Nesta análise partimos da hipótese de que Allan Kardec era republicano e liberal, simultaneamente. Pelo lado republicano destaca-se a influência de Jean Jacques Rousseau, expoente da Revolução Francesa, um dos notáveis teóricos do Estado e da Educação de quem Kardec é culturalmente próximo. Para Rousseau república é, independente da forma de administração21, “todo Estado regido por leis” ([1757] 1999: 107) e todo governo assim estabelecido, é legítimo, pois orienta todas as suas ações para o interesse público. República então pode ser entendida como o estado de direito (governo das leis elaboradas pelo povo soberano) no qual a administração ou o poder executivo efetua seus atos particulares sob a autoridade do soberano ou, do povo, cujo papel é formular as leis que regularão a vida de seus membros e assim regula-se, tendo o duplo papel de súdito e soberano. E o fundamento da República é o Pacto Social.
Para o público estranho, um corpo constituído tem maior ascendente e preponderância; contra os adversários, sobretudo, apresenta uma força de resistência e dispõe de meios de ação com que um indivíduo não poderia contar; aquele luta com vantagens infinitamente maiores. Uma individualidade está sujeita a ser atacada e aniquilada; o mesmo já não se dá com uma entidade coletiva. (Kardec, [1890] 2001: 351, 357)
O pacto é a condição na qual os indivíduos ligam-se uns aos outros para compor uma força bem maior do que a que possuem quando estão sozinhos e essa força tem por objetivo
garantir a sobrevivência humana. O objetivo é proteger com a força comum a pessoa e os bens de cada associado sem que com isso ele abdique de sua liberdade. Contudo, o contrato tácito, implícito na vida em sociedade, estabelece uma liberdade convencional mediante renúncia à liberdade natural. O pacto estabelece a igualdade entre todos os contratantes, pois a desigualdade permitiria que um ou mais membros se impusessem sobre os demais conduzindo a tirania.
E este contrato constitui a república:
Imediatamente, esse ato de associação produz, em lugar da pessoa particular de cada contratante, um corpo moral e coletivo, composto de tantos membros quantos são os votos da assembléia, e que, por esse mesmo ato, ganha sua unidade, seu eu comum, sua vida e sua vontade. Essa pessoa pública, que se forma, desse modo, pela união de todas as outras, tomava antigamente o nome de cidade e, hoje, o de república ou de corpo político, o qual é chamado por seus membros de Estado quando passivo, soberano quando ativo, e potência quando comparado a seus semelhantes. Quanto aos associados, recebem eles, coletivamente, o nome de povo e se chamam, em particular, cidadãos, enquanto partícipes da autoridade soberana, e súditos enquanto submetidos às leis do Estado. (Rousseau, [1757] 1999: 71)
Para Kardec o Pacto é a força:
Dez homens unidos por um pensamento comum são mais fortes do que cem que não se entendam. (Kardec, [1890] 2001: 381-2)
Quando Kardec fala em “direção coletiva” ou “chefe coletivo” para o espiritismo e fala em “corpo constituído” no qual o prejuízo de um em nada se aproveita para outro, onde todos são iguais só podem agir em conjunto, e que desse corpo provirá a força do Espiritismo, invoca a noção de contrato social em Rosseau. Nesta noção uma multidão, ao se reunir em um corpo torna-se um todo único. Não se pode ofender um dos membros sem atacar o corpo, nem ofender o corpo sem atacar os membros. Há um acordo entre as duas partes contratantes com iguais vantagens para ambas e o objetivo comum de se reunir para o auxílio mútuo. Cada um dando-se completamente a condição é igual para todos e ninguém se interessa em tirar vantagens particulares (Rosseau [1757] 1999: 70, 74).
Ao enfatizar que a comissão central deverá obedecer à opinião geral e preocupar-se em estabelecer mecanismos para que isto aconteça e a direção do “movimento espírita” não seja dada conforme interesses/ opiniões pessoais ou particulares Kardec segue a idéia da vontade geral em Rousseau. Só uma vontade geral pode dirigir as forças do Estado. A finalidade do Estado é o bem comum. O que tornou necessária a existência das sociedades foi a oposição de interesses particulares conciliados por meio de um acordo entre esses interesses. O existe de comum entre tais interesses é o que compõe o liame social e somente com base no “interesse comum” é que a sociedade pode ser governada (Id, ibid: 85).
[...] a vontade particular tende pela sua natureza às predileções e a vontade geral à igualdade.
[...] só a vontade geral obriga os particulares e só podemos estar certos de que uma vontade particular é conforme a vontade geral depois de submetê-la ao sufrágio livre do povo. (Rousseau, [1757] 1999: 86, 111)
Kardec enfatiza que a fonte da autoridade da comissão central deve ser a comunidade de adeptos. O que Kardec tem em comum com Stuart Mill, este tem em comum com Rousseau, que é a crítica a monarquia:
Um defeito essencial e inevitável, que sempre colocará o Governo monárquico abaixo do republicano, é que neste o voto público quase sempre eleva aos primeiros postos homens esclarecidos e capazes, que os preenchem com honra, enquanto os que surgem nas monarquias não passam, comumente, de pequenos trapalhões [...]. (Id, ibid: 159)
Os estatutos constitutivos são a lei que rege as ações do presidente, assim como a lei, promulgada pela vontade geral do povo é o norteador da República. Rousseau não admite que haja representação no poder legislativo, somente no executivo, no que lhe segue Kardec, pois os estatutos constitutivos que regem a comissão central devem ser aprovados/ ratificados pela comunidade de adeptos, não pela comissão central.
Não sendo a Lei mais do que a declaração da vontade geral, claro é que, no poder legislativo, o povo não possa ser representado, mas tal coisa pode e deve acontecer no poder executivo, que não passa da força aplicada à Lei (Id, ibid: 188).
Rosseau enfatiza que só é possível ao povo participar da elaboração das leis que o regem, bem como ao soberano que este povo compõe conservar e exercer seus direitos em uma República/ pólis muito pequena e nisso introduz em nota o assunto das “confederações” que consiste na aliança de pequenos estados somando as vantagens do poder local às vantagens “do poder exterior de um grande povo” (Rousseau, [1757] 1999: 189). O trecho mais próximo dessa idéia em Kardec é aquele no qual fala da “amplitude de ação da comissão central”, no qual enfatiza que os espíritas de todas as nações estarão unidos por laços de fraternidade e não deverão se subordinar uns aos outros. A idéia de uma confederação é importante, porque embora a palavra não esteja expressa no texto de Kardec (nem a palavra “federação”) é ela que se transmite, de modo contrário à hierarquização e em defesa da autonomia pois “cada um [deverá] regula[r] como entende os respectivos trabalhos”. Kardec sugere que haverá diversos centros gerais do Espiritismo “que permutarão entre si o que obtiverem de bom e de aplicável aos países onde funcionarem” (Kardec, [1890] 2001: 363-4).
Assim como Rousseau, Kardec considera nociva a proliferação de seitas:
Importa, pois, para alcançar o verdadeiro enunciado da vontade geral, que não haja sociedade parcial e que cada cidadão só opine de acordo consigo mesmo.
Em verdade, há divisões que prejudicam as repúblicas e outras que lhes aproveitam: prejudiciais são as que suscitam seitas e partidários, proveitosas, as que se mantêm sem seitas nem partidários. Não podendo, pois, o fundador duma república impedir que nela existam inimizades, impedirá ao menos que haja seitas.22 (Rousseau, [1757] 1999: 92-3)
Finalmente, para Kardec a opinião geral ou coletiva “é sempre certa” sendo necessário precaver-se das “fraquezas humanas” impedindo que seitas venham a romper a unidade do Espiritismo. Aí temos um problema, chamado pelo tradutor de “mística democrática”, pois se interpretamos o pensamento de Rousseau concluindo que “a maioria está sempre certa” em suas decisões, ou, dito de outro modo, sempre engendra decisões perfeitas, logo é massacrada ou sequer pode haver minoria, deve haver sempre concordância de todos sobre tudo e o dissenso passa a ser visto como algo ruim, negativo. Mas não foi exatamente isso que Rousseau escreveu:
... a vontade geral é sempre certa e tende sempre à utilidade pública; donde não se segue, contudo, que as deliberações do povo tenham sempre a mesma exatidão. Deseja-se sempre o próprio bem, mas nem sempre se sabe onde ele está.
Há comumente muita diferença entre a vontade de todos e a vontade geral. Esta se prende somente ao interesse comum; a outra ao interesse privado, e não passa de uma soma das vontades particulares. (Id, ibid: 91)
Não pretendemos esgotar aqui a comparação entre os textos dos autores e de fato a “Constituição do Espiritismo” e o “Projeto 1868” apresentam outras semelhanças não mencionadas com o Contrato Social, inclusive na parte que Rousseau fala da “Religião Civil”. Há semelhança também, por exemplo, entre o procedimento de Kardec, que, ao elaborar uma Constituição para o Espiritismo, pretende tomar precauções como as que pertencem ao Legislador: “o instituidor sábio não começa por redigir leis boas em si mesmas, mas antes examina se o povo a que se destina mostra-se apto a recebe-las” (Rousseau, [1757] 1999: 115). Como “legislador” Kardec abdica de qualquer direito de participação no corpo executivo formado pela comissão central: “...se aquele que governa os homens não deve governar as leis, aquele que governa as leis não deve também governar os homens” (id, ibid:110).
Por volta de 1860 surgiram os primeiros centros baseados nas orientações de Allan Kardec. Em 1889 Bezerra de Menezes, considerado importante líder da unificação pelos espíritas brasileiros, ocupava-se da tradução de Obras Póstumas, onde estão as diretrizes para as práticas decisórias, representativas e doutrinárias do Espiritismo. Já no século XX o conteúdo normativo lançado por Kardec aparece no livro USE 50 anos de Unificação como orientação seguida pelo “Movimento de Unificação Espírita” (M.U.E) paulista em 1946 e por “todas as Entidades Federativas” que surgiram (Monteiro e D’Olivo, 1997:52).
Apesar dos conflitos essas práticas tornaram-se bem aceitas no Brasil e se desenvolveram aqui de modo pioneiro em relação às diversas variações do espiritismo em outros países. Por isso é possível perceber vários aspectos comuns da organização atual com o que está contido no “Projeto 1868” e na “Constituição do Espiritismo”.
Ainda hoje há tensões entre a liberdade de adesão e o poder regulatório contido na proposta unificadora, assim como as maiorias formadas nas decisões nem sempre atendem ao interesse comum, embora na concepção de muitos a “mística democrática” seja uma realidade.