Coincidindo com o ataque principal, o contingente da cavalaria ligeira do Mestre de Alcântara tinha entretanto logrado, com alguma dificuldade, contornar a posição a este da ribeira de Vale da Mala, e encontrado um caminho para os trens portugueses, ameaçando a retaguarda portuguesa (Fig.
10.7).
A força que protegia os trens era fraca e constituída, na sua maioria por besteiros e infantaria dos concelhos. Não tinha capacidade para deter a cavalaria e a situação chegou a ser preocupante. Na zona estavam concentrados os prisioneiros capturados
minutos antes. Deficientemente vigiados e
com armas espalhadas pelo chão, existia a real possibilidade de se juntarem ao ataque da
Trens Unidades castelhanas Unidades portuguesas Linha de água Estrada Reorganização e consolidação Perseguição M.Alcantara retira M.Calatrava morre Castelhanos em fuga
Fig. 10.8-Exploração do sucesso
1 : 17 400
subjugando os defensores.
Terá sido esta a situação que precipitou a ordem para que os prisioneiros fossem mortos. Não deve ter sido uma decisão fácil, à luz da ética cavalheiresca vigente entre homens de armas (embora os besteiros e tropas concelhias não partilhassem desse espírito) e sobretudo da lógica de resgate que estava associada à captura de nobres.
Se bem que a rendição esteja normalmente associada a um colapso moral, os prisioneiros eram orgulhosos homens de armas e não é muito fácil imaginá-los em pequenos grupos, aguardando passivamente que alguns elementos das tropas auxiliares lhes esmagassem o crânio com uma acha de armas. Todavia os cronistas não adiantam pormenores da execução, referindo apenas que ela ocorreu.
O falhanço do ataque frontal castelhano e a fuga desordenada que se lhe seguiu permitiu que um contingente de
infantaria de D. Nuno viesse em socorro dos trens, detendo o avanço da cavalaria do Mestre de Alcântara, o qual entretanto se apercebeu do fracasso do ataque frontal e deu ordem de retirada. Rechaçado o ataque, os portugueses exploraram o sucesso na frente de batalha, enviando uma força de cavalaria em direcção ao Chão da Feira, em perseguição dos castelhanos (Fig. 10.8). A partir daí não mais foi possível aos castelhanos qualquer reorganização,
Aljubarrota : Uma explicação geográfica
assistindo-se ao “salve-se quem puder”.
Os que estavam já a sul fugiram a esmo na direcção de Santarém, e os que estavam a norte refluíram para Azóia (Oliveira, 1988) e daí para Castela, ao longo do eixo do Mondego. Milhares de homens ficaram dispersos pela região, tentando esconder-se e atingir unidades amigas, tendo sido impiedosamente caçados e mortos pela população nos dias que se seguiram (Lopes, 1977).
O rei de Castela fugiu também para Santarém, onde chegou cerca da meia-noite, embarcando depois para Lisboa e daí para Castela (Sandoval, 1872).
A força do Mestre de Alcântara, uma das poucas que se manteve organizada e comandada conseguiu organizar e proteger a retirada de muitos milhares de homens para Santarém e Carlos de Navarra, a norte, recolheu e reorganizou muitas das tropas que ainda nem sequer tinham chegado ao campo de batalha.
No total, segundo alguns estudiosos, devem ter morrido na batalha e nas escaramuças dos dias seguintes quase 10 000 homens (Oliveira, 1988) e os prisioneiros ascenderam a cerca de 6 500.
As baixas portuguesas, segundo o mesmo autor, deverão ter-se cifrado em cerca de 600 homens.
10.6. Rescaldo
Como era prática da época, o exército vencedor manteve-se na posição durante três dias (Lopes, 1977) e terá naturalmente reforçado a organização do terreno, pelo que é razoável acreditar, como é referido por Oliveira (1988), que algumas das escavações posteriormente encontradas no campo de batalha, tenham sido completadas após a mesma
No dia seguinte, à luz do dia, um contingente português executou um assalto bem sucedido ao que restava dos trens castelhanos e os restantes dedicaram-se, como era hábito à colheita de despojos dos cadáveres
A guerra não acabou em Aljubarrota e prosseguiu nos anos seguintes até porque, como vimos, o conflito se inseria em lutas mais vastas, mas a batalha foi um decisivo ponto de viragem.
Imediatamente a seguir, forças portuguesas conduziram acções de soberania em vários pontos do país e levaram a guerra ao território castelhano. A Inglaterra atacou na Galiza, o rei de Castela obteve novos apoios da França e D. João I estreitou os laços com a Inglaterra, firmando o Tratado de Windsor e casando com D. Filipa de Lencastre.
Nas décadas seguintes sucederam-se combates, escaramuças e tratados de paz inconclusivos até que, quase 100 anos depois, é uma Castela à defesa que, em Toro, numa reviravolta da História, bate por sua vez o invasor português .
É hoje claro que, malgrado todo esse anos de luta, um dos momentos em que verdadeiramente tudo se definiu, uma das encruzilhadas da História, aconteceu nesse fim de tarde de 14 de Agosto de 1385, na cumeeira de Aljubarrota (Bessa, 1988).
O país que emergia desse período de lutas era agora outro. Vale a pena recorrer a Toynbee (1946) para perceber de que modo a luta havia forjado uma geração de gente ousada cujas energias tinham agora de ser canalizadas para outros projectos, capazes de aglutinar os interesses e ambições de todos os estratos sociais.
Isso contribuiu para a consolidação da identidade nacional e inaugurou uma era de mercantilismo burguês, purgando o reino do provincianismo aristocrático que lhe tolhia o desenvolvimento e tendia a aceitar o domínio estrangeiro (Bessa, 2003).
As conquistas africanas e a saga das descobertas foram naturais sequências cujas consequências mudaram o mundo (Barata,1988).
Para Russell (2000), Aljubarrota foi também uma das batalhas decisivas da História porque a derrota portuguesa teria correspondido em poucas semanas à unificação peninsular sob o domínio de Castela e esta e a França, poderiam então esmagar a Inglaterra.
Para Castela, a derrota de Aljubarrota deixou sequelas duradouras, atrasando a sua assumpção como potência dominante da península ibérica e empurrando para muito mais tarde a expulsão dos muçulmanos do reino de Granada.
Aljubarrota : Uma explicação geográfica