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A Igreja Católica no Brasil, desde que o Marquês de Pombal expulsou as ordens independentes (especialmente a Companhia de Jesus) em 1759, passou a viver exclusivamente na dependência da coroa portuguesa, no regime de padroado, em que a coroa garantia a propagação do cristianismo nas terras colonizadas em detrimento da autonomia do clero no país. Esse vínculo de subordinação e dependência da igreja em relação ao Estado foi intensificado após a Independência do país em 1822, culminando na Questão Religiosa de 1872. Isso, conforme Paiva (2003), configurou um caminho inverso ao da relação entre Estado e religião na sociedade americana:

o que prevaleceu foi a submissão [no Brasil] do religioso ao político, numa centralização necessária de seu controle; foi a manutenção de um mundo mágico para as classes dominadas na preservação de relações desiguais; foi um descolamento da prática religiosa da vida cotidiana, pois esta é vivida em um formalismo que exige pouco do fiel na sua vida diária, neutralizando qualquer tipo de ação social; foi, por último, um distanciamento da esfera pública [...]. (2003: 64)

A afirmação acima ocorre no contexto de uma comparação entre o catolicismo brasileiro e o protestantismo americano, na busca de compreender por que, como e em quais contextos sociopolíticos pôde cada uma dessas esferas religiosas ser mobilizada em lutas históricas pela conquista de direitos (políticos, civis, sociais). Em outras palavras, qual o papel dessas religiões na busca da cidadania. Neste trabalho focalizamos qual a contribuição e o papel do Espiritismo para a democracia.

A importância de traçar o caminho percorrido pela Igreja Católica se dá, em primeiro lugar, no sentido de compreender como esse grande baluarte conservador se abriu ao tratamento das desigualdades sociais a partir da década de 1950, justamente no momento em que surgia a Campanha Contra as Religiões Mediúnicas (umbanda, candomblé e espiritismo kardecista) lançada em 1953 (Machado, 2005: 3). Em segundo lugar porque, esse processo histórico, já no final do século XX e após a redemocratização, conduziu essa mesma Igreja a assumir uma postura de respeito à pluralidade religiosa brasileira, deixando de combater seus concorrentes no mercado religioso. Dessa maneira esses concorrentes puderam, finalmente, proliferar-se e desenvolver livremente (sem pressões católicas) suas potencialidades e seus cultos, do final da década de 1980 para cá. Este período é denominado por Reginaldo Prandi e Antônio Flávio Pierucci (1996) de “efetiva instauração do pluralismo religioso no Brasil”.

Reconhecendo que a ordem religiosa se constitui “como resultado de vários conflitos”, saímos dessa digressão explicativa para demonstrar quais valores foram inusitadamente legitimados pelo catolicismo brasileiro cristalizando-se em valores religiosos específicos, que se converteram em tradição religiosa autônoma e influíram na vida cotidiana dos fiéis, transformando-a em vários casos, radicalmente (Berger apud Paiva, 2003: 49).

Da colonização até a Proclamação da República o clero viveu no Brasil sob o regime de padroado. No padroado a Santa Sé cedia parte de seu poder ao monarca de Portugal. Após a Independência o Imperador continua a deter o governo civil e religioso, com o poder de decidir sobre o cumprimento das orientações de Roma no Brasil.

da magia. O Iluminismo no Brasil era restrito à classe fundadora do Império e não serviu para implementar mudanças profundas, para ampliação da cidadania, nem tampouco para afetar o regime escravista em seu auge. Além disso a maior parte da população era analfabeta e tinha ainda menos possibilidades que os padres de se cristianizar. Nesse sentido, tudo ocorria exatamente em sentido contrário ao do protestantismo americano. No Concílio Vaticano I, da década de 1870, o Syllabus papal condenava as liberdades individuais. A Questão Religiosa de 1872 decorreu da preocupação institucional da Igreja de tornar-se independente do Império e subordinada a Roma, não do objetivo de romper com a dependência em relação ao Estado para atuar livremente na esfera social. Era portanto, um movimento centralizador e conservador.

Porém, a romanização ocorreu realmente apenas após a Proclamação da República, quando houve separação entre Igreja e Estado. E daí em diante a Igreja Católica se fortaleceu durante a República Velha e até a Era Vargas, e se impôs através de alianças com as elites dominantes, ainda que alguns padres como Júlio Maria, tivessem a preocupação de seguir as orientações da Rerum Novarum do Papa Leão XIII. A Rerum Novarum é um documento do final do século XIX que esboçava a primeira e incipiente iniciativa de comprometimento da Igreja com o social. Padre Júlio Maria, entretanto, foi uma voz solitária, que pregava um catolicismo social, “cujo principal objetivo era mostrar a afinidade da Igreja com o final do século, com a ciência e a razão, vendo-a como a possibilidade de transformar os brasileiros que sofriam de ‘inanição intelectual, física e moral’ em cidadãos”, mas, em 1898, foi “convidado” a calar-se (Paiva, 2003: 68).

Uma demonstração da influência da Igreja sobre o Estado na primeira metade do século XX foi a tentativa da Igreja de novamente tornar o catolicismo religião oficial do Estado. Contra esta tentativa os Espíritas se uniram a outras religiões, combatendo inclusive

a proposta de inserção do ensino religioso nas escolas públicas, nesse sentido foi mais uma contribuição do Espiritismo para a instauração do pluralismo religioso no Brasil:

Assentada a poeira e a agitação da Constituinte, era vez de a família espírita unir-se outra vez em torno de um objetivo comum: a participação na criação da Coligação Pró-Estado Leigo, formada por líderes de várias religiões e presidida pelo notável espírita paranaense Dr. Lins de Vasconcelos, que visava se opor às intenções da Igreja Católica de novamente tornar-se a religião oficial do Estado. (Monteiro e D’Olivo, 1997: 34)

Reforçando a tendência conservadora e elitista da Igreja Católica a Pastoral Coletiva de 1945 prega mais uma vez o conformismo, especificamente no que diz respeito aos operários, concitando os pobres a submissão às classes dominantes:

Apliquem-se, pois, não só os sacerdotes, mas todos quantos se interessam pela causa popular, a inculcar ao povo, e principalmente às classes inferiores, o dever de se acautelar contra as sedições seus promotores e especuladores. Para haver paz e tranqüilidade é mister respeitar os direitos alheios, [...] prestar a justa obediência e serviços devidos aos superiores e patrões [...]. (Paiva, 2003: 165)

Era a mais estreita comunhão entre Igreja e elite brasileira na preservação da ordem social e manutenção das “desgarantias das liberdades privadas” (como disse Oliveira Vianna) ou da “descidadania”, com a “ética do dever” da igreja enfatizando a submissão, a resignação e a obediência compondo uma perspectiva organicista/ hierárquica da sociedade que confirmava as “relações autoritárias e conservadoras” (Id, ibid: 110, 113).

No catolicismo brasileiro as reelaborações teológicas não vieram de uma ruptura interna da hierarquia, mas foram precedidas de um processo de autonomização da Igreja em relação ao Estado. Ocorreram com a participação dos leigos (na base da pirâmide hierárquica, portanto, “descentralizando” no sentido de atribuir aos fiéis responsabilidades que antes eram exclusivas dos sacerdotes) e partiram de reflexões inovadoras sobre o papel do cristão no mundo aproximando-o da sociedade, ao invés de afastá-lo ou fechá-lo para a

mesma, reduzindo drasticamente a tensão na relação entre religião e mundo (sociedade e política).

Além disso, como já mencionamos, essas mudanças estão estreitamente ligadas ao contexto da secularização, na qual, como nos ensinou Weber, ocorre o processo de autonomização das esferas. Nesse processo a religião perde sua preponderância sobre os demais setores da vida, sofrendo também um processo de pluralização a partir da Reforma Protestante. Assim a Igreja Católica passa a ter que lidar com um mundo sobre o qual não mais domina e não mais detém o monopólio da verdade redefinindo-se em busca de novas formas de intervenção e agência na sociedade.

Essas mudanças que vinham em cadeia tanto no Brasil quanto na Europa viriam a ser cunhadas na América Latina de Teologia da Libertação e resultaram na aproximação parcial com ideologias de esquerda e no encontro da Igreja com a história, retornando a valores elaborados nos primórdios do cristianismo (assim como ocorreu com o protestantismo americano), tendência consagrada pelo Concílio Vaticano II (1961). E como pudemos notar pelas elaborações teológicas do período essas mudanças foram também os primeiros sinais de reconhecimento da diversidade religiosa:

O encontro da Igreja com a história foi a pedra fundamental na orientação que prevaleceu durante o Concílio, [...]. A prática religiosa do católico passou a significar o homem na sua relação social, tornando possível a convivência com pertenças religiosas diferenciadas. [...] a condição de participação mais efetiva da Igreja em sociedades cada vez mais secularizadas e com pluralidade religiosa deve passar primeiro pelo reconhecimento da existência dessa diversidade para que seja, então, possível ao católico participar das demais esferas da vida sem ter de perder sua condição de cristão. (Id, ibid: 172)

Mas isso aconteceu para o descontentamento do clero conservador, que, como veremos, na mesma época (década de 1950) dedicava suas energias ao ataque das religiões mediúnicas. Somente no final do século XX, passando por uma queda relativa, mas

contínua em seu número de fiéis, foi que a Igreja Católica passou a adotar uma abordagem ecumênica de aceitação e convívio com a pluralidade religiosa existente no país, já sob uma nova tendência, a Renovação Carismática.

Em 1950 os católicos eram maioria esmagadora, segundo o censo demográfico do IBGE 93,7% da população e no ano 2000, último ano do século XX, passaram a 73,8%.Os católicos continuam maioria, mas uma maioria em declínio (Pierucci, 2004). Disso depreende-se que até meados do século XX o catolicismo reinou absoluto. Foi no âmbito dessa hegemonia que o campo espírita formou-se e gerou sua força ao lutar para sobreviver e expandir-se, criando condições para se libertar.