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2.2. Kredi Kartları

2.2.4. Kredi Kartı Sistemleri

De um modo geral, em cada período histórico, as cidades possuem valores que se assemelham, mas também que as distinguem: a realidade social e política valoriza diferentemente riquezas, conhecimentos e técnicas. No entanto, a busca cada vez maior por lucros, em qualquer lugar do planeta, contribui para que a produção de produtos substitua “[...] a produção de obras e de relações sociais ligadas a essas obras, notadamente na cidade” (LEFÈBVRE, 2010, p. 13). Para Lefèbvre (2010), a cidade como obra tem valor de uso (fruição, beleza, fascínio dos locais de encontro) e como produto tem valor de troca. Essa noção faz com que este autor argumente que:

[...] a cidade e a realidade urbana dependem do valor de uso. O valor de troca e a generalização da mercadoria pela industrialização tendem a destruir, ao subordiná-las a si, a cidade e a realidade urbana, refúgios do valor de uso, embriões de uma virtual predominância e de uma

revalorização do uso. (LEFÈBVRE, 2010, p. 14, grifo do autor).

O processo de industrialização pressupõe uma ruptura entre a indústria nascente e as estruturas históricas. Por ser um processo dialético, a realidade urbana das cidades antigas (pré-industriais, pré-capitalistas) não é simplesmente rompida, mas sim apoderada pela realidade industrial. No caso específico do Brasil, os seus núcleos urbanos antigos, quando “revitalizados”, sofrem intervenções pontuais com vista à estética e ao consumo turístico.

A apreensão do tecido urbano das cidades (constituída por malhas urbanas antigas e recentes) para Lefèbvre (2010), assim como para Santos, não se restringe à sua morfologia urbana, pois “ele é o suporte de um ‘modo de viver’ mais ou menos intenso ou degradado: a sociedade urbana” (LEFÈBVRE, 2010, p. 19, grifo do autor).

Em meio a um modo de viver cada vez mais distinto de tempos passados, os antigos núcleos urbanos não desapareceram, e sim tentam resistir às transformações advindas de um novo modo de viver, continuando a ter intensa vida urbana. No entanto, são principalmente as suas qualidades estéticas que desempenham um papel fundamental para sua manutenção.

Desse modo, esses centros antigos, compostos por obras (monumentos, sede de instituições e espaços apropriados para diversões) só continuam a ter um valor de uso em decorrência de serem produtos de consumo, adquirindo assim um valor de troca que prevalece sobre o valor de uso. Neste sentido, Lefèbvre (2010, p. 20) diz que:

[...] o núcleo urbano torna-se, assim, produto de consumo de uma alta qualidade para estrangeiros, turistas, pessoas oriundas da periferia, suburbanos. Sobrevive graças a este duplo papel: lugar de consumo e consumo do lugar. Assim, os antigos centros entram de modo mais completo

na troca e no valor de troca, não sem continuar a ser valor de uso em razão dos espaços oferecidos para atividades específicas.

A especificidade da cidade “[...] sempre teve relações com a sociedade no seu conjunto [...]” (LEFÈBVRE, 2010, p. 51), de maneira que as transformações da cidade ocorrem quando muda a sociedade. Para este autor, a cidade é um objeto – não como um objeto domável tal como um papel – que não pode ser separado do que ela contém e nem do que a contém e, além disso, não é um sistema completo, mas um subsistema e, desta maneira, não é a totalidade, e sim parte dela.

A cidade como obra social “[...] de certos ‘agentes’ históricos e sociais [...]” (LEFÈBVRE, 2010, p. 54) só existe a partir da relação entre ações sociais sucessivas e materialidade. Sendo assim, qualquer análise que tenha como base a cidade não pode separar a morfologia material da morfologia social. As relações sociais, por não flutuarem no ar, precisam ligar-se aos objetos para não serem condenadas a perecerem como simples possibilidades.

Os atos ou acontecimentos, do passado e atuais, que contribuem para a produção da realidade urbana devem ser apreendidos em suas diferenças e não por meio de operações redutoras. Dessa maneira, uma análise que fuja de esquemas simplificadores perceberá, por exemplo, como processos globais (sociais, culturais, políticos, econômicos) e relações diretas, pessoais e interpessoais (família, vizinhança, profissões, corporações) contribuem para produzir o espaço urbano, a cidade.

A partir dessas interações complexas, introduzidas pela sociedade, a realidade urbana é constantemente transformada para abrigar as inovações no modo de viver (da vida cotidiana). Disso resulta que muitas cidades que pertenciam a períodos passados, como as cidades medievais, não desapareceram, mas transformaram-se, dissolveram-se em meio a um movimento dialético, para abrigar novas funções, novos processos, novas estruturas e novas formas.

Assim, “no curso do desenvolvimento, formas transformam-se em funções e entram em estruturas que as retomam e as transformam” (LEFÈBVRE, 2010, p. 60, grifo do autor). Em meio ao movimento histórico, a metamorfose da cidade e de sua realidade urbana está vinculada a processos, formas, estruturas e funções que “[...] agiram umas sobre as outras e se modificaram, movimento este que o pensamento pode hoje reconstruir e dominar” (LEFÈBVRE, 2010, p. 60) e, portanto, deve ser apreendida a partir do contexto histórico em que a cidade está inserida.

Por não ser um resultado dela mesma, a cidade não pode ser considerada como um sistema fechado, pois existem atos, ações e agentes que influenciam em sua realidade urbana, de maneira que os símbolos presentes nela são representativos desses atos, ações e agentes (LEFÈBVRE, 2010). Portanto,

[...] a cidade não pode ser concebida como um sistema significante, determinado e fechado enquanto sistema. A consideração dos níveis da realidade proíbe aqui como em outros casos, essa sistematização. Todavia, a Cidade teve a singular capacidade de se apoderar de todas as significações a fim de dizê-las, a fim de escrevê-las (estipulá-las e ‘significá-las’), inclusive as significações oriundas do campo, da vida imediata, da religião e da ideologia política. Nas cidades, os monumentos e as festas tiveram estes

sentidos. (LEFÈBVRE, 2010, p. 61-62, grifo do autor).

Lefèbvre (2010) propõe algumas definições para esta obra complexa que é a cidade, mas aponta que em todas elas existem lacunas. Além disso, deixa claro que cada uma dessas definições deve evidenciar o papel histórico da obra, visto que, cada vez mais, as cidades modernas ou modernizadas não devem ser entendidas como “[...] um lugar passivo da produção ou da concentração dos capitais, mas sim que o urbano [realidade social constituída por relações sociais] intervém como tal na produção (nos meios de produção).” (LEFÈBVRE, 2010, p. 63, grifo do autor)

De acordo com as considerações anteriores, Lefèbvre (2010, p. 65) observa que as análises da cidade e do urbano devem ter como base “[...] todos os instrumentos metodológicos: forma, função, estrutura – níveis, dimensões – texto, contexto – campo e conjunto, escrita e leitura, sistema, significante e significado, metalinguagem, instituições etc.”. Todavia, as definições desses termos assumem diversos significados.

Atualmente e, cada vez mais, as cidades são objetos com valores de troca, de compra, de venda, isto é, de consumo (LEFÈBVRE, 2010, p. 37). Hoje, a ideologia da sociedade (a partir da industrialização) considera a cidade e seus significados como um valor de troca. Nesta perspectiva, ainda de acordo com Lefèbvre (2010), atualmente, esta relação entre filosofia e cidade está longe de alcançar sua realização.

Os problemas vinculados à cidade moderna e à realidade urbana são mundiais. A sociedade que vivencia esta cidade não parece ser capaz de gerar soluções para a problemática urbana e, quando o fazem, é “[...] através de pequenas medidas técnicas que prolongam o estado atual das coisas” (LEFÈBVRE, 2010, p. 80).

Está claro que muitos desses problemas urbanos estão vinculados direta ou indiretamente ao processo de industrialização. No entanto, entende-se que qualquer apreensão ou solução para os fenômenos urbanos, decorrentes das cidades industriais e de sua expansão, só podem acontecer a partir do entendimento de que estas mesmas cidades industriais, e todas as outras que surgiram delas, desenvolveram-se nas cidades tradicionais, que ainda perduram. Em outras palavras, para se fornecer soluções aos problemas urbanos da cidade atual, faz-se necessário perceber estes mesmos fenômenos em sua amplidão de relações sociais. Neste sentido, Lefèbvre (2010, p. 81, grifo do autor) considera que:

A dificuldade maior, teórica e prática, vem de que a urbanização da sociedade industrializada não acontece sem a explosão daquilo que ainda chamamos de “cidade”. Com a sociedade urbana se constituindo sobre as ruínas da cidade, como apreender os fenômenos em toda sua extensão, em suas múltiplas contradições? É aí que está o ponto crítico.

Para este autor, a realidade urbana nascida da era industrial, carregada de racionalidade e intencionalidade, ataca e corrói a cidade, até ao ponto de a mesma perder suas características e seus traços como obra. Lefèbvre (2010, p. 82) considera que “atualmente, a racionalidade passa (ou parece passar, ou pretende passar) longe da cidade, acima dela [...]. Ela recusa a cidade como momento, como elemento, como condição; só a admite como instrumento e dispositivo.”

As ações estratégicas – de desvalorizar, degradar e destruir a realidade urbana – dos processos em curso, vinculadas à racionalidade (estatal, burocrática, econômica), dissolve as antigas formas da cidade tradicional e as qualidades de seus lugares. Lefèbvre (2010), indo mais além em sua meditação sobre a produção social do espaço, considera que esse processo inevitável de desvalorização intensifica

[...] o sarcasmo, a miséria mental e social, a pobreza da vida cotidiana a partir do momento em que nada tomou o lugar dos símbolos, das apropriações, dos estilos, dos monumentos, dos tempos e ritmos, dos espaços qualificados e diferentes da cidade tradicional. (LEFÈBVRE, 2010, p. 83). Em meio a essas intencionalidades que sobrecaem na cidade abalada, as relações sociais, em um movimento dialético, vão-se tornando cada vez mais intensas, complexas, múltiplas, mas também segregadas. De um lado, encontram-se os interesses econômicos, políticos e produtivista e, do outro, os habitantes da cidade. As exigências como valor de troca

da cidade não abafam o desejo e a necessidade do uso (como valor de uso) de seus lugares e monumentos.

Qual seria então o papel do poder público em meio a interesses múltiplos? Teoricamente, deveria ser o de colocar em “[...] primeiro plano a problemática do urbano, a intensificação da vida urbana, a realização efetiva da sociedade urbana (isto é, de sua base morfológica, material, prático-sensível)” (LEFÈBVRE, 2010, p. 88).

Tanto a visão analítica da cidade como os próprios indivíduos sociais separam o ser pensante da sua existência (da sua materialidade). Então, como apreender a cidade e as relações sociais que nela se materializam sem levar em consideração que o conteúdo não existe sem a forma e a forma não existe sem o conteúdo?

Eis uma vida cotidiana bem decupada em fragmentos: trabalho, transporte, vida privada, lazeres. A separação analítica os isolou como ingredientes e elementos químicos, como matérias brutas [...]. Ainda não acabou. Eis o ser humano desmembrado, dissociado. Eis os sentidos, o olfato, o paladar, a visão, o tato, a audição, uns atrofiados, outros hipertrofiados. Eis, funcionando separadamente, a percepção, a inteligência, a razão. [...]. Eis a cotidianidade e a festa, esta última moribunda. Com toda certeza, e com a máxima urgência, é impossível continuar nessa situação. A síntese, portanto, se inscreve na ordem do dia, na ordem do século. (LEFÈBVRE, 2010, p. 101, grifo do autor).

Lefèbvre (2010) explicita que a síntese não é a combinação dos elementos dispersos, soltos, pois uma combinação jamais poderá ser chamada de síntese. Da mesma maneira, para apreender a cidade, faz-se necessário muito mais que a combinação de seus elementos, pois a mesma não é apenas materialidade, mas uma prática social conflitante e integrativa.

No entanto, em meio às questões relativas às contradições – entre total-parcial, análise-síntese e até mesmo entre a ação social de construção na cidade de formas segregadas (tais como os guetos e, mais recentemente os condomínios) e a busca pela integração social – percebe-se que a sociedade subsiste e funciona.

Em meio a inúmeras contradições e relações dialéticas, o ser humano tem necessidades individuais, sociais ou antropológicas (de isolamento e de encontro, de segurança e de abertura, de certeza e de aventura, de organização do trabalho e de jogo, etc.), necessidades específicas (de obra, de atividade criadora, de simbolismo, de informação, de imaginário, etc.), necessidades urbanas específicas (de lugares com qualidade, lugares de encontro e até mesmo de um tempo), (LEFÈBVRE, 2010).

Como dito anteriormente, nem o poder público, nem as empresas e nem ninguém (e nem os filósofos) têm a habilidade de objetivar uma síntese da cidade e, com isso, de apreender a cidade em sua totalidade. Pretender reunir, de maneira simultânea e contraditória, o que se encontra cada vez mais disperso, separado e dissociado é algo impossível para uma sociedade segregada (LEFÈBVRE, 2010).

Sem síntese o ser humano não tem nem como cogitar sequer um pensamento teórico que vislumbre o direito à realização de uma sociedade, de uma cidade, de um urbano, de uma realidade e de possibilidades que têm por finalidade as necessidades sociais. Atualmente, o que se tem como indicador de existências são porções da realidade social, mas a combinação das partes não nos dá a totalidade social. Esta capacidade de síntese para Lefèbvre (2010, p. 122) “[...] pertence a forças políticas que são, na realidade, forças sociais (classes, frações de classes, agrupamentos ou alianças de classes).”

Uma sociedade segregada, fragmentada com pouca, ou quase nada, de capacidade de síntese, que age como consumidora da cidade e não como parte da própria cidade, é facilmente manobrada, deslocada e manipulada. Por outro lado, Lefèbvre (2010, p. 109) considera que os pensadores da cidade, do urbano e da vida social em suas mais distintas formas, “[...] podem propor, tentar, preparar formas. E também (e sobretudo) podem inventariar a experiência obtida, tirar lições dos fracassos, ajudar o parto do possível através de uma maiêutica nutrida de ciência.”

Segundo Lefèbvre (2010, p. 106-107), as ciências que estudam a cidade necessitam melhor conhecer este objeto (a cidade) levando em consideração que “o passado, o presente, o possível não se separam.” Assim, é necessária a busca de novas démarches e instrumentos intelectuais tanto para pensá-lo (este objeto que é a cidade) quanto para continuar a criá-lo, não como produto, mas como obra9.

O modo como se encontra a sociedade urbana, desfragmentada, faz Lefèbvre (2010, p. 125) considerar, em princípio, não a busca de uma síntese efetiva, mas de uma convergência de conhecimentos, de atos, de ações, de agentes sociais relacionados aos diversos aspectos da produção social, da produção da cidade e da sociedade urbana “[...] a fim de tender para a apreensão do concreto – do drama urbano [...]”. Em outras palavras, trata-se de uma mudança de prática social, de maneira que “[...] a realidade urbana esteja destinada aos ‘usuários’ e não

9 Quanto mais as questões da cidade forem reduzidas, por exemplo, às formas e aos usos do solo, mais

contribuímos para que esta cidade se torne um produto. No entanto, quanto mais considerarmos as questões da cidade relacionadas a questões sociais, mais contribuímos para que esta cidade seja apreciada e valorizada por sua população (LEFÈBVRE, 2004, 2010).

aos especuladores, aos promotores capitalistas, aos planos dos técnicos [...]” (LEFÈBVRE, 2010, p. 127).

Uma dessas mudanças de prática social consistiria em permitir a coexistência de tempos, ritmos e espaços urbanos em uma mesma cidade. Seria o caso de restituir ao núcleo urbano antigo o seu uso, como valor de uso, e não como um objeto consumível constituinte de um valor de troca.

A orientação aqui considerada não consiste em suprimir as diferenças históricas já constituídas e instituídas, os espaços qualificados. Pelo contrário: esses espaços já complexos podem ser articulados, acentuando-se diferenças e contrastes, impulsionando na direção da qualidade que implica e sobredetermina as quantidades. (LEFÈBVRE, 2010, p. 132).