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Stuart Mill conduziu uma guinada na teoria liberal “da perspectiva descendente para a ascendente” sendo por isso considerado “o grande representante do pensamento liberal democrático” do século XIX (Balbachevsky, 2000: 195) e desenvolveu concepções individualistas do ser humano e da sociedade.

Quando Kardec recusa o modelo episcopal critica o despotismo e a monarquia, rejeitando-a mesmo que a autoridade/ domínio esteja nas mãos de um bom líder, que aliás, pode ser sucedido por um mau líder. Pois bem, Allan Kardec procedeu da mesma forma que John Stuart Mill ao defender o governo representativo:

Durante muito tempo [...] tem sido comum se dizer que, se um bom déspota pudesse ser encontrado, a monarquia seria a melhor forma de governo. [...] Pelo bem da discussão estou disposto a concordar com tudo isso; mas devo evidenciar o quão grande é essa concessão; e também o quanto mais ainda é necessário acrescentar ao sentido transmitido pela expressão, um bom déspota [...]. A sua consecução de fato implicaria não um mero bom monarca, mas um monarca onisciente. Ele deve estar sempre corretamente informado, e com bastantes detalhes, sobre a conduta e o trabalho de todos os ramos da administração, em todos os distritos do país. [...]. Suponhamos que a dificuldade esteja superada. O que teríamos então? Um homem de atividade mental sobre-humana dirigindo todos os afazeres de um povo mentalmente passivo. [...] Que espécie de seres humanos pode ser formada sob tal regime? Que desenvolvimento podem nele alcançar as suas faculdades de pensamento e ação? [...] (afora o fato de que para um déspota, que uma vez ou outra corrige um abuso, existem outros 99 que nada fazem a não ser cria-los). (Mill apud Balbachevsky, 2000: 216-17,

Ao falar da amplitude de ação da Comissão Central Kardec atribui-lhe uma autoridade limitada ao âmbito moral de resguardar a Doutrina Espírita e não um poder disciplinar ou autocrático, que suponha a subordinação de uns aos outros, defendendo o “livre exame” e a “liberdade de consciência”, mais que isso, propõe que essa autoridade represente/ obedeça a opinião da comunidade de fiéis. Stuart Mill argumenta que o despotismo é a corrosão da esfera pública, pois impede a participação dos cidadãos na vida política: “deixe uma pessoa sem nada a fazer por seu país e ela não se interessará por ele” (Id, ibid: 218). Além do mais “um dos benefícios da liberdade é que o governante não pode desconsiderar as opiniões do povo e não pode aperfeiçoar por ele seus afazeres sem aperfeiçoar o próprio povo” (Id, ibid: 220). A democracia é um regime progressista, um governo popular que Stuart Mill elege como a melhor forma de governo. Kardec impõe limites ao governo tal qual Stuart Mill, para quem a autoridade deve respeitar as liberdades individuais (Id, ibid: 221), dentre elas as mesmas que Kardec procura preservar ao estipular a autoridade da Comissão Central.

Assim como Rousseau, Stuart Mill compreende que somente a participação popular é capaz de manter a liberdade e legitimar o governo e que somente participando os cidadãos terão senso do bem público, “ele aprende a se sentir como parte do público e a fazer do interesse público o seu interesse” (Id, ibid: 222-23).

A participação dos fiéis nos congressos aprovando ou reprovando as ações da Comissão Central reflete a forma como Stuart Mill pensa na relação dos governados com os governantes:

Bem diferente é a situação das faculdades humanas quando um ser humano possui como única restrição externa as necessidades da natureza ou os mandatos da sociedade que ele mesmo ajudou a impor e dos quais lhe é dado o direito de discordar publicamente, se achá-los errados, e de empenhar-se ativamente para alterá-los. (Id, ibid: 222)

Kardec defende a eleição e o mandato temporalmente limitado do presidente e terá sua autoridade limitada pelas atribuições que lhe confere o estatuto, seguindo Stuart Mill, o qual propõe o governo representativo:

Ainda mais importante do que esta questão de sentimentos é a disciplina prática que o caráter adquire a partir da demanda feita aos cidadãos para que exerçam de tempos em tempos e cada um por sua vez, alguma função social. [...] o único governo que pode satisfazer plenamente todas as exigências do Estado social é aquele no qual todo povo participa; [...]. Mas como, nas comunidades que excedem as proporções de um pequeno vilarejo, é impossível a participação pessoal de todos, a não ser numa parcela muito pequena dos negócios públicos, o tipo ideal de um governo perfeito só pode ser o representativo. (Mill apud Balkbachevsky, 2000: 222, 223)

A comissão nomeará o seu presidente por um ano. (Kardec, [1890] 2001: 356)

Quanto à transitoriedade dos mandatos há ressalva quanto à composição da comissão, na qual, uma vez eleitos seus membros, passam a ter mandatos vitalícios. Isso talvez por Kardec considerar a dificuldade de mobilizar os fiéis de tempos em tempos para uma eleição. Além disso, o presidente da comissão, pela proposta de Kardec, não seria eleito pela comunidade de adeptos e sim pelos membros da própria comissão. O presidente da Federação Espírita Brasileira é eleito nesses moldes, indiretamente, ou melhor, pelo voto dos integrantes do Conselho Federativo Nacional, os quais são presidentes das federações estaduais.

Essa comissão [...] se completará a si mesma, segundo regras igualmente determinadas, à medida que em seu seio se derem vagas por falecimentos ou por outras causas. Uma disposição especial estabelecerá o modo por que serão nomeados os doze primeiros. (Id, ibid: 356)

Como Stuart Mill, Kardec acredita no governo na maioria:

Não pode haver nenhuma dúvida de que o tipo passivo de caráter é preferido pelo governo de um ou de poucos e que o tipo ativo e independente é preferido pelo governo da maioria. (Mill apud Balbachevsky, 2000: 221)

Stuart Mill acredita na razão, no poder de argumentação, Kardec também.

Aquele que conhece apenas seu próprio lado da questão, pouco sabe dela. Suas razões podem ser boas e pode ser que ninguém tenha sido capaz de refutá-las. Mas se ele é igualmente incapaz de refutar as razões do lado contrário, se ele não sabe igualmente quais são, não tem nenhuma base para preferir qualquer uma... ou ele é levado pela autoridade ou adota, como a generalidade das pessoas, o lado para o qual sente mais inclinação. (Mill apud Balbachevsky, 2000: 213)

Aquele cuja maneira de ver for acertada, não faltarão razões boas com que a justifique. Se algum, contrariado por não conseguir que suas idéias predominem, se retirar, nem por isso deixariam as coisas de seguir seu curso e motivo não haveria para se lhe deplorar a saída, pois teria dado prova de uma suscetibilidade orgulhosa, pouco espírita, e que poderia tornar-se origem de perturbações. (Kardec, [1890] 2001: 358)

Kardec ao propor o “caráter progressista da doutrina”, acredita como Stuart Mill que “as épocas não são mais infalíveis que os indivíduos, já que cada época sustentou muitas opiniões que as épocas subseqüentes reputaram não apenas como falsas mas como absurdas” (Mill apud Balbachevsky, 2000: 212) ou seja, que as verdades são provisórias, parciais e falíveis.

E, por fim, ao conjugar opostos (os binômios) em sua doutrina Kardec compreende, assim como Mill, que os opostos não são inconciliáveis e devem conviver de modo a evitar excessos de um lado ou de outro:

A verdade, nos grandes domínios práticos da vida, é de tal modo uma questão de reconciliar e combinar opostos que muito poucas pessoas têm pensamentos suficientemente capazes e imparciais para fazer o ajuste com uma abordagem acurada; e isso tem de ser feito através do método grosseiro de uma batalha entre combatentes que lutam sob bandeiras rivais. (Id, ibid: 215)

O equilíbrio doutrinário também foi almejado por Kardec na estrutura organizacional, dotada de três poderes, mas é importante assinalar que o dissenso é aceito somente até certo ponto, pois, quando Kardec fala dos cismas, é enfático ao afirmar que “seitas poderão formar-se ao lado da Doutrina [...], porém não dentro da Doutrina” (Kardec, [1890] 2001: 348). Logo, quem discordar, que saia. Este é o maior perigo da vontade geral em Rousseau,

a exclusão da minoria e a tirania da maioria. Essa tensão está presente seja nos escritos de Kardec seja na própria dinâmica do campo espírita, pois ao lado da tendência de unificação existe outra, a de fragmentação e segmentação em outras vertentes doutrinárias.