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Desse modo, focalizei meu interesse de pesquisa nesse grupo de mulheres – clientes/contratantes que freqüentam os clubes e restaurantes para dançar com homens – dançarinos47. Não foi possível no contexto do baile fazer um levantamento estatístico do perfil destes freqüentadores com questionários de perfil socioeconômico.

Porém, a partir das conversas com ambos e da participação e observação nos bailes, é possível dizer que as clientes são, em geral, mulheres a partir dos cinqüenta anos que chegam aos bailes em dupla ou grupo de amigas e/ou acompanhadas com os dançarinos contratados. Elas são solteiras, muitas passaram por processos de separação conjugal ou são viúvas. As ocupações variam e entre elas temos pensionistas, aposentadas, funcionárias públicas, advogadas, jornalistas, empresárias, administradoras.

Algumas clientes costumavam freqüentar os bailes nos clubes sociais durante a adolescência bem como depois de casadas acompanhadas pelo marido. Todavia, a maioria

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Para Geertz (1989, p.143-144) o termo “estilo de vida” se enquadra no conceito de “ethos”. Este se constituiria dos aspectos morais e estéticos de cada cultura, como também, seus elementos valorativos. Nas palavras do autor: “O ethos de um povo é o tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético e sua disposição, é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que a vida reflete”. Os aspectos cognitivos e existenciais seriam a “visão de mundo” de determinado povo: “[...] é o quadro que elabora das coisas como elas são na simples realidade, seu conceito da natureza, de si mesmo, da sociedade”. Ao supor a existência de um “estilo de vida” comum entre esses indivíduos, quer-se dizer que eles compartilham um “ethos” e uma “visão de mundo” particular.

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Optei por utilizar nomes fictícios para todos os participantes da pesquisa. Com relação à idade das clientes, apesar da confiança estabelecida no campo e da privacidade de seus nomes verdadeiros, algumas se recusaram a revelá-la ou sentiram-se constrangidas em saber que a idade constaria no trabalho. Assim, apresento aqui a idade de algumas clientes e de outras direi apenas que estão com mais de 50 ou 60 anos.

tornou-se assídua nos bailes e na prática de contratar dançarinos a partir da separação do cônjuge, da viuvez ou de algum problema de saúde.

Entre as clientes que conheci e conversei nos bailes, escolhi quatro para realizar entrevistas com gravador. Uma delas é Carmem. Ela é solteira, sem filhos, sessenta e um anos de idade. Formou-se em Direito, Administração e trabalhou como auditora fiscal federal. Atualmente é aposentada e possui uma empresa de eventos. Rosa e Flora são separadas e tem filhos. Rosa tem mais de sessenta anos, é advogada e funcionária pública aposentada. Flora é jornalista e tem mais de cinqüenta anos. Elvira tem cinqüenta e seis anos, filhos, é viúva e pensionista.

Os dançarinos, geralmente com idade entre dezoito e trinta anos, vão ao baile de ônibus, moto (própria ou moto-táxi), carro próprio e carona com alguma cliente ou colega de profissão. Praticamente todos que conheci (nas aulas e nos bailes) são solteiros ou moram com a companheira (e muitas vezes com outros membros da família).

Ao longo da pesquisa contratei, por diversas vezes, nove dançarinos48: Denis, Rubens, Ênio, Almir, Aloísio, Plínio, Alberto, Sávio, Airton. Os cinco primeiros dançarinos tem filhos por volta de dois a cinco anos. Conheci dançarinos que assumem a responsabilidade de mais de um filho. Um exemplo é Ênio que tem quatro filhos. A idade do dançarino mais jovem é dezenove anos e a do mais velho vinte e oito anos.

A fonte de renda principal de muitos dançarinos é a dança de salão, prestando serviço de aulas nas academias, aulas particulares, contratos e fichas. A escolaridade é basicamente o ensino médio. Durante os dois anos de pesquisa, conheci apenas dois dançarinos que ingressaram em um curso superior. Um deles, Wagner, que conversei informalmente, é formado em educação física. O outro dançarino, Denis, ingressou há cerca de um ano e meio no mesmo curso.

Quanto aos locais de residência de clientes e dançarinos, podemos traçar uma divisão entre duas grandes áreas da cidade, tendo em vista seu crescimento e desenvolvimento a partir da área central: a leste e a oeste49. Até onde pude perceber as clientes moram no lado leste da cidade (em bairros como Praia de Iracema, Meireles, Aldeota, Papicu, Joaquim

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Todas as mulheres que optam por contratar dançarinos, após conhecer vários deles, escolhem alguns para dançar com freqüência. Por fatores como conhecê-los da academia ou através da indicação de outros dançarinos, estabelecer contatos nestes locais de dança e com algumas de suas clientes e, ainda, por sentir-me mais “a vontade” para apresentar-me no salão com determinados dançarinos, também fiz minhas escolhas na hora de contratá-los. E apenas dois dos nove dançarinos mencionados foram contratados uma única vez. Entretanto, dancei de ficha mais de uma dúzia deles.

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Távora etc) e os dançarinos residem no lado oeste (em bairros como Parque Araxá, Pirambu, Barra do Ceará, Antônio Bezerra, Conjunto Ceará etc).

A literatura etnográfica sobre o Rio de Janeiro50 identifica de forma recorrente uma classificação hierárquica na configuração do espaço social: zona sul/zona norte-subúrbio. Tal oposição entre as zonas espaciais da cidade remete a idéia de que cada um dos termos condensa experiências sociais distintas que estariam ligadas, por sua vez, a outras oposições como moderno/tradicional e camadas médias/grupos populares.

Não descarto a possibilidade de se comparar tais zonas espaciais e suas divisões sociais de classe entre as duas cidades. Entretanto, dado as diferenças entre as realidades e as particularidades de cada um deles, proponho o uso da noção weberiana de “grupos de status” tendo como objetivo “(...) por em relevo a idéia de uma espécie de estratificação simbólica – grupos definidos por um estilo de vida, isto é, por determinadas escolhas éticas e estéticas e pela monopolização de certos bens simbólicos”. (RUSSO, 1993, p.14)

Evidentemente, existem diferenciações socioeconômicas entre clientes e dançarinos que poderiam ser, mormente, exploradas neste trabalho. Contudo, pensando nos homens e mulheres do “mundo da dança”, acredito ser possível uma análise enquanto um “grupo de status” que se expressa em "maneiras de estar", maneiras de usar os bens disponíveis característicos em uma situação social. E que, ainda, por motivos ligados aos discursos médicos, terapêuticos, de sociabilidade no caso das mulheres ou de trabalho e ascensão social no caso dos homens, ambos fizeram uma “passagem”.

Em outras palavras: os participantes do “mundo da dança” compartilham um "estilo de vida" ligado à dança de salão e, consequentemente, um conjunto de práticas que mostra uma, entre outras, "maneiras de estar" no espaço urbano. Esse “estilo de vida” pode e certamente incorpora elementos socioeconômicos, mas estes não são vistos aqui como a questão principal para pensar a sociabilidade nos bailes de dança de salão. A dicotomia entre “camadas médias/grupos populares” será apresentada a partir de certos “conflitos” na relação entre clientes e dançarinos que, a meu ver, é apenas uma das muitas esferas que ordenam o “mundo da dança”.