No momento em que os homens de armas de ambos os exércitos cruzavam as lanças, deu-se um movimento sincronizado da força portuguesa, que dificilmente terá sido improvisado no momento, uma vez que a sua execução implicou alterações do dispositivo que envolveram todas as unidades (Fig. 10.6).
A “Batalha” de D.Nuno Alvares Pereira abriu uma brecha e cindiu-se em duas partes que rebateram para os flancos (Lopes, 1977).
Simultaneamente as alas de besteiros e arqueiros recuaram por fora e fecharam o quadrado nas laterais da “Batalha” de D. João I, que entretanto avançou e cerrou o contacto (Froissart, 1931). Na confusão e fragor da batalha, em tão pouco tempo, e em contacto com o inimigo, não é muito plausível que, com os meios de ligação existentes na época, fosse possível coordenar tal acção, se ela não estivesse já planeada.
As forças castelhanas avançaram para a penetração, impelidas pela sua própria inércia e galvanizadas pela convicção de que a vanguarda portuguesa se tinha desmoronado (Ayala, 1991). Tudo isto se passou em escassos minutos e quando, cerca de 100 metros depois, se encontraram com as lanças da “Batalha “ de D João I, já estavam encurraladas, tendo pela frente uma linha de infantaria organizada e sólida e nos flancos centenas de besteiros, arqueiros e outros homens de armas que começaram a atacar de ambos os lados, causando grandes baixas (Sandoval, 1872). Temos de pensar na formação castelhana como uma multidão de quase 3 mil homens, a maioria dos quais incapazes de verem ou ouvirem o que se estava a passar, embora ainda convencidos de que os portugueses estavam vencidos e por isso ansiosos de darem a sua ajuda para alargarem a penetração e acabarem com eles.
Neste momento não deveria haver cadeia de comando com autoridade ou meios para deter ou modificar o movimento. Era portanto inevitável o desenvolvimento de uma pressão constante
Aljubarrota : Uma explicação geográfica Trens Unidades castelhanas Unidades portuguesas Linha de água Estrada Batalha de D. Nuno abre e rebate Batalha de D. Juan I entra no quadrado Batalha de D. João cerra o contacto Arqueiros recuam e fecham flancos
Fig. 10.6- A manobra concertada da força portuguesa
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da retaguarda sobre aqueles que estavam na linha de contacto, atirando-os continuamente contra as lanças da “Batalha” de D. João I, e negando-lhes espaço de manobra individual. Isto foi desastroso porque as acções da infantaria não são, como a literatura épica tende a relatar, simples combates entre coriáceos blocos humanos, mas sim a soma de muitos combates entre 2, 3 ou 4 indivíduos, justamente porque as armas usadas têm um alcance e efeito limitados. (Keegan, 1976). Em Aljubarrota, o homem de armas usava as armas de mão que se referem no Anexo 2, pelo que a sua capacidade de matar ou ferir se limitava ao pequeno círculo centrado no seu próprio corpo.
Impedidos de se esquivarem pela pressão dos flancos e de recuarem pela pressão da multidão na sua retaguarda, os homens de armas castelhanos devem ter começado rapidamente a perder os combates, levando golpes e pancadas na cabeça e nos membros que, mesmo através da armadura, eram suficientemente atordoantes para os fazerem largar as armas, perder o equilíbrio
ou mesmo cair. Assim, em poucos minutos, alguns castelhanos estavam pelo chão, entravando ainda mais o movimento dos seus camaradas.
Terá sido este um dos factores cruciais no desenvolvimento da batalha. Caso a maior parte da primeira linha castelhana se tivesse mantido equilibrada e capaz de usar as armas, a pressão das suas lanças poderia ter sido suficiente para vencer a “Batalha” de D. João I. Contudo, logo que os homens começaram a cair e até porque as lanças
castelhanas eram mais curtas, os que vinham na fila a seguir só podiam alcançar os portugueses passando por cima de corpos caídos. E dada a pressão da retaguarda, não teriam outra hipótese que não fosse fazer isso mesmo, tornando-se ainda mais vulneráveis a uma queda, pois um corpo humano não propicia uma plataforma estável na qual se possam firmar os pés, para além da rejeição psicológica em pisar os corpos de camaradas feridos e mortos (Keegan, 1976).
Basicamente, toda esta dinâmica só podia ampliar o efeito de queda.
Tudo isto se passou em pouco tempo. A pressão da multidão e o desespero dos que eram alvejados a partir dos flancos, devem ter obrigado os castelhanos a juntarem-se ainda mais. Dos lados, os arqueiros já deviam ter esgotado as setas e perante a possibilidade de serem atacados pelos homens de armas couraçados, a atitude racional era que fugissem ou dispersassem. Contudo os castelhanos não os atacaram e essa falha levou a que, pelo contrário, tenham sido os arqueiros a moverem-se de encontro aos flancos castelhanos (Lopes, 1977). Vendo os castelhanos caindo nas dianteiras das colunas, ao passo que os dos flancos retrocediam para dentro com medo das setas, os arqueiros aproveitaram a oportunidade que a confusão e a indecisão ofereciam. Pegaram em espadas, machados, alabardas, malhos e achas de armas e correram ao assalto concentrando-se em homens isolados ou caídos.
A pressão da retaguarda, o bloqueio frontal e os ataques de flanco, devem ter iniciado aqui um violentíssimo movimento de compressão e de esmagamento do adversário, que era empurrado para os obstáculos, ao mesmo tempo que ia sendo chacinado pelos golpes das achas de armas, etc. Fernão Lopes (1977) refere que “muitos dos que jaziam mortos, não tinham ferida nenhuma”, pelo que é provável que tenham morrido esmagados e sufocados, como aconteceu no estádio de Heysel Park em…quando uma multidão, estimulada pelo pânico, se moveu em direcção a um obstáculo, comprimindo até à morte x pessoas que não encontraram, escapatória. Dado o horror da situação, que a certa altura deve ter sido consciencializado por muitos castelhanos, nomeadamente quando, por qualquer razão, a bandeira do rei castelhano foi derrubada(Lopes, 1977), os castelhanos que ainda não tinham chegado ao contacto devem ter começado a hesitar e alguns deverão mesmo ter virado as costas ao combate. O colapso moral do adversário tem quase sempre o efeito de aumentar a agressividade de quem o confronta (Keegan, 1976), e alguns portugueses sentiram que a batalha estava a pender para o seu lado.
Aljubarrota : Uma explicação geográfica Trens Unidades castelhanas Unidades portuguesas Linha de água Estrada D. Nuno acorre aos trens Parte da Batalha de D. João monta e persegue
castelhanos M.Alcantara
ataca trens
Fuga desordenada
Fig. 10.7- Rechaço do ataque principal e ameaça aos trens.
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Alguns berros de “já fogem”, (Lopes, 1977), ressoaram pelo exército português e foram repetidos num imenso urro que mais os galvanizou.
Poucos exércitos conseguiriam manter o controle sob tão intensa pressão física e psicológica. Os soldados castelhanos começaram a refluir e a falta de comandamento fez o resto. O pânico contagiou-se e em poucos instantes os castelhanos fugiam desordenadamente (Lopes, 1977), generalizando ao resto das tropas o sentimento de derrota e amplificando o desastre.