Este professor foi surpreendido pelo ato inesperado de sua aluna. Vejamos o que ele nos revela:
Tive um problema com uma aluna que estava jogando papel no chão. Chamei a atenção dela e falei: Minha filha, você não está na sua casa. Sua família lhe permite fazer um troço desses? E aí eu fui falando do papel importante da família e tal. Ela disse que eu estava metendo o pau na família dela. Na hora que eu saí da sala para atender a supervisora, ela saiu deliberadamente, foi na direção da escola e falou horrores de mim. Eu só falei: Minha filha me desculpe, se eu disse do jeito que você está falando agora. Você não me leve a mal, pois você não está acostumada com esse tipo de educação, não. Você sentiu-se ofendida porque eu lhe cobrei uma postura. O vice-diretor e diretora ficaram do lado da aluna. Em momento algum, eles questionaram a atitude dela de jogar papel no chão. Questionaram sim o que ela falou de mim e nem me ouviram. Então eu tomei uma atitude também. A partir daquele momento, eu não falo mais nada naquela escola. Vou ser simplesmente um "dador" de aula e não um educador. Chego lá e dou a minha aula. O aluno que aprendeu, bem; o que não aprendeu, tchau. Vou arrebanhar os que são bons. [...] Desde o primeiro dia de aula, eu tive um embate com essa aluna, justamente, porque eu cobrei dela uma atitude diante do exercício, da atividade na sala de aula que ela não fez. Então, criou uma antipatia, ela não gosta de mim, literalmente. [...] Então, quando às vezes muitos professores tomam atitude de surdo e mudo e a sala fica de qualquer jeito [...]. Pôxa, você toma uma postura e ali na direção eles passam a mão na cabeça do infrator.
(Prof. Dante – 5a. reunião).
A partir do episódio acima relatado, o professor localiza o impasse com a aluna no plano do imaginário21, justamente, porque, no primeiro dia de aula, já havia sido
21
Quando qualificamos de imaginário um tipo de vínculo entre as pessoas, estamos nos referindo ao “registro imaginário”, conceito que Lacan introduziu em seu ensino. “O imaginário deve ser entendido a partir da imagem. Esse é o registro do engodo, da identificação. Na relação intersubjetiva, é sempre introduzida alguma coisa fictícia, que é a projeção imaginária de um sobre a tela simples em que o outro
criada uma antipatia quando ele cobrou da aluna uma atitude diante do exercício que ela não fez. Eu cobrei dela uma atitude diante do exercício, da atividade na sala de
aula que ela não fez. Então, criou uma antipatia. Constata-se que, no início do
depoimento, outro impasse é criado, exatamente quando o professor cobra, de novo, da aluna uma atitude e ela não responde da forma que ele esperava. Dessa maneira, o docente diz para a aluna o que é correto fazer na sala de aula e ela parece dizer: não é correto. Há uma falta de resposta da aluna. Minha filha, você não está na sua casa. Sua
família lhe permite fazer um troço desses? E aí eu fui falando do papel importante da família e tal. Ela disse que eu estava metendo o pau na família dela. Como se pode
notar, há uma repetição das mesmas cenas, ou seja, o modo como o professor privilegia a questão do dever (obrigação). Ele cobrou uma atitude da discente diante do exercício e ela não respondeu; cobrou outra atitude perante o ato de jogar papel no chão, e a aluna, também, não respondeu da forma esperada. Parece-nos que aqui a questão é cobrar uma atitude da aluna, no sentido de apontar um modo de se comportar corretamente na sala de aula. Por que isso gera antipatia? Porque o docente cobra algumas atitudes, e a aluna não responde do modo como ele espera, ou simplesmente, ela não responde.
O professor não se detém somente na ação específica da aluna — jogar papel no chão — e vai além falando sobre o papel importante da família, fazendo uma espécie de sermão. Dito de outra maneira, o docente dá uma lição de moral, e a idéia dessa lição é a cobrança de atitudes, do cumprimento do dever pela aluna.
Lajonquière (1996) faz uma discussão sobre a lei e a norma quando se refere à indisciplina na escola e aponta que há, na atualidade, um debate pedagógico sobre a conveniência psicológica da lei. Ressalta que é curioso esse debate, pois, duvidar da necessidade de existir obrigações escolares, deriva da ilusão de se dispensar a existência da lei no campo subjetivo. O autor sustenta que, no cotidiano escolar, não imperam leis, mas, quase leis, ou, que, se quisermos, apenas regras e normas morais.
“Enquanto a lei é a expressão da vontade geral de renunciar a alguma coisa (aquilo que a lei proíbe), a regra, ao contrário, é o princípio constitutivo de hábitos morais, isto é a lei proíbe e abre um leque de possíveis-outros. Entretanto, a regra prescreve categoricamente a prática de atos concretos.
se transforma. É esse o registro do eu, com aquilo que comporta de desconhecimento, de alienação, de amor e de agressividade, na relação dual” (CHEMAMA, 1995: 104).
Em suma a lei diz: “não faça isso porém faça outra coisa”; a regra formula o imperativo de fazer como todos, ou caso contrário, não fazer nada”.
(p.30 — grifos do autor)
Assim, por um lado, a lei se funda numa contingência simbólica, e, por outro, a regra impera diante da necessidade imaginária de fazer Um-Todo graças à negação de qualquer alteridade. Dizendo de outra maneira: O estatuto da lei é simbólico; o da regra é imaginário.
Pode-se constatar que, em referência ao episódio de jogar papel no chão, o professor localiza o impasse no plano do imaginário em que impera a regra e a moral, conforme nos afirma Lajonquiière (1996). Nesse caso, a regra já prescreve o conteúdo, ou seja, deve-se fazer como todos fazem, daí a vontade do professor de que o dever seja cumprido.
A aluna sente-se ofendida, pois não aceita que lhe dê lição de moral, especialmente, porque o professor se refere à sua família. Sua contra-reação efetua-se no sentido de se encaminhar à diretoria da escola para fazer uma reclamação do professor. Nesse sentido, o docente sofre as conseqüências do seu ato, pois não é convidado a participar da conversa na sala da diretoria e se sente excluído. O Vice-
diretor e a Diretora ficaram do lado da aluna. Em momento algum eles, questionaram a atitude dela de jogar papel no chão. Questionaram, sim, o que ela falou de mim e nem me ouviram.
Pode-se notar que, em episódios parecidos com esse, alguns alunos até aceitam determinadas lições de moral dos professores sem expressarem desobediência ou desacordo, são os chamados “bons alunos”, e são benquistos por eles. Aqui, no entanto, a aluna reage diante da lição de moral do professor. O professor sente-se incomodado porque, no impasse instaurado com a aluna, sofre as conseqüências pela atitude tomada, ao contrário do que ocorreu no episódio precedente, em que a aluna respondeu prontamente à ordem do professor não lhe trazendo complicações.
Verifica-se que há uma reação da aluna, provavelmente, não esperada pelo professor que provoca nele um profundo mal-estar expresso no seguinte fragmento:
Vou ser simplesmente um “dador” de aula e não um educador. Essa frase bastante
curiosa nos leva a interrogar: o que seria um “dador” de aula? Na idéia do docente, parece ser: Chego lá e dou a minha aula. O aluno que aprendeu, bem, o que não
professores tomam atitude de surdo e mudo. [...] Ali na Direção eles passam a mão na cabeça do infrator.
Pode-se deduzir que para esse professor a educação tem duas funções, a saber: uma que é a de ensinar a respectiva disciplina para a qual foi formado; e a outra função relaciona-se à educação moral e à civilidade dos discentes. O fragmento acima tomado para ilustrar a divisão de funções que ele coloca em relação à educação parece confirmar a nossa tese de que os professores operam uma cisão entre as relações com os alunos e o processo de ensino-aprendizagem.
É curioso que, nesse evento, a indisciplina se inscreve como impasse para esse professor e, como ocorreu nos episódios precedentes, também, leva à interrupção da aula de matemática, envereda pela lição de moral que, a nosso ver, não deixa de ser uma forma de controlar o ato da aluna. Basta pensar na moral da coação, que é um dos dois tipos de moral, encontradas na teoria de Piaget22 em que impera o cumprimento
do dever.