Foram muitos os viajantes que se aventuraram por terras desconhecidas; movidos pela curiosidade e principalmente pela ambição de enriquecer, esses homens promoveram incessantes buscas por ouro e outros metais e pedras preciosas ou ainda por produtos naturais que pudessem ser aproveitados para
movimentar o comércio europeu21.
Certamente o fator econômico foi o motivador preponderante da execução das viagens de descobrimento, mas também é certo dizer que a curiosidade despertada pelos relatos “maravilhosos”, presentes na literatura de viagem dos europeus, contribuiu grandemente para a realização desses empreendimentos tão arriscados.
Cabe aqui ressaltar que os viajantes europeus que vieram ao Novo Mundo não abandonaram a escrita de relatos permeados por elementos do maravilhoso. Calcados em suas experiências literárias anteriores e diante de uma realidade tão inusitada quanto representava a América para aqueles homens, a produção de seus relatos de viagens esteve inteiramente povoada de seres mitológicos, monstros, fantasias, lugares extraordinários e, principalmente, riquezas incalculáveis.
A extensa documentação produzida pelos viajantes europeus no período colonial, de um modo geral, tinha a função de construir algum tipo de conhecimento sobre a nova realidade encontrada nas terras americanas, ou seja, seu maior objetivo era fazer com que aquela experiência se tornasse inteligível para os demais europeus do período, pois quanto maior o conhecimento sobre as colônias, melhor se daria seu aproveitamento em benefício da metrópole.
Ao realizar a operação de escrita, viajantes e missionários europeus acabaram por criar uma realidade americana que se encaixava perfeitamente no imaginário ocidental da modernidade. As aventuras e experiências retratadas nas cartas de viajantes e missionários não representavam a realidade tal qual ela era,
21 Sobre os fatores que motivaram as viagens ver GIUCCI, Guillermo. Viajantes do Maravilhoso: o
Novo Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992 e HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Brasiliense; Publifolha, 2000.
mas sim como eles a compreenderam a partir dos seus próprios referenciais e de seus objetivos colonialistas.
Em seu livro Jesuítas e Selvagens22, Adone Agnolin demonstrou que os
encontros culturais ocorridos nos séculos XVI e XVII entre os europeus e os mais diferentes povos do mundo, foram pautados na mentalidade do homem da Renascença que buscava fundir sua herança clássica com as novas descobertas e invenções do período. O resultado disso, segundo o autor, foi a invenção do outro, produzida principalmente nas cartas de viajantes e missionários que representaram uma tentativa real de enquadrar o outro no próprio imaginário, transformando-o em um espelho de si mesmo.
Agnolin mostrou que, para os homens do Renascimento, foram os gregos e romanos antigos os pioneiros em encarar e tentar explicar a alteridade “selvagem”; assim, a releitura dos textos da Antiguidade clássica se deu na Renascença para a construção de um modelo, um manual de como proceder diante do outro, classificado então como selvagem. Desse modo, o autor afirma que a cultura renascentista se caracterizou pela acomodação dos novos conhecimentos científicos às antigas tradições clássicas, como uma forma de garantir a continuidade entre o velho (clássico) e o novo (humanista) saber. O objetivo não era romper completamente com o passado, mas apenas buscar uma via segura de transição
para a realidade moderna23.
Carolina Depetris analisou os diários de viajantes que realizaram expedições para a Pampa e Patagônia argentinas durante a segunda metade do século XVIII e primeira metade do XIX. Assim como Agnolin, Depetris mostrou que o pensamento europeu medieval e renascentista seguia a lógica aristotélica na qual a apreensão das coisas começava com a formação de um conceito. Para Aristóteles o mundo podia ser compreendido e explicado através de uma estrutura lógica dedutiva, assim o saber se sustentaria na construção de noções suficientemente universais que permitiriam ao homem o conhecimento de coisas particulares. Portanto, os homens
22 AGNOLIN, Adone. Jesuítas e Selvagens: A negociação da fé no encontro catequético-ritual
americano-tupi (séc. XVI – XVII). São Paulo: Humanitas, 2007.
medievais e renascentistas contavam com uma série de conceitos que conduziam
ao entendimento das realidades24.
É certo que o discurso do maravilhoso se apoiava no total desconhecimento da realidade americana, portanto não havia uma concordância entre o objeto em si, e o que era narrado sobre ele. Os relatos produzidos pelos viajantes europeus, dessa forma, misturavam mito e realidade, embora fossem fortemente influenciados pelas expectativas de homens que desejavam, acima de tudo, um enriquecimento rápido e grandioso, conforme Giucci:
Seja sob a formulação das sete cidades de Cíbola, do tesouro do Inca, da serra da prata, do rei dourado, do reino dos Omaguas, da cidade dos Césares, ou da série de metas menores que levaram os expedicionários, em momentos e lugares distintos, a tentar a sorte num terreno incerto, o exame do maravilhoso americano nos remete, em primeiro lugar, ao horizonte da esperança de enriquecimento rápido.25
Para Giucci, uma das principais características dos relatos produzidos sobre o Novo Mundo é a presença constante de elementos econômicos, como vimos na citação acima. Além de minas de ouro fabulosas e míticas - como as do Rei Salomão -, serras de prata e territórios ricos em produtos naturais - como o País da Canela -, outros elementos fantásticos constantes em tais relatos eram os mitos sobre a existência do Paraíso terrestre, da fonte da juventude, de uma tribo de mulheres guerreiras - as amazonas -, sereias, monstros, gigantes e outros seres fabulosos.
Conforme Giucci, foi na América que se deu a aproximação entre o
maravilhosos longínquo – presente apenas na imaginação e nos relatos de viagens
mais antigos – e a realidade tida como exótica. O Novo Mundo representava um
espaço real, embora permeado de elementos idealizados, e que precisava ser dominado e incorporado, não apenas no imaginário europeu, mas de fato em seus
domínios coloniais26.
É evidente que a realização de viagens de descobrimento fazia parte de um projeto de conquista e colonização do Novo Mundo que visava transformar a
24 DEPETRIS, Carolina. La escritura de los viajes: del diario cartográfico a la literatura. Mérida:
Universidad Nacional Autónoma de México, 2007, p. 19-20.
25 GIUCCI. Op. cit., 1992, p. 15.
natureza americana em mercadoria e os habitantes nativos em mão-de-obra
submetida aos interesses coloniais da monarquia espanhola27. E ainda, mais do que
a simples exploração de recursos naturais e habitantes, colocava-se na América o problema da anexação dos territórios ultramarinos aos domínios do império espanhol, dentro de uma lógica colonial;
O ritual legitimador da tomada de posse converte-se em signo anunciador de guerras e mortes, submissão de indígenas, despojo de riquezas, escravismo, fundação de cidades, exploração de minas de metais preciosos, uma nascente ordem colonial.28
Além da possibilidade de enriquecimento, aos chefes dessas expedições descobridoras, de acordo com Las Ordenanzas expedidas pelo rei Felipe II em 1573, eram concedidas mercês e privilégios pela coroa;
(...) la necesidad de recompensar con largueza a los particulares que todo lo ponían y que tanto arriesgaban en estas expediciones descubridoras, motivó la concesión a los interesados en las mismas de privilegios extraordinarios de carácter acentuadamente señorial. Se otorgó el título de Adelantado con un carácter vitalicio o hereditario al jefe de la expedición descubridora; se le facultó para repartir tierras y solares, y en ocasiones también para hacer repartimientos de indios; se le autorizó para la erección de fortalezas y para gozar, vitalicia o hereditariamente, de la tenencia de las mismas; se le permitió la provisión de oficios públicos en las ciudades de su jurisdicción, y se unieron a éstas otras lucrativas recompensas de carácter patrimonial.29
A concessão de tais privilégios permitia à monarquia espanhola uma grande economia de gastos para seu Tesouro, uma vez que, ao invés de serem investimentos do Estado, a maioria das expedições descobridoras acabavam por ser fruto de financiamentos, individuais e privados, empreendidos por homens que se mostravam dispostos a superar as dificuldades e os perigos de tais viagens. Esse fato se explicava pela condição social e econômica em que esses homens se encontravam na Espanha, como vemos a seguir,
27 Ver em Todorov sobre a viagem de Colombo, para elucidar a questão:
“Os marinheiros não são os únicos que esperam enriquecer. Os próprios mandatários da expedição, os reis de Espanha, não se teriam envolvido na empresa se não fosse a promessa de lucro.” TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América – a questão do outro. Tradução: Beatriz Perrone Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 1988, p. 9.
28 GIUCCI. Idem, 1992, p. 18.
29 CAPDEQUÍ, J.M. Ots. El Estado español en las Indias. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica,
Fueron los segundones fijosdalgos los que en gran parte nutrieron las expediciones descubridoras. La institución de los mayorazgos, vigente en España, había motivado que los hijos no primogénitos de las familias nobiliarias quedasen en una situación económica difícil, notoriamente desproporcionada con su posición social. El descubrimiento de América abrió horizontes amplios a su ambición de labrarse una fortuna propia, que les permitiese salir rápidamente, aun a costa de los mayores riesgos, del estado de inferioridad económica en que vivían, y ello les impulsó a enrolarse en las huestes de la conquista.30
Além do fator econômico, há que se dizer que o fator religioso também foi usado como motivador das conquistas, já que estamos falando de homens europeus que acreditavam profundamente no pretexto universalista de sua religião, por isso a consideravam como superior entre as demais religiões do globo. Portanto, a conquista do Novo Mundo, não proporcionaria apenas a possibilidade do enriquecimento rápido e fácil, mas também daria a estes homens a oportunidade,
vista muitas vezes até como missão, de levar sua “verdadeira” religião aos
“selvagens” do Novo Mundo.
Não só daria aquele ouro grande acréscimo à Fazenda Real, além de cobrir os gastos havidos para tão gloriosa empresa, como o fora a incorporação e novos mundos ao patrimônio da Coroa, mas sobretudo poderia servir a fins mais devotos, entre estes o da recuperação do Santo Sepulcro em Jerusalém. E a presença de tamanhos tesouros nas terras descobertas, se não bastava para atestar a vizinhança com o paraíso perdido, de qualquer forma dava meios para o acesso à eterna bem-aventurança. Assim, cuidava, com efeito, o genovês, e escrevendo da Jamaica, em 1503, aos reis Católicos, reafirma com singular veemência essa convicção: o ouro, dizia então, é excelentíssimo; de ouro faz-se tesouro, e com ele, quem o tem, realizará quanto quiser no mundo, e até mandará as almas ao paraíso.31
Então, a conquista da América conciliava os interesses materiais e os espirituais; essa foi a regra geral para os projetos de colonização das terras americanas, explorar e catequizar, sendo que às vezes se pendia mais para um, ou para outro lado.
No caso da Amazônia, a situação não foi diferente, pensamento maravilhoso, exploração material e conquista espiritual se integraram em um projeto colonial elaborado e reelaborado pela coroa espanhola durante os séculos XVI e XVII. Toda
30 CAPDEQUÍ. Idem, 1993, p. 19. 31 HOLANDA. Op. cit., 2000, p. 15.
essa estrutura colonial político-administrativa tinha por objetivo proporcionar um controle mais efetivo do imenso território compreendido pelo império espanhol no ultramar.
Na base dessa estrutura estavam os “cabildos” das novas cidades fundadas e
neles, o Estado espanhol era representado por uma série de funcionários –
governadores, alcades, corregedores – e pelos tribunais de justiça – as Audiências – que constituíam os distritos administrativos sob os quais se assentavam os Vice- reinos. Da Espanha, o Conselho de Índias determinava as direções da política colonial e promovia o controle por meio de visitadores.
Entretanto, a conquista e a colonização colocaram em pauta algumas discussões acerca da legitimação da dominação exercida pelos espanhóis nas Índias. As “Leyes de Burgos” (1512-1513), sancionadas ainda durante o governo do rei católico Fernando II de Aragão, representaram uma primeira tentativa de legitimar
o uso da mão-de-obra nativa através da organização do sistema de “encomiendas”
que objetivava desenvolver os territórios conquistados e promover a evangelização
dos indígenas, considerados, então, súditos livres – e não escravos – da coroa
espanhola. Ou seja, “las leyes de Burgos habían consagrado en derecho una
situación de hecho y legalizado el trabajo forzado de los indios”32.
Embora as Leyes de Burgos tenham legitimado as encomiendas como sistema de exploração da mão-de-obra indígena, os debates em torno dos problemas morais em utilizar um modo de trabalho forçado se avivaram. Motivado principalmente pelas campanhas do dominicano Bartolomé de las Casas em defesa da liberdade dos índios, Carlos V, em 1542, promulgou as “Leyes Nuevas de Indias” que reiteravam a proibição da escravização do indígena; esse conjunto de leis também determinava que as encomiendas estariam abolidas com a morte dos seus respectivos encomenderos, ficando os índios em liberdade. Obviamente as Leyes Nuevas de Indias provocaram descontentamentos entre os colonos.
Após muitas controvérsias, em 1680, durante o reinado de Carlos II, as Leyes
Nuevas foram revistas e se publicou uma “Recopilación de las Leyes de Indias”33.
Basicamente se fez uma revisão dos conjuntos de leis anteriores que resultou em
32 VALDEÓN, Julio; PÉREZ, Joseph y JULIÁ, Santos. Historia de España. Madrid: Espasa Libros,
2011, p. 270.
uma recompilação delas em nove livros: o primeiro versava sobre os assuntos religiosos de uma maneira geral, como funcionavam o patronato real, a organização da Igreja Católica nas Índias, a situação do clero regular e secular e a evangelização dos nativos; o segundo tratava da estrutura do governo colonial nas Índias, em especial do funcionamento do Conselho de Índias e das Audiências; o terceiro definia as atribuições dos Vice-reis e Governadores, referindo-se também à organização militar nos territórios conquistados, o quarto se referia aos assuntos de descobrimento e conquista dos territórios, como normas de povoamento, distribuição e uso da terra, entre outros; o quinto se fixava em diversos aspectos do direito público e nas funções dos alcades, corregedores e outros funcionários menores; o sexto tratava da situação dos indígenas de um modo geral - condição social, pagamento de tributos, sistema de exploração da mão-de-obra, reduções, entre outros temas -; o sétimo versava sobre aspectos jurídicos relacionados à moral pública; o oitavo se referia à organização geral das contas e rendas; finalmente o nono se referia à regulamentação do comércio entre a Espanha e seus territórios nas Índias pela “Casa de Contratación”.
A “Recopilación de las Leyes de Indias” expressava a ideia de que a monarquia espanhola era consciente de que o exercício de uma forte dominação política somente seria alcançado através de um sistema de governo que lhes permitisse o controle político-administrativo dos espaços coloniais no ultramar.
Assim, todas as autoridades coloniais - fossem os Vice-reis, os Presidentes das Audiências ou os Governadores - tinham a obrigatoriedade de informar detalhadamente à coroa espanhola toda e qualquer situação de relativa significação; tal obrigatoriedade deveria também ser cumprida mediante qualquer ação deliberativa, exceto em casos que exigissem uma resolução urgentíssima.
Para um maior controle daqueles domínios nas Índias Ocidentais, o território colonial foi dividido em Províncias Maiores e Províncias Menores cujas jurisdições correspondiam respectivamente às Audiências e Governações; deste modo, a Governação de Maynas, foco desse trabalho, era uma jurisdição da Audiência de
Quito34. As Audiências constituíam delimitações básicas e permanentes, através das
34 A determinação dos limites da Governação de Maynas, bem como sua inserção na rede
quais surgiram as demais jurisdições menores; eram órgãos coorporativos de administração da justiça, de governo, da política do patronato, de guerra e de fazenda e seu poder decisório estava submetido à autoridade dos Vice-reis, entretanto, isso nem sempre se cumpria.
La enormidad de las distancias, la dificultad de las comunicaciones y la desconfianza de los monarcas explican, (...), este complejo de atribuciones de que las Audiencias gozaron y el hecho de que, si de una parte estaban sujetas a la autoridad de los virreyes, estuvieran por otra parte facultadas para compartir con ellos sus funciones de gobierno y aun para fiscalizar la actuación de estos altos funcionarios.35
Os Vice-reis representavam o Estado espanhol nas Índias e, como vimos na citação anterior, diante das enormes distâncias que dificultavam a comunicação entre a Metrópole e suas colônias, os Vice-reis se viam obrigados a resolver uma multiplicidade de problemas sem sequer consultar as esferas mais altas do governo espanhol centradas em Madri ou mesmo o próprio rei. Ou seja, é evidente que a falta de uma delimitação clara das atribuições de cada uma das autoridades coloniais poderia gerar tensões entre elas, situação que igualmente podia ser vislumbrada em todas as esferas da vida política e nos múltiplos cenários do império colonial espanhol.
Em princípio, a Governação de Maynas, como jurisdição da Audiência de Quito, foi dependente do Vice-reino do Peru que, além de ser um dos mais importantes centros comerciais do império espanhol nas Índias, constituía uma das maiores áreas fornecedoras de metais preciosos para a Metrópole. Porém, devido a amplitude do Vice-reino peruano e a dificuldade dos Vice-reis em exercer um controle rigoroso em um território tão dilatado, criou-se, em 1717, o Vice-reino de Nova Granada; a Audiência de Quito foi então suprimida e suas jurisdições passaram a ser, ao menos teoricamente, controladas pela Audiência de Santa Fé. Essa conjuntura de transformações administrativas se enquadrava na política reformista bourbônica que defendia a renovação da política imperial espanhola, com uma nova burocracia e reordenamentos locais. Sobre o reformismo bourbônico faremos algumas considerações.
Felipe V primeiro rei espanhol (1700-1746) da família Bourbon, neto do rei Luís XIV da França, foi o primeiro rei ilustrado da Espanha e seu reinado inaugurou a política reformista. Felipe V adotou uma série de medidas inovadoras, porém de natureza absolutista e centralizadora, emprestadas do modelo absolutista francês de seu avô, que o aconselhava a respeito de um novo sistema de organização do poder – o Absolutismo – em que o rei centralizava todos os poderes e governava de forma absoluta, por cima de todos os seus súditos. Também se aplicou um modelo de racionalização da administração, buscando fazer as instituições administrativas mais eficazes, mais rápidas, mais operativas e menos custosas. Nesse sentido, o Conselho de Castela se converteu em um órgão chave da administração civil e religiosa. Outra preocupação fundamental de Felipe V foi a de manter a posição da Espanha como a grande potência internacional, para isso foi necessário dar mais atenção à defesa dos territórios coloniais frente aos movimentos imperialistas portugueses e britânicos. Os sucessores de Felipe V, os reis Fernando VI (1746- 1759) e Carlos III (1759-1788) foram os responsáveis por dar continuidade ao programa reformista iniciado por Felipe V. O projeto reformista bourbônico, atingiu seu apogeu no reinado de Carlos III.
Retornando à história da Governação de Maynas, em 1723, o Vice-reino de Nova Granada foi suprimido e a Audiência de Quito, então restituída de suas antigas funções, voltou a depender do Vice-reino do Peru. Em 1739, por uma decisão real, se restabeleceu o Vice-reino de Nova Granada e a Audiência de Quito se tornou subordinada e dependente diretamente a ele. Dessa forma, a Governação de Maynas ficou diretamente subordinada à Audiência de Quito, entre os anos de 1739
e 1802. Somente em 1802, com a criação do “Gobierno y Comandancia General de
Maynas” por Cédula Real é que essa região de fronteira voltou a ser dependente do Vice-reino peruano.
Mapa 2: Maynas na Audiência de Quito. Fonte: PORRAS, Maria Elena. Gobernacion y Obispado de Mainas (siglos XVII y XVIII). Quito: Abya Yala e Taller de Estudios Historicos (TEHIS), 1987, p. 30.
Apesar de integrar toda essa estrutura político-administrativa do mundo colonial hispânico, Maynas nunca deixou de ser considerada uma área periférica dentro desse sistema que comprovadamente apartava espaços urbanos e “civilizados” de territórios “selvagens”, habitados por grupos indígenas considerados hostis. Segundo Anne-Christine Taylor