• Sonuç bulunamadı

Vejamos o testemunho deste professor diante do desacato a norma na sala de aula e as considerações que ele tece sobre esse acontecimento.

Hoje teve uma situação que aconteceu com uma menina que é mais caladinha, na dela. Ela tem até fama de dar muito trabalho. Eu trabalho com ela desde o ano passado e nunca tivemos um atrito. [...] Hoje a aula estava correndo solta e eu olho e vejo a aluna rabiscando a lápis a mesa toda. Quando eu vi aquilo, me deu vontade de fingir que não tinha visto nada. Pensei: isto vai dar trabalho, vai dar confusão, deu vontade de lavar as mãos e fechar os olhos. [...] Nisso alguém me chamou para olhar o caderno. Aí pensei: não vou deixar passar, apesar de ter ouvido dizer que a aluna é bruta. Cheguei perto dela e falei: Você vai apagar isso aí. E ela respondeu: Dá para esperar? Isso num tom de desafio. Aí eu fiquei feliz, pois se ela disse para esperar é porque ela iria apagar. Aí nessa hora citei o trabalho das pessoas da limpeza que são mães, são pessoas que moram onde você mora, lutam muito na vida. Você tem obrigação de cuidar das carteiras e deixar todas limpas. Aí eu senti necessidade de ter energia naquela hora e falei: Elas são pagas para limpar as salas e não satisfazer caprichos de adolescentes. [...] Se não limpar a carteira, vamos trazer a diretora aqui e isso vai dar o maior rebu. Virei as costas e continuei a dar a aula olhando os cadernos e tal. Aí eu olhava para lá e vi que ela apagou tudo. Deu vontade de ir lá e agradecê-la, mas é claro que eu não fiz isso. Porque às vezes tem aluno nessa situação que enrola e não apaga tudo e eu páro a aula, olho, volto a dar aula. Muitas vezes o colega dá um toque no que fez o rabisco. Às vezes eu acho que demoro muito para tomar uma atitude.

(Prof. Evaldo – 7a. reunião).

Nesse depoimento, o fato de a aluna rabiscar a carteira incomoda o professor e o faz interromper a aula de matemática para resolver tal incidente, o que se coaduna com a reação dos professores dos eventos precedentes. Em tais eventos, constata-se

que a indisciplina dos alunos se impõe no processo de ensino-aprendizagem como um acontecimento que rompe com o trabalho teórico e leva os professores a interromperem suas aulas para tratarem daqueles atos. No primeiro episódio apresentado, o aluno que picha a carteira dá provas de sua contribuição para a depredação da escola e faz interromper o andamento da aula. No segundo, a aula de matemática é interrompida por causa do gesto obsceno da aluna dirigido à professora sinalizando o desrespeito daquela.

No caso em pauta, a cena da aluna rabiscando a carteira faz o professor hesitar: Devo ou não fazer alguma coisa em relação à indisciplina? Talvez ele não precisasse tratar aquela questão ali na hora e pudesse fazer um comentário com a aluna no final, pois a ação da discente pareceu não interferir no desenvolvimento teórico da aula, de acordo com o que se pode apurar no seu depoimento. Pode-se supor que para o docente aquele ato estaria ligado à questão moral, no sentido de se cobrar uma postura do que é certo e errado, do que se deve ou não fazer numa sala de aula. Apesar de tudo, o professor toma a atitude de conversar com a aluna, mesmo sabendo das conseqüências que tal conversa pode ter - isto vai dar trabalho, vai dar confusão [...] não vou deixar

passar apesar de ter ouvido dizer que a aluna é bruta. Ele tem uma idéia de que pode

estar procurando confusão, de que isso vai dar o maior rebu se a aluna lhe responder mal. Ainda assim, mesmo diante da sua hesitação, em função do que ele conhecia da aluna, o docente interrompe o processo de ensino-aprendizagem para inscrever a indisciplina. Cheguei perto dela e falei: Você vai apagar isso aí. E ela respondeu: Dá

para esperar? Teria sido suficiente essa intervenção do professor, se ele se desse por

satisfeito. Mas não, ele rende o assunto, desnecessariamente, apesar de a aluna responder prontamente à sua demanda. Destaca-se como importante aqui — e que é algo da ordem subjetiva do professor — é que ele interrompe sua aula de matemática e faz um investimento na possível confusão, na indisciplina da aluna. Ele envereda pela via da lição de moral que não cabe naquele momento e ainda deixa o restante do grupo de alunos sem aula. Aí nessa hora citei o trabalho das pessoas da limpeza que são

mães, são pessoas como você, que moram onde você mora, lutam muito na vida. [...] elas são pagas para limpar as salas e não satisfazer caprichos de adolescentes. [...] Se não limpar a carteira vamos trazer a diretora aqui e isso vai dar o maior rebu. Você tem obrigação de cuidar das carteiras e deixar todas limpas. Nesse ponto, a lição de

de Jean Piaget20, em que prevalece o cumprimento da obrigação, do dever.

Esse tipo de moral procede dos elos de autoridade e do respeito unilateral e, por conseguinte, da coação deriva a heteronomia moral. Esta é decorrente da obediência da criança ou do jovem ao adulto, numa relação dissimétrica.

As vezes eu acho que demoro muito para tomar uma atitude. Nesse episódio, a

opção de interromper a aula imediatamente contraria o que o docente acabou de dizer, mesmo que sua atitude não tenha nada a ver com a matéria ensinada. Apesar de o professor declarar que preferia não ter visto nada, isso dá lugar a uma cogitação sobre o que fazer para conter a indisciplina. Qual será a reação da aluna? O professor começa a imaginar os efeitos de sua reação. Qual é o tratamento que ele dá para esse ato imprevisto? Ele tenta impedir a ação da aluna, e é surpreendente como tal evento interrompe o processo de ensino-aprendizagem em curso e abre um grande parêntese para a questão disciplinar na sala de aula. Neste ponto, é como se a indisciplina dos alunos não pudesse ser esquecida. Para o professor, exigir disciplina se torna mais importante do que prosseguir a aula. Pode-se ainda supor que, em determinados tipos de episódios que envolvem um grande número de alunos ou afetam o andamento da aula, a questão disciplinar não possa ser esquecida e sejam necessárias providências imediatas dos professores.

Cabe aqui interrogar: o que este episódio tem em comum com os precedentes? Qual é o elemento novo que o diferencia? Como destacado anteriormente, o ponto em comum refere-se à interrupção da aula de matemática pelos professores para tratar da indisciplina. Esta é tratada fora do campo do ensino-aprendizagem, promovendo assim uma cisão. O elemento novo que surge e parece esclarecedor em relação aos outros é que este episódio mostra a necessidade de o professor “dar corda” à questão disciplinar recorrendo a uma espécie de sermão. Ele precisa discutir com a aluna mais do que o necessário, ou melhor, ele fala sozinho. O que se pode notar é que o professor sente um profundo incômodo com o fato de a aluna rabiscar a carteira, há algo de insuportável nisso para sua subjetividade. E mais que isso: o professor simplesmente interrompe a aula de matemática. Ele faz da sala de aula um palco no sentido de que a lição de moral dirigida àquela aluna sirva também para o restante da turma.

20

(PIAGET, [1932]1977). Desenvolveremos, adiante a teorização de Piaget sobre o julgamento moral na criança.

Pode-se verificar, nesse episódio, assim como no evento da pichação, que a reação dos professores foi a mesma: interrupção da aula de matemática para fazer inscrever a indisciplina. É curioso que eles a colocam fora do campo do ensino- aprendizagem operando assim uma cisão. Há outro fato que nos surpreende, nesses episódios: o tipo de tratamento dado à indisciplina pelos docentes, que se repete na tentativa de controlar, com sua autoridade, as ações dos alunos.