• Sonuç bulunamadı

2.4. Tarihsel Süreç İçinde Gösterişçi Tüketim

2.4.2. Post-Endüstriyel Dönemde Gösterişçi Tüketim

Os processos crimes contemplados para análise nesse capítulo, portanto, são aqueles nos quais, simplesmente, os réus eram nascidos nos países vizinhos, independentemente do crime em questão, processos em que houve a fuga dos réus pela fronteira, ou casos especiais, que não se encaixam nesses mencionados acima, mas que tinham no espaço de fronteira parte da lógica de sua ocorrência. O total de processos que compõem esse capítulo, os quais se está denominando de “diversos”, é de 338 processos crimes, divididos por municípios da seguinte forma:

Quadro 12 – Processos Crimes “diversos” por município

MUNICÍPIO Número de Processos Crimes “diversos”

Alegrete 69

Uruguaiana 182

Santana do Livramento 51

Quarai 36

TOTAL 338

Fonte: APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crimes. Alegrete, Uruguaiana, Santana do

Livramento e Quaraí. Anos: 1845-1889.

A respeito dos processos com réus estrangeiros, em termos gerais, os crimes correspondem a roubos e furtos, homicídios, agressões e ferimentos, ofensas e desordens. Para cada município, o mapeamento desses crimes diversos com réus estrangeiros é o que segue abaixo, sendo dispensável a exposição de casos que os exemplifiquem, já que a descrição dos crimes em si, nesse momento, não é relevante para a análise, sendo que o dado considerável é, simplesmente, o número de processos com réus estrangeiros entre esses crimes “diversos”.

Têm-se, portanto, daqueles 338 casos de crimes “diversos”, 193 processos em que o dado que indica alguma relação com espaço de fronteira é a presença de réu natural dos países vizinhos, conforme justificado anteriormente sobre a importância que se crê ter essa informação na análise do quanto o contexto fronteiriço incidiu sobre as ocorrências criminais.

Quadro 13 – Número de Processos Crimes “diversos” com réus estrangeiros195 por municípios

Número de Processos Crimes correspondente Tipo de Crime “diverso” com réu

estrangeiro Alegrete Uruguaiana Santana do

Livramento

Quaraí

Roubo ou Furto 5 15 2 3

Agressão ou Ferimento 17 54 17 6

Assassinato ou Homicídio 16 15 9 2

Roubo seguido de morte ou ferimento - 2 2 1

Falsificação 1 1 - -

195 Lembro que na categoria “estrangeiros” se estão considerando indivíduos naturais das províncias argentinas,

Perjúrio - 2 - - Armas proibidas - 4 - 1 Desordem - 3 1 2 Aliciamento - 1 - - Ofensa - 3 - - Jogos Proibidos - 1 - - Sequestro - - - 1 Arrombamento/Invasão de propriedade - - - 3 Não informado - 2 - - Subtotal 40 103 31 19 TOTAL 193

Fonte: APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crimes. Alegrete, Uruguaiana, Santana do

Livramento e Quaraí. Anos: 1845-1889.

Passando aos processos crimes em que se verificou a fuga do criminoso, interessa saber quantos processos são no total, quais crimes incitaram a fuga dos réus, quantos desses fugitivos eram nacionais e quantos eram estrangeiros, em quantos casos o destino da fuga foi a fronteira, qual o sentido das fugas (quantos fugiram da província rio-grandense para os países vizinhos e quantos fizeram o caminho inverso) e para onde preferencialmente os réus procuraram fugir.

Vejamos alguns dados a fim de poder tecer análises na sequência:

Quadro 14 – Processos Crimes “diversos” com fuga dos réus por município

MUNICÍPIO Número de Processos Crimes “diversos”

Alegrete 26

Uruguaiana 95

Santana do Livramento 16

Quarai 18

TOTAL 155

Fonte: APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crimes. Alegrete, Uruguaiana, Santana do

Quadro 15 – Tipos de crimes “diversos” com fuga de réus

Número de Processos Crimes correspondente Tipo de Crime “diverso”

Alegrete Uruguaiana Santana do Livramento

Quaraí

Roubo ou Furto 2 3 2 5

Agressão ou Ferimento 5 31 9 4

Assassinato ou Homicídio 13 52 4 8

Roubo seguido de morte ou ferimento 2 3 1 -

Falsificação - - 1 Perjúrio - 1 - - Responsabilidade - 2 - - Sequestro 1 - - Dívida/Falência 1 1 - - Invasão de propriedade 1 - - Falsidade 1 - - Não informado - 2 - - Subtotal 26 95 16 18 TOTAL 155

Fonte: APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crimes. Alegrete, Uruguaiana, Santana do

Livramento e Quaraí. Anos: 1845-1889.

Quadro 16 – Crimes “diversos” com fuga de réus por nacionalidade dos réus Número de Processos Crimes correspondente Nacionalidade dos réus

Alegrete Uruguaiana Santana do Livramento

Quaraí

Sub- total

Réus brasileiros e outras nacionalidades 11 55 8 13 87

Réus estrangeiros196 15 40 8 5 68197

Subtotal 26 95 16 18 155

TOTAL 155

Fonte: APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crimes. Alegrete, Uruguaiana, Santana do

Livramento e Quaraí. Anos: 1845-1889.

196 Lembro que se estão considerando indivíduos naturais das províncias argentinas, do Estado Oriental ou que

apresentaram a denominação genérica de “castelhano”. Por isso as demais nacionalidades foram contadas junto com os brasileiros, por terem o mesmo efeito na relação estabelecida com a fronteira.

197 Esses 68 processos crimes em que houve fuga de criminoso estrangeiro pela fronteira também estão contados

Quadro 17 – Locais para onde os réus fugiram

Número de Processos Crimes correspondente Local da Fuga

Alegrete Uruguaiana Santana do Livramento

Quaraí

Sub- Total

Para o Estado Oriental 12 27 8 8 55

Para a Província de Corrientes 2 25 - - 27

Para a Província de Entre Rios 1 1 - - 2

Para a Argentina - 2 - - 2

Dentro do território nacional 1 2 1 1 5

“Pela fronteira” (para fora do território nacional)

6 5 - - 11

Do Estado Oriental para o Rio Grande do Sul

3 - 2 3 8

Da Província de Corrientes para o Rio Grande do Sul

- 1 - - 1

Da Província de Entre Rios para o Rio Grande do Sul

- - 2 - 2

“Sem lugar” 1 32 3 6 42

Subtotal 26 95 16 18 155

TOTAL 155

Fonte: APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crimes. Alegrete, Uruguaiana, Santana do

Livramento e Quaraí. Anos: 1845-1889.

Dos 338 crimes “diversos”, em 155 casos ocorreu a fuga dos criminosos. Nos casos em que o delinquente procurou fugir após cometer o crime, percebe-se que a maioria deles referia-se a roubos ou furtos, agressões ou ferimentos e assassinatos ou homicídios, constando alguns crimes menos recorrentes como falsificação, sequestro, responsabilidade, dívida e falência, invasão de propriedade e falsidade.

Há certa equivalência entre réus brasileiros e estrangeiros que fogem pela fronteira (a não ser em Quaraí, onde há uma superioridade de réus brasileiros que fugiram pela fronteira), o que quer dizer que, independentemente da nacionalidade que possuíssem, os indivíduos valiam-se dessa possibilidade de atravessar a fronteira para fugir da punição por um crime cometido.

Em relação aos locais de destino das fugas dos criminosos, deve-se refletir sobre vários fatores. Excetuando o valor total das fugas “sem lugar”, ou seja, aqueles processos nos quais apenas se sabe que os réus estão foragidos, porém, não se tem ideia de para onde foram,

e considerando apenas as fugas para lugar sabido, percebe-se claramente a proeminência das fugas que buscaram a fronteira sobre as fugas para dentro do próprio território.

Dos 155 processos crimes “diversos” em que houve fuga dos réus, diminuindo aqueles 42 denominados “sem lugar”, temos 113 processos nos quais em apenas cinco a fuga do réu teve como destino o território nacional. Na esmagadora maioria das vezes em que os réus fugiram, o movimento se deu no sentido de atravessar o limite político, no caso, 108 processos.

É evidente que nada disso é sem razão. Conforme abordado anteriormente, a facilidade de fuga pela fronteira e os benefícios da esperada imunidade adquirida ao atravessá-la faziam com que essa atitude fosse a estratégia preferencial daqueles que cometiam crimes naquele espaço, seja aqueles que viviam desses pequenos delitos, seja aqueles que, por circunstâncias específicas, cometeram um determinado ato ilícito.

Outra análise interessante diz respeito ao sentido das fugas – quantos fugiram da província rio-grandense para os países vizinhos e quantos fizeram o caminho inverso. Obviamente, sabendo que as fontes foram coletadas no Brasil, há uma sobrerrepresentação de fugas de criminosos que cometeram um crime deste lado da fronteira e fugiram para fora do Rio Grande do Sul. Contudo, as fontes também nos brindam com casos de indivíduos que vieram fugidos dos países vizinhos, como o caso já apresentado do réu João Ascencio Vieira, que, quando foi preso no Rio Grande do Sul por atear fogo a uma casa, já era foragido do Estado Oriental por crime cometido lá, ou ainda o caso de Pantaleão Joaquim Sant’Anna, que morreu na travessia a nado pelo Rio Quaraí quando fugia da cadeia em San Eugenio, município oriental situado do outro lado do rio. Assim, têm-se 11 processos crimes “diversos” que apontam fuga dos réus no sentido dos países vizinhos para o território brasileiro, contra 97 processos com fuga dos réus para o Estado Oriental, Províncias de Corrientes ou Entre Rios, Argentina198, ou, simplesmente, “pela fronteira” (para fora do território nacional), desde o território do Rio Grande do Sul.

Dentre esses processos diversos em que houve a fuga do criminoso pela fronteira, vale destacar três situações que pareceram peculiares. A primeira delas se refere às fugas pela fronteira em função de dívidas, o que pode denotar tratar-se de um sujeito que não costumava cometer delitos, mas que se viu circunstancialmente envolvido em uma situação em função da qual optou por fugir pela fronteira e colocar-se longe do alcance do seu credor.

198 Em alguns processos encontrou-se “Argentina” como denominação do local da fuga dos réus, sem

O capitão Felisberto Nunes Coelho foi a autor da denúncia sobre a mudança indevida de José Luiz da Costa e sua família para o Estado Oriental, a qual acreditava ter sido em razão de serem “os supplicados devedores de avultada quantia” tornando necessário “denunciar esta mudança que talvez tenha por único fim subtrahir ao pagamento da referida dívida”.199

A segunda situação que merece destaque são dois casos de assassinos contratados do lado oriental, onde viviam, para cometerem os crimes no lado brasileiro e depois retornarem para seu local de residência. No primeiro processo, a mandante e acusada do crime, Dona Lucinda Custódia Nunes, contratou Antonio dos Santos Pacheco e o mulato Osório Severo, ambos residentes no Estado Oriental, para assassinarem seu marido, do qual estava separada há algum tempo, e que vivia em Santana do Livramento. Tão logo o crime foi executado, os assassinos evadiram-se para o Estado Oriental, ficando imunes ao processo criminal. Dona Lucinda, no entanto, acabou julgada culpada e presa pelo assassinato.200 No segundo processo, o oriental Santiago de tal foi contratado do lado oriental para assassinar João André Baptista de Castilho no município de Quaraí. Santiago retornou para o Estado Oriental após o crime.201

A terceira situação diz respeito à ação permanente e organizada de grupos de malfeitores que viviam desse movimento pela fronteira cometendo crimes. As referências que se encontram sobre a ação desses bandos de salteadores nos processos crimes concentram-se no final do século e condizem com a preocupada referência feita pelo poder provincial a esse respeito.

Segundo o Relatório do Presidente da Província João Pedro Carvalho de Moraes, de 1875, em fins de junho de 1874 apareceu no município de Dom Pedrito, que também fazia fronteira com o Estado Oriental, um grupo de salteadores que, tendo cometido diversas barbaridades, entre assassinatos e roubos, evadiram-se da perseguição da polícia indo para o Estado Oriental. Meses depois, em outubro, o mesmo bando reapareceu em Alegrete, onde perpetraram crimes semelhantes aos anteriores. O grupo, que se estimava ser composto por cerca de dezesseis homens, novamente conseguiu escapar do cerco policial fugindo de volta para o Estado Oriental.202

199 APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crime. Alegrete. Caixa 42. Maço 77. nº 2700, 1850. 200 APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crime. Santana do Livramento. Caixa 700. Maço 04. nº

73, 1874.

201 APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crime. Quaraí. Maço 21. nº 771, 1876.

202 Relatório do Presidente da Província João Pedro Carvalho de Moraes. 1875. Disponível em: http://www.seplag.rs.gov.br/upload/1875_Joao_Pedro_Carvalho_de_Moraes_Falla.pdf Acesso em: setembro de 2011.

Em Uruguaiana, no ano de 1879, uma quadrilha, composta por nove homens, dos quais apenas se conseguiu prender dois, é descrita pelo Promotor Público, Joaquim dos Santos Coelho, da seguinte maneira

não tem emprego nem ocupação, andão sempre occultos e misteriosos, e não tem permanência fixa, discriminada e clara; vão se acobertando com a noticia de aggregados deste ou daquelle. Esta horda de indivíduos tem se tornado a muito tempo o flagello do 2º Districto, onde, combinados com outras hordas de Corrientes, praticão toda a sorte de depredações, furtando animais de toda a espécie, fasendo carneações nocturnas, assolando todas as fazendas [...]. O producto de seus latrocínios e depredações é muitas veses levado para Corrientes onde estão os outros sócios [...].203

Em 1880, em Alegrete, soldados da polícia sob o comando do Delegado receberam ordens para prender o entrerriano Estanislau de tal e Fermino Soares por já estarem nos seus encalços há muito tempo em função de crimes e desordens cometidos por eles. Segundo a denúncia do Promotor Público, Fermino e Estanislau “eram chefes de uma quadrilha de larápios, terror dos criadores e possuidores de cavallos nesse município”. Quando o bando se reunia, eram frequentes as queixas porque, onde se estabeleciam “ao som de guitarra e ao tinir de copos, transformavam ora sua casa, ora os ranchos próximos e lugar scenario de devassidão, jogo, lutas, donde não raras vezes resultavam graves conflictos e sérios ferimentos entre os convivas”. No ato da prisão, os criminosos tentaram fugir em direção à fronteira “para não soffrerem a acção da justiça”, mas houve conflito que decorreu na morte de vários soldados, bem como de Fermino Soares.204

Pelos processos crimes, identifica-se a prisão de outro grande bando em Uruguaiana, no ano de 1883. Uma quadrilha que assaltava casas de comércio, denominada de “companhia de ladrões”, foi identificada pelas autoridades policiais, que conseguiram prender oito dos dez membros do bando.205

No ano seguinte, a quadrilha de nove homens liderada pelos orientais Hermenegildo Sandaño e Theodoro Azuaga veio da Província de Corrientes para Uruguaiana com o fim de assaltar a casa de Dona Claudiana Rodrigues da Silva. Enquanto isso, na margem do Rio Uruguai, Gregório Barranqueira esperava pelo bando guardando a canoa na qual retornariam. Gregório foi o único preso, sendo que os demais conseguiram fugir para Corrientes.

203 APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crime. Uruguaiana. Caixa 377. Maço 83. nº 2915, 1883

(1879).

204 APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crime. Alegrete. Caixa 66. Maço 93 e 94. nº 3255, 1880. 205 APERS. Poder Judiciário. Cível e Crime. Processos Crime. Uruguaiana. Caixa 376. Maço 82 e 83. nº 2900,

Conforme se percebe, a existência desses bandos, no final do século XIX, significava um meio de sobrevivência para determinados sujeitos que atravessavam constantemente a fronteira para realizar roubos, regressar e vender ou usufruir dos produtos do delito e manter- se em movimento a fim de estender ao máximo sua impunidade até, quem sabe, um dia serem capturados.