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Tal como referido anteriormente, a forma como os sujeitos contemporâneos se constituem enquanto indivíduos e possuidores de identidade(s), é fundamental para compreender o que é ser jovem actualmente, em particular no que diz respeito à

injunção a que cada um individualize a sua vida (Schwartz, Côté, & Arnett, 2005, p. 203; Shulman, Feldman, Blatt, Cohen, & Mahler, 2005). O contexto de expectativas criadas sobre o que ‘deve ser’, em interacção com as possibilidades materiais do que ‘consegue ser’ a vida dos jovens, abre a possibilidade das contradições sistémicas referidas por Beck. Para Settersten Jr. e Ray (2010, p. 22), os marcadores que representam a transição para a idade adulta (habitação própria, independência financeira, casamento, filhos, entre outros) são vistos “como escolhas de vida, ao invés de como requisitos, como passos que completam o processo de alguém se tornar um adulto, ao invés de lhe dar início”, sendo atingidos mais tarde ou não o sendo de todo.

Vários sociólogos têm interpretado negativamente esta tendência, avançando aquilo a que Blatterer chama de “tese da adolescência prolongada”, e que surge a partir do “hiato normativo” existente “entre expectativas e realidades” (Blatterer, 2007, pp. 777, 778). E se a idade configura legalmente a entrada na vida adulta de uma determinada forma (cumprir 18 aniversários), isso nada nos diz sobre o quanto as pessoas em questão se sentem ou não incluídas nessa categoria.

Arnett defende que se está a configurar culturalmente6 uma fase que precisa de ser considerada em separado, com características próprias, e não apenas uma perturbação das categorias já existentes. Para o autor, o foco etário principal encontra-se entre os 18 e os 25 anos, e centra-se em várias especificidades, como a demografia, as questões subjectivas e o papel de exploração identitária, sendo que “um enfoque no próprio sujeito, a sensação de se estar entre a adolescência e a idade adulta, instabilidade e abertura a uma grande variedade de possibilidades” são algumas das características centrais (Schwartz, Zamboanga, Luyckx, Meca, & Ritchie, 2013, p. 97), dando-se portanto uma inversão face aos marcadores tradicionais, considerados mais objectivos, e reconhecendo que as teorias implícitas que os jovens têm sobre maturidade fazem parte integrante do seu processo de crescimento (E. T. Barker & Galambos, 2005).

Demograficamente, o período de emerging adulthood caracteriza-se pela impossibilidade de apontar uma tendência unívoca clara, pela “variabilidade demográfica” que não se encontra nem antes nem depois desta altura, com elementos de

6 O autor é bastante claro em fazer notar que este “não é um período universal, mas sim um período que existe apenas em culturas que adiam a entrada nos papéis e responsabilidades da idade adulta até bem depois do fim da segunda década de vida” e que deve ser entendida “como uma característica que diz respeito a culturas, e não a países” (Arnett, 2000, p. 478).

“semiautonomia”. Se é verdade que é dentro desta altura que bastantes jovens saem de casa dos pais e conseguem um emprego que forneça sustento, não é menos verdade que um número significativo não o faz. Ao nível da educação, a frequência de cursos superiores é algo muitas vezes não linear, e não se reveste da exclusividade associada à frequência escolar obrigatória, mas antes se mistura com um emprego. A exploração e a instabilidade acabam a formar a tónica central (Arnett, 2000, p. 471).

Do ponto de vista da construção subjectiva, muitos jovens sentem-se, nesta fase, não propriamente adultos mas também já não adolescentes. Poderia supor-se que isto surge da instabilidade dos marcadores demográficos clássicos – porém, quando questionados sobre o que consideram ser ‘chegar à idade adulta’, a maior parte dos inquiridos em vários estudos apontam variáveis individualistas, ligadas ao carácter da própria pessoa, como “saber aceitar as próprias responsabilidades” ou “tomar decisões de forma independente” (Arnett, 2000, p. 473; Nelson, 2005). Um estudo longitudinal de larga escala com uma amostra estatisticamente representativa de jovens dos EUA demonstra empiricamente as complexidades deste processo: na altura da última amostragem os jovens tinham entre 25 e 26 anos e apenas 46% deles diziam sentir-se adultos o tempo todo (Benson & Johnson, 2009, p. 1276). Outro elemento demonstrado é o impacto da presença de marcas de privilégio (socioeconómico e de estrutura familiar) no fenómeno de alguém se sentir adulto: a presença de uma estrutura familiar mais estável ou a posse de maior segurança económica está ligada a uma auto- percepção de adultície mais tardia, na medida em que os jovens tinham um suporte familiar que retirava algumas das pressões sentidas pelos mais desfavorecidos, contextualmente forçados a assumir desde mais cedo papéis e responsabilidades mais conotadas com a esfera adulta (Benson & Johnson, 2009, p. 1283). Por sua vez, e de acordo com os mesmos autores, este assumir de papéis adultos mais cedo está também correlacionado com maiores comportamentos de risco, levantando a questão sobre como a própria retórica do crescimento e da aquisição de competências como marca da idade adulta (e, correspondentemente, da irresponsabilidade e risco como fazendo parte da juventude ou infância) tem embutida uma valoração moral positiva que acaba por ser questionável. Há portanto uma série de pressões sociais que empurram os jovens menos privilegiados para contextos onde tais comportamentos de risco adquirem sentido, ainda que assumindo simultaneamente papéis ligados à adultície.

Para Arnett, e ao contrário do que é frequentemente defendido, não é a adolescência o período da vida mais ligado à exploração identitária, de papéis, relações e ocupações – é na fase de emerging adulthood que surgem mais activamente, embora comecem de facto na adolescência. Isto é particularmente visível no campo das relações românticas/amorosas e do emprego. Neste último, a já referida combinação da frequência do ensino superior com uma ocupação (seja para sustentar os estudos, seja porque os estudos funcionam como complemento ou reforço do currículo pessoal) combina-se com a experimentação de empregos menos comuns, diversificando as experiências (Arnett, 2000, p. 474). No caso da exploração da intimidade interpessoal, os jovens “exploram e consideram por quem se sentem atraídos, que tipos de comportamentos sexuais preferem, e a forma com que se sentem mais confortáveis a exprimir afecto e amor” (Schwartz et al., 2013, p. 101); as suas “explorações amorosas tendem a envolver um maior nível de intimidade” e é mais provável que incluam “relações sexuais [e] coabitação” (Arnett, 2000, p. 473; Montgomery, 2005).

Ao passo que durante a adolescência, a coabitação com os pais, escolaridade compulsória e ausência de emprego, a par com transformações físicas e psicológicas, são os traços dominantes, deixam de o ser na faixa que Arnett designa por emerging

adulthood, pelo que não fará sentido então falar de “adolescência tardia” (2000, p. 476).

Apesar de o trabalho de Arnett se focar principalmente sobre a América do Norte, a investigação na Europa tem procurado implementar este modelo teórico com conclusões que complexificam o debate, já que este fenómeno “na Europa parece ser bastante distinto entre diferentes países mas, ao mesmo tempo, parece ter características comuns” (Buhl & Lanz, 2007, p. 441). Em primeiro lugar, as idades que Arnett aponta precisam de ser ajustadas para a Europa, onde a entrada no mercado de trabalho é geralmente mais tardia; em segundo lugar, a investigação aponta para pelo menos dois modelos diferentes de mudança de condições privadas de vida. O modelo Mediterrâneo é caracterizado por uma coabitação com os pais mais prolongada que, na maioria dos casos, termina quando o jovem sai para se casar; o modelo Nórdico é caracterizado por uma experimentação de diferentes formas de viver que fazem a ponte entre a saída de casa dos pais e o casamento ou união (2007, p. 440). Não obstante isto, existe uma grande diversidade de modelos e tendências entre diferentes países, não sendo possível generalizar um padrão válido para toda a Europa.

Apesar de esta investigação se focar nos jovens entre os 16-19 anos (e portanto apenas parcialmente se debruçar sobre jovens na fase de emerging adulthood), a inclusão deste conceito tem um duplo propósito. Em primeiro lugar, ainda que uma parte dos jovens que participam nesta investigação possa não possuir as características apontadas acima, é expectável que eles venham a fazer parte desta fase de vida brevemente, e que portanto ela esteja já enquanto horizonte de possibilidades dentro da forma como se vêem a si mesmos, ou que tenham que começar a lidar com algumas das tensões e incertezas que aqui são referidas. Em segundo lugar, e em ligação com a próxima secção, a categoria de emerging adulthood prova a importância dos constructos teóricos na formulação de investigação e, por conseguinte, de conhecimento socialmente reconhecido e epistemologicamente consolidado (e que, não poucas vezes, implica também a mobilização de políticas públicas, verbas e outros elementos que acabam por ter impacto na vida dos jovens).

As secções que se seguem têm como objectivo demonstrar a pluralidade de discursos socio-científicos existentes, não apenas para os descrever, mas também para compreender criticamente como é que diferentes construções em torno dos jovens produzem sujeitos e efeitos de poder regulatório e trabalham conjuntamente para reproduzir uma ordem moral que privilegia certos grupos em detrimento de outros.

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Benzer Belgeler