• Sonuç bulunamadı

1.3. Modern Dönem ve Tüketim

1.3.2. Reformasyon

Apesar de os Campos de Cima da Serra terem ficado à margem de uma ocupação mais efetiva das duas coroas ibéricas, e de que o interesse luso pela região pudesse resumir-se a locais de invernada e passagem de gado, já na década de 1730 houve a concessão de sesmarias na região, o que não significava sua efetiva ocupação, porém um real interesse e oficialização jurídica de posse da terra, movimento contínuo e crescente durante o século XVIII e especialmente o XIX (Ferreira, 2001, Osório, 1990). Ao mesmo tempo, expressa uma ocupação baseada no estabelecimento de fazendas de invernada e povoado constituídos a partir dos caminhos das tropas de comércio muar. A ocupação dos territórios nativos do Planalto Meridional esteve sempre atrelada à questão da posse e exploração da terra e suas riquezas. O trabalho indígena poderia não ser importante no nível da exploração econômica, mas com certeza expressava a realidade local e daqueles que trabalhavam em uma economia extrativista ou pecuarista.

A preocupação com ataques de indígenas selvagens às comitivas de muares que atravessavam o território era constante. Desde fins do século XVIII as notícias sobre o caminho desde as vacarias do sul e do interior do Rio Grande do Sul até os mercados de São Paulo demonstravam o medo de passar por aqueles caminhos (Saldanha, 1798). Com o conhecimento já adquirido por expedições anteriores, desde o final do século XVIII sabia-se que as matas da Serra Geral e aquelas do Vale do rio Uruguai estavam densamente povoadas por indígenas “ferozes”. Durante a passagem pelo Mato Castelhano, muitas comitivas de tropeiros foram atacadas e mortas, aspecto bastante recorrente na bibliografia, assim como os ataques nas proximidades do rio Passo Fundo (Bandeira, 1851, p. 386). Assim sendo, muitas comitivas de tropeiros preferiram seguir a rota que do litoral atingia os campos de Vacaria e daí para sudeste, não por ser este o melhor caminho, mas para desviar das concentrações indígenas.

Porém, ao mesmo tempo, o trânsito de tropas era frequente e não parece haver se ressentido efetivamente com os ataques indígenas, que eram antes, pontuais. Efetivamente, a ocupação desta área por grupos indígenas pôde barrar temporariamente o avanço expressivo sobre estes territórios. Entretanto, podemos também pensar que estes conflitos específicos eram tratados e propalados com grande temor, o que poderia implicar em uma pressão por uma maior iniciativa do governo para, paulatinamente, ocupar a região. Relatos de expedições de exploração pela Serra Geral e região do Rio Iguaçú, (José Pinto Bandeira, 1851) informam a ocorrência de assaltos praticados pelos “selvagens” às comitivas de exploração nas áreas de mato.

Havendo realizado viagens como comerciante, o francês Nicolau Dreys publicou no Rio de Janeiro sua obra “Notícia descritiva da Província do Rio Grande de S. Pedro do Sul” em 1839, onde narra suas experiências e impressões do sul, uma vez que realizou viagens por Santa Catarina, São Paulo e o Rio Grande do Sul entre 1817 e 1837. Sobre os “campos inexplorados do Alto Uruguai”, o autor narra:

A 16 léguas (105,6 Km), mais ou menos, do registro de Santa Vitória, extremo setentrional da província, principia uma floresta bastante densa, dividida em duas porções quase contíguas, denominadas: Mato Português e Mato Castelhano: ainda que a extensão desses matos, em que passa a estrada geral, permita atravessar cada um deles no curto espaço de um dia, todavia o viajante não se aproxima deles sem receio; [....] esses matos, lançados como duas penínsulas de altos vegetais através das campinas ermas do Uruguai superior, servem como de reduto aos indígenas, para virem ao encontro dos habitantes; e como infelizmente é raro que eles não tenham que sofrer algumas hostilidades na fronteira extensa que ocupam em nossa vizinhança, desde Itapetininga, na Província de São Paulo, até as faldas da Cordilheira, na Província de Rio Grande, escolheram esse lugar para teatro de represálias:[....] há poucos anos, que um moço de grandes esperanças,

conhecido do autor, pertencendo a uma das principais famílias de Curitiba, sucumbiu com sua comitiva, no mesmo lugar, em uma surpresa dos selvagens (Dreys, 1990, pp.42-43).

Neste relato, o autor, além de referir-se aos ataques dos indígenas em um ponto que se tornou por este motivo famoso, também esclarece que os “selvagens” já não demonstravam medo das armas de fogo, como antes faziam, significando, que esses já não eram mais “tão selvagens” no que se refere ao maior ou menor contato com a “civilização”, deixando, assim, a pecha como que o resultado do olhar desta sociedade sobre estes nativos. Selvagens eram porque os atacavam, mas não no sentido de não estarem em contato com a sociedade civilizada.

O contexto do final século XVIII e início do XIX nas regiões interiores do Brasil meridional foi percebido por viajantes europeus, especialmente pelo botânico Auguste de Saint Hilaire, que, na primeira década do século XIX, não deixou de observar as mestiçagens ocorridas nos povoados, bem como a forma violenta, jurídica e de fato, do processo de conquista de regiões consideradas então “sertões desertos” e locais pobres.

Saint-Hilaire percorreu algumas áreas dos atuais três estados do Planalto Meridional, sendo que, na província do Rio Grande do Sul, o botânico não percorreu o planalto, relatando apenas histórias a ele contadas sobre os ataques dos “bugres” aos viajantes daquelas estradas34. Nos atuais estados de Santa Catarina e, especialmente no Paraná, Saint-Hilaire percorreu áreas do planalto distantes das regiões centrais dos povoados do litoral e encosta da serra, e caracterizadas pela existência de grandes propriedades e sesmarias ocupadas através de sistema absenteísta, através do qual o proprietário deixa sua fazenda de criar aos cuidados de feitores e caseiros. Nesta região, o autor relatou comunidades compostas por mestiços, em uma “região miserável e pouco civilizada”, não livre de tensões sociais com os brancos. Outros viajantes ou interlocutores contemporâneos igualmente observaram a existência de comunidades mestiças em áreas de escasso povoamento ocidental, os “sertões” e o envolvimento de certos grupos indígenas através de aldeamentos, quartéis e fazendas. O envolvimento

34 Na província de São Pedro, Auguste de Saint-Hilaire percorreu o litoral desta província, continuou seu

itinerário pelas margens do rio Ibicuí, entrando a seguir na região das Missões e, a tendo percorrido, tomou o caminho pelas margens do rio Jacuí para atingir Rio Pardo, Porto Alegre e então, o porto de Rio Grande. Não entrou nos campos de cima da Serra, tendo somente ouvido falar dos “bugres” nesta província, ao contrário de sua viagem pelo Paraná, onde encontrou muitos nativos em fazendas das regiões próximas ao sertão.

dos indígenas nas atividades produtivas locais e regionais indica situações de submissão ou integração formal, mas também a própria articulação de certas populações nativas naqueles processos produtivos.

As interações sociais e mesmo os processos de mestiçagem biológica observados no decorrer da ocupação ibérica do Planalto Meridional entre nativos Jê e novos moradores desenvolveram-se em situações conflitivas ou harmoniosas, ou seja, em algumas ocasiões através de ataques, em outras através de acordos nos quais poderiam prevalecer relações de reciprocidade. A integração dos nativos na produção econômica da região, especialmente no caso da extrativista ou extensiva, esteve relacionada ao escasso povoamento inicial e ao processo de miscigenação com os nativos. Procuramos destacar a inter-relação dos nativos com os moradores e fazendeiros na exploração produtiva de uma região ainda muito pouco civilizada ou, uma área de fronteira econômica.

O estabelecimento de fazendas de criação proporcionava a ocupação daqueles espaços determinados, mas também representava a possibilidade de explorações nas áreas adjacentes. A área interior das primeiras povoações lusas começou então a ser trilhada com intuito exploratório. Nessas regiões, viviam várias populações indígenas, entre elas, os kaingáng. Apesar de provavelmente não haver combates grandes e definitivos, estas expedições de ocupação e exploração nos arredores dos povoados, pressupomos que havia ataques rápidos dos nativos a pequenos grupos ou mesmo aos moradores das orlas dos matos e serras. Também assim, podemos supor que houve ataques destes moradores aos alojamentos indígenas, havendo mortes, mas também sequestros.

A partir do início do século XVIII, o interior do Planalto Meridional foi ocupado através de fazendas de invernada de gados a partir dos povoados do litoral, ou seja, o sertão de São Paulo, os quais se haviam estabelecido a partir do trânsito comercial de vários tipos de vacuns do interior para a vila de Sorocaba. Este povoamento incipiente proporcionou contatos intermitentes ou mais ou menos efetivos entre indivíduos de diferentes sociedades, bem como alterou as relações entre nativos hoje conhecidos como kaingáng e xokleng, acirrando a luta por territórios e recursos no Planalto Meridional. A base de relações de aliança ou conflito com comunidades distintas emanavam das próprias formas de normatização social de cada uma delas. Contudo, essas interações

estiveram submetidas a contextos históricos específicos, nos quais interagiam diferentes sociedades, construindo diversas ações e práticas determinadas por conjunturas históricas e políticas específicas.

Estudiosos como John Monteiro (1998; 2001) e Stuart Schwartz (2001) analisaram formações regionais desenvolvidas no Brasil Meridional como formações escravocratas baseadas na exploração do trabalho de índios e africanos e seus descendentes de forma concomitante, conforme contextos específicos. Esta situação permitia diversas formas de relações sociais de produção, desenvolvidas, efetivamente, através de interações com sociedades indígenas locais. No Brasil Meridional, esta rede de relações envolvia, entre os séculos XVII e XVIII, exploradores paulistas, militares a serviço da Coroa Portuguesa, as reduções Jesuíticas do Paraguai, e ainda diversas etnias nativas. No Rio Grande do Sul, o desenvolvimento das Missões Jesuíticas durante o século XVIII também ampliou e/ou transformou as relações estabelecidas entre moradores e etnias indígenas diversas.

A existência de redes econômicas e sociais, que incluíam alianças e cativeiro, entre as diferentes sociedades nativas do continente sul-americano, bem como seu dinamismo, tem sido percebida pela historiografia. Analisando a inserção econômica e social indígena em uma região de fronteira social durante o século XVIII, Nádia Farage (1991) afirma que redes políticas “tradicionais” formavam complexos sistemas de alianças que não apenas satisfizeram os interesses dos colonizadores, mas também boa parte dos interesses indígenas.

A historiografia brasileira e regional e ainda a tradição oral kaingáng indicam que, a partir da década de 1720, entre os habitantes da região sudeste brasileira, os indígenas missioneiros e os nativos dos morros e serras, considerados infiéis como os kaingáng, havia lutas e disputas por territórios. Ainda, entre os diversos grupos indígenas habitantes da área do Planalto Meridional, ocorriam transformações em suas relações políticas e mesmo pode-se admitir o acirramento de disputas por territórios, como no caso entre os kaingáng e xokleng. Em outras situações, haveria relações de interação social e econômica maior (Noelli, 2000).

O processo de conquista da área central do Planalto Meridional pelos portugueses iniciou-se nos primeiros anos do século XVIII, com as primeiras fazendas de engorda de gado nas imediações das vilas de Lapa do Príncipe, Curitiba e Castro,

antigo pouso do Iapó. Também os Campos de Lages, de Viamão e da Vacaria estavam sendo povoados através de concessões de sesmarias. As áreas entre os conhecidos Campos de Viamão e Campos de Lages no interior da província de São Paulo começaram a ser sistematicamente povoada a partir da década de 1770, através da crescente doação de sesmarias para uma ocupação que deveria estar ancorada, já em um povoamento anterior, nos centros através dos quais um sistema de comércio ocorria.

A partir de 1768, cresceu o interesse em invadir os “sertões” e reduzir os “índios bárbaros que infestavam” o atual Paraná, então território de São Paulo. Entre 1768 e 1774 foram enviadas 11 campanhas militares à região dos Campos de Guarapuava, sob o comando do tenente-coronel Affonso Botelho de Sampaio. Estas expedições contaram com a participação de contingentes comandados por fazendeiros de áreas próximas, peões e caboclos que partiram de povoados do atual Paraná. Tinham o objetivo de ocupar o território em nome do rei de Portugal e propunham vassalagem aos indígenas através de sua redução, conforme disposições do Diretório dos Índios de 1757.

Em 1770, após diversas expedições que procuravam por caminhos a oeste e ao sul do leste do Paraná, os “Campos de Guarapuava”, uma comitiva encontrou uma aldeia destes gentios. Não a atacaram, pois a encontraram solitária. Entretanto, prepararam o ataque através de um ponto mais vantajoso, tendo construído um tipo de fortificação de onde partiriam os ataques, e onde esperariam pelos reforços pedidos (Franco, 1943, pp.48-49). Assim, quando estes militares “encontram” os Campos de Guarapuava, ali depararam com uma aldeia do gentio que parecia, devido às descrições, bastante próspera. A seguir, a descrição deste local a partir de cartas enviadas ao comandante Botelho por um de seus sargentos:

saiu no campo, achou nele grandes roças do Gentio, de milho, feijão, abóboras e todo o gênero; entrou em um paiol onde tudo isto estava empilhado em cestos grandes; acharam duas pilhas de pontas de flechas de pau que estavam ao sol a enxugar-se, porém em nada tocarão (Franco, 1943, p.49).

Estando a comitiva nas proximidades do porto do Funil no rio Iguaçu, parte desta foi atacada pelos índios. A expedição acaba retirando-se do posto avançado, em vista da eminência de novos ataques indígenas. Mais uma vez instados pelo governo de São Paulo, os militares voltam ao campo e continuam os trabalhos de abertura de estradas. Nesta empresa contavam com a presença do frei carmelita Ignacio de Santa Catharina, para o trabalho de catequizar os índios que encontrassem.

Conforme os relatos dos militares destas comitivas, a região de Guarapuava era habitada por “grande número do Gentio”, entre “bárbaros”, guaranis e cayeres. Entretanto, nas matas próximas ao rio Uruguai, o número de “bárbaros” era reconhecidamente o maior de todo o “distrito de Guarapuava”. Esta área corresponde aos campos e florestas localizados entre os rios Iguaçu e Uruguai e deste e seus afluentes, reconhecido pela etnologia como centro dos territórios kaingáng.

Os nativos acompanhavam as movimentações, sempre de longe, conforme as informações, até que, no final do ano de 1771, houve contatos amistosos. A comitiva havia presenteado alguns índios com ferramentas e roupas, e estes retornaram logo após na companhia de um grupo de oito nativos no acampamento do Pouso de Santa Cruz (Carta de Affonso Botelho ao Morgado de Mateus, em 22/12/1771. In: Silva, 1855, pp. 271-272). Os nativos convidaram uma comitiva de soldados para que visitasse sua aldeia. Nesse encontro os militares luso-brasileiros sob o comando do tenente Domingos Cascaes foram recebidos com todas as formas de cordialidade e recepção kaingáng:

Nos fizeram com vozes e acenos o abrigo de seus pobres ranchos para que nos livrássemos da chuva que caia, e para mais os agradar entrei em um rancho quase de gatinhas [sic] pela pequenez da porta, e logo dois deles comigo, levantando-me direito ao fogo que estava no fim do rancho. Assentaram-se logo e me ofereceram assento, o que fiz em um pedaço de pau que ali estava, e me ofereceram do pinhão que estava ao fogo, [...] pegando em uma tenaz de taquara, mostrando-me o uso que devia fazer dela para tirar o pinhão do fogo, descascá-lo e comê-lo, me a ofereceu (Carta de Affonso Botelho ao Morgado de Mateus, em 22/12/1771. In: Silva, 1855, pp. 274).

Em que pese haver este encontro amistoso, na verdade, um encontro de reconhecimento de ambas as partes, ao longo do tempo a ação destas expedições caracterizou-se por, além de encontros pacíficos, também por ataques surpresa dos índios. Após o convite para que a expedição visitasse a aldeia dos índios, estes fizeram uma visita ao acampamento militar. Assim, os índios fizeram vigílias e acompanharam a expedição até atacá-la no início de 1772, fazendo um cerco ao acampamento. Por imaginar que os 450 índios que faziam o cerco estavam recorrendo ao auxílio de outros grupos ao norte, o tenente Botelho retira novamente a expedição. As últimas expedições não tinham a companhia de nenhum padre, tratando-se agora de expedições punitivas aos índios. Apesar destas disposições, os militares acabam por retirar-se a partir de cercos e ataques surpresa desenvolvidos pelos índios (Mota, 1994, pp.135-138).

No fim do século a Coroa lusa havia já instalado guardas para registro das tropas de gado vindas das estâncias e campanhas do sul. O Registro de Santa Vitória

estava situado no alto curso do rio Uruguai, em pleno planalto sulino. O local estava sendo povoado por fazendas de invernada e sítios, constituídos ao longo da estrada que levava as tropas de gado bovino e muar.

Até o final do século XVIII certas regiões do Planalto Meridional que permaneciam afastadas dos núcleos de ocupação, eram reconhecidamente habitadas por “hordas selvagens” e “nações bárbaras”. Os Campos de Lages, então Província do Rio Grande de São Pedro, sofriam ataques esporádicos dos índios às casas e principalmente aos paióis de armazenamento das colheitas, tendo muitos, abandonado os locais.

Uma carta do governador da província de São Pedro de 1782 relata o ataque dos “bugres” à casa de um morador chamado Luiz Felix, em uma paragem chamada Lagoinha, no qual foram mortos dois homens, uma mulher e uma criança, sendo, entretanto, uma filha deste morador levada pelos indígenas para seus alojamentos. As notícias de ataques às fazendas e aos sítios da estrada entre São Paulo e Rio Grande, bem como dos ataques às tropas de gado por esta estrada, provocam a reação do vice-rei que ordenou ao governo de São Paulo que providenciasse a expulsão dos “bárbaros” (Romário Martins, s/d, pp.149-150):

[...] E seguindo os ditos Bugres o cavalo disparado com a flecha teve este a sua carreira direta à Casa de um morador por nome Luiz Felix, filho de outro do mesmo nome, o qual, vendo o reboliço e Motim que vinham fazendo ditos Bugres, teve o acordo de fugir, mas este o não teve sua mulher e suas duas filhas que foram apanhadas em casa, e ouvindo o marido fugindo os gritos de sua consorte veio-lhe acudir e se meteu no precipício que morreu, e sua mulher, e a estes dois infelizes acompanhou uma filha menina que também mataram depois que tiraram ou esfolaram a pele da cabeça, junto com o cabelo por ser este muito louro; e a filha mais velha, que dizem teria oito para nove anos, como era muito bonita, e também loura no cabelo, a conduziram para seus alojamentos (Documentos comprobatórios, Apud Mota, 1995, pp. 125-126. Grifos meus).

Durante a ocupação ocorreram muitos ataques aos povoados próximos aos matos. Apesar das mortes e raptos, o objetivo dos ataques aos moradores, muitas vezes não se relacionava com a vontade de expulsar aqueles que estivessem “mais próximos dos sertões”, mas sim adquirir manufaturas ocidentais, especialmente instrumentos e armas de ferro, armas de fogo e vestuário. O trecho a seguir, relatando o desdobramento de um ataque de gentios ocorrido em 1779, evidencia também os revides dos civilizados:

Chegou-me a notícia de dar o Gentio nas Fazendas dos Fundos de Vaqueria, que se divide com esta, onde fizeram mortes e grande estrago; e com este temor se tem despovoado, e ajuntado um pequeno Corpo daqueles moradores, e dando neles mataram setenta e oito, e os que escaparam se reforçaram com maior número, e voltaram a darem em outras Fazendas, que já tinham despovoado (Correspondência de 09/11/1780, de Veiga Cabral ao Vice-rei Luiz de Vasconcelos. In: Duarte, 1945:33-35).

Tal acontecimento provavelmente gerou certa comoção, uma vez que o comandante governador de São Pedro teve que assegurar ao próprio vice-rei Luís de Vasconcelos e Souza de que se tratavam de bárbaros e não de índios guaranis, com os