• Sonuç bulunamadı

Os pri mei ros di as de aula em 2006 foram rel ati vamente tranquil os. As cri anças cheg aram entusi asmadas para conhecer a nova escola, seus colegas e professores, demonstrando desejo de aprender a l er e escrever. Todas queri am se conhecer e pareciam ansiosas para “saber tudo”. Afinal, tudo era mesmo novi dade: o tamanho da escol a, os espaços para bri ncar e correr, professores di ferentes para os conteúdos; até o banhei ro contíguo à sal a de aul a causava estranheza.

Original també m era a combi nação para o uso do banhei ro: sempre que o al uno preci sasse usá -l o, contanto que o mes mo esti vesse desocu pado, bastava avi sar à professora, ci oso dos cui dados de higiene pessoal e do l ocal. Sem dúvi da, tratava - se do mai or diferencial para as cri anças em co mparação às escol as de ori gem. Al gu mas cri anças, em pri ncípio, pensavam: “posso ir ao banheiro quando quiser”, servindo-se disto para “fugir” das tarefas em sala, conversar com um colega, combinar uma bri ncadei ra para o recrei o, enfim, o espaço do banhei ro foi (re) si gni fi cado pel as cri anças. Paul ati namente, as regras e acordos estabel eci dos eram di scutidos, l evando os professores a

repensar sua práti ca e arti cul ar estratégi as comuns de trabal ho. Na reali dade, esta foi uma práti ca corri queira ao l ongo dos três anos do Pri mei ro Ci cl o, i ntensi fi cando -se a cada i níci o de ano.

Di ferentemente dos anos anteri ores, a s crianças passaram a contar com u m professor para cada conteúdo do currícul o. Mi nha turma ti nha, à época, ci nco professores, cada qual com modo parti cul ar de conduzir as aul as e a di nâmi ca da sal a. Ini ci al mente, as cri anças senti ram -se “perdidas”, sem saber como se co mportar.

Di a após di a, a di nâmi ca da sal a de aula deli neava -se; fomos cri anças e professores, construi ndo estratégi as para que a roti na de ati vidades trouxesse tranquili dade e segurança. Nosso, i ntui to, enquanto professores de uma mes ma tur ma, era fazer com que as crianças ti vessem consci ênci a sobre como li daria m com tarefas corriquei ras, por exempl o, a chegada em sal a, o uso do banheiro, a organi zação das cartei ras, organi zação para reali zar ati vidades fora de sal a, hora do l anche, l ocai s para brincar na hora do recrei o, respei to à vez do col ega falar, ouvir as i nstruções dos professores para depoi s ini ciar a reali zação da ati vi dade, dentre tantas outras.

Exerci mai or ênfase na consoli dação da roti na diári a, poi s assumi a turma co mo professora -referênci a. No CP/UFMG, a professora -referênci a tem por função arti cul ar e conduzir os trabal hos da/na turma, em con junto com os outros professores, tornando-se, por assi m di zer, a professora da turma118. Posso afirmar que o coti di ano da turma do Pri mei ro Ano Amarel o foi marcado si gni fi cati vamente por mi nhas crenças e di fi cul dades porque també m i ni ci ava meu trabal ho na escol a.

No CP/UFMG, as turmas do Primei ro Ci cl o eram nomeadas e m função da cor da porta da sal a; em 2006, havi a os pri mei ros anos Amarel o, V ermel ho e Azul. No decorrer dos

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A pr of essor a - r ef er ênc i a ai nda c ol abor a com a or gani z aç ão de ev ent os esc ol ar es e m ant ém c ont at o c om as f am í li as, i nt erm edi ando possí v ei s c onf li t os.

pri mei ros meses de aul a, a professora deveri a propor às cri anças que el egessem u m no me di ferente para a turma. Para tanto, debatemos questões como i dentidade, nome própri o, razões da escol ha do nome das cri anças pel a famíli a etc. Tudo i sto para que os al unos compreendessem que u m no me não é dado por acaso, poi s há moti vos que justi fi cam as escol has.

Desenvol vemos ati vidades atinentes e, quando al guém

encontrava um no me adequado à turma trazi a a i deia para o grupo. As cri anças , aos poucos, percebi am que apesar de sere m tão di ferentes, pareciam-se e m determi nados aspectos: uma das característi cas comuns a el as (e a mi m) era o gosto em abraçar. Ao chegar à escol a, por exempl o, cumpri mentavam -se co m u m abraço, e o gesto també m pun ha fi m a desentendi mentos eventuai s. Quando outros profi ssi onai s da escol a entravam na sal a, eram l ogo abraçados por um grupo de al unos, quando não por todos ao mes mo te mpo. A turma recebeu, por tal comporta mento, o nome de Turma do Abraço.

O nome foi mant i do pel a turma até o fi nal do tercei ro ano, i ncl usi ve porque a turma manteve -se i nal terada, ai nda que, no iníci o do segundo ano, houvesse uma tentati va frustrada de mudança do nome por i ni ci ati va das própri as cri anças. A parti r do signo ‘abraço’, todos nós – eu, alunos e os outros quatro

professores – criamos uma identidade para o grupo e

estabel ecemos uma roti na de tarefas e ati vidades de acordo com as avali ações do funci onamento de cada uma.

Na sequênci a, apresentaremos as ati vi dades di ári as da turma, destacando objeti vos, contexto em que aconteci am e a relação com a roti na da escol a de mo do geral .

As aul as i ni ci avam-se às 13h, com tol erânci a de 15 mi nutos para eventuai s atrasos. Quando uma cri ança chegava atrasada, deveri a diri gi r -se ao NAIP para justifi car o atraso; então, era encami nhada para a sal a de aul a119. Esse recurso era

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E st a f oi um a m edi da enc ont r ada pel a esc ol a par a c ontr ol ar e dim i nui r os at r aso s. S em pr e que nec es sár i o, os pr of is si onai s do NA I P ent r av am em

pouco util i zado pel as cri anças que chegavam antes da professora na sal a, poi s não preci savam aguardar a professora no páti o, ou ainda, fazer uma fil a para se di ri gi rem à sal a. No horári o de entrada, as cri anças ti nham trânsi to li vre: podi am permanecer na sal a de aul a, no pátio próxi mo, ou i r à bi bli oteca.

Os professores do CP/UFMG manti nham estratégi as de organi zação do trabal ho diári o bastante di ferentes daquelas com as quai s eu estava acostumada. Destaco: a di sposi ção das cartei ras era fei ta junto com as crianças; cada estudante devi a arrumar o material necessári o às aul as embai xo da própri a cartei ra; regi strava -se a roti na de ati vidades no quadro, junta mente co m os al unos, para que pudessem aco mpanhar o organograma das tarefas com mai or autonomi a.

As ati vi dades di ári as podi am ser di ferenci adas em cada turma, vi abil i zando o desenvol vi me nto de roti nas específi cas. Mas ao mes mo te mpo em que esta práti ca garanti a -me li berdade, cabi a uni camente a mi m l i dar com dilemas do pl anejamento: que nome atri bui ri a a cada ati vi dade reali zada em sal a de aul a? De que manei ra di stri bui ri a essas tarefas ao longo do dia? Como

garantiria que as cri anças não se cansari am e se

desi nteressari am por dada t arefa? Ou seja, era preci so pl anejar ati vi dades atraentes e desafiadoras, mas que não fossem l ongas a ponto de provocar desi nteresse e o desvio de foco por parte das crianças. Assi m, passa mos a no mear tudo que fazíamos na sal a, observando a mel hor si tuação para cada ati vi dade. Cumpre escl arecer que al gumas tarefas segui am os horári os defi ni dos pel a escol a, tai s como: l avar as mãos, l anchar, bri ncar no recrei o.

Conforme e xposto, a roti na diári a co meçava co m a organi zação das carteiras e do materi al i ndi vi dua l (li vro, caderno, l ápi s, borracha, lápi s de cor) e/ou col eti vo (folhas xerocadas, jogo), necessários para as ati vi dades do di a. Neste c ont at o c om a f am íli a, soli ci t ando esc l ar ec im ent os quant o aos at r aso s, pr i nc i palm ent e quando t al pr át i c a t or nav a - se c or r i quei r a.

mo mento, no meado pel a turma como CHEGAD A, as cri anças deveri am també m entregar à professora sua agenda com bil hetes da famíl i a. Durante a CHEGADA, o professor que mi ni strasse a pri mei ra aul a, anotava no quadro a ROTINA DO DIA. Às vezes, os demai s professores l embravam a os al unos as ati vi dades já reali zadas, qual seri a a próxi ma tarefa, e perguntavam se consegui ri am executar tudo que fora proposto para aquele di a.

No i níci o de 2006, a rotina era anotada no quadro pel a professora, com ajuda dos al unos que l he di tavam a sequênci a dos i tens (al gumas ati vi dades eram fi xas, como a HORA DO BRINQUEDO, se mpre às sextas -feiras, no i níci o da tarde). No segundo semestre de 2006, al terei o procedi mento, sol i ci tando que as crianças sol etrassem a pal avra a ser escri ta, ou convi dando um al uno para escrever i tens da roti na no quadro. Era costume fazer o regi stro da roti na em l etra cursi va e em cai xa al ta para atender às cri anças que ainda não estavam fami l iari zadas com a l etra cursi va.

As ati vidades mai s roti nei ras eram: LIVRO, RODA DE HISTÓRIA, RODA DE CONVER SA, ARQUIVO POÉTICO, ESCRITA, HORA DE ESCREVER, BIBLIOTECA DE ESCOLA, BIBLIOTECA DE SAL A, PARA C ASA, DESENHO.

Para o trabal ho com Língua Portuguesa, nos três anos do Pri mei ro Ci cl o de Formação Humana, adotou -se a Col eção Português: uma proposta para o letramento , publi cada pel a Edi tora Moderna; o vol ume dedi cado à al fabeti zação é de autori a de Gl adys Rocha e os vol umes 1 e 2, de Magda Soares. A col eção foi aprovada e recomendada pel o Pl ano Nacional do Li vro Di dáti co – PNLD, em 2004.

O LIVRO di dáti co não é tema deste estudo, no entanto faz-se necessári o descrevê-l o porque o consi deramos co mo u m medi ador semi óti co cruci al para o processo de i nstrução da li nguagem escri ta. Foi um i nstrumento bastante utili zado, tanto nas ati vi dades de l ei tura e produção de textos como naquel as para a aqui si ção do códi go escri to. Al ém di sso, a professora

ampl i ou e/ou modi fi cou ati vi dades para atender aos i nteresses da turma e mel hor adequá -las ao trabal ho desenvol vi do com as cri anças. No Capítul o 4, serão anali sadas duas ati vi dades em que o LIVRO di dáti co foi utili zado. Por i sso, jul gamos i mportante descrever a col eção, com o i ntui to de real çar o papel do LIVRO na sal a de aul a e o modo com que cri anças e professora desenvol veram as propostas nel e conti das.

A col eção traz o texto como uni dade bási ca, i sto é, todas as ati vi dades giram e m torno do texto oral ou escri t o. Percebe-se o di scerni mento das autoras em apresentar uma di versi dade de gêneros li terários para subsi di ar ati vi dades de l ei tura e de produção de texto. Cada li vro organi za -se em uni dades temáti cas, abordadas sob pri smas di sti ntos, e formadas por textos de di ferentes gêneros para um mes mo te ma. Os textos são apresentados ori gi nal mente, sem si mpl i fi cações ou adaptações.

Co m relação ao processo de i nstrução, as uni dades do li vro contempl am: ati vi dades de lei tura, produção de texto, li nguagem oral , l íngua or al – língua escrita, vocabulário e refl exão sobre a l íngua. O li mi te entre as ati vidades não procede, poi s uma se sobrepõe à outra gerando flui dez entre todas. No li vro de al fabeti zação, os tópi cos Atividades de Leitura e Escrita e Interpretação Oral reúnem e xercíci os e di nâmi cas que expl oram as vari ávei s Língua Oral – Língua Escrita, Reflexão sobre a Língua , Vocabulário e Interpretação . Essa compi l ação consi dera o processo de apropriação do códi go escrito, vi venci ado pel as cri anças do pri mei ro ano120.

Na RODA DE HISTÓRIA, l íamos obras de li teratura i nfanti l, sel eci onados por mi m na BIBLIOTECA DA ESCOLA, no acervo da sala e de mi nha col eção parti cul ar. As cri anças també m l evavam l i vros de seu i nteresse, mas, antes, eu fazi a

120 E ssa c ol eç ão é ant er i or ao i ngr esso no pr im ei r o ano da esc ol a por

c r i anç as c om ci nc o anos e sei s m eses e c om sei s anos de i dade. Dest a f orm a, os liv r os f or am el abor ados v i sando ao t r abal ho c om c ri anç as de set e anos, no pr im ei r o ano do E nsi no F undam ent al .

uma l ei tura prévi a para avali ar e pr eparar o conteúdo, poi s al gumas crianças trazi am materi al de cunho reli gi oso. Esta ati vi dade aconteci a no fundo da sala, e como o própri o nome sugere, sentávamos no chão, e m roda, para a l ei tura das estóri as. No entanto, quando a turma estava mai s agi tada, cada al uno permaneci a em seu l ugar.

A cada ano, a escol a soli ci tava aos pai s um l i vro de li teratura i nfantil e gi bi s para compore m a BIBLIOTECA D E SALA. Ao fi nal do período leti vo, os li vros permaneci am co m a turma, i ncrementando o acervo. Pel o menos u ma vez por semana a l ei tura era fei ta pelas cri anças, i ndi vi dual mente ou em dupl as. Quando organi zadas por mi m, co mpunha as duplas com u ma cri ança já que já soubesse ler e outra que ai nda não. Houve mo mentos em que os li vros fi cavam à di sposi ção para li vre escol ha das cri anças; em outros, eu determi nava a pri mei ra obra a ser li da para que, depoi s, cada criança defi ni sse as próxi mas. Nesse mo mento de l ei tura, todos aprovei tavam para conversar sobre a estória e as i magens ou l evantavam questi onamentos e m relação ao assunto li do. Os li vros fi cavam e xpostos na sal a e as cri anças ti nham l i vre acesso durante todo o horário das aulas.

Vi sitávamos a BIBLIOTECA DA ESCOLA uma vez por semana para a reali zação de di ferentes ati vidades envol vendo a l ei tura. Houve l ei tura li vre, si tuações em que di sponi bili zei os li vros nas mesas e mo mentos quando indi cava a estante para reti rarem os l i vros. Costumava l er para um pequeno grupo ou para toda a turma. Nesta vi si ta, as cri anças escol hi am u m l i vro para l ei tura em casa.

O ARQUIVO POÉTICO foi um presente que a turma ganhou do Segundo Ano Vermel ho como boas -vindas ao CP/UFMG. A professora da turma e seus al unos nos presentearam com u m Envel ope Poéti co. Como o nome sugere, recebemos u m pacote chei o de poemas os quai s os al unos veteranos vi eram à nossa sal a para decl amar, com a proposta de que os novatos conhecessem mai s poesi as. A professora do

segundo ano l ançou um desafi o para mi nha turma, consi stindo em me mori zar os poemas se m o apoi o da l ei tura. A me mori zação permi ti u que nos aproxi másse mos daquel e gênero escri to por mei o da práti ca oral de decl amação. Aprovei tei os textos me mori zados para desenvol ver ati vi dades de l ei tura e de escrita. O tópi co ESCRITA, por sua vez, pressupunha um rol de ati vi dades vol tadas para a compreensão sobre o funci onamento da mes ma. As ati vi dades poderiam s er fei tas no li vro di dáti co ou em fol has xerocadas com exercíci os el aborados por mi m. As tarefas da HORA DE ESCREVER v ol tavam-se pri mordial mente para a produção de textos i ndi viduai s, em dupl as ou em col eti vos. Ambos os tópi cos contempl avam: resol ução de exercíci os, produção de cartas, sínteses/resumos, bi l hetes, cartões pessoai s, agenda de contatos tel efôni cos, respostas às questões de i nterpretação de textos, desenhos, emi ssão de opi nião e cópia de textos el aborados pel a turma.

Havi a um acordo entre os professores concernente à quanti dade de dever de casa e ao dia da semana para qual cada um desi gnari a tarefas específi cas. Esta estratégi a evi tava o excesso de tarefas de casa em u m úni co di a. No meu caso, as cri anças l evavam o PARA CASA d e Português uma vez por semana, cu jo conteúdo objeti vava dar conti nuidade ao trabal ho de sala ou preparar a ati vi dade da próxi ma aul a. Correções eram fei tas em sal a, oral mente: cada al uno deveri a l er suas respostas e a avali ar a necessi dade de correção.

Para o DESENHO, ati vi dade frequente, eu sugeri a di versos moti vos. Incenti vava -as a desenhar, por exempl o, algo que compusesse um cartão de ani versári o para um col ega de sal a ou ami go da turma, propunha tema l i vre, il ustração de ati vi dade ou de li vro li do em sal a, entre outros. As crianças di spunham de u m caderno destinado excl usi vamente para desenhar, mas, na mai ori a das vezes, uti li zaram fol has avul sas. Val e fri sar que o desenho não estava di retamente rel aci onado à

acompanhasse produções textuai s. Pri vil egi ei o desenho como ati vi dade l údi ca, permi ti ndo que as cri anças desenhassem se m nenhum i nteresse e/ou objeti vo pedagógi co.

O RECREIO estendi a -se das 15h20mi n às 16h, quando a turma l avava as mãos, lanchava e bri ncava. O CP/UFMG ofereci a a merenda gratui ta, mas al guns alunos preferi am trazer seu lanche de casa ou o comprava m na canti na da escola. Todos usavam o espaço do refei tóri o para l anchar, acompanhados da professora que es ti vesse em sal a antes do recreio. Após o l anche, as cri anças brincavam pel o pátio e quadras. O recrei o era moni torado por estagiári os que, al ém de cui dar das crianças,