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Türk Vergi Sisteminde Transfer Fiyatlandırması

2.2. KURUM KAZANCININ TESP İ T İ NDE KANUNEN KABUL ED İ LMEYEN

2.2.2. Kurumlar Vergisi Kanununa Göre Kabul Edilmeyen İ ndirimler

2.2.2.3. Transfer Fiyatlandırması Yoluyla Örtülü Olarak Da ğ ıtılan Kazançlar

2.2.2.3.2. Türk Vergi Sisteminde Transfer Fiyatlandırması

As famílias tupi guarani explicam que não é só a circulação de pessoas e, consequentemente, dos saberes que possibilitam a vida, mas também a circulação dos nomes que Nhanderu lhes envia e que, segundo contam, seve como uma espécie de amuleto para as pessoas, ele é aquilo que as protege. Quando há uma enfermidade, por exemplo, é o nome da pessoa e a força que traz com ele que ajudam na cura. Nome forte, geralmente é sinônimo de

183 Nas palavras da autora e de maneira oposta ao que apontam meus interlocutores: “[...] se aqui o deslocamento

não é o meio privilegiado do conhecimento, por outro lado, a atividade de nhe’e não deixa de desdobrar-se

corpo-espírito forte, o que também indica uma menor possibilidade de sofrer ataques de outros tipos de gente, como os anhã. O que define um nome forte, dizem, é o lugar de onde vem e a divindade que o envia, bem como, os caminhos que percorre até chegar ao pensamento do rezador ou rezadora que o revela.

Como certa vez explicou uma senhora da T.I. Laranjinha (PR), que visitava a aldeia Karugwá, os nomes, assim como os mborei (cantos-rezas), vêm para serem sentidos, as pessoas os sentem no peito e na cabeça. E por essa razão, para que ouçam os nomes é necessário permanecer cantando, pois é só no terceiro dia de cerimônia do Nimongarai (o nosso batismo), e ficando muito concentrada, que os nomes vêm, e se transformam em proteção. Além das crianças, são também batizadas nessas cerimônias, todas as sementes, a fim de protegê-las para que cresçam fortes, da mesma forma que as crianças. Entretanto, dar nome para uma semente, ela dizia, é dar proteção por um ano, ou seja, durante seu período de plantio, desenvolvimento e colheita. Mais tarde explicaram que não é apropriado dar nome de pessoas às plantas, pois ao dar o nome de uma pessoa viva a uma planta, você conecta essas duas vidas, e se a planta morre a pessoa pode morrer também. Então batizar uma semente ou planta, não consiste em dar nome, mas apenas proteção.

Dando continuidade às suas explicações, a senhora que visitava a aldeia reprovou o fato de atualmente existirem muitos juruá com nome de índio, afirmando também, que dar um nome na língua tupi-guarani, não necessariamente significa proteger, criticando que nos dias de hoje qualquer pessoa se põe a dar nome às outras. Explicou que por conhecerem as outras Terras, apenas os rezadores são capazes de saber de onde veio o espírito da pessoa e o nome correto da criança, nome esse que lhe servirá de proteção e que irá alegrar seu espírito para que ele não queira ir embora. Suponho assim, que o nome e a alma, e aqui fazendo referências a nhanderekuaá, não necessariamente são compreendidos pelos meus interlocutores como sendo a mesma coisa (alma-nome ou nome-alma), da mesma forma que nos apresenta, por exemplo, Mello (2006), Pissolato (2007) e Pierri (2013a), porém complementos um do outro, o nome enquanto aquilo que alegra seus espíritos fazendo-os desejar permanecer nesta Terra e que, consequentemente, fortalece as pessoas, protegendo-as dos males que possam surgir.

Em resumo, o lugar de onde vêm as almas, pressupõe determinadas potencialidades, o que implica em tipo de nome, para que seja efetiva a proteção da pessoa. Suponho assim, que o nome é uma forma de “dar corpo” a essas potencialidades, de maneira similar ao que fora apresentado por Macedo & Sztutman (2014). É através da nomeação, segundo os autores, que o nhe’e enviado a cada Guarani, ganha modulações específicas; a partir de sua proveniência, itinerários e assentamentos. Nas palavras de Macedo & Sztutman (2014): “[...] Os nomes dão

corpo a tais modulações, remetendo à proveniência celeste do nhe’e que assentou no sujeito, maximizando naquele corpo sua potência de agir” (MACEDO & SZTUTMAN 2014: 291). Entretanto, não tenho subsídios para aprofundar sobre esse tema. Atualmente, e como dito anteriormente, não há casas de rezas na aldeia e, por isso, não são realizados os batismos das crianças, ainda que, em alguns momentos, se ouçam comentários oriundos, sobretudo das crianças, a respeito de um parente, avô(ó) ou tio(a) que sonhou com seu nome indígena, o qual, no entanto, necessita da confirmação de um rezador, visto que apenas aquele que está ocupando essa posição consegue uma comunicação mais efetiva com as divindades e, consequentemente, a claridade do nome. Tal confirmação é necessária, pois um nome pode fortalecer a pessoa, mas também pode fazê-la fraca, dado que um nome ouvido ou atribuído de forma errada às pessoas, que não tenham força ou disposição para segurá-lo, pode fazer com que adoeçam. O mesmo ocorre com uma reza, quando alguém faz descer um espírito, ou uma reza que não é capaz de segurar, é possível que venha a adoecer, e aquilo que serviria de proteção se torna uma fonte de infortúnios. 184

3. 3. Anhã e os guardiões do mato: encontros que afetam corpos-espíritos

Os anhã são definidos por meus interlocutores como seres ruins, extremamente perigosos e que rondam a aldeia à espreita de algum desavisado. Contam que os anhã têm os olhos vermelhos e costumam aparecer em noite de lua cheia, no entanto, não é possível identificar sua forma, são os galos que cantam durante a madrugada que anunciam sua presença. Explicam que é necessário tomar cuidado para que ao encontrar com um anhã não se fixe em seus olhos, pois cruzar olhares com os anhã faz com que a alma da pessoa seja por eles seduzida e, assim, facilmente capturada. Quando tal captura é parcial, ou seja, é possível através da reza trazê-la de volta, pode causar-lhes doenças, se total, quando já não é mais possível fazê-la voltar, pode causar mortes. Anhã, é também considerado um ser invejoso e que no momento de raiva (pochy) pelas criações divinas de Nhanderu, as copiava, mas as fazia cheias de imperfeições. Dizem, por exemplo, que Nhanderu criou as galinhas e que anhã, com inveja, criou os patos e, por isso, apesar de parecidos, os patos tem as patinhas

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Sobre esse assunto, Ladeira (2007), ao tratar da narrativa “Nhee ru ete – A origem dos verdadeiros pais das almas”, nos apresenta elementos interessantes sobre as almas-nomes, os lugares de onde vêm e as potencialidades que trazem consigo. A autora também afirma que “[...] a composição de um ‘tekoa’, a organização social e das atividades cotidianas e rituais são determinadas pelas almas-nomes de todas as pessoas da comunidade” (LADEIRA 2007: 120).

deformadas, com os dedos juntos e sua carne é mais dura e necessita de maior tempo de cozimento, sendo mais difícil alimentar-se deles. Dessa forma, e como Pierri (2013a: 66) já havia afirmado, anhã pode compor uma “categoria genérica de causa-efeito”, mas também assume, em alguns contextos, o papel de personagem específico. 185

As crianças são as maiores vítimas das manifestações dos anhã e, conforme explicam, isso ocorre por não serem fortes e não terem seu espiritual desenvolvido. Célia que vive na aldeia Karugwá, relatou, em certa ocasião, que um de seus netos, quando tinha cerca de seis meses, entrou em casa chorando; e toda vez que olhava em direção à porta da cozinha seu choro aumentava. Ela conta que ao cruzar com seu neto no colo pelo local, ele soltou um grito, ficou roxo e sem ar. Imediatamente, tentaram levar a criança ao hospital utilizando-se do carro de seu marido, mas o carro não funcionou. Desesperada, acionou também um de seus vizinhos e a agente de saúde da aldeia, seus carros também não funcionaram. A agente de saúde, então, sugeriu a Célia que começassem uma oração, pois não sabia mais o que fazer. Depois de um tempo orando, no quarto, souberam que a criança já estava bem, tinha voltado a respirar e dormia tranquila. Souberam também, que os carros tinham voltado a funcionar, o que lhes causou espanto, mas lhes deu a certeza de que se tratava de um ataque do bicho, pois a criança, por não o conhecer, olhou para ele, e o mais perigoso, viu os olhos dele. E foi a oração que a ajudou a se livrar do ataque 186.

Esses ataques, explicam, são motivados pela inveja que anhã sente das criações de Nhanderu e são as crianças que se encontram conectadas a ele de maneira mais efetiva, pois sua alma acabou de vir do céu. Daí a importância de lhes dedicar tantos cuidados, e não se pode esquecer, que as famílias é que devem ser as “sedutoras” de sua alma, pois na incapacidade de seduzi-la, outros tipos de gente o farão, levando as crianças a não desejar permanecer nesta Terra. Entretanto, é importante destacar que tais cuidados se estendem para além delas, envolvendo a todos na aldeia, o que demonstra, mais uma vez, a importância de

185A compreensão de anhã enquanto uma “categoria de causa – efeito” também me remete ao trabalho de

Gallois (1988: 239-241). Nas palavras da autora sobre añã: “[...] Trata-se de uma das categorias mais abrangentes do mundo sobrenatural, que inclui classes de seres e, ao mesmo tempo, seus comportamentos: corresponde exatamente ao ‘efeito espírito’ definido por Viveiros de Castro a partir do material Araweté (1986)” (GALLOIS 1988: 240). Tal categoria, ainda segundo a autora, é “[...] indicadora de situações e que há ‘misuta’ de domínios cosmológicos normalmente separados, passando a representar ‘o outro’ da sociedade: o morto, o inimigo, o animal [...]” (GALLOIS 1988: 241). Entretanto, ao contrário do que apresentam meus interlocutores tupi guarani ao tratar das atitudes sempre maléficas dos anhã, Gallois (1988), aponta que ente os Wajãpi, tanto agressões como reparações estão embutidas no “efeito-espírito añã”, sendo ele alvo e força dos xamãs.

186 Orações aqui se referem àquelas realizadas durante os cultos na Igreja Congregação no Brasil (CCB).

viver juntos e da concentração em Nhanderu, ambos fundamentais para a obtenção de saberes e poderes que os fortalecem e fortalece aqueles com quem se relacionam.

É comum, segundo meus interlocutores, o bicho (anhã ou demônio) se fantasiar de cobra, boi e, às vezes, até mesmo de tatu. Quando aparece em forma humana, costuma assumir as características de uma velha seca (Jaguar Jari), que se alimenta do sangue das crianças a fim de permanecer sempre jovem. 187 E como vimos, são as crianças, assim como os rezadores que têm maior facilidade em perceber e ter encontros como esses bichos, os quais, em muitos contextos, não são percebidos pelos adultos. Entretanto, ao contrário do rezador ou pessoa de espiritual fortalecido que é capaz de reconhecer os perigos de tais encontros, ou como denominou Viveiros de Castro (2002: 358), esse “intercâmbio de perspectivas”, as crianças são fracas, não sabem reconhecer as intenções que existem por detrás de tais figuras. Os xamãs, como bem apresentou o autor “[...] são capazes de assumir o papel de interlocutores ativos no diálogo transespecífico; sobretudo, eles são capazes de voltar para contar a história, algo que os leigos dificilmente podem fazer” (VIVEIROS DE CASTRO 2002: 358). 188

São comuns os comentários acerca dos mais variados tipos de gente que habitam os domínios exteriores a aldeia e os encontros com eles. E, em sua maioria, são esses os responsáveis pelas doenças espirituais que costuma abater, não só as crianças, mas a todos em Ywy Pyhaú. Da mesma forma que os angue, eles podem causar mal às pessoas, entretanto, ao contrário dos primeiros, são cheios de intenções e apesar de não serem identificados imediatamente como anhã, tenho a impressão, compõe também a “categoria genérica de causa-efeito” dos anhã. Como referências a eles usam com maior frequência o termo bicho ou algum outro como: lobisomem, mão pelada, mula sem cabeça e alma penada. Cabe mencionar, que ao contrário dos angue que outrora compunham os parentes daqueles que hoje vivem nas aldeias, são suas sombras ou fantasmas, esses bichos nunca o foram, sempre

187 Segundo contam, a Jaguar Jari é uma velha seca que envelhecia diariamente, mas nunca morria. Ela se

alimentava de crianças, alguns contam que isso acontecia na tentativa de fazer-se novamente jovem, outros que ela se alimentava de crianças pelo ódio que sentia por ter visto seus filhos morrerem nas mãos de um caçador inexperiente. Fato, é que causava temor naqueles que viviam nas aldeias e que mudavam de lugar constantemente. A única forma de captura-la é através de um mondéu espiritual. Explicam que o mondéu deve ser espiritual, porque ela não tem carne osso: ela é quase como uma imagem.

188 Sobre suas formulações a respeito dos seres que aparecem fantasiados, recordo das afirmações de Viveiros de

Castro (2002: 34), acerca das “roupas animais” utilizadas pelos xamãs para se deslocar pelo cosmos. Essas não são apenas fantasias, mas instrumentos. “[...] Do mesmo modo, as roupas que, nos animais, recobrem a ‘essência’ interna do tipo humano não são meros disfarces, mas seu equipamento distintivo, dotado de afecções e capacidades que definem cada animal”. Tais animais costumam, ainda, aparecer em alguns relatos de sonhos entre esses Tupi Guarani.

estiveram no exterior de suas relações entre parentes, ainda que sejam partes de suas redes de relações e, assim, afetam também seus corpos-espíritos.

Em uma das noites em que dormia na casa de D. Juraci, todos ouviram o som de um martelo que batia ao longe, ela decidiu sair no terreiro de sua casa para ver se descobria de onde vinha o som, mas foi surpreendida por gritos feios que vinham da estrada. Eu não os ouvi, acordei apenas com a movimentação na casa, pois estavam todos inquietos e não voltaram a dormir, e os que tentaram, dormiram mal e acordaram no dia seguinte sentindo dores pelo corpo. D. Juraci também passou mal durante todo o dia seguinte, disse-me, então, que estava doente do espírito, pois o grito devia ser de algum anhanguera (diabo velho, bichão) muito forte. A noite ao reproduzir a história para uma de suas noras, contou-lhe que estava doente, pois devia ter cruzado, sem perceber, com os olhos desse anhã, mas que ela não devia temer, pois foi apenas uma visão que passou! Apesar de tal fala, fez questão de enfatizar, por diversas vezes, os perigos de se andar pelo mato sozinho, durante a noite, se referindo, principalmente, às crianças. Essas não devem brincar durante a noite fora de suas casas; as bonecas das meninas, por exemplo, podem ser tomadas por bichos ruins e querer mamar de verdade em seus seios, sugando sua vida, fazendo-as adoecer. Os bichos noturnos que se escondem na mata, costumam ainda, aparecer no entrono das casas, atormentando as criações (galinhas, patos, cachorros, etc.) até que seu dono saia no terreiro, e ao sair, ficando vulneráveis na escuridão, podem ser capturados pelo bicho. Dizem que é na quaresma189 que os bichos (lobisomem, anhã, caipora, corpo seco, homens em forma de tronco de arvores, dentre outros), mais circulam, sendo o período mais perigoso para permanecer fora de casa durante a noite.

Chamam atenção, sobretudo para o perigo de se olhar nos olhos desses anhã, eles, assim como as cobras, têm o poder de nos hipnotizar. Enquanto fixamos em seus olhos, eles já estão prontos para nos dar o bote. E assim, um bom matador de cobra, usando uma expressão de Viveiros de Castro (2002), é aquele “detém o ponto de vista da relação”, que estabelece os paramentos pelos quais está irá se pautar não se deixando hipnotizar pelo animal. Ele, fixando-se em seus olhos, a hipnotiza antes do ataque, fazendo com que a cobra paralise em seu lugar e, assim, sua captura e morte é facilitada. Para se andar no mato é preciso dominá-lo, andar em silencio, saber ouvir, cheirar e ver de forma correta, como

189 Fazendo referência aos quarenta dias que antecedem a celebração da páscoa cristã. Período em que se

recomendam aos cristãos que a celebram que façam jejuns, abstinência de carne vermelha, doações, orações dentre outras coisas, com intuito de se preparar para a morte e ressurreição de Cristo.

dizem: é preciso ver antes de ser visto, ouvir antes de ser ouvido e atacar antes de ser atacado.

Ressalto, porém, que nem todas as relações causadoras de infortúnios se dão com aqueles que são classificados de anhã, possuidores por excelência de intencionalidades maléficas. Existem outros tipos de gente que ainda que lhes causem mal, da mesma forma que os angue, não têm de início essa intenção. Agem de maneira negativa apenas em resposta a uma relação desrespeitosa travada com eles, são eles, os guardiões do mato. Esses guardiões, segundo explicam, são responsáveis por zelar, junto aos outros moradores da mata, pelas criações de Nhanderu, ou seja, pelas plantas, animais, insetos, e tudo aquilo que vive na mata, evitando que os destruam. Dizem que tudo o que é retirado desses lugares deve ter a permissão de seus guardiões, caso contrário eles podem ficar irritados, o que culmina com retaliações e agressões, que podem, da mesma forma que os angue, levar ao adoecimento ou às transformações das pessoas em gente outra (-jepota).

Ainda que ao tratar desses guardiões não se refiram a eles como “donos”, não posso deixar de fazer, aqui, referências à literatura etnográfica que discute a respeito desse tema, visto a maneira como as explicações de meus interlocutores dela se aproximam. Fausto (2008) afirma, por exemplo, que a categoria “dono” ou “mestre”, muito presente na Amazônia, transcende uma relação de domínio ou propriedade e nas palavras do autor designam “[...] um modo generalizado de relação, que é constituinte da socialidade amazônica e caracteriza interações entre humanos, entre não-humanos, entre humanos e não-humanos e entre pessoas e coisas” (FAUSTO 2008: 329). Ainda segundo Fausto (2008: 330) o “dono” pode ser tomado enquanto pessoa magnificada “capaz de ação eficaz sobre esse mundo” e tal domínio, de acordo com o autor, ocorre por uma relação de adoção (mestre/ seus xerimbabos) e “não pela transmissão vertical de substâncias” por uma relação de filiação (FAUSTO 2008: 349). Já no contexto Guarani, Macedo (2009) aponta, ao contrário, que os “donos” e suas criaturas compartilham a mesma modalidade de princípio vital e “[...] chamam de nhandejara, ‘nossos donos’, os ancestrais que lhes enviam nhe’e” (MACEDO 2009: 239). Um dos interlocutores de Macedo (2009), explica que cada ser (lugares, pedras, animais, etc.) tem “dono”, indo ao encontro do que fora apresentado por Pierri (2013a) sobre as coisas desta Terra, ao afirmar que “[...] se está nesse mundo é porque tem dono, caso contrário nada estaria animando sua existência” (PIERRI, 2013a: 138). E assim, compreende-se que o “dono” não é apenas aquele que cuida, adota, mas que anima a existência de todas as coisas, possibilitando a vida. Formulação similar ao que fora apresentado através das narrativas de alguns de meus interlocutores sobre os guardiões do mato. Lembro, no entanto, que apesar de os donos

possibilitarem a vida desses seres na Terra, através dos cuidados que lhes dedica, são as divindades as responsáveis por sua criação, inclusive, das famílias tupi guarani, que veem em Nhanderu uma espécie de guardião ou, como afirmam, Nhanderu é nosso pai. 190

Contam, por exemplo, que na mina d´água próxima à aldeia vivia uma rã de tonalidade vermelha, está rã era a responsável por cuidar daquele local, evitando que a água acabasse, e por não possuírem água encanada na aldeia, mantê-la viva era uma forma de garantir sua própria existência. No entanto, por motivos que desconhecem, essa rã desapareceu. Alguns dizem que foi morta, outros, que por sua beleza, com seu tom de pele avermelhado, fora capturada, retirada dali. Fato, é que com seu desaparecimento, a mina também desapareceu, forçando-os a buscar água em locais mais distantes.

Dentre os guardiões que costumam citar há ainda o pai do mato, homem de cor verde que circula pela mata a procura de pessoas que estejam desmatando-a em excesso. As crianças tupi guarani contam que quando se anda pelo mato, devem evitar arrancar folhas e flores desnecessariamente, pois podem sofrer uma agressão desse homem verde, o que as faz adoecer. Um das crianças me disse que tais doenças os deixariam verdes, tal qual o pai do mato, e que com vergonha pela transformação na cor de sua pele, apreenderiam a respeitá-lo.

Outro guardião ao qual costumam fazer referência é a pomba vermelha. Adilson comentou que, há alguns anos, fez um novo estilingue e andava caçando pássaros na