TÜRK HUKUKUNDA MADEN RUHSATLARI
B. Rödövans Sözleşmesinin Hukuki Niteliği, Tarafları, Şekli ve Konusu 1.Hukuki Niteliği
X. Maden Ruhsatlarında Özel Durumlar A.Maden Bölgesi
Segundo Filomensky, Tavares e Cordás (2008), Kraepelin foi o primeiro a descrever, em 1915, a oniomania como um impulso patológico, concebendo a impulsividade como fator essencial do comportamento. De acordo com os autores, Bleuler, em 1924, também considerou o caráter impulsivo do transtorno, além de equipará-lo às insanidades do impulso, juntamente com a piromania e a cleptomania.
No entanto, vários termos são utilizados em referência ao quadro: compulsive buying, impulsive buying, pathological buying e disordered buying behaviour, entre outros.
Tais denominações abrangem os aspectos psicológicos, patológicos e comportamentais do quadro. Cabe frisar, entretanto, a preferência, aqui, pelo termo “oniomania”, pois, conforme Tavares et al. (2008), o comportamento faz parte do espectro impulsivo-compulsivo e as evidências mostram-se mais inclinadas a uma relação com a impulsividade.
Faber e O’Guinn (1989) definem o comprador compulsivo como aquele que possui um comportamento de consumo anormal, com episódios crônicos, envolvendo, por exemplo, a busca de produtos da moda. Tal comportamento é sentido como impossível de ser detido ou moderado e motivado pela presença de uma constelação de atitudes, valores e comportamentos econômicos. Os pesquisadores encontraram pessoas com baixa autoestima, altos níveis de materialismo, inveja, fantasia e endividamento. Tavares et al. (2008) completam esta informação e consideram que o comportamento é caracterizado pelo excesso de preocupações e desejos relacionados à aquisição de objetos e à incapacidade de controlar compras e gastos financeiros.
Conforme descrito anteriormente, a oniomania está classificada e inserida no DSM-IV, em categoria que agrega diagnósticos que não possuem semelhanças psicopatológicas, mas em comum compartilham a questão da impulsividade como: transtorno explosivo intermitente, cleptomania, jogo patológico, tricotilomania e transtorno do controle dos impulsos sem outra especificação. Nessa categoria residual encontram-se: oniomania, impulso sexual excessivo, automutilação, dependência de internet e videogame (TAVARES; ALARCÃO, 2008).
4.2.2 Classificação
Os transtornos psiquiátricos, organizados no DSM-IV, são divididos em eixo I e eixo II. No eixo I encontram-se os transtornos psiquiátricos, cujos sintomas são caracterizados pela emergência e por mudanças de fenômenos psíquicos. Assim sendo, como sintoma, a impulsividade é classificada na categoria de transtorno psiquiátrico primário, adquiridos ou não, como o transtorno explosivo intermitente, as dependências e o transtorno afetivo bipolar. No eixo II encontram-se os transtornos de personalidade e do desenvolvimento, com características persistentes, repetitivas e inflexíveis, que levam a má adaptação da pessoa ao
meio, composto pelos transtornos de personalidade antissocial, boderline, histriônica e narcísica. A impulsividade é o fenômeno central dos transtornos do agrupamento B do eixo II e atravessa as distintas categorias classificatórias. De acordo com Tavares (2000), as relações entre personalidade e transtornos psiquiátricos são dinâmicas, e a personalidade poderá influenciar na expressão da sintomatologia (TAVARES; ALARCÃO, 2008; TAVARES, 2000).
Na literatura, as pesquisas sobre os transtornos do controle do impulso têm evoluído, apesar de manter pontos de vista distintos. Para facilitar a compreensão, encontra-se no Anexo A uma tabela na qual são expostas as posições de diferentes autores quanto à classificação. De modo geral, a oniomania tem sido inserida em categorais de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno do controle do impulso (TCI), transtorno do humor- afetivo bipolar (TAB) e dependências.
O componente central nesses estudos é a discussão sobre se oniomania é um diagnóstico em si ou faz parte de outros transtornos, como o bipolar e o obsessivo- compulsivo. Há distintos critérios e nomenclaturas entre os pesquisadores, assim como há variações de estudo para estudo. Observa-se até mesmo que eles transitam entre as classificações. Em 2002, Frost, Steketee e Willians deixaram aberta a questão sobre a oniomania ser outro sintoma do TOC, além do hoarding. Apontam para o fato de que os compradores podem compartilhar similaridades com TOC e TAB-I.
Quase dez anos depois, ou dezoito depois de McElroy et al. (1994) terem sido pioneiros no estudo dessa questão, um estudo empírico indicou que, por mais que os autores apoiem essas classificações (TOC/TCI/TAB I/Dependências), a classificação mais atualizada é a de Transtorno do Controle dos Impulsos e dependência comportamental, de acordo com Filomensky et al. (2011). Os autores apontaram para as compras compulsivas como pertencentes a um grupo distinto de comorbidades e de diagnósticos, em relação ao TOC e ao transtorno afetivo bipolar (TAB) do tipo 1. Os portadores da oniomania caracterizam-se pela impulsividade elevada, combinada com a falta de planejamento, e privilegiam as consequências em curto prazo (os compradores compulsivos tiveram escores altos para impulsividade e de aquisição). São, portanto, considerados como aquisitores impulsivos e se encaixam nos transtornos do controle dos impulsos e não em TOC nem em TAB-1. Pacientes bipolares tiveram escores altos na dimensão maníaca. Pacientes com TOC tiveram escores altos para sintomas obsessivo-compulsivos, especialmente para contaminação/lavagem, e
baixos para hoarding. Portanto, os autores sugerem que as compras compulsivas são uma síndrome em si, independentemente do TOC e do TAB do tipo 1.
Assim como diversos autores, Tavares et al. (2008) e Filomensky et al. (2011) mantêm a classificação em vigor, do DSM-IV, a mesma assumida neste trabalho.
Diferenças à parte, os pesquisadores concordam que o comprar compulsivo se relaciona à alta impulsividade, à baixa autoestima, à vulnerabilidade, às emoções negativas, à visão de curto prazo, ao pouco planejamento, à aquisição impulsiva, à suscetibilidade e à influência cultural. Conforme afirmam, após a compra, os indivíduos passam a se sentir culpados por não terem conseguido manter o controle.
4.2.3 Abordagens
O crescente estudo do transtorno não poderia deixar de incluir outras áreas de interesse, além da psiquiatria, para a compreensão do fenômeno. Assim, Tavares et al. (2008) e Black (2007b) destacam quatro áreas importantes: a psicanálise, a psicologia, a psiquiatria e a área do marketing.
4.2.3.1 Psicanálise
De uma perspectiva psicanalítica, o fenômeno pode ser compreendido por meio da teoria do funcionamento mental de Freud (1920), como a atuação de forças psíquicas do desejo de satisfação de impulsos (prazer), que atuam como forças propulsoras, e do pensamento e da realidade, como forças repressoras – desprazer (FERREIRA, 2008).
Freud diz que o ser humano vive uma polaridade básica entre o prazer e a realidade. Ferreira (2008), psicóloga e psicanalista, argumenta que essa polaridade em relação ao dinheiro pode ser vista como a busca por gratificação, de um lado, e como valor econômico, de outro. Ou seja, as pessoas que atuam sob o princípio do prazer têm a função de percepção (que faz parte do funcionamento mental) alterada e apresentam dificuldades com planejamento e intolerância à frustração e à própria realidade, o que é o caso dos
compradores compulsivos. A autora diz que há impossibilidade subjetiva de adiar o gasto, e essas pessoas criam fórmulas capazes de justificar as compras. Ela comenta: “O que pode ser mais ilusório do que um cartão de crédito, que parece prometer que tudo é possível e acessível, como se nunca tivesse de ser efetivamente pago?” (FERREIRA, 2008, p. 215).
Foi Krueger (1988) que abordou o tema como uma vingança embutida no gastar (revenge spending). Uma retaliação dirigida a alguém que causou raiva pode também representar uma autossabotagem, consciente ou inconsciente. Achamos que isso pode ser aplicado ao casal que tem um membro oniomaníaco, pois o gasto em excesso resulta, muitas vezes, em ruína financeira, gerando a necessidade de a pessoa ser resgatada por outrem (no caso, um parceiro). Segundo o autor, o ato de comprar e de barganhar é sinônimo de vitória em relação ao vendedor, o que se constitui em uma ilusão de “triunfo narcísico”, além de um rompimento do limite emocional com alguém importante, o que leva o indivíduo ao desespero de parecer atraente e desejável. O objetivo do comprar é apenas a reintegração do self, configurando, assim, a ação impulsiva uma resposta mal-adaptada, em vez de um esforço em reparar as feridas (KRUEGER, 1988, p. 574).
Outro ponto importante apontado pelo autor é o estudo de padrões familiares quando as posses e o dinheiro são usados para expressar amor. Muitos pais são abusivos e negligenciam os filhos na primeira infância. Amar é compreendido como dar presentes, o que gera um padrão de compensação. Essa compensação, muitas vezes posta em prática com objetos de consumo extravagantes, pode ser decorrente de situações como separação, divórcio e abuso ou falta de tempo para cuidar da criança (BENMOYAL-BOUZAGLO; MOSCHIS, 2009). Como sentem que não conseguem manter um limite, os pais acabam instalando nos filhos a dependência por dinheiro. A criança, por sua vez, gasta em excesso, a fim de retaliar o cuidador e de preencher seu vazio, atraindo a atenção, mesmo que de forma punitiva, o que leva ao desenvolvimento do padrão compulsivo. As experiências emocionais da infância também podem fazer com que a pessoa se sinta inadequada, como se sempre estivesse em falta com algo. Comprar é uma maneira utilizada para que ela se sinta completa, instalando um processo que pode culminar na compulsão por comida, sexo, álcool, drogas (KRUEGER, 1988).
Uma pessoa “adicta”, segundo Goldman (2000), usa o comportamento a fim de compensar um senso de vazio e de inadequação, cujo propósito é a defesa contra os afetos negativos. O comportamento é considerado adicto quando utilizado para lidar com o humor, perpetuando-se apesar das consequências negativas. O autor destaca algumas características
entre os compradores compulsivos: vulnerabilidade narcísica; dependência psicológica e financeira; intolerância afetiva; compulsão generalizada; propensão à fantasia.
4.2.3.2 A psicologia
As pesquisas nessa área abordam o comportamento de compras em sua relação com os sentimentos e crenças, a visão de si, as relações da perspectiva intergeracional e papéis de gênero. Há diferentes visões de acordo com a base teórica de cada pesquisador.
Em relação à psicologia, há profissionais interessados no assunto, e um destaque é a psicologia econômica. Rook (1999), que assinala que comprar por impulso é uma atitude de ordem hedonista, estimulada por conflitos emocionais. Nesse caso, não são consideradas pela pessoa as consequências da ação que decorre do impulso. Existe uma ampla e contínua linha para explicar os tipos de compra que saem de um ponto A (onde estão as compras racionais), passam pelas compras impulsivas e chegam a um ponto B, onde se transformam em compras compulsivas. Se, na compra impulsiva, o comprar ocorre espontaneamente, à parte daquilo que é planejado, na compulsiva, há maior impulso e menor controle, assim como menor consideração sobre as consequências da compra. Dittmar e Drury (2000) e Ferreira (2008), baseados no modelo psicossocial, concordam com a presença dessa linha contínua. Para eles, as compras compulsivas são aquelas em que há pouco controle (comportamento intuitivo), motivadas por aspectos sociais e psicológicos (desejos), preferência pela gratificação imediata e direta, além do adiamento das tarefas desagradáveis que acabam por superar as consequências financeiras das compras. Ferreira (2008) sublinha que essas pessoas podem ter recebido dos pais dinheiro e presentes no lugar de amor e atenção, consolidando o primeiro modelo de equivalência entre gratificação e necessidades (materiais ou não).
Os compradores têm duas características essenciais: a crença de que o objeto de compra é um meio para obter felicidade e sucesso e a de que ele ajuda a definir a identidade – tanto o é que os compradores usam o produto, simbolicamente, como forma de se apresentarem aos outros. Nesse sentido, a compra teria a função de preencher um espaço entre o que a pessoa pensa de si mesma (self atual) e o que ela gostaria de ser (self ideal). Funcionaria, assim, como símbolo do self, o que, possivelmente, aumentaria a quantidade de produtos comprados (DITTMAR, 2000). Miltenberger et al. (2003, p. 7) confirmam essa
posição: “O comprar compulsivo traz alívio frente a emoções negativas e aumenta a sensação de euforia; entretanto, são efeitos de curto prazo, que acabam esvanecendo logo após o episódio de compras”.
Quando o produto comprado não atinge as expectativas psicológicas, acaba perdendo o poder de atração, sendo abandonado, dado ou jogado fora. O ato de dar, de jogar fora, de esconder, é uma evidência de que o produto não possui a importância desejada e de que o essencial é a emoção durante o comprar (URETA; 2007; LEJOYEUX et al., 2005).
Esconder o produto, ato comum na oniomania, possui como premissa a questão da censura social, que, quando ocorre, acaba gerando outros comportamentos, como o de estocar objetos, ação típica dos compradores compulsivos. Algumas pessoas fazem de seus quartos verdadeiros templos, preenchidos com produtos que acabam sendo experimentados em segredo (URETA, 2007). O sentimento de decepção, após a compra, pode ser considerado parte do processo de diminuição do estado de euforia, com a possível compreensão de que o produto não oferece a satisfação imaginada (ARAVENA et al., 2006).
4.2.3.3 A psiquiatria
A psiquiatria é a área que tem desenvolvido maior número de pesquisas, juntamente com o marketing, a fim de compreender o fenômeno. As pesquisas são principalmente quantitativas e visam caracterizar e delimitar o ato, além de fazer previsões sobre os resultados do comportamento.
Para alguns pesquisadores, os compradores compulsivos tendem a se sentir muito mais atraídos por anúncios, marcas e propagandas do que os compradores não compulsivos, e dedicam muito tempo a esse comportamento. Preferem comprar quando não há muitas pessoas por perto, pois podem obter maior atenção dos vendedores e ter espaço suficiente e confortável para adquirirem itens que impressionem os outros. Suas decisões ocorrem durante o momento em que estão no local de compra, ou seja, eles decidem comprar, impulsivamente, ao entrarem numa loja, e ao longo do ano apresentam o comportamento de forma crônica e aumentado em datas comemorativas ou em comemorações por sucesso (TAVARES et al., 2008; BLACK, 2000; FILOMENSKY; TAVARES; CORDÁS, 2008; LEJOYEUX et al. 2007; BLACK, 2007b; LEJOYEUX et al., 2005; NEUNER; RAAB; REISCH, 2005).
Para Black (2007a), podem anteceder ao comportamento sintomas como depressão, ansiedade, tristeza, chateação, autocrítica, raiva, euforia e alívio. O autor considera a presença de fases, que começam na antecipação, quando os pensamentos, as urgências e as preocupações são construídas em relação a um item específico ou ao ato de comprar. Em seguida, há a fase de preparação, na qual se verificam as decisões de quando, onde e do que vestir, por exemplo. Depois, há a própria experiência da compra, descrita como excitante e comparada ao prazer sexual; por fim, o ato de comprar é seguido de tristeza e desapontamento.
A cronicidade do comportamento é caracterizada por poucos períodos de remissão (ou episódicos), pela urgência constante de comprar e por tentativas frustradas de controle. Emoções contraditórias fazem parte do quadro, variando da sensação de felicidade, poder, confiança nos cartões de crédito e desejo de comprar para a sensação de culpa e remorso (BLACK, 2001).
Essas pessoas tendem a considerar os objetos de consumo algo imperdível ou uma grande oportunidade, apesar de praticamente não os usarem. Elas acabam se desapontando com o que compram quando percebem, ao levar o item para casa, que a “gratificação narcísica” não é tão forte quanto esperavam, como se tivessem sido enganadas pelo objeto de consumo: “Aquilo que se compra tem a ver com a ‘garantia psicológica e social’, corroborando o fato de que as compras podem ser consideradas como comportamento compensatório cujo objetivo é restabelecer a autoimagem” (LEJOYEUX et al., 2005, p 109).
McElroy et al. (1994) enfatizam a incapacidade de resistência ao ato de comprar urgente, bem como os prejuízos e as preocupações que acompanham o comportamento. Comentam que os sintomas do comprar são patológicos e se constituem em um transtorno quando causam estresse, consomem dinheiro e tempo e levam a interferências desastrosas, inclusive na vida familiar e conjugal. Eventualmente, o comportamento sofre resistência quando ocorrem efeitos prejudiciais secundários (KUZMA; BLACK, 2004).
4.2.3.4 O marketing
O marketing tem grande influência, posto que propagandas, promoções, liquidações e bazares seduzem o comprador. Mas existe uma vertente desses profissionais preocupada com
pessoas que excedem e se prejudicam com o consumo em excesso. Muitos deles desenvolveram trabalhos importantes nesse sentido, que caminham em via contrária ao marketing voltado para as vendas. O comprar neste caso é visto como uma forma de aliviar a infelicidade, uma forma de lidar com sentimentos negativos (o comprar é a reação inicial) ou com estados de humor positivos ou negativos (FABER; CHRISTENSON, 1996; FABER, 2000; MARCINKO; KARLOVIC, 2005).
O comportamento funciona como automedicação para estados indesejáveis de humor, e o alívio momentâneo acaba por favorecer a repetição do ciclo. Isso ocorre ainda que o sentimento positivo temporário seja substituído por emoções negativas (culpa, remorso, depressão, etc.). Eventualmente, o ciclo levaria ao uso cada vez mais frequente desse tipo de comportamento, a fim de alcançar o mesmo efeito (FABER; CHRISTENSON, 1996, p. 808).
O comprar compulsivo é resultado da necessidade ou do desejo incontrolável de comprar (FABER, 2000), da necessidade de relacionamentos interpessoais e de melhorar a autoestima (FABER; O’GUINN, 1992; LEJOYEUX et al., 2005), como um meio de se relacionar, ou como uma tentativa de causar certa impressão no outro. Assim, os itens da moda podem ser símbolos de compradores compulsivos, experimentados, como forma de projetar a imagem ideal (TRAUTMANN-ATTMANN; JOHNSON, 2009); como uma forma de comunicação, controle, poder, dependência e necessidade de atenção (McGRATH, 2000); como uma tendência de evitar enfrentamentos; como resultado da presença de padrões comunicacionais familiares voltados para o julgamento dos outros e das experiências na infância referentes a gastos e a padrões de comunicação – quando as crianças são ensinadas a dar preferência aos outros em vez de pensarem em si mesmas (EDWARDS, 1993; DESARBO; EDWARDS, 1996).
O cartão de crédito tem papel importante nesse quadro, caracterizando-se como o instrumento mais rápido para a obtenção do prazer de consumir, de prover sensação de segurança e de controle. Sua utilização traz embutida a noção de poder, ligada à ilimitada disponibilidade financeira que esse conceito apresenta. A experiência provoca reações emocionais aprazíveis, que podem ser compreendidas como motivadoras para o comprar compulsivo e comparadas aos esforços de o indivíduo se apropriar do valor simbólico do produto. Já a consciência da falta deles pode gerar ansiedade.
Na psiquiatria e na área do marketing, a oniomania tem sido cada vez mais reconhecida e estudada. Como Grant et al. (2005) comentam, os transtornos dos impulsos estão presentes entre certos pacientes de hospitais psiquiátricos e os referentes às compras
compulsivas são os de maior frequência. A ocorrência concomitante do transtorno dos impulsos e de outros transtornos psiquiátricos tem implicações no tratamento, pois indica a severidade dos sintomas, o que torna necessário tratar esses transtornos conjuntamente, para a obtenção de melhores resultados.
Portanto, o comprar em excesso é visto como uma forma de aliviar efeitos negativos em curto prazo, apesar das consequências como a culpa, o endividamento e os problemas conjugais e familiares. Há uma relação íntima entre as compras compulsivas e a impulsividade, que, aliadas a altos níveis de urgência, tornam essas pessoas mais propensas a comprar compulsivamente, especialmente quando vivem experiências consideradas negativas – como frustração, solidão e tristeza – ou, mesmo em menor proporção, quando vivem experiências positivas desencadeadas por fatores externos, tais quais sentimentos de alegria, celebração de situações de sucesso e datas comemorativas, e por aromas, cores e músicas em lojas. Nesse cenário, algumas áreas de estudo têm se aprofundado, a fim de se chegar a uma melhor compreensão da oniomania. Porém deveria haver preocupações quanto ao fato de que tais pesquisas possam acabar em mãos de outros interessados em utilizá-las como “armas” para manipulação do consumo e programar a elevação dos índices de vendas ao custo do sofrimento de outrem.
Em suma, a oniomania, descrita por Kraepelin em 1915, e a teoria do princípio do prazer e da realidade, descrita por Freud em 1911, compreendiam os impulsos patológicos como capazes de gerar sintomas. No século XX, essas foram as primeiras percepções do fenômeno que, ao longo de um século, acabaram por alimentar outras áreas do saber. A psiquiatria compartilhou a ideia de dicotomia entre o normal e o anormal e a psicologia inicialmente assim se manteve, mas em poucos anos, especialmente com a emergência de pensadores que consideravam a influência dos contextos (por exemplo, teóricos sistêmicos), expandiu seus horizontes. Passou a crer em um continuum do comportamento e na sua inserção em contextos, culturas, políticas e comunidades. Em 1950 aproximadamente, o marketing para vendas desabrochou e também se apropriou de técnicas para elevar os níveis de consumo. Recebeu influência da psiquiatria e da psicologia e, em recente desenvolvimento, abriu mais uma frente de pesquisa que envolve os comportamentos de consumo, a fim de impulsionar as vendas. Provavelmente, esse panorama ajude a compreender como essas diversas áreas possam ter estudos distintos e ao mesmo tempo áreas consoantes.
4.3 ETIOPATOGENIA
Segundo Filomensky, Tavares e Cordás (2008), além de Faber (2000) e de Black (2000), fatores etiológicos são desconhecidos no que se refere à oniomania. Considera-se, assim, uma etiologia multifatorial, que engloba fatores biológicos, psicológicos e socioculturais. A ocorrência do comportamento está associada a quadros familiares de depressão, de alcoolismo e de uso de drogas (BLACK, 2000; LEJOYEUX et al., 2007); a situações estressantes, como conflitos familiares ou profissionais, e a sintomas de angústia e ansiedade que podem desencadear episódios de compras compulsivas (FILOMENSKY; TAVARES; CORDÁS, 2008); a eventos traumáticos, como abuso sexual na infância (BLACK, 2007a); as perdas financeiras na família como fator de risco para o comportamento (GOLDMAN, 2000; PARK CHO SEO, 2006); assim como mecanismos culturais – na medida em que países desenvolvidos e emergentes dispõem de um grande leque de produtos e de serviços, além de renda e de tempo para o lazer. Isso reforça a possibilidade de o núcleo