Em 2007, a Coordenação Nacional do PROJOVEM realizou reuniões de avaliação da execução do programa e considerou, a partir das informações acumuladas, que a iniciativa havia alcançado bons resultados. Nesse momento, era prioritário para as políticas de juventude:
“i) Ampliar o potencial de integração entre os programas emergenciais e destes com outro conjunto de ações consideradas mais estruturantes, vinculadas às áreas de educação, saúde, esporte e cultura; ii) aumentar a escala de atendimento dos programas emergenciais para todo o universo de jovens brasileiros considerados excluídos, considerando juventude a faixa etária compreendida entre 15 a 29 anos; iii) otimizar recursos; e iv) aumentar a eficácia” (IPEA, 2009, p. 52).
No mesmo ano, o governo propôs uma reestruturação nas ações emergenciais, levando em consideração o mapeamento das principais necessidades e desafios colocados:
A reformulação, no entanto, não implicou a extinção ou readequação das ações anteriores; estas foram abrigadas sob a rubrica de um único programa – o PROJOVEM Integrado –, com gestão compartilhada entre a SNJ e os ministérios diretamente envolvidos (IPEA, 2009, p. 36).
O PROJOVEM Integrado, como passou a ser chamado, uniu seis programas anteriores
– Agente Jovem, Saberes da Terra, Consórcio Social da Juventude, Juventude Cidadã,
Escola de Fábrica e o próprio PROJOVEM – e entrou em funcionamento no início de 2008. Era formado por quatros modalidades: o PROJOVEM Adolescente, o PROJOVEM Urbano, o PROJOVEM Campo – Saberes da Terra e o PROJOVEM Trabalhador.
Dentro da trajetória das políticas de juventude em âmbito federal, a reformulação do PROJOVEM é resultado de um reenquadramento sobre o papel do governo na promoção de políticas de inclusão para as juventudes brasileiras. Identificamos, nesse momento, o processo que Rein e Schön (1993) chamam de reframing, por meio do qual é possível analisar as alterações de trajetória de políticas ao longo do tempo. Para os autores, essas mudanças se originam quando há um reenquadramento interpretativo sobre os problemas e soluções em determinado campo das políticas públicas através, por exemplo, do acúmulo de experiências e de conhecimento sobre o assunto pelos participantes desse campo.
Encontramos, nas entrevistas e documentos, alguns dos principais elementos que determinaram a reformulação do programa: em primeiro lugar, a extensão da faixa etária do público-alvo; e em segundo lugar, a ideia de fomento a uma trajetória mais linear dos jovens beneficiários entre a escola e o mercado de trabalho, por intermédio dos incentivos presentes no novo desenho do programa, representado pela ideia da
O principal objetivo do governo, naquele momento, era “evitar a fragmentação, a
desarticulação e a falta de escala das ações para jovens no âmbito do governo federal” (CONSELHO NACIONAL DE JUVENTUDE, 2010, p. 11). Avaliação realizada pelos atores do campo, consolidadas em publicação do Conselho Nacional de Juventude, de 2010, considerou duas características dessa integração de programas essenciais para o desenvolvimento de políticas de juventude. Em primeiro lugar, estava a ampliação da faixa etária, de 18 a 24 para 15 a 29 anos, que refletia o alargamento da condição juvenil identificada, há algum tempo, por diversos estudos sobre as juventudes contemporâneas (ABRAMO, 2007; PERALVA, 2007; SPOSITO; CARRANO, 2003; NOVAES, 2007; GROPPO, 2004) e que, segundo as entrevistas, passou a fazer parte da interpretação sobre a “condição juvenil” para os formuladores do PROJOVEM. Em segundo lugar, a participação de governos estaduais na execução favoreceria o aumento da escala e a cobertura das ações, especialmente devido à capilaridade dos setores envolvidos, o que favoreceria a integração entre as modalidades por meio da metáfora da existência de uma “esteira” entre elas, que auxiliaria no alcance de trajetórias menos instáveis.
A aposta foi, então, “identificar nos outros ministérios quais eram os outros programas
de inclusão para jovens, e reuni-los sobre uma mesma lógica e uma mesma
coordenação” (Entrevista 4). Essa lógica de coordenação estaria alicerçada na “esteira”,
expressão frequentemente utilizada nos discursos sobre o PROJOVEM naquele momento:
Mas era um pouco a ideia de “esteira” que o Beto Cury usava muito na época. O PROJOVEM... Existia o Agente Jovem no MDS que era para o adolescente. Então ele virou o PROJOVEM Adolescente, com a ideia de dar uma atividade e proteção social para o adolescente ali. Quando ele sai dali
ele pode entrar no PROJOVEM (Urbano) se ele não tiver feito, ou no PROJOVEM Trabalhador que era do Ministério do Trabalho – que na
verdade juntou quatro ou cinco programas só nesse nome de PROJOVEM Trabalhador (Entrevista 4).
Em entrevista a jornalistas, o então Secretário Nacional de Juventude, Beto Cury, adicionou às necessidades de integração entre as modalidades do PROJOVEM Integrado a sua articulação com outras iniciativas do governo federal, reforçando a ideia de que o tratamento dos problemas de inclusão social da juventude brasileira deveria ser orientado por iniciativas de articulação intersetorial:
Queremos, agora, uma melhor integração entre as quatro modalidades, e com outros programas de governo. Precisamos, por exemplo, integrar o PROJOVEM Campo e o PROJOVEM Urbano com o Brasil Alfabetizado. O
jovem de até 29 anos, que se alfabetizou no Brasil Alfabetizado, deveria ser encaminhado para o PROJOVEM, e ter condição de concluir o Ensino Fundamental. Esse é o próximo desafio a ser enfrentado: aprofundar o
processo de integração entre os programas e as políticas destinadas à juventude (CURY, 2010).
De certa forma, o Projeto Juventude já havia indicado a necessidade de revisão do
“programa emergencial” – o PROJOVEM Original – após uma etapa inicial de
preparação e de entendimento de seus limites e potencialidades. Quando propôs a sua criação, ponderou que ele fosse iniciado:
(...) com escala reduzida, a partir de experiências-piloto, para então crescer de modo sustentável através de ampliações sucessivas. Sua meta será abarcar, no prazo máximo de uma década, o maior percentual possível dos jovens que estão hoje [estavam] duplamente expostos à exclusão escolar e ao desemprego (INSTITUTO CIDADANIA, 2004, p. 19).
Essa percepção é compartilhada por um dos entrevistados, que entendia que como programa emergencial e experimental, a execução do programa inevitavelmente exporia contradições e limites que exigem novas respostas do poder público:
Só vou dizer o seguinte: não é fácil porque novas contradições se explicitam. O PROJOVEM tem isso também. Ele está sempre em modificação, ele está sempre em movimento. Ele está sempre tendo que se modificar porque ele
permite que novas contradições se explicitem e quando novas contradições se explicitam você tem que dar respostas (Entrevista 16).