2.5. Gagauz Türkçesi
2.5.2. Gagauz Türkçesinin Temel Özelikleri
2.5.2.2. Ses Bilgisi (Fonetik) Özellikleri
A coleta de dados se completou com a estruturação de um corpus documental composto por entrevistas semiestruturadas, realizadas com 21 DMEs dos municípios selecionados, e que tinham por objetivo investigar de que forma se constituem as subjetividades construídas nos discursos dos DMEs e qual a natureza delas. Sobre a entrevista, especialmente em se tratando de capturar um elemento tão fugidio quanto a subjetividade, é necessário tecer algumas considerações sobre os pressupostos que justificaram sua utilização e orientaram sua formulação e aplicação. As entrevistas propostas na pesquisa buscaram capturar dados de natureza subjetiva, tais como atitudes, valores, opiniões, escolhas, bem como identificar elementos que possam reconstituir possíveis lógicas de ação compartilhadas pelos(as) DMEs.
A entrevista é um momento de organização de ideias, de expressão de valores e sentimentos por parte do entrevistado, e acaba, dessa forma, por enunciar no discurso subjetividades, um jeito de “estar no mundo” (FOUCAULT, 2004, p. 14). Na entrevista com o(a) DME, assim como com outros atores, este(a) acaba por assumir um duplo papel, ambos partes do objeto de estudo: “enquanto sujeito discursivo, age também como mediador entre o pesquisador e a realidade social mais ampla que se está investigando” (RANCI, 2005, p. 44). Nesse sentido, consideramos que seus enunciados não têm uma função neutra de portador de informações colocadas à disposição do pesquisador, “mas desempenha[m] um papel ativo que condiciona o processo cognoscitivo” (RANCI, 2005, p. 44) da realidade que o pesquisador busca compreender. O(A) entrevistado(a) também se apresenta como um sujeito que seleciona e ordena a realidade. E resistências em colaborar, por parte do(a) entrevistado(a), devem ser vistas não como uma simples rejeição à pesquisa, mas como uma incompreensão ou mesmo desconfiança, motivadas pelo distanciamento entre o mundo cultural do pesquisador e o do(a) entrevistado(a). Distanciamento esse que pode ser amenizado através da elucidação dos objetivos da pesquisa, da sua futura socialização e mediante a valorização dos saberes compartilhados entre o pesquisador e os(as) entrevistados(as).
No entanto, mesmo buscando diminuir esses distanciamentos, as diferenças entre o mundo cultural do pesquisador, que tem seu nome e imagem associados a uma instituição acadêmica, lugar de produção de saber, e o do(a) entrevistado(a), revelam-se em alguns momentos da entrevista com alguns(mas) dirigentes. Seja na forma do(a) DME construir suas frases, buscando mobilizar um léxico mais elaborado ou, como nas falas transcritas abaixo,
desculpando-se, mostrando insegurança, por talvez as respostas dadas estarem, em seu próprio julgamento, aquém dos objetivos da pesquisa:
Eu só me desculpo porque talvez eu não tenha um preparo, por causa da experiência no cargo, para chegar à altura das suas perguntas (VJ/PP/F).
Eu achei muito engraçado [nome do município] ser escolhido para essa pesquisa e espero que eu possa estar contribuindo de alguma forma para ajudar até melhorar alguma coisa dentro da educação. [Nome do município] é tão pequenininho, quase que ninguém conhece, escondidinho; o acesso aqui é até muito difícil, porque tem pouca mobilidade do pessoal, são ônibus com horários, então, assim, eu achei engraçado. Eu não sei se ajudei muito, mas estou muito lisonjeada de ter sido escolhida (MBH/PP/F).
Por essas razões, o aspecto relacional da entrevista deve ser considerado em suas últimas consequências, e o pesquisador deve ter consciência desse jogo relacional em que está implicado(a), no qual, dessa forma, estão presentes relações de poder, intencionalidades e expectativas mútuas, processos de reflexividade, conflitos, contradições, emoções, construções de imagens. Abbey e Zittoun (2010) descrevem a situação de entrevista como um processo de construção de um cenário específico estabelecido entre o pesquisador e o entrevistado; nas palavras das autoras, “no diálogo interpessoal, duas pessoas co-constroem um discurso, ambas têm usualmente a expectativa de haver um coentendimento, enquanto cada pessoa também produz algum sentido para o discurso” (ABBEY; ZITTOUN, 2010, p. 5, trad. nossa). Desse aspecto relacional decorre a importância do compromisso ético31 envolvido nesse instrumento de coleta de dados, visto que a entrevista produz uma intervenção no campo de ação dos sujeitos (MELUCCI, 2005). Essa intervenção pode se manifestar sob uma ótica positiva, como revelam as duas DMEs em suas considerações finais comentando a respeito do momento dedicado à entrevista:
Eu que agradeço, apertado é mesmo, é muito serviço, estou aí com a folha de pagamento, tem que assinar, eu sei que é apertado mesmo, mas vou te falar a verdade, gostei, gostei, achei bacana, sabe, é bom a gente também dar uma parada, a gente dá uma refletida sobre o todo. Refletir, foi um momento para mim de reflexão (OM/GP/F).
Eu acho que é interessante para gente, é uma troca, a partir do momento que você fala, olha isso aí é bacana, tinha até esquecido, é bom (CM/MP/F).
Para as dirigentes, a entrevista, mesmo tomando parte do seu tempo, revelou-se um momento que possibilitou uma reflexão sobre suas atividades, sobre os projetos desenvolvidos na secretaria. Esse aspecto revela que efetivamente a entrevista produz, como
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Cabe destacar que o roteiro de entrevista proposto (ANEXO A) foi analisado e aprovado pelo Conselho de Ética na Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (COEP/UFMG), conforme ANEXO C.
nos informa Melucci (2005), uma intervenção no campo de ação do sujeito, pois processos de reflexão são, também, orientadores de condutas.
Outro aspecto que não foi negligenciado no decorrer do campo de pesquisa e para a análise dos discursos diz respeito às “estratégias de ocultamento” por parte do(a) entrevistado(a). Aspecto este relevante em se tratando de entrevistas com DMEs, que podem ocultar informações que lhes pareçam ameaçadoras ou desqualificadoras (SZYMANSKI, 2004), como foi o caso de duas dirigentes entrevistadas, que ocultaram o fato de serem esposas dos prefeitos. Uma delas só revelou ao final da entrevista, já com o gravador desligado, enquanto a segunda nem chegou a revelar, mas foi possível descobrir a partir de fotografias, e suas legendas, presentes no prédio da prefeitura do município, onde também funciona a Secretaria Municipal de Educação. Como nos alerta Charaudeau (2006), um dos paradoxos da comunicação humana consiste em distinguir entre o que o falante é e o que ele diz ser, pois “todo sujeito que fala pode jogar com máscaras, ocultando o que ele é pelo que diz, e, ao mesmo tempo, o interpretamos como se o que ele dissesse devesse necessariamente coincidir com o que ele é. Há uma espécie de desejo de essencialização” (CHARAUDEAU, 2006, p. 116). Esse aspecto nos remete à discussão da construção do ethos discursivo, tema abordado no Capítulo 5.
A par desses condicionantes a respeito desse instrumento de coleta de dados, e tendo por orientação os objetivos traçados no projeto de pesquisa, foi elaborado um roteiro de entrevista (ver ANEXO A) a partir das seguintes categorias: pertencimentos sociais, trajetória político-profissional, vida associativa, relações estabelecidas com outros atores envolvidos no processo educacional, conhecimentos mobilizados para o desenvolvimento de suas funções e prioridades na gestão. Para cada uma dessas categorias, foram traçados objetivos a serem alcançados com as questões propostas aos(às) DMEs, sempre com a finalidade de se capturarem elementos que possam elucidar os processos de constituição de suas subjetividades. Foram também relacionadas, para cada bloco de questões, aquelas que denominamos de “apoio”, pertinentes à categoria, mas que não foram formuladas diretamente para os(as) entrevistados(as), pois era esperado que estes abordassem espontaneamente em suas falas tais temas, tendo em vista que a ausência ou presença mais marcantes de tais questões era também objeto de análise, por demonstrar enfoques específicos.
Revelar as pertenças sociais dos(as) DMEs, primeira categoria do roteiro de entrevista, tinha por objetivo, primeiro, comparar os estudos que traçam o perfil desses dirigentes, especialmente o realizado pelo Inep (BRASIL, 2011), com a nossa amostra. Além disso, esses pertencimentos sociais são elementos constituintes de subjetividades, visto serem, por
exemplo, determinantes nesses processos de constituição o gênero do(a) DME, o que, em última instância, pode ser um fator-chave para se compreenderem as formas de como conduzem suas ações, como atestam os estudos de Duarte e Cardoso (2013).
Após a coleta desses dados, que ocorre já com o gravador ligado, pois geralmente o(a) entrevistado(a) discorre sobre algum dos itens, é solicitado ao(à) DME que descreva uma semana típica de atividades frente à secretaria. A segunda categoria do roteiro de entrevista tinha por objetivo que o(a) dirigente detalhasse sua rotina semanal, para que pudéssemos capturar seus posicionamentos frente às funções que exerce, bem como tentar identificar os condicionantes de suas lógicas de ação.
A terceira categoria estabelecida para o roteiro de entrevista com o(a) DME diz respeito à sua trajetória político-profissional, a qual tinha como objetivo analisar a relação particular que esse ator estabelece com o mundo social (MARTUCCELLI, 2002), as formas que o indivíduo constrói para se conduzir (FOUCAULT, 1984), as quais, no caso específico, seriam as maneiras como o(a) DME trilhou sua trajetória até ocupar o cargo de Secretário(a) Municipal de Educação, suas experiências profissionais relacionadas ou não à área educacional, bem como as dificuldades e os momentos gratificantes no percurso. Trata-se da dimensão diacrônica de sedimentação de subjetividades.
A vida associativa do(a) DME é o foco de investigação da quarta categoria presente no roteiro de entrevista, que tinha como objetivo principal expor as práticas sociais dos(as) DMEs, nas quais pode ser capturado certo modo de encarar as coisas, de estar no mundo, de se relacionar com os outros, de modo a compreender os processos interacionais desse(a) dirigente para a elaboração de um “trabalho ético” (FOUCAULT, 2004). Buscamos com essa categoria revelar as relações dos(as) DMEs com a comunidade em que está inserido(a), com seus grupos religiosos, suas associações, e também com outros movimentos sociais organizados, tais como sindicatos. Procuramos, ainda, que o(a) dirigente tratasse de seus momentos de lazer, das formas de uso de seu tempo livre.
Partindo da relação com instâncias coletivas de participação, buscamos na categoria seguinte compreender as relações estabelecidas com atores individuais – pais, alunos(as), diretores(as) de escolas, docentes, prefeito(a), vereadores(as), membros do Conselho Municipal de Educação – e coletivos envolvidos no processo educacional para, dessa forma, reunir elementos que dizem respeito ao “estado de consciência moral” (MARTUCCELLI, 2002) dos(as) DMEs, revelar as justificativas sobre o que fazem ou deixam de fazer, evidenciar a tensão existente entre suas convicções e suas ações. Entendemos que são nessas relações com outros atores, e nas formas como são externalizadas, que os(as) DMEs revelam
suas concepções, seus enfrentamentos, seus dilemas éticos, enfim, suas subjetividades. Ao indagarmos sobre situações que obrigam os(as) DME a estarem em atividades fora da secretaria ou do município, procuramos indícios de suas relações intra e intersistêmicas, bem como das formas pelas quais se dão a reflexão e o reconhecimento do outro a quem a ação é orientada.
A sexta categoria estabelecida para a entrevista com os(as) DMEs diz respeito aos conhecimentos mobilizados para o desenvolvimento de suas funções. Buscamos verificar as formas de incorporação rotineira de conhecimentos novos e situações de ação e identificar as formas como se deu a preparação para a atuação como DME. Essa categoria visou investigar as expectativas e as dificuldades encontradas pelos(as) DMEs no exercício de suas funções, bem como o papel de instâncias formadoras, como a Undime, na constituição de suas subjetividades. Procuramos, ainda, compreender os critérios utilizados para a composição da equipe de trabalho do(a) dirigente. A compreensão das formas como os(as) DMEs mobilizam conhecimentos é um dos elementos necessários para o entendimento da constituição de suas subjetividades, pois trazem consigo valores, ideias e concepções acerca do campo político- educacional, que são referências para suas tomadas de decisões.
A sétima categoria alvejou as prioridades na gestão teve por objetivos desvendar as relações entre o que se é, o que se pode fazer e o que se é obrigado a fazer (FOUCAULT, 1985); buscar evidências que apontem como os(as) DMEs se submetem ou não frente a um princípio de conduta; identificar quais valores constroem em relação à qualidade da educação; apontar de que maneira ocorre naturalização de determinados processos educacionais, que são, de fato, históricos, além de identificar suas concepções pedagógicas. Destaca-se, nessa categoria, a busca por identificar indícios de uma possível governança por resultado. Nessa categoria de questões, o propósito foi identificar a interação entre o substrato das regulações dos sistemas educacionais e os processos de constituição de subjetividades. Foi solicitado aos(às) DMEs que fizessem um balanço de sua gestão, destacando o que conseguiram realizar e o que ainda não haviam conseguido. Dessa forma, foi possível que, indiretamente, apontassem suas prioridades, a valoração dada a determinados aspectos de suas ações.
A oitava categoria encerra o roteiro com o espaço para que o(a) DME teça suas considerações finais, aborde temas ou questões que considere relevantes e que não tenham sido abordados na entrevista. Nesse momento, muitos dos(as) DMEs, além dos agradecimentos, discorreram sobre projetos desenvolvidos, ou em desenvolvimento, no município, queixaram-se da carência de recursos destinados à educação, reafirmaram a crença no desenvolvimento do país através da educação, ocasião, portanto, de potencial capacidade
para revelar valores, escolhas e para reforçar uma determinada imagem que o(a) dirigente procurou transmitir.
De posse desses instrumentos de coleta de dados e tendo a consciência da natureza e especificidades de cada um deles, partimos para a pesquisa de campo, com vistas a capturar os aspectos elencados nos objetivos da pesquisa.