O padre Samuel Fritz, nasceu no ano de 1654, estudou humanidades e filosofia durante sua juventude e ingressou na Companhia de Jesus em 1673. Em 1685, juntamente com outros jesuítas estrangeiros, a serviço da coroa espanhola, foi encaminhado para o trabalho nas Missões de Maynas.
Naquele momento, já havia denúncias de que os portugueses do Pará estavam promovendo incursões no território missionário de Maynas com o objetivo de aprisionar índios. Um dos grupos indígenas mais afetados pelas incursões
portuguesas eram os Omágua121, para onde foi designado o padre Fritz.
Ao longo de quarenta anos de atividade missionária, Fritz atuou em longa extensão territorial, uma área que abarcava desde o rio Napo até o rio Negro, fundando aldeamentos de índios, principalmente entre os Omágua, mas também entre grupos de outras etnias:
121 Ver, SOUZA, Rosemeire de Oliveira. Omaguas: representações e trajetórias de um grupo
populacional no alto Amazonas séculos XVI-XVIII. Tese de Doutorado defendida junto ao Departamento de Pós-Graduação em História da PUC-SP, sob orientação do Prof. Dr. Fernando Torres Londoño, em 2014.
(...) mi mision desde el rio Napo, comenzando por los Omaguas, hasta el rio Negro (hasta donde ya los portugueses han tomado dominio con perjuicio grande de la Corona de Castilla, sin lo que más pretenden), campo cerca de 500 leguas extendido y de más dilatada gentilidad de todo el rio de Amazonas (...).122
O trabalho missionário de Fritz não era fácil. Assim como os demais jesuítas de Maynas, Fritz vivenciava graves problemas cotidianos por estar em uma área imensa, com um número enorme de índios para catequizar e tão poucos padres em missão na região. Ao longo de sua vida em Maynas, Fritz escreveu várias cartas solicitando o envio de mais padres para o trabalho nas missões, de escoltas armadas para proteção dos missionários e de outros objetos que facilitassem o trabalho por aquelas terras. De um modo geral, as solicitações do padre não foram atendidas, revelando o desinteresse das autoridades coloniais em contribuir com o desenvolvimento daquelas missões, pois Maynas não trazia benefícios financeiros às caixas reais.
Em janeiro de 1689, Fritz iniciou uma viagem rumo ao Pará, onde chegou em setembro de 1689. Os motivos que levaram Fritz a empreender tal viagem não foram totalmente esclarecidos; o padre alegou que saiu do Pueblo de San Joaquin de Omaguas descendo para o Pueblo dos Yurimaguas com a finalidade de fugir das inundações sazonais, porém ele teria adoecido durante a viagem e solicitado que fosse levado ao Pará para receber cuidados médicos. A controvérsia era que, estando a serviço da coroa espanhola, Fritz deveria ter subido o rio Marañón e procurando auxílio entre seus pares, entretanto ele decidiu seguir o caminho contrário, entrando em território português.
Certamente Fritz já havia recebido notícias sobre as incursões portuguesas entre os Omágua, até mesmo porque muitos relatos dos jesuítas de Maynas produzidos até então, diziam que os padres constantemente recebiam dos índios aldeados denúncias de violências praticadas pelos portugueses em suas entradas. Portanto, acreditamos que o padre Fritz realizou tal viagem ao Pará também por motivos políticos.
Durante sua viagem Fritz realizou pormenorizadas observações que, depois do seu retorno à Maynas, o levaram a denunciar a presença portuguesa em
territórios que pertenceriam à coroa espanhola e a mapear toda a região das missões dos jesuítas até os rios Solimões e Amazonas.
Fritz chegou ao Pará em dez de setembro de 1689, onde foi praticamente aprisionado no Colégio dos jesuítas por vinte e dois meses, acusado de ser um espião enviado pela coroa espanhola para verificar o avanço português pelo Marañón.
Así como llegué aquella ciudad, el gobernador que era á la sazon, Arcturo Sa de Meneses, y demas portugues, no dejaron de ver que el único motivo de mi bajada no habia sido otro que la precisa necesidad de buscar algun alivio á mis achaques; sin embargo, como la conciencia no deja de ser admonitor inquieto, sabiendo cuánto se habian adelantado con sus conquistas en el territorio del Rey Católico, contra lo compactado con autoridad pontífica entre las dos Coronas, empezaron á sospechar no fuese yo espía perdido enviado del gobernador del Marañon por parte de Castilla, para explorar sus adelantamientos; y hecha entre sí una junta sobre este asunto, enviaron un oidor, llamado Miguel Rosa, al P. Rector Orlandini, intimándole me tuviese como preso en aquel Colegio (...).123
Uma das acusações feitas pelos portugueses era a de que o padre Fritz teria
fundado missões em áreas pertencentes à coroa portuguesa - “(...) porque tenian
por muy probable, que las tierras de mi mision tocaban á la Corona de Portugal,
cuya conquista, decian, se extiende siquiera a la provincia de la Grande Omagua”124,
extensão que teria sido percorrida pelo Capitão Pedro Teixeira em sua viagem realizada no ano de 1639 e no qual ele havia colocado um marco da posse portuguesa, ato legalizado pelo então rei Felipe IV, durante o período de união das coroas ibéricas. Por outro lado, padre Fritz alegava que a posse de tal território seria espanhola, pois quando Teixeira retornou de sua viagem em 1640, as coroas ibéricas não estavam mais unidas, então o documento de posse dado ao Capitão português pelo rei Felipe IV no ano anterior havia se tornado sem efeito. Segundo Fritz,
Todas estas posesiones, como están en la Demarcacion de Castilla, son nulas. Menos pueden pretender los portugueses las tierras hasta Napo. Y aunque la Audiencia de Quito dió licencia á Texeira tomase posesion de una aldea, que llamaron del Oro, algo más arriba del rio Cuchivara, esa posesion tambien fué nula, por no haber sido confirmada por el rey Felipe IV, porque antes que eso llegase á su noticia, Portugal se habia apartado de
123 FRITZ, apud MARONI. Idem, 1988, p. 318. 124 FRITZ, apud MARONI. Idem, 1988, p. 318.
la Corona de Castilla; en donde se sigue, que las tierras que ocuparon desde dicho meridiano que pasa por la boca de Vicente Pinzon debieron los portugueses restituirlas. 125
Como a situação era de extrema gravidade, os portugueses do Pará não permitiram que o padre retornasse para suas Missões sem uma ordem direta do rei de Portugal. Fritz chegou a escrever ao embaixador espanhol em Lisboa tentando conseguir sua liberdade, ainda assim ficou preso por mais 19 meses. Em abril de 1691 chegou a autorização do rei português D. Pedro II liberando o retorno do padre para as suas missões. O então govenador do Pará, Antonio de Albuquerque, recebeu ordens reais de apressar o envio de Fritz a Maynas; ainda assim o jesuíta ficou mais três meses aguardando a preparação da expedição que o escoltaria até suas missões.
Ao deixarem o Pará, em 8 de julho de 1691, Fritz recebeu a informação de que a escolta portuguesa deveria acompanhá-lo somente até suas primeiras reduções, porém lá chegando, o jesuíta precisou insistir que já era hora dos
portugueses retornarem, o que não ocorreu.Os soldados lusos alegaram que iriam
tomar posse daquelas terras em nome do atual governador do estado do Maranhão e Grão Pará e que o padre deveria se retirar daquela região o mais rápido possível por se tratar de um território português. Nas palavras de Fritz:
Á 20 octubre [1791], estando la tropa para salir de vuelta para abajo, el cabo me manifestó cómo el motivo de querer pasar á los Omaguas habia sido para tomar posesion de aquellas tierras, segun el orden tácito que llevaba de su gobernador; y que desde luego me intimidaba de que me retirase de aquellas provincias, por ser de la Corona de Portugal.126
O padre ficou absolutamente consternado com a atitude dos portugueses e
insistiu “(...) que las tierras en que hasta entonces habia misionado, fuera de toda
controversia, eran de la Corona de Castilla, y que así, sin perjuicio de la conquista
portuguesa, yo proseguiria misionando en ellas.”127. Ou seja, Fritz defendeu o direito
castelhano sobre aquele território recusando-se a deixá-lo sob o controle lusitano.
125 FRITZ, apud MARONI. Idem, 1988, p. 334. 126 FRITZ, apud MARONI. Idem, 1988, p. 324. 127 FRITZ, apud MARONI. Idem, 1988, p. 325.
Apesar dos protestos do padre e após compreenderem que Fritz não deixaria aqueles territórios, os portugueses da escolta se estabeleceram rio abaixo para darem cumprimento à missão que haviam recebido do governador do Grão Pará e Maranhão. Segundo Fritz:
Los portugueses, despues que partieron, fueron á Guapapaté, un dia rio abajo, y enfrente de la aldea se detuvieron diez dias tirando allí en tierra firme zarzaparrilla. Tambien hicieron allí á la banda del Sur un desmonte, dejando por lindero un árbol grande, que llaman Samona, diciendo que allá habian de venir á poblarse, y no dudo que lo harán, por lo mucho que codician por esclavos los indios de acá arriba (...).128
O padre observou atentamente toda aquela situação, compreendendo que os portugueses estariam colocando em ação um projeto de alargamento de suas fronteiras e que, apesar de seus protestos, os lusitanos não estariam dispostos a abandonar seu propósito e continuariam a promover entradas pelo território missionário de Maynas.
A intenção de Fritz era seguir viagem até Quito para, junto ao presidente da Real Audiência, denunciar a invasão portuguesa em suas missões e solicitar providências para conter os portugueses em suas fronteiras. Porém, o governador da Província de Maynas, Don Jeronimo Vaca de la Vega, que havia se encontrado com o padre em Santiago de La Laguna, o instruiu a ir diretamente a Lima para falar com o Vice-rei do Peru, Don Melchor Portocarrero y Lasso de la Veja, o Conde de Monclova; segundo Vaca de la Vega, o Vice-rei informaria ao rei e daria as providências necessárias de maneira mais rápida e acertada do que a Audiência de Quito. Foi o padre Maroni quem narrou toda essa movimentação do padre Fritz:
(...) discurria pasar volando para Quito, para dar cuenta á esta Real Audiencia de lo que le habia pasado en aquella jornada é intentos de los portugueses contra su mision y derechos de la Corona de Castilla; pero el Sr. Gobernador de Mainas y Marañon, don Jerónimo Vaca de la Vega, que se hallaba á la sazon en dicho pueblo, tuvo por más acertado se fuese el Padre para la Corte de Lima á verse con el Sr. Virrey, que era entonces el conde de la Monclova, quien informaria de todo á S.M. Católica, y con más expedicion que la Audiencia de Quito, daria quizá alguna providencia para el alivio y seguridad de las misiones.129
128 FRITZ, apud MARONI. Idem, 1988, p. 325. 129 MARONI. Idem, 1988, p. 327.
Acatando a ordem do governador, Fritz encaminhou-se a Lima, onde chegou em 2 de julho de 1692; ao discorrer sobre tudo o que havia passado com os portugueses, desde sua prisão no Pará até a fundação de uma vila lusitana em Guapapaté, percebeu que o Vice-rei não lhe deu a atenção que ele esperava receber. De acordo com Maroni:
(...) cuando el P. Samuel le hablaba acerca los adelantamientos de los portugueses del Pará en las tierras de dominio español y estragos que amenazaban á la nueva mision, se suspendia y mostraba como que no se le ofreciese oportuno remedio, por ser tambien los portugueses cristianos católicos y gente bellicosa; y porque aquellos bosques, en lo temporal, no fructifican al rey de España como otras muchas províncias que con más razon y título se debian con todo empeño defender (...). En fin, concluia diciendo, que en estas dilatadas Indias habia tierras bastantes para entrambas Coronas (...).130
Fica evidente que as Missões de Maynas tinham dois significados diferentes, um para cada grupo de representantes da autoridade colonial. Para o grupo dos religiosos, em especial para os jesuítas, aquelas terras representavam um sonho missionário posto em prática, uma possibilidade de edificar o que talvez fosse o maior empreendimento jesuítico em terras americanas, dada a enorme extensão territorial e a quantidade de almas a converter. Já para as autoridades coloniais, por exemplo, o Vice-rei do Peru citado acima, essas terras não tinham importância, não eram economicamente rentáveis e estavam à mercê da vontade dos índios, não merecendo o esforço que seria necessário para defendê-la.
Segundo o Vice-rei Conde de Monclova, havia outras áreas do vasto império colonial espanhol cujos investimentos garantiam um retorno imediato, portanto mereciam maior atenção da coroa. Já o Marañón era uma região que “no fructifican al rey de España”, sendo assim, não justificava o esforço de defendê-la.
Mesmo decepcionado com o descaso do Vice-rei do Peru e ciente de que não poderia esperar nenhum auxílio militar das autoridades coloniais, em 1693 o padre Fritz retornou ao trabalho missionário em Maynas, dando continuidade ao projeto de catequização dos índios e enriquecendo seu mapa através da exploração dos afluentes do rio Solimões. E o problema das incursões portuguesas em território missionário se agravava.
Em 1696, padre Fritz relatou seu encontro com um português de nome Francisco que recolhia cacau pelas terras missionárias. Segundo esse indivíduo, após a saída de Fritz do Pará, o rei de Portugal teria proibido que os portugueses entrassem em Maynas com tropas de resgate para escravizar índios, mas permitia a entrada para recolhimento de produtos e a escravização dos índios que, sem serem
provocados, matassem algum português131. Analisando esse relato, percebemos
duas situações que diferenciavam a política lusitana da castelhana para o domínio das terras na fronteira amazônica. Em primeiro lugar vemos a presença de um colono português recolhendo cacau, isso indica que, diferente do lado espanhol, havia atores interessados em promover o povoamento e o desenvolvimento econômico da região. Em segundo lugar, vem a questão do incentivo real, o rei português, ao contrário do monarca espanhol, permitiu e até incentivou as incursões portuguesas nas áreas supostamente pertencentes aos espanhóis. Isso mostra que havia tanto o interesse dos colonos, quanto da coroa portuguesa pelas terras amazônicas. Enquanto que no Marañón, nem colonos e tampouco a coroa se mostrava interessada em definir um projeto que permitisse a exploração econômica e garantisse a ocupação das terras. Assim, afirmamos que, para a coroa espanhola, o projeto missionário bastava para Maynas, a região não merecia mais esforços do que já dispendiam os jesuítas das missões.
Em 1697, novamente Fritz denunciou a presença portuguesa em Maynas. Os portugueses estariam por aquelas partes, não somente escravizando índios ou recolhendo produtos, mas também com a intenção de construir uma fortaleza:
Al subir, de vuelta para San Joachim, supe, por lo que me dijeron unos Yurimaguas, que el intento principal del capitan y frailes carmelitas habia sido subir hasta á la ribera de los Cayuisanas, que llaman Canaría, para dar allí principio á una nueva fortaleza y con esto hacerse dueños de aquellas provincias.132
Na citação acima, novamente encontramos a situação exposta anteriormente. A construção de uma fortaleza portuguesa demandava, duplamente, a presença de colonos interessados em defender a região e o apoio da coroa em dispender recursos para tal empreendimento; como afirmamos acima, tal situação não estava
131 FRITZ, apud MARONI. Idem, 1988, p. 339. 132 FRITZ, apud MARONI. Idem, 1988, p. 343.
presente no projeto colonial espanhol desenhado para a Província de Maynas, que nada mais era do que o projeto missionário. Porém, a ocupação das terras e a defesa das fronteiras eram medidas que se encontravam bem estruturadas no projeto português colocado em prática no Grão Pará e Maranhão naquele
momento133.
Embora em 1696 Fritz tenha ouvido do colono português de nome Francisco que o rei havia proibido o aprisionamento e a escravização dos indígenas, em 1700 ele voltou a receber notícias de que as entradas para captura de índios continuavam a ocorrer. Desta vez as reclamações eram dos índios Yurimagua que relataram a Fritz sobre algumas mulheres e crianças Ibanoma que, após a morte de seu curaca, foram levadas por um frade carmelita português para serem vendidas no Pará; esse frade teria chegado até o pueblo jesuíta de Nuestra Señora de las Nieves entre os Omágua com uma canoa cheia de grilhões, mas os índios daquele pueblo teriam
conseguido fugir do aprisionamento134.
Em 1704 o Padre Samuel Fritz foi nomeado Superior das Missões, sendo substituído no trabalho missionário pelo Padre Juan Baptista Sana. Embora
ocupando a função de Superior135, Fritz continuou envolvido diretamente com as
Missões de Maynas, auxiliando os padres jesuítas em atividade. Em 1707, após 22
anos de experiência missionária, Fritz desenhou seu mapa intitulado “El Gran Río
Marañón o Amazonas, con la Misión de la Compañía de Jesús geográficamente
delineado por el P. Samuel Fritz misionero continuo en este Río”.
133 Sobre as políticas portuguesas aplicadas na Amazônia no século XVII, ver DIAS, Camila Loureiro.
L’Amazonie avant Pombal. Politique, Économie, Territoire. These pour obtenir le grade de docteur en Histoire et Civilisations. Ecole de Hautes Etudes en Sciences Sociales, 2014.
134 FRITZ, apud MARONI. Idem, 1988, p. 347.
135 O Superior era alocado na capital das Missões que, naquele momento, se encontrava no pueblo
Mapa 5: “El Gran Río Marañón o Amazonas, con la Misión de la Compañía de Jesús geográficamente delineado por el P. Samuel Fritz misionero continuo en este Río”. Fonte: DIAS, Camila Loureiro. L’Amazonie avant Pombal. Politique, Économie, Territoire. These pour obtenir le grade de docteur en Histoire et Civilisations. Ecole de Hautes Etudes en Sciences Sociales, 2014, p. 225.
Entendemos que o mapa elaborado pelo Padre Samuel Fritz (1707) significava mais do que a simples representação da expansão das Missões de Maynas. O mapa de Fritz foi um instrumento diplomático de tomada de posse dos territórios; como afirmou Camila Loureiro Dias, o mapa de Fritz incorporou às
Missões de Maynas, todo o território compreendido entre o rio Napo e o rio Negro136.
Acreditamos que o objetivo central de Fritz ao construir seu mapa era garantir a posse de todo o território abarcado pelas Missões de Maynas para os espanhóis e, consequentemente, para os jesuítas que lá trabalhavam em nome da coroa
espanhola. Para atingir tal objetivo, Fritz articulou desenho e texto – o mapa e sua
legenda – dois raios de ação, um partindo dimensão cartográfica e o outro da
escrita; operando conjuntamente essas duas esferas compõem uma mesma operação demarcatória que, no mapa de Fritz determinava as fronteiras do império espanhol no Marañón.
136 DIAS, Camila Loureiro. Jesuit Maps and Political Discourse: The Amazon River of Father Samuel
Desse modo, o mapa de Fritz registrou uma memória da atuação missionária jesuítica no Marañón e ganhou também uma dimensão política, pois acabou sendo retomado pelos espanhóis ao longo do século XVIII, principalmente na segunda metade dele - no contexto da assinatura dos Tratados de limites em 1750 e 1777 -, como instrumento de apropriação dos territórios por ele demarcados, ou seja, defendemos que o mapa de Fritz representou a aplicação do “udi possidetis” pelos espanhóis no Marañón.
Atuando como Superior das Missões desde 1704, Fritz elaborou alguns ofícios denunciando à Coroa espanhola os abusos cometidos pelos portugueses no território das Missões de Maynas. Um dos infortúnios descritos pelo Superior foi o ataque às missões de Omáguas que antes eram administradas por ele e agora estavam nas mãos do Padre Sana.
Padre Juan Baptista Sana, foi mais um jesuíta que encontrou muitas dificuldades em executar o projeto missionário em Maynas e também enfrentou muitos ataques dos portugueses nas Missões. Um dos ataques mais graves ocorreu em dezembro de 1707 quando, liderada pelo carmelita Frei Antonio Andrade, uma tropa portuguesa capturou dezoito famílias de índios Ibanoma e uns cem índios