Devlet Memurluğu I. Memurluğa Giriş
A. Sınıflandırma:
Ao menos três grandes sistemas científicos e filosóficos parecem ter influenciado Freud: o naturalismo, o positivismo e o empirismo75. Tratemos brevemente deles.
a) Freud e o naturalismo
Quando hoje dizemos “ciências naturais” compreendemos facilmente que estamos nos referindo às ciências da Terra (o que inclui astronomia, física, química, geociências, oceanografia e as derivadas destas), às ciências biológicas, às agrárias e às da saúde; ao passo que se dizemos “ciências humanas” nos reportamos à psicologia, filosofia, teologia, sociologia, antropologia, arqueologia, história, geografia, educação e ciências políticas (não mencionando aqui outras áreas, inclusive as multidisciplinares)76. No contexto de Freud a situação era bem outra, e uma das classificações vigentes, que parecem tê-lo influenciado, era a que dividia as ciências em apenas dois grandes grupos. A esse respeito, acompanhemos Paul-Laurent Assoun (1983).
Em 1883 eclodia na Alemanha um grande debate sobre os métodos de investigação científica, decorrente da ascensão das chamadas “ciências do homem” ou “ciências do espírito”. Enquanto estas se caracterizariam, grosso modo, pelo método compreensivo, as “ciências
75 Outros pesquisadores certamente encontraram e encontrarão influências diversas destas três. Nosso ponto de vista é obviamente limitado e a questão permanece em aberto.
76 Conforme a Tabela das áreas de conhecimento do Conselho Nacional de Pesquisa e desenvolvimento tecnológico (CNPq, 2012).
naturais” se caracterizavam pelo método explicativo. Naquele ano, Wilhelm Dilthey, o principal teórico das ciências do espírito, acalorou o debate, publicando uma obra de introdução a elas. No ano seguinte, com Heinrich Rickert e Wilhelm Windelband, a clivagem dos métodos de ambas se acentuou, criando-se novas partições: “Com Rickert e Windelband, ficou traçada uma delimitação determinante entre ‘ciências da cultura’ e ‘ciências da natureza’; ‘ciências nomotéticas’ e ‘ciências idiográficas’” (ASSOUN, 1983, p. 47).
É neste tabuleiro que Freud cria a psicanálise e tem que posicioná-la. Tendo estudado com nomes eminentes da pesquisa médica de seu tempo (Carl Claus, Ernst Brucke e Hermann Helmoltz foram alguns), era inevitável que ele sofresse a influência do modelo naturalista. O naturalismo foi apresentado a ele antes mesmo de seu ingresso na Universidade, através de uma conferência pública do anatomista Carl Brühl, a qual Freud assistiu e que muito o sensibilizou – conferência na qual Brühl apresentou o ensaio “Sobre a natureza”, de Goethe (GAY, 1989, p. 39).
Formado em medicina dois anos antes da eclosão do debate citado, e sendo, ele muito atento à circulação das ideias científicas de seu meio, podemos perguntar por que Freud não explicitou sua posição sobre o debate, mas apenas insistiu em chamar a psicanálise de “ciência natural”. A resposta pode estar na interpretação de Assoun (1983):
Na epistemologia freudiana, pois, não há lugar para um dualismo... a distinção entre as
Geisteswissenschaften e as Naturwissenschaften remete a uma distinção de duas esferas axiologicamente diferentes... para Freud, a psicanálise é uma Naturwissenschaft: na realidade, não há, literalmente falando, ciência senão da natureza. Naturwissenschaft equivale, praticamente, a Wissenschaft (p. 50).
A indiferença ao debate dualista talvez se explique, também, quando consideramos que na base da epistemologia freudiana haveria, segundo o mesmo Assoun (1983), um monismo rigoroso baseado em outro autor influente sobre Freud: Ernst Haeckel (1834-1920). Este, considerado o inventor das noções de ecologia, ontogênese e filogênese (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 323), foi um eminente pesquisador e divulgador da teoria de Darwin na Europa entre os anos de 1870 e 1900. Recebeu do próprio Darwin um reconhecimento elogioso por ter elaborado de maneira mais profunda, ao lado de Fritz Müller, a lei da recapitulação (“a ontogênese repete a filogênese”), a qual foi citada e valorizada ininterruptamente por Freud ao longo de sua obra (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 323).
O fundamento monista de Haeckel, que provavelmente influenciou Freud, foi o da recusa à separação entre a natureza orgânica e a inorgânica:
Insistimos na unidade fundamental da natureza orgânica e inorgânica: esta última começou relativamente tarde a evoluir da primeira (sic). Não podemos mais traçar um limite exato entre esses dois domínios principais da natureza, nem tampouco podemos estabelecer uma distinção absoluta entre o reino animal e o reino vegetal, ou entre o mundo animal e o mundo humano. Consequentemente consideramos também toda a ciência humana como um único edifício de conhecimentos, e rejeitamos a distinção corrente entre
a ciência da natureza e a ciência do espírito. A segunda constitui apenas uma parte da primeira ou, reciprocamente, ambas constituem apenas uma ciência (HAECKEL citado por ASSOUN, 1983, p. 51). Se a natureza orgânica e inorgânica é uma só, as ciências todas serão de uma só “natureza”. Considerando sua sólida formação universitária, não faria sentido para Freud dizer que qualquer ciência não biológica ou não médica (à exceção das matemáticas), não fosse também uma ciência natural. Veremos adiante que Freud não recusava o estatuto de ciência a nenhuma daquelas que hoje são chamadas de ciências humanas. Para ele, todas as que estavam no ambiente acadêmico eram ciências77.
Segundo Garcia-Roza (2001), quando Freud utiliza a expressão composta “ciência natural”, ele estaria obedecendo a uma “exigência de rigor teórico-conceitual mais do que a uma exigência naturalista” (p. 78). Afinal, para ele, a ciência era o melhor caminho de acesso ao conhecimento. Segundo o autor, dizendo “ciência natural”, Freud queria dizer simplesmente “ciência”.
Encontramos no próprio Freud uma pista de que “natureza” em seu pensamento significa algo diferente do “natural”, no sentido em que hoje usamos este termo. Quando se refere ao “psíquico”, já no final de sua vida, ele escreve em “Algumas lições elementares sobre psicanálise”:
Se alguém fosse perguntar o que de fato é isso, o psíquico, seria fácil responder-lhe através da indicação de seus conteúdos. Nossas percepções, representações, lembranças, sentimentos e atos volitivos, tudo isso pertence ao psíquico. Mas se a pergunta fosse além, se todos esses processos não teriam alguma característica comum que tornasse possível nos aproximar mais da natureza ou, como também se diz, da
essência do psíquico, então seria mais difícil fornecer uma resposta (FREUD, 1938[1940]/2014, p. 211, itálico nosso).
Natureza como sinônimo de essência. E, vinte anos antes, quando definiu o psíquico, a palavra “natureza” já fora usada no sentido de “essência”: “aquilo que é psíquico, é tão único e singular que nenhuma comparação pode refletir a sua natureza” (FREUD, 1919[1918]/1980, p. 203).
77 Outro exemplo da influência de Haeckel sobre o fundador da psicanálise está na conhecida referência de Freud a Darwin e a Copérnico em sua Conferência “Psicanálise e psiquiatria”, de 1917, que tem o mesmo teor de uma ideia proposta por Haeckel pelo menos três décadas antes: “Assim como Copérnico (1543) desfechou o golpe mortal no dogma geocêntrico fundado na Bíblia, Darwin (1859) fez o mesmo com o dogma antropocêntrico intimamente conexo ao primeiro” (HAECKEL citado por ASSOUN, 1983, p. 221).
Assim, o “naturalismo” de Freud encontra uma explicação parcial na formação que ele recebeu quanto ao modo de compreender e nomear as ciências de sua época. Tanto há traços de influências das ciências naturais quanto das ciências do espírito em sua formação.
b) Freud e o positivismo
A segunda grande influência de época que forjou o pensamento de Freud foi a filosofia positivista. Influência que se apresentou a ele na figura de um de seus mestres mais importantes da universidade de Viena. Ernst Brücke foi o médico e pesquisador com quem Freud trabalhou em laboratório entre 1876 e 1882, e que o ajudou a desenvolver a autodisciplina para o trabalho. Ele era, em Viena, o representante mais eminente da medicina positivista, fazendo, inclusive, a junção desta filosofia com o naturalismo acima mencionado. “Era um positivista, por temperamento e convicção” (GAY, 1989, p. 48). E os partidários do positivismo “tinham a esperança de trazer o programa das ciências naturais... para a investigação de todo o pensamento e ação humanos, públicos e privados” (GAY, 1989, p. 48).
Lembremos que o ideário e a ideologia da ciência e da filosofia positivistas têm sua inspiração em Saint-Simon (1760-1825), sendo logo absorvidos e desenvolvidos pelo expoente maior dessa forma de pensamento, Auguste Comte (1798-1857) (SIMON, 1991). Chamamos de “ideário” tanto as normas, procedimentos e protocolos de investigação científica, tal como desenvolvidos pelos primeiros positivistas e, depois, aperfeiçoados ao longo do século XX nos métodos lógico-experimentais, quanto sua outra face: a ideologia positivista.
O ideário tem como carro-chefe a conhecida “lei dos três estados” do desenvolvimento da inteligência humana: estado teológico/fictício, estado metafísico/abstrato e estado positivo/científico (COMTE, 1830-1842/1978, p. 35).
Em Comte, o positivismo inicia valorizando o método observacional empirista, pois a verdadeira observação é “a única base possível de conhecimentos verdadeiramente acessíveis, sabiamente adaptados às nossas necessidades reais” (COMTE citado por SIMON, 1991, p. 123). Mas ele se afasta do empirismo por considerar tal corrente uma estéril acumulação de
fatos. Há que se estabelecer leis entre os fenômenos relacionados, diz Comte (1830-1842/1978). Como nos recorda Simon (1991), as teses fundamentais do positivismo são: (a) a ciência é o único conhecimento possível e seu método é o único válido; (b) o método da ciência positivista é puramente descritivo dos fatos e das relações constantes entre fatos e leis; (c) o
método deve ser estendido a todos os campos de indagação e da atividade humana. Os desdobramentos destas teses estão presentes na maioria das práticas científicas hoje reconhecidas como válidas pelas agências de incentivo, e pelas fundações e indústrias que fomentam pesquisas. O descritivismo/descricionismo próprio do método positivista encontra seu ápice, no que tange às ciências que lidam com o sofrimento psíquico, nos globalmente adotados manuais: Código Internacional de Doenças, da Organização Mundial de Saúde, e DSM, da Associação norte-americana de Psiquiatria.
Quanto à outra face do ideário positivista, ou seja, sua ideologia, transcrevemos um trecho da introdução de Slavoj Zizek para o livro Um mapa da ideologia (1996), por ele organizado. Trecho bastante esclarecedor, que pode ser aplicado ao que hoje costuma ser nomeado como “ideologia cientificista”:
Assim, uma ideologia não e necessariamente "falsa": quanto a seu conteúdo positivo, ela pode ser "verdadeira", muito precisa, pois o que realmente importa não é o conteúdo afirmado como tal, mas o modo como esse conteúdo se relaciona com a postura subjetiva envolvida em seu próprio processo de enunciação. Estamos dentro do espaço ideológico propriamente dito, no momento em que esse conteúdo – "verdadeiro" ou "falso" (se verdadeiro, tanto melhor para o efeito ideológico) – é funcional com respeito a alguma relação de dominação social ("poder", "exploração") de maneira intrinsecamente não transparente. Para ser eficaz, a 1ógica de legitimação da relação de dominação tem que permanecer oculta. Em outras palavras, o ponto de partida da crítica da ideologia tem que ser o pleno reconhecimento do fato de que é muito fácil mentir sob o disfarce da verdade (ZIZEK, 1996, p. 13-14).
Refletindo sobre o conjunto de seu legado, não há como dizer que haja em Freud algum sinal de uma proposta de “relação de dominação”. Ele tanto foi influenciado por ideologias, possivelmente sem refletir muito sobre o ideário com o qual elas se apresentavam, quanto foi crítico das ideologias de sua época. Tanto foi formado no positivismo acadêmico, quanto o criticou em sua face mais visível e soube distanciar-se dele. Há o uso de ideários de seu tempo, talvez como argumento para justificar algumas de suas proposições. Neste sentido, concordamos com as conclusões de Monique Augras (1982) quando analisa as referências antropológicas da obra do mestre vienense.
Augras (1982) situa “Totem e Tabu”, de 1929, como o texto fundamental das considerações sociológicas e antropológicas do autor, e identifica a presença de uma ideologia de época em Freud, notável nas passagens em que ele parece aderir à teoria do evolucionismo social de James Frazer – autor abundantemente citado no texto de 1929 –, no qual, argumenta Augras (1982), Freud encontra o apoio etnológico fundamental para suas proposições.
Para a autora, o evolucionismo social de Frazer é usado por Freud com fins de comprovação da sua teoria sexual das neuroses. Depois de demonstrá-lo com citações dos dois autores, Augras (1982) conclui: “Vê-se o quanto a ideologia puritana, que tanto se assustou
com as teorias de Freud, está na realidade entranhada no próprio âmago de suas concepções” (p. 8).
Mas a autora também infere que, para além das fontes bibliográficas etnocentristas (o uso do termo é nosso), há em Freud outras fontes implícitas, mais relevantes e mais verdadeiras: sua angústia, seu próprio mal-estar no mundo, seu gênio e seu talento (AUGRAS, 1982, p. 14).
c) Empirismo em Freud
A psicanálise é uma ciência empírica? Que é o empirismo e quais foram os empiristas que influenciaram Freud?
O empirismo é a corrente de pensamento da filosofia praticada desde o século XVI, que influenciou enormemente, como é de fácil verificação, todo o fazer científico moderno e contemporâneo (de William Gilbert, com a física do magnetismo no século XVI, a Isaac Newton e tudo o que de sua física se desdobrou e se aplica até os dias de hoje). “Para os empiristas, todo o nosso conhecimento provém de nossa percepção do mundo externo, ou do exame da atividade de nossa própria mente” (SOUZA FILHO, 1991, p. 98).
Recusando o inatismo das ideias, cujo princípio seria, em última instância, Deus – e acreditamos já termos escrito o bastante sobre a ontoteologia –, os empiristas clássicos afirmavam que o conhecimento se dá pela experiência. E que as ideias (simples e complexas) seriam um processo de abstração dos dados sensíveis. Dentre os principais autores empiristas (F. Bacon, T Hobbes, John Locke e G. Berkeley) importa-nos John Stuart Mill, o qual foi lido e traduzido para o alemão por Freud78.
Stuart Mill (1806-1873), filósofo e economista liberal britânico, pode ter influenciado Freud, por exemplo, no tocante à citada querela dos métodos que dividia os pesquisadores do século XIX entre cientistas naturais e do espírito. Para o inglês, não se trataria de ciências radicalmente excludentes, mas, sim, que a diferença entre ambas seria uma diferença de grau (ASSOUN, 1983, p. 52). O filósofo é, inclusive, citado por Freud (1891/2013, p. 103) no estudo sobre as afasias, quando este trata da representação de objeto. Mais do que uma única citação, Loffredo (1999) propõe – em um interessante artigo sobre a polissemia dos sonhos – que a noção freudiana de “representação”, presente no estudo sobre as afasias, no Projeto para uma
78Segundo Birman (2003), traduzido por Freud a fim de que ele obtivesse recursos para o custeio de seus estudos (BIRMAN, 2003, p. 49).
psicologia científica, de 1895, e no artigo “O inconsciente”, de 1915, está articulada ao
associacionismo nominalista de Stuart Mill.
Já mencionamos a influência de Ernst Brücke, “positivista por convicção”, sobre o fundador da psicanálise. Considerando que o positivismo se inspirou parcialmente no empirismo, é natural que Brücke trouxesse também esta marca na forma de seu pensamento. A marca que ele imprimiu em Freud foi a transmissão do princípio da autodisciplina, condição necessária para o trabalho laboratorial praticado pelo jovem estudante de medicina por horas a fio. Por sua vez, Freud posicionou-se, aplicando “empiricamente esse princípio, a uma nova esfera de fenômenos, de natureza psíquica” (ASSOUN, 1983, p. 117).
Freud buscou criar conhecimento a partir das duas vertentes propostas pelos empiristas, acima indicadas por Souza Filho (1991): percepção do mundo externo e exame da atividade da própria mente. Na primeira delas, ele treinou sua percepção tanto no laboratório de Brücke, apurando seu olhar através da observação do sistema nervoso dos peixes, quanto em seu consultório, treinando sua escuta com o mesmo rigor aplicado ao estudo das enguias. Na segunda vertente, Freud passou a examinar seus próprios pensamentos e realizou sua autoanálise. Enquanto W. Wundt, fundador da psicologia moderna, propunha, no final do século XIX, que os psicólogos estudassem o pensamento consciente por meio da introspecção, Freud partiu da experiência de escuta das suas pacientes histéricas, e da escuta de sua própria atividade mental, para chegar a algumas conclusões sobre a atividade inconsciente de seus psiquismos.
Encontramos um sinal do posicionamento empirista de Freud (1888/1980) no “Prefácio à tradução de De la suggestion, de Bernheim”, o qual ele realizou com alguma hesitação e apenas por motivos práticos, conforme confidenciou ao amigo W. Fliess, em uma carta de agosto de 1888 (STRACHEY, 1980, p. 88-9). Recordemos que, nesta época, Freud estava sob forte influência do que aprendera em sua estadia em Paris, realizada entre 1885 e 1886, na qual assistiu às apresentações dos pacientes de Charcot. Freud, um neurologista formado numa tradição científica rigorosa de pesquisas em laboratório, aprendidas na Universidade de Viena, estava agora empenhado no uso de um método criticável por seus antigos mestres. Ele usou da hipnose em seu consultório, ao menos entre 1888 e 1896 (STRACHEY, 1980, p. 89-90).
Hippolyte Bernheim foi um médico pesquisador que, trabalhando em Nancy, sustentava que a hipnose era um mero processo de sugestionabilidade e que ela podia ser usada em quase todas as pessoas (GAY, 1989, p. 63). Nisto, discordava de Jean Martin Charcot, o renomado psiquiatra que utilizava com algum sucesso terapêutico a hipnose no tratamento de histerias, e para quem a hipnose era uma neurose artificial aplicável a histéricos somente. Freud visitou
Bernheim em Nancy por algumas semanas em 1889, acompanhado de uma paciente sua, a baronesa Anna von Lieben; mais tarde, referiu-se àquela viagem como tendo sido uma das mais proveitosas de sua vida (GAY, 1989, p. 63 e 80).
No prefácio à tradução, Freud (1888/1980) observou que a sugestão é o núcleo do hipnotismo e a chave para sua compreensão. Ele comentou a má receptividade da medicina alemã ao método hipnótico e, firmando sua posição de empirista, escreveu: “em matéria científica, é sempre a experiência, e nunca a autoridade sem a experiência, que dá o veredicto final, seja a favor, seja contra” (FREUD, 1888/1980, p. 47).
Este lema, que indica também uma posição avessa ao argumento de autoridade, orientou Freud em todo o seu percurso. As constantes revisões teóricas que ele fez ocorreram em função da experiência atenta ao que seus pacientes diziam no consultório. A clínica, com seu dinamismo, várias vezes o obrigou a mudar e a refinar seu pensamento. As especulações – no sentido mesmo de construções teóricas que tentam espelhar algo em estudo, em seu caso, tentando espelhar o que acontecia na clínica – foram muitas, mas ficavam em segundo plano, como, aliás, ele escreveu anos mais tarde ao enviar um artigo para ser lido em um congresso médico australasiano: “Posso começar dizendo que a psicanálise não é fruto da especulação, mas sim o resultado da experiência; e, por essa razão, como todo novo produto da ciência, acha- se incompleta” (FREUD, 1913[1911]/1980, p. 265).
No clássico texto “Introdução ao narcisismo” (1914), a especulação é novamente relegada a um papel secundário e a psicanálise é nomeada como “ciência edificada sobre a interpretação da empiria” (FREUD, 1914/2010, p. 13). Ao tratar da separação entre a libido sexual e uma energia não sexual das pulsões do eu, Freud (1914/2010) escreve que a especulação, embora possa ter o privilégio de possuir um fundamento logicamente inatacável, constitui-se de ideias passíveis de serem substituídas por outras, pois “essas ideias não são o fundamento da ciência, sobre o qual tudo repousa; tal fundamento é apenas a observação” (FREUD, 1914/2010, p. 13).
Às vésperas de iniciar sua segunda tópica, em 1922, Freud escreve “Dois verbetes de Enciclopédia” e nomeia literalmente a psicanálise como “ciência empírica”, justificando o título com os argumentos de que ela “se atém aos fatos de seu campo de estudo, procura resolver os problemas imediatos da observação, sonda o caminho à frente com o auxílio da experiência, acha-se sempre incompleta e sempre pronta a corrigir ou a modificar suas teorias” (FREUD, 1923[1922]/1980, p. 307). Ênfase que será repetida já em sua última década de vida, no ano de 1931, quando na apresentação a um livro de Hermann Nunberg, ele escreve que a especulação nunca abandona a linha diretriz da experiência (FREUD, 1931/2010, p. 273).
d) Freud e o fazer científico
Da junção entre naturalismo e positivismo temos o primeiro trabalho teórico de Freud,
Sobre a concepção das afasias – um estudo crítico (1891). Nele é evidente a herança recebida.
Afinal, trata-se do exercício de um neurologista dialogando com os autores tradicionais de sua época: Wernicke, Meyenert, Lichteim, Grashey, H. Jackson, C. Bastian, dentre outros. Como não introduz qualquer conceito importante do que viria a ser a grande invenção de Freud, o texto é considerado por comentadores um trabalho pré-psicanalítico.
Freud inicia pela citação da descoberta de P. Broca que, pela primeira vez, estabeleceu uma ligação entre um distúrbio da linguagem (afasia motora) a uma região específica do córtex cerebral. Em seguida, o autor se opõe às proposições de Wernicke, e à chamada teoria das
localizações cerebrais, a qual indicaria a existência de um centro motor e de um centro sensorial (mais um sistema de fibras que as ligam), como explicativos da produção da linguagem e de seus distúrbios (GARCIA-ROZA, 2001, p. 20-21).
Partindo do fracasso da aplicação de um teste criado por Lichteim a um caso de distúrbio de linguagem, chamado “afasia motora transcortical”, e baseado na explicação que Charlton Bastian dá a esse distúrbio, Freud (1891/2013, p. 49) propõe trocar a explicação daquela afasia