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XVI. YÜZYILIN İKİNCİ YARISINDA OSMANLI DEVLETİ’NDE VERGİ MUÂFİYETİ VE MUÂFİYET SEBEPLERİ

2.1. Saray Hizmetlerine Bağlı Muâfiyet

2.1.4. Miri Taycılık

Implícita ou explicitamente, toda pesquisa começa com pressuposições teóricas. Até um observador participante que pretende desenvolver sua pesquisa sem a definição de uma grade de categorias predefinidas não pode descrever os eventos sociais no seu campo de pesquisa sem especificar anteriormente “uma teoria sobre seu objeto de pesquisa, seu modelo de ator e o tipo de ordem social pressuposto” (CICOUREL, 1964, p. 51). Para poder mostrar como os membros de uma comunidade em observação se envolvem em sequências comunalmente predefinidas de ações verbais e não verbais e como eles produzem em nichos de situações e exigências comunalmente prefabricadas as figuras linguísticas e

gestuais necessárias para manter uma representação socialmente construída da realidade, é preciso ter, pelo menos, uma ideia provisória sobre a natureza dos hábitos culturalmente produzidos, sobre o tipo de elementos e conhecimentos que poderiam ser relevantes para o tecido de relações sociais e para a construção social das identidades e sobre os jogos linguísticos e a forma de vida que estão sob investigação.

De acordo com Bourdieu e Wacquart (1992, p. 11), é preciso construir uma ciência social praxeológica destinada ao agir no mundo concreto – com seus aspectos econômicos, políticos, culturais e históricos – a qual transcenda a dicotomia dos paradigmas fenomenológico e estruturalista, dedicando-se ao estudo da vida social tanto como um conjunto de interações complexas reguladas pela estrutura social quanto como um processo ativo de produção que continuamente modifica as estruturas sociais. Essa combinação desejável entre as orientações interpretativa e estruturalista, Bourdieu (id.ibid.) chama alternadamente de “construtivismo estrutural” ou “estruturalismo construtivista”. Ainda de acordo com Bourdieu (e com muitos outros pensadores críticos), as formas sociais, embora sejam produzidas pelas pessoas e possam ser alteradas por elas, são vistas pela maioria como fenômenos naturais. Uma tarefa essencial da ciência do humano, portanto, seria conscientizar melhor as pessoas de que somos nós os responsáveis pela nossa vida e que, apesar da sensação forte que nosso agir dificilmente possa mudar a emergência de condições sociais adversas ou perniciosas, existem alternativas não realizadas que poderiam atenuar ou alterar a tensão entre a hegemonia e a marginalização e melhorar a vida humana.

Quanto à metodologia adequada, Bourdieu não diz que essa ciência social – para poder integralizar a prática contingente dos atores sociais e a estrutura normativa da sociedade – deveria necessariamente ser orientada pela linguagem, mas, já que as transformações na vida social são transformações negociadas na e pela linguagem, é natural abordá-las com métodos científicos que dão um peso maior à análise qualitativa das atividades linguageiras. Desse modo, na perspectiva do presente trabalho, o ponto de partida ideal para tecer uma abordagem interdisciplinar que supere a dicotomia macro-micro é fixar a atenção no

fato essencial de que os significados culturais compartilhados não se encontram “lá fora”, mas são um produto de comportamentos simbólicos ou práticas significativas.

Há um amplo consenso nas ciências humanas, dizendo que é a linguagem humana, que – numa infinita cadeia semiósica – constitui e estrutura os objetos materiais e as atividades sociais como significativos e compreensíveis. Também, é a linguagem que determina quais dos significados disponíveis os interactantes podem empregar ou não empregar sob determinadas circunstâncias. Desse modo, se quisermos evitar mal-entendidos num restaurante brasileiro não podemos, por exemplo, pedir uma “punheta” ou “cacetes”, enquanto em Portugal o garçom sem nenhuma risada nos trazia prontamente um tira-gosto ou uns pãezinhos típicos daquele país (variação diatópica relacionada com fatores geográficos). Também não é recomendável, hoje em dia, chamar uma beldade de quarenta primaveras que alia maturidade a vigor e disposição de “vitalina”, “coquete”, “lambisgoia” ou “balzaquiana” (variação diacrônica relacionada com fatores históricos). Do mesmo modo, não é correto politicamente, chamar uma colega de trabalho, que não costuma frequentar bailes funk, de “popozuda” ou de “cachorra” (variação diastrática relacionada com o código de comportamento de um grupo social). Finalmente, é uma boa dica para se dar bem em entrevistas de trabalho, não fazer a sua futura chefa perguntas do tipo: “Naonde a gente podemos ponhar esse troço aqui?” (variação diafásica relacionada com diferentes situações de comunicação). Esses exemplos já mostram: compreender uma cultura ou um sistema social significa perguntar-se como, dentro de um determinado contexto material e institucional, se produz simbolicamente o sentido nas atividades comunicativas.

Quando o assunto são as atividades semióticas significativas em correlação com padrões sociais, culturais e históricos e seus respectivos desenvolvimentos de uso, uma palavra-chave que se usa frequentemente no lugar de “atividades comunicativas” é “discurso”. Dependendo da tradição de pesquisa e do modelo teórico de referência, esse termo já foi definido de maneiras bastante diferentes (para uma visão geral veja, por exemplo: BLUHM et al. 2000; KELLER, 2004, p. 13-60; MILLS, 1997, p. 3-8; SCHALK, 1997/1998; WICHTER, 1999). Sem entrar nos detalhes, usamo-lo aqui no sentido de um modo geral de semiose que caracteriza nossa maneira peculiar de viver juntos em comunidades ou sociedades

humanas. Por outras palavras: compreendemos o discurso no sentido de práticas sociais significativas e do seu impacto simbólico cultural (FAIRCLOUGH & WODAK, 1997), as quais podem ser analisadas à base de textos (orais ou escritos).

O que essa definição realça é a natureza social, histórica e cultural do discurso e a aptidão dos elementos linguísticos e semióticos das práticas sociais de servir a objetivos econômicos, políticos e organizacionais. Nessa perspectiva, a finalidade da língua, claramente, não é apenas transmitir informações, mas facilitar o agir humano, auxiliar a afiliação dos atores sociais em grupos sociais, em instituições e em (sub)culturas com seus relevantes rituais e moldar os processos identitários que definem quais crenças, valores e desejos as pessoas encorpam e, em consequência disso, quais posições nos diferentes grupos e domínios sociais cada um pode ocupar.

É o discurso, então, que transforma nosso meio em um espaço socialmente e culturalmente significativo; mas essa produção discursiva de sentido não ocorre num vácuo, mas se desenvolve sob condições linguísticas e socioculturais bastante rígidas que, inevitavelmente, favorecem alguns membros de um coletivo em detrimento de outros. Essa distribuição desigual de recursos discursivos e de oportunidades de participação, então, gera diferenças, conflitos e combates sociais que, por sua vez, ocasionam os mais diferentes efeitos sobre as estruturas sociais. As maneiras como as pessoas e grupos de pessoas lidam com os efeitos de poder e como, ao fazerem uso da palavra, conseguem fazer-se compreendidas ou não já representam o objeto de pesquisa de inúmeras pesquisas transdisciplinares que se ocupam criticamente dos mais diversos problemas da realidade social, incluindo tanto o estudo de aspectos linguísticos e discursivos

quanto o de assuntos tradicionalmente mais discutidos no âmbito da teoria social. Desde o (re)nascimento do interesse científico pelas práticas discursivas e

estratégias de textualização, a análise do discurso na linguística, na psicologia e nas ciências sociais oscila entre uma interpretação teórica compreensível dos macrodiscursos sociais (por ex.: FOUCAULT & LOTHRINGER, 1996, MILLER, 2001) e a análise empírica da concreta linguagem em uso no campo da análise do discurso, da pragmalinguística e da análise da conversação, que tem suas raízes na

etnometodologia. As tentativas mais recentes (especialmente no âmbito da análise crítica do discurso), de lançar uma ponte entre esses paradigmas bastante heterogêneos visaram a reduzir os problemas localizados em ambos os lados, tanto numa macroanálise demasiadamente abstrata nos moldes da teoria do discurso a qual, dificilmente, é adequada para entender a pesquisa empírica, quanto numa perspectiva exageradamente micro do discurso, que é incapaz de ultrapassar a análise local dos microdados.

No intuito de elaborar uma abordagem dos mecanismos de coordenação social que feche a lacuna entre as estruturas sociais e o agir individual, partimos em nossa pesquisa da hipótese de que os estudos das práticas discursivas e as teorias sociológicas poderiam tirar proveito uns dos outros, especialmente quando se focaliza o problema micro vs. macro e quando se concebe o discurso como um elo entre os níveis do agir e da estrutura. Levando em consideração esse papel especial do discurso, partimos da ideia de que deveria ser possível evitar uma ruptura abrupta entre o indivíduo e a sociedade (e vice-versa) se fixássemos nossa atenção num objeto preferido da análise do discurso: os gêneros comunicativos. Esses gêneros representam uma estrutura intermediária que – sendo resultado dos discursos produzidos no quadro de interações sociais – realiza uma intermediação nas duas direções. Os gêneros comunicativos, eis a tese defendida aqui, são os megainstrumentos (SCHNEUWLY, 1999, p. 7) pelos quais os agentes individuais efetuam suas atividades sociais e discursivas, constroem seus mundos de conhecimento e comunicam suas expectativas comportamentais e os valores e normas sociais do seu grupo e do seu meio social.

Organizada em função das diferentes formações discursivas ou esferas de utilização da língua, a diversidade enorme dos gêneros (e não as normas ou as instituições) possibilita o trabalho de socialização e o controle e as sanções do comportamento individual. A construção social da realidade, por outro lado, deve ser conceituada como um processo complexo movido pelas interações dos agentes o qual não dá origem imediatamente à sociedade, mas que (re)produz e modifica, num primeiro passo, as práticas discursivas e, junto com elas, os gêneros comunicativos como institucionalizações relativamente estáveis de expectativas comportamentais que, apenas num segundo passo, podem se transformar em estruturas institucionais

duradouras que ganham autonomia em relação ao agir dos atores sociais. Baseando-se, inevitavelmente, na adoção e na adaptação situacional de um determinado gênero preexistente (BRONCKART, 2006, p. 147), as propriedades e a organização das interações sociais concretas são determinadas tanto pelas condições sempre particulares da interação local quanto pelas características das estruturas macrossociais.

Para concluir: o foco nos gêneros comunicativos como estruturas intermediárias que definem as produções concretas de linguagem como práticas discursivas as quais, por sua vez, se relacionam com determinadas práticas sociais permite integrar teorias linguísticas e teorias sociais, oferecendo, simultânea- mente, uma proteção contra interpretações deterministas ou voluntaristas do mundo social; pois, na perspectiva dos gêneros, o indivíduo nem é um mero reflexo da sociedade – um agente social que poderia ser programado para cumprir minuciosamente as normas – nem goza de tanta autonomia no seu agir que poderia, através das suas ações, produzir e modificar a sociedade conforme a sua vontade. Quando se introduz o nível das práticas discursivas e dos gêneros comunicativos como elo entre os eventos comunicativos particulares e as práticas sociais coletivas, as relações de dependência tornam-se menos diretas e o grau de liberdade dos atores sociais aumenta. Certamente, cada pessoa é influenciada fortemente pelo seu encaixamento estrutural, mas não estamos diante de uma necessidade absoluta porque outras condições macrossociais também seriam possíveis sob as quais surgiriam outros tipos de pressão. A sociedade, por outro lado, não precisa estar como está; ela poderia muito bem ser diferente, mas, sem dúvida, não está nas mãos de atores individuais produzir mudanças macroestruturais.

4 Teorias interpretativas de interações entre participantes da