das travestis no espaço escolar, sem a pretensão de generalizar, fazendo uso das diversas metodologias apresentadas, interligando o referencial metodológico da ―hermenêutica em profundidade.‖18