3.6. DEVLETİN KURULUŞU VE DEVLET BAŞKANLIĞI
3.6.6. Ordu Komutanı Olarak Hz Muhammed (SAV)
Ainda que seja possível encontrar, nas formulações freudianas, vestígios consistentes de um certo apego à lógica imaginária, designado, para os efeitos deste trabalho,
pregnância imaginária, não é possível desconsiderar que a psicanálise, desde seu nascimento,
traz marcas profundas e indeléveis de uma maneira muito peculiar de produzir conhecimento, via empreendimento científico, sobre o funcionamento psíquico. Freud, como bom filho do fisicalismo alemão que era, foi incansável em seu objetivo de tratar cientificamente as manifestações e estruturas psíquicas. Portanto, ao lado da referida pregnância imaginária e de possíveis obstáculos epistemológicos a ela associados, encontram-se também, na teorização freudiana, exemplos bastante fecundos de como construir conhecimento científico por meio de um exercício criterioso da abstração, do remanejamento e da retomada de pontos de vista – por meio da mediação simbólica, portanto.
O início da produção teórica de Freud foi marcado por um clima de instabilidade e de inquietação. A correspondência com Fliess permite captar esse sujeito atormentado, que insistiu em avançar em suas investigações, a despeito das dificuldades que surgiram em seu percurso. O pensamento freudiano é flexível, maleável; Freud não hesitou em retomar e desconstruir formulações já estabelecidas, visando a uma melhor precisão conceitual. Contudo, também há, em suas formulações teóricas, elementos capazes de evidenciar certo apego ao já estabelecido. Com relação a essa coexistência de privilégios, ora da lógica imaginária, ora da lógica simbólica no pensamento freudiano, um comentário de Lacan, a
respeito de Lévi-Strauss, parece esclarecedor: ele considerou haver, naqueles que introduzem idéias novas, um movimento freqüente de hesitação em manter-lhes todo o gume (1985[1955], p.46).
Freud reconheceu, atuando nos seres humanos, um conflito essencial, que constitui o exato avesso de qualquer explicação do mundo que recorra ao argumento segundo o qual há uma tendência natural a criar formas superiores. Sua experiência médica lhe permitiu ter contato com um tipo de sofrimento, no homem, que guarda relações com um conflito fundamental que ultrapassa o ser humano. Conforme salientou Lacan (1985[1955], p.105), ele não apenas estranhou, como também repudiou expressamente, a crença em um progresso imanente ao movimento da vida. E esse “pessimismo” inerente ao pensamento freudiano suscitou as mais diversas modalidades de rejeição a suas idéias desbravadoras. Na Lição IV do
Seminário II, Lacan (1985[1955], p.58) comentou que, assim como em uma análise, a
transmissão da psicanálise também lida com resistências, cuja sede é sempre o eu, aqui entendido como soma daquilo que o sujeito crê saber. Uma perspectiva nova, descentrada em relação à experiência prévia, conduz invariavelmente a tentativas de reencontrar o equilíbrio ou o centro habitual dos pontos de vista. Isso pode ser considerado um sinal de resistência, e a hesitação freudiana em manter todo o gume de sua descoberta pode ser considerada decorrente da atuação disso que resiste.
Entretanto, essa hesitação da parte de Freud não foi suficiente para impedir a emergência fulgurante da novidade veiculada por sua descoberta. O avanço da teoria psicanalítica não foi inviabilizado por tal hesitação. Ao contrário, floresceu em terreno fértil e descortinou uma inteligibilidade inédita sobre o funcionamento psíquico. Com relação à maneira freudiana de produzir conhecimento, Lacan (1985[1956], p.16-17) afirmou que o ensinamento de Freud introduziu móbeis que se encontram para além da experiência imediata, e que não podem ser apreendidos de maneira sensível. A experiência imediata não pode ser considerada a medida da elaboração a que um empreendimento científico deve chegar; por isso, nas formulações freudianas, não é o fenômeno que é retido, mas algo que está atrás e que o condiciona. Para o autor francês (1985[1955], p.58) há, no pensamento de Freud, um movimento que nunca está acabado, que não se formula em uma edição definitiva ou dogmática, e que deve ser apreendido por aqueles que se dispõem a estudar e a transmitir a teoria psicanalítica.
Os exemplos desse movimento, que em última instância pode ser considerado porta-voz da provisoriedade que acompanha toda produção de conhecimento, são inúmeros e variados na obra de Freud. Em A interpretação dos sonhos (1900), obra inaugural da psicanálise por apresentar o modo próprio de funcionamento do simbólico nos seres humanos, encontram-se algumas afirmações freudianas bem características do acolhimento, por parte de Freud, dessa dimensão de inacabamento de todo conhecimento científico. As afirmações enfatizam o fato de, para ele, as hipóteses se constituírem como recursos provisórios, que devem aguardar confirmações posteriores. Aplicando este raciocínio ao vocabulário utilizado por Bachelard (1996[1938]) para apresentar suas idéias acerca do desenvolvimento do espírito científico, pode-se dizer que Freud se dispôs a submeter suas hipóteses à dimensão do controle social, ou seja, que ele superou a necessidade de permanecer, confortavelmente, instalado em sua própria visão de mundo. Nas suas palavras,
[...] as hipóteses psicológicas a que somos levados por uma análise dos processos do sonhar devem ser deixadas, por assim dizer, em suspenso, até poderem ser relacionadas às descobertas de outras investigações que buscam abordar o âmago do mesmo problema desde outro ângulo (ESB, 1969, vol. V, p. 545).
A segunda afirmação que coloca em evidência o cuidado freudiano, no que concerne à provisoriedade de suas hipóteses, guarda relações com uma justificativa sobre sua estratégia metodológica de seguir suas especulações até o ponto em que seja possível manter a frieza de seu juízo, não tomando “os andaimes pelo edifício”(ESB, 1969, vol. V, p.572). Em outra passagem, é possível perceber o interesse freudiano em preservar viva a necessidade de que as formulações de um pesquisador possam ser submetidas ao controle social, inclusive no que se refere à posteridade. Freud, com relação ao inacabamento de sua investigação sobre a problemática da regressão nas formações oníricas, reconhecendo a precariedade do aparato conceitual utilizado, afirmou que
Bem poderá acontecer que a primeira parte de nosso estudo psicológico dos sonhos nos tenha deixado com uma sensação de insatisfação. Mas podemos consolar-nos com o pensamento de que fomos obrigados a construir nosso caminho na escuridão. Se não nos achamos inteiramente errados, outras linhas de abordagem estão fadadas a conduzir-nos para a mesma região e tempo chegará em que nos encontraremos mais à vontade nela (ESB, 1969, vol. V, p.585).
Toda a produção teórica de Freud é profundamente marcada por esse movimento, que aponta sempre para uma dimensão de imperfeição e de incompletude do conhecimento construído por meio de aproximações e abstrações sucessivas, no que concerne ao objeto investigado. Nesse sentido, apesar da presença nas formulações freudianas de uma pregnância
imaginária34, pode-se considerar o conhecimento produzido por Freud, a partir dos critérios e elementos norteadores apresentados por Bachelard (1996[1938]) e retomados no item anterior do presente texto, como genuinamente científico.