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1.3. Modern Dönem ve Tüketim

1.3.5. Bilimsel ve Teknik Gelişmeler

A violência da conquista militar e o estatuto jurídico de escravo para os insubmissos perpassaram o período inicial da ocupação das áreas entre Guarapuava e o norte sulino. O interesse na ocupação e povoamento dessa região se expressava, além das estratégias das duas coroas ibéricas, nos interesses particulares de moradores já instalados nos campos de Vacaria, bem como daqueles estabelecidos nos campos do Paraná. A estrada da Mata, também conhecida como “Caminho das Tropas” foi o eixo inicial da ocupação, a qual foi intensificada pelo comércio de rebanhos muares e bovinos do Rio Grande do Sul até as feiras de Sorocaba, atravessando os Campos Gerais.

Essa estrada e o fluxo comercial que ela suportava consubstanciaram a ocupação e a exploração de toda a região ao sul, a oeste e ao norte dos Campos Gerais paranaenses, evidenciada pela procura de uma ligação entre o porto marítimo de Paranaguá e o Mato Grosso. Como locais de pouso e invernada (engorda) de animais, primeiramente foram ocupados os campos para o pasto, a partir de 1810.

As áreas a oeste e sudoeste dos Campos Gerais foram demandadas a partir de 1839 pelos fazendeiros estabelecidos em Guarapuava em 1810, tendo sido os campos distribuídos entre as duas expedições bem-sucedidas que partiram de Guarapuava em 1839. O interesse nas terras além do rio Paraná evidenciou-se com a abertura de uma estrada entre Palmas e Corrientes, na Argentina, iniciada em 1857. A construção da estrada que vinha de Vacaria – chamada de estrada geral –, com destino à região das Missões e sua fronteira, significava um grande decréscimo do caminho, que, ainda assim, evitava as matas da Serra Geral. Muitos informes atestam a dificuldade de transitar pelos campos compreendidos entre o Mato Castelhano e o Mato Português, e

mesmos nas florestas próximas ao rio Passo Fundo, devido aos constantes assaltos praticados pelos bugres. Essas circunstâncias devem ser também consideradas como prováveis causas para a ocupação tardia dos campos a leste da Vila de Cruz Alta (Velloso da Silveira42, 1990, p.83).

Sob os influxos da formação da economia cafeeira no sudeste, no início do século XIX, há a intensificação da exploração da riqueza ganadeira nas fronteiras oeste e sul. Assim, foi aberta uma estrada ligando outras já existentes, cortando caminho pela Serra Geral. Essa estrada, que chegava até a região das Missões, seguia para Cruz Alta, Passo Fundo, Lagoa Vermelha, Vacaria, retomando a partir dali o caminho para Lages até Sorocaba.

Esta estrada foi aberta no início do século XIX, após a conquista dos Campos de Guarapuava e de Palmas, no norte do atual estado de Santa Catarina. Expedições militares foram mandadas para os sertões de Guarapuava, conforme as ordens régias, a fim de ocupar e povoar aqueles “sertões”. As já referidas “guerras justas” estenderam-se aos Botocudos e Bugres dos sertões da Província de São Paulo, acarretando a escravização dos sobreviventes. Em 1810, as lutas travaram-se em Atalaia, no centro dos campos de Guarapuava. No entanto, esta conquista fazia parte de um projeto maior, o qual delineava a conquista dos campos ao sul:

Tendo presente o quase total abandono em que se acham os campos Gerais de Curitiba e os de Guarapuava assim como todos os terrenos que deságuam no Paraná e formam do outro lado as cabeceiras do Uruguay, todos compreendidos nos limites dessa capitania infestados pelos Índios denominados Bugres que matam cruelmente todos os fazendeiros e proprietários [...] (Carta Régia de 05/11/1808. In: Cunha, 1992, p.37).

A conquista se direcionou a um território bem definido, que estava “infestado” de índios bárbaros. A motivação dessa conquista estava na possibilidade de comunicar a província de São Paulo com o sul até a região das Missões, a fim de explorar a riqueza ganadeira integrando-a a produção cafeeira, bem como o povoamento desta região. A Carta Régia de 01/04/1809 determinava a colonização do “sertão”, entretanto reconhecia a existência de um território determinado, cujos habitantes eram

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Hemetério Velloso da Silveira percorreu a região das Missões e parte do planalto sulino em duas ocasiões: em 1855 e em 1875, trazendo informações sobre seus habitantes e suas riquezas. Da mesma forma que diversos escritores contemporâneos, Silveira relata o amplo emprego dos indígenas em fazendas e outros empreendimentos comerciais.

sumariamente conhecidos – Bugres e seus vizinhos – e classificados, mormente pelos ataques aos moradores e aos tropeiros ao longo da estrada de Lages, constituindo-se efetivamente em um empecilho ao desenvolvimento. Saudando as iniciativas das expedições militares que iam avançando no território, fazendo roças e construindo paliçadas, esta correspondência reconhece a existência de um território dado, conhecido:

Dar princípio ao grande estabelecimento de Povoar os Campos de Guarapuava e Civilizar os Índios Bárbaros que infestam aquele Território e de por em cultura todo o país que de uma parte vai confinar com o Paraná e da outra forma as cabeceiras do Uruguay que depois siga o País das Missões e comunica assim com a capitania do rio Grande (Carta Régia de 1/04/1809. In: idem).

Apesar da resistência, a ocupação foi realizada e estabeleceram-se, em todo o Campo de Guarapuava, fazendas de criação e invernadas. No final da década de 1830, alguns moradores começaram a demandar os campos de Palmas, mais ao sul (Bandeira, 1851, p. 387). A conquista desta área, que corresponde à região centro-oeste dos planaltos sulinos, atingia o centro dos territórios kaingáng.

A expedição militar que se formou a partir da ordem da Carta Régia43 de 1 de abril de 1809 estava sob o comando do tenente Coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal e compunha-se de 200 homens bem armados e municiados, bem como outros ajudantes. Conforme o reverendo padre Francisco das Chagas Lima, capelão da expedição, a conquista desses territórios fundamentavam-se nos mesmos princípios trabalhados pelo Marquês do Pombal; as disposições para integrarem-se como súditos e a formação de uma aldeia estavam previstos na Carta Régia de 1809, que entretanto ressalvava que, à menor reação dos índios, poder-se-ia passar à agressão. Depois de entrarem nos campos, os soldados receberam a visita de uma comitiva de cerca de 30 a 40 nativos, que os procuraram a princípio com boas disposições. Conforme o padre, os índios dispostos a negociações receberam panos, ferramentas e quinquilharias, e, nos dois primeiros anos, “vinham e iam da aldeia”, havendo alguns conflitos entre milicianos e diversos grupos nativos envolvidos, e ainda a ocorrência de um cerco a Atalaia durante seis horas (Lima, 1842, p.46).

O padre Lima relata que durante os dois primeiros anos de expedição, houve grande anuência dos moradores das três vilas no distrito de Curitiba devido a ambição de adquirirem “as ricas minas” que se dizia haver nestes campos, porém, também

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Carta Régia de 01/04/1809 decretada por D. João VI e executada pelo Ministro de Estado o Conde de Linhares para ocupar os territórios descobertos em 1771.

devido à sanha dos moradores de cativar nativos a disputa entre diversos grupos tenha contribuído durante este período inicial. O padre ainda atribui a consolidação da ocupação à ação do Capitão Antonio José Pahy, o qual desempenhava papel aglutinador entre os índios que haviam se aldeado – Camés e Votorões – e também sobre aqueles que estavam nos sertões.

A escravização de nativos tem referências em relatório sobre a catequese em guarapuava escrito pelo padre Francisco das Chagas Lima: Conta a narrativa que o Capitão Antonio José Pahy atacou uma aldeia de índios Tac-taias, nas margens do rio Ytatu, a leste de Atalaia, com o claro intuito de caçar índios bárbaros “e vender os menores, que colher pudesse”. Entretanto, este ataque foi repelido. No próprio relato encontra-se afirmação de que o cacique foi levado a isso pelo exemplo que davam os nacionais após a conquista de 1810 (Memória Relatório Pe. Chagas Lima, p. 246).44

A conquista dos campos de Guarapuava, baseada na Guerra Justa de 1808, legitimou a escravização dos nativos. Após alguns combates, certos grupos kaingáng aldearam-se em Atalaia em 1812. Conforme as instruções do governo, os nativos deveriam ser tratados com brandura, e integrados à nascente povoação. Entretanto, subjacente a essas intenções, havia a aprovação oficial de hostilidades e escravização dos insubmissos e renitentes ao aldeamento. Entre 1812 e 1818, o povoamento de Atalaia por soldados e fazendeiros aumentou e isso se refletiu em um crescente processo de aprisionamento de índios:

Nas vilas de Itapiva e Lages, em as quais a força de armas tem rebatido incursões de Índios de nações diferentes das de Guarapuava, tem abusado em trazerem para seu serviço alguns gentios, que são inimigos dos povoadores, e estes talvez se não rendam pelos meios de brandura, como os de Guarapuava, e parece-me que esses cativados deviam remover-se com presentes para seus compatriotas, e promessas de serem bem tratados, afim de amigavelmente procurarem a nossa comunicação; então, me persuado, que viriam chegando- se à civilização. Porém na expedição com pretexto de salários insignificantes, doações inválidas, com o título de os polir, ou com a especiosa capa de doutriná-los, como se fossem mais capazes para isso do que o Missionário, passou esta matéria desde o ano de 1812 até 1819 (da última ordem determinante) em realaxação, não se atendendo que a disposição régia dizia: que somente incorreriam na pena de cativeiro, no caso de fazerem a guerra, e serem tomados prisioneiros depois de estarem sujeitos; ou que também se fosse feita com as armas na mão por alguma horda particular; fatos porém que não aconteceram. Tais eram os esforços com os quais a cobiça dos particulares pretendia escravizar os Índios, maiormente no ano de 1818, em o

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LIMA, Francisco das Chagas. Estado actual da conquista de Guarapuava no fim do ano de 1821. In: A. M. Franco. Diogo Pinto e a conquista de Guarapuava. Curitiba: Museu paranaense, 1943, pp. 233-268. [publicado como apêndice ao livro de Arthur Martins Franco de 1943].

qual (por ausência do Missionário e Comandante) alguns dos habitantes foram inquietar as hordas existentes nos sertões, movendo-lhes bruta guerra; e aprisionando a muitos, conduziram como despojos a quatro meninas e quatro meninos, que venderam a Brasileiros; os quais, reconhecidos livres, foram restituídos à aldeia, à exceção de um, que ainda hoje existe em poder do mesmo que o fizera comprar por interposta pessoa. Com o pretexto de os doutrinar, também houve outros que recolheram para suas casas, para seu serviço, Índios da mesma aldeia... (Lima, Francisco das Chagas. 1842, p. 60. Grifos meus).

Neste relato do padre Chagas Lima, fica relatada a ação de corpos armados nas regiões interiores no entorno de Guarapuava, o lugar “conquistado” a partir da Guerra Justa de 13 de maio de 1808, especialmente em direção ao sul desta localidade. Fica claro, também, que apesar do processo de aldeamento e rendição dos nativos, houve a tomada de índios da própria aldeia em Atalaia para o serviço de particulares, o qual não era pago e não era legal, naquela situação, o que remete à exploração do trabalho nativo, à servidão ou escravidão, conforme a origem e reação dos nativos. Ainda, conforme o relato, o padre parece querer desculpar a ação dos colonizadores, enfatizando que estes índios atacados eram de nações diferentes das de Guarapuava, procurando ressalvar sua própria ação de civilização daqueles nativos.

A seguir, entretanto, em suas observações o padre revela como ocorreram as interações entre os conquistadores e os das nações que habitavam Guarapuava, afirmando que as hostilidades dos índios foram provocadas por terem eles sido “iludidos e despojados da liberdade, apesar do modo espontâneo com que se renderam”: Se quando a expedição entrou em guarapuava houvesse um intérprete, por meio de quem os Índios fossem inteligenciados das intenções dos Brasileiros, talvez se abstivessem da guerra e hostilidades anexas, mas antes recebessem, com muita alegria, os seus libertadores; [...] Mas as disposições foram em contrário [das intenções de chamá-los à humanidade, mesmo que à força] os Índios fizeram guerra às intenções. Muitos também foram iludidos e despojados da liberdade, apesar do modo espontâneo com que se renderam, e determinações que declaravam que se devia coibir que eles não emigrassem, à força, do seu país originário (Lima, 1842, p. 61).

O chefe Arak-xó relatou a história do chefe indígena Tandó à Telemaco Borba45 em 1886 e publicada em 1908. A narrativa do cacique Arak-xó relata uma história ocorrida talvez nas últimas décadas do século XVIII, narrada pela mãe de seu pai, que a

45 Telemaco Borba. Actualidade Indígena (1908). Telemaco Borba conviveu com os kaingáng do Paraná

entre 1863 e 1873, tendo sido diretor do aldeamento de São Pedro de Alcântara e São Jerônimo. O chefe Arak-xó morava nas proximidades do alto curso do rio Ivaí, no Paraná, tendo dirigido-se a Ponta Grossa em 1880 para negociar ferramentas e a concessão de terras com duas léguas de comprimento por uma de largura.

ouviu de seu pai, que era irmão de Tandó. Esta narrativa indica a complexidade das relações entre nativos e novos moradores.

Tandó foi aprisionado por um grupo de brancos nas primeiras décadas do século XVIII, quando criança. Seu pai, o chefe Combró, atacou um povoado ocidental nos campos de Guarapuava. Em represália, os brancos atacaram sua aldeia em sua ausência. Para isto, os brancos tiveram o auxílio de um outro grupo indígena, a julgar-se pela narrativa, também Kaingáng. Neste ataque, foi levado Tandó, um dos filhos de Combró. Este foi levado ainda muito pequeno, e foi criado junto aos brancos. Ao tentar recuperá- lo, bem como os outros cativos, Combró foi morto. Quando jovem, entretanto, Tandó fugiu para os sertões para junto dos seus, havendo tornado-se mais tarde um chefe (Borba, 1908, p.33).

Entre os seus, Tandó planejou um ataque ao povoado branco, que então contava com os auxílios do grupo kaingáng do chefe Duhí. Neste ataque, Tandó matou este chefe. Anos mais tarde, porém, Tandó resolveu unir-se aos brancos do povoado nos Campos de Guarapuava. Esta atitude provocou uma divisão entre o grupo, uma vez que Cohi, irmão de Tandó, manteve os ataques aos povoados (Borba, 1908, pp.30-36).

A partir desse relato de um chefe kaingáng no final do século XIX, podemos perceber que, enquanto alguns grupos se aliavam aos brancos, outros permaneciam afastados. Mesmo aquelas alianças eram extremamente dinâmicas e permaneciam sendo configuradas por contextos específicos. Percebe-se também a prática usual entre os nativos de capturar mulheres e crianças em ataques a outros nativos, mas, especificamente, a narrativa relata o aprisionamento de nativos por povoadores dos sertões. Com a progressiva ocupação de áreas próximas aos matos e campos do interior, aumentavam igualmente ataques dos índios aos povoados incipientes.

Apesar do contexto extremamente violento, a legislação previa a integração daqueles dispostos a prestar obediência a Coroa lusa, havendo alguma margem de negociação frente a disposições de ataques e cativeiros, o que permitiu a fundação do aldeamento de Atalaia. Para tanto, contribuíram a própria necessidade de sobrevivência dos indígenas e a importância de um acordo dos conquistadores, dada a sua reconhecida resistência, bem como à perspectiva de utilização desta população na exploração econômica do ambiente e, ainda, de atração ou combate de grupos ainda resistentes. Assim, os grupos que, a partir de 1812, aceitaram se aldear em Guarapuava, o fizeram por terem percebido os interesses dos brancos proprietários de terras e uma oportunidade de sobrevivência nesta situação de conflito.

Também relações amistosas podiam estabelecer-se através da conquista bélica. Não descartamos a situação de coerção nas quais estas ocorriam, mas, de fato, parecem ter sido uma das estratégias dos chefes. Após a conquista de Guarapuava, o cacique Antonio Pahy desenvolveu relações amistosas com os comandantes do quartel de Atalaia (a fortaleza da conquista), atraindo os indígenas para o aldeamento. Na obra Conquista pacífica de Guarapuava Francisco Azevedo Macedo informa que uma jovem mulher deste chefe recebeu o nome de Rita de Oliveira, e o casal nativo foi amigo de Diogo Pinto e de sua esposa, D. Rita. A esposa de Antonio Pahy amamentou o filho de Diogo Pinto, posteriormente o Coronel Francisco Pinto de Azevedo Portugal. O autor era neto deste Capitão e afirma que estas informações minuciosas lhe foram passadas por parentes seus e pelo testemunho do Sr. Guilherme de Paula Xavier, “esta solícita, como amiga, a prestar serviços domésticos” (Macedo, 1951, pp. 156-161).

Na mesma obra, com base em depoimentos de seus familiares, o autor informa que o filho do comandante Diogo Pinto, Francisco, cresceu junto a Victorino Condá, kaingáng aldeado em Guarapuava, sendo amigos. Podemos argumentar que, se esta amizade existiu, era uma relação assimétrica, pois se dava entre o filho do comandante e um menino indígena aldeado. Entretanto, caso Condá fosse filho de um chefe indígena, talvez tal relação não fosse tão assimétrica como pensamos antes. De qualquer forma, esta relação amistosa muito contribuiu para a posterior conquista de Palmas e de Nonoai. Na ocupação dos campos de Palmas, os fazendeiros de Guarapuava contaram com o auxílio de Vitorino Condá, que mediou os contatos entre fazendeiros e os kaingáng que ali habitavam.

No livro Viagem pitoresca e histórica ao Brasil de Jean Baptiste Debret observa na década de 1820 o medo gerado pelos ataques destes nativos, mas também as interações entre nativos e moradores, e o amplo emprego da mão de obra indígena entre os novos moradores na província do Rio Grande do Sul. Ao referir-se à “famigerada raça dos bugres” a obra refere o seguinte:

Os habitantes da província de São Paulo, Santa Catarina, Minas e Rio Grande do Sul chamam em geral de bugres a todos os índios, à exceção dos botocudos. No seu estado primitivo esses índios são extremamente temíveis pelo seu valor e astúcia. Em compensação, tornam-se excelentes trabalhadores quando civilizados e dão provas de uma inteligência perfeita onde quer que sejam empregados (Debret, Viagem pitoresca e Histórica ao Brasil, p. 47).

O historiador Cristiano Durat investigou os processos de civilização postos em prática em Guarapuava pelo padre Chagas Lima entre 1812 e 1828. Através da análise dos registros sacramentais dos indígenas kaingáng, os quais o autor chamou de “elementos incorporadores da sociedade luso-brasileira”, por meio de aspectos pedagógicos e simbólicos (Durat, 2006, p.19). Durat comenta que as autoridades em Atalaia e Guarapuava, especialmente o padre Chagas Lima, estimularam casamentos entre indígenas aldeadas e indivíduos degredados da Província de São Paulo. O autor argumenta que os casamentos de índias com luso-brasileiros, entre estes membros do exército, e daquelas com pessoas degredadas, teve objetivos diferentes: o primeiro objetivava a ocupação do território através do poderio militar e do poder da instituição das relações de “cunhadismo”, e o segundo, realizava a reinserção de indivíduos degredados à sociedade de fronteira, uma vez que Guarapuava era local de degredo através das disposições da Carta Régia de 1809. Os casamentos entre os índios, que somaram 46 ao longo do período entre 1812 e 1828, tinham o objetivo de acostumar os índios às regras da sociedade ocidental e de tentar eliminar a poligamia.

As relações de apadrinhamento analisadas pelo autor revelam que os indígenas “procuravam estabelecer alianças com as pessoas que eles julgavam ser os chefes do grupo branco” (Durat, 2006, p. 97, grifos do autor). O autor comenta que os índios também passaram a batizar crianças, após o primeiro período de alianças, uma vez que este procedimento gerava um status diferencial a pessoas consideradas importantes; “no ano de 1816, vamos ter a primeira madrinha indígena, chamada Elena da Cruz Iahuri, unida matrimonialmente ao português João Francisco de Abreu” (Durat, op. cit, p. 99). Nesse caso, a madrinha indígena era casada com um soldado português, o que a qualificava como “boa” madrinha.

O apadrinhamento de crianças em Atalaia e Guarapuava estreitava laços de compadrio dos novos moradores com os indígenas. Nesses locais, desde sua formação, os indígenas conviviam com os novos moradores, o que produziu relações políticas e de trabalho, bem como relações sociais de outra dimensão, as quais, no entanto, abarcavam e mesmo ampliavam as primeiras. Esta situação será posteriormente relatada pelo padre Bernardo Parés nos últimos anos de 1840, quando houve o estabelecimento de fazendas e o início do processo de aldeamento no Alto Uruguai.

O apadrinhamento ocorreria muitas vezes após as batidas que traziam índios prisioneiros ou então que entravam em entendimento, entretanto, para uma rendição condicionada ao bom tratamento, ao menos, a não violência dos ataques. Em 1825, o

capitão Antonio da Rocha Loires46 e uma sua filha solteira foram padrinhos de uma