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III. Kamulaştırma
No decorrer deste trabalho uma série de autores foram chamados para dialogar com as ideias aqui propostas. A partir dos encontros com os autores estudados, procurou-‐se tecer uma reflexão a respeito dos processos comunicacionais no contexto das oficinas de dança na busca de caminhos singulares para a expressão criativa do corpo.
Foi possível constatar que as pesquisas em dança e corpo tem proposto relações com diferentes ciências nos últimos anos, como propõe os autores Costas, Fortin, Greiner, Godard, Katz, Long e Soter. Questões que envolvem o conhecimento do corpo e a linguagem da dança têm sido exploradas de maneira cada vez mais rica, discutindo pontos de contatos com outras ciências que antes eram dissociados dos trabalhos relativos ao corpo como apontam Greiner e Katz.
Pode-‐se observar que esta interdisciplinaridade, à qual os fenômenos humanos estão inseridos, vem compor e explicar os fenômenos que antes eram tidos como subjetivos e separados da fisicalidade. Caem por terra antigos procedimentos sobre o ensino da dança, como a repetição desatenta de passos de uma técnica específica, o sofrimento silencioso em função da arte, o corpo dócil e apático pronto para repetir sequências de movimentos de um coreógrafo. Ganham espaço as ciências que tratam o corpo e a dança como uma rede de processos sensíveis, que podem ser treinados e aprendidos em função da linguagem que se pretende desenvolver.
Hoje existe uma tendência positiva que discute física, biologia, semiótica, cognição, neurociência, psicologia, sociologia ao tratar de assuntos relativos ao corpo, porque todo processo comunicacional em que o homem está inserido faz
parte de uma rede de fenômenos que traz consigo toda gama de conexões com o meio ambiente no qual se habita.
Nesta medida, é indissociável perceber a potencialidade das experiências vividas como fonte de material para a construção da linguagem da dança, pois toda experiência que o corpo vivencia se torna corpo e interage com as experiências que ali estão para criar novas informações.
O saber da experiência é aquele que procura o conhecimento a partir das descobertas pessoais dentro do contexto pesquisado. Este saber da experiência no qual nos detemos é um saber sensível que tem um grau de consciência e atenção. Esta sensibilidade consciente faz parte do trabalho do professor e esta relação professor aluno é o que subsidia a experiência criativa para um caminho de pesquisa e consciência.
Como aponta Costas (2011), aprender algo depende de uma rede de conexões importantes que geram relações e agregam estas novas experiências ao discurso daquele que aprende. E, podemos complementar afirmando que este discurso precisa estar presente na ânsia de aprender do aluno, para que o desejo de aprender possibilite que as relações aconteçam.
O trabalho do professor precisa incitar neste aluno direcionamentos para que ele tenha autonomia e perceba nas suas próprias descobertas maneiras de construir novas informações.
Não é possível limitar o aprendizado da dança a uma visão dualista de certo ou errado e, durante a aula, evitar estes conceitos, pois tudo está sendo construído em um processo contínuo de organização das informações do corpo.
As hipóteses aqui levantadas foram confirmadas. O corpo tem suas peculiaridades e toda história desse ser do corpo se apresenta estampada e presente em sua matéria. É inevitável que este corpo apresente o potencial discursivo de questões que estão implícitas no ser, mas quando a busca da forma,
através da cópia de movimentos, sobressai à expressividade do movimento, do gesto, o potencial interno é abafado por uma arbitrariedade violenta que gera neste corpo uma tensão, um sufocamento, uma morte lenta e cruel. A morte da individualidade e da expressividade do movimento que todo corpo tem em potencial. O que faz o diferencial dos grandes bailarinos é a capacidade que eles têm de se apropriar com sensibilidade e consciência daquilo que fazem.
Quando o bailarino percebe que a potencialidade do seu discurso está dentro dele, as possibilidades se multiplicam. Ao passo que, de forma contrária, caso ele se limite na busca da repetição de modelos e de formas externas, o corpo se estabelece no estático. Este cultivo à repetição de modelos estáticos nasce durante a formação deste futuro bailarino na sala de aula, na oficina e qualquer lugar que ele passe que não tenha como base um sistema de ensino dialógico. Sob este aspecto o professor é o mediador destes processos que buscam a singularidade do aluno incentivando a utilizar suas experiências como ponto de partida para a construção da linguagem da dança.
Sacks (2010) observa, em seus relatos sobre doenças neurológicas, que o ser humano ao se deparar com uma falha em determinada modalidade sensorial como a visão, por exemplo, imediatamente seu corpo se organiza de uma nova maneira, criando novas conexões a fim de substituir o sentido afetado, para que o corpo consiga ganhar uma nova autonomia, mesmo estando defasado em relação ao que era. São estas situações de “risco” que desestabilizam os sentidos e provocam mudanças e novas percepções através da busca de novas possibilidades, utilizando outras ferramentas. É neste sentido que metodologias de aprendizado que padronizam corpos, exercícios, músicas e elementos da dança podem ao longo de sua aplicação gerar um estado de apatia em que o hábito de fazer sempre o mesmo desestimulam a atenção e a consciência do movimento.
Nestes casos relatados observamos procedimentos de processos e relatos das experiências vividas em cada um dos contextos. Os exercícios propostos tiveram o objetivo de abarcar toda esta rede de conexões, as quais propusemos no
decorrer deste trabalho. No ponto de vista do autor, as questões pessoais de cada aluno são os materiais mais importantes na apreensão dos movimentos, pois direcionam o corpo para um discurso que transcende a técnica da dança. Além disso, é importante que as oficinas criem espaços de diálogos e, assumindo uma busca por processos comunicacionais dialógicos, como diria Flusser, estimule a produção de conhecimento. Portanto, discutir o sapateado americano, o balé clássico ou a dança contemporânea passa a ser um pretexto para teorizar os fenômenos que envolvem os processos de dança e apreensão dos movimentos. Cada caso, com a sua especificidade, deve inserir o aluno-‐pesquisador no contexto em que pretende se aprofundar e subsidiar maneiras de autonomia, para este aluno permear por entre a linguagem, imprimindo seu próprio discurso, distanciando-‐se dos modelos a serem seguidos.
Quando passamos pela experiência de participar de uma oficina de dança, na maioria das vezes, nos colocamos numa posição de receptor das informações ali trazidas pelo professor, propomos aqui um caminho cíclico em que todos os participantes contribuem de alguma maneira no desenvolvimento destas oficinas e ao observar as questões trabalhadas durante o processo, o professor pôde perceber novas problemáticas e novas possibilidades para futuras oficinas.
As respostas corporais dos alunos relativas aos estímulos propostos vem confirmar as questões tratadas na teoria do corpomídia, comprovando que as experiências vividas anteriormente fazem parte daquele corpo e, quando se comunicam com novas informações, tecem uma rede de relações que se transformam em corpo. Aquele corpo que sapateia não é um corpo em função da técnica do sapateado aquele corpo é o próprio sapateado naquela circunstância.
Neste sentido as oficinas são um lugar de pesquisa e produção de conhecimento muito diversificado porque unem pessoas de locais e circunstâncias variadas. Esta rede de experiências é um material muito importante nestas relações e a reflexão proposta neste trabalho é fundamental na construção de novas oficinas.
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