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Também relacionado ao debate sobre a qualidade na televisão está o termo TV Cult, usado principalmente nos Estados Unidos. Assim como todas as expressões que aparecem relacionadas ao tema, os autores que a utilizam alegam grande dificuldade em defini-la. Hills (2010) acredita, no entanto, que haja um senso do que cult não é: não é vastamente popular, não é culturalmente onipresente, não é lugar-comum ou senso comum. Para ele, há algo de peculiar ou mesmo ―underground” sobre o cult, que, por consequência, não é ―pra qualquer um‖ (2010: 67). Roberta Pearson, após concordar sobre a tarefa árdua de expor seu significado, arrisca uma definição:

Na mídia, em uso comum, e à vezes até mesmo na academia, o termo ―cult‖ é frequentemente aplicado a qualquer programa televisivo que seja considerado fora do padrão ou marginalizado, que abarque um nicho específico da audiência, que tenha apelo nostálgico, que seja considerado emblemático de alguma subcultura particular ou que seja descolado. (2010: 7)16

Essa definição traz algo de comum com as acepções de qualidade vistas no capítulo anterior, mas alguns detalhes podem diferi-las. Segundo a própria autora, o cult na TV concorda com o uso do termo no cinema, que se refere a filmes marginalizados, devido ao conteúdo forte ou ofensivo, normalmente relacionado a fortes cenas de sexo ou violência; por serem de difícil acesso, principalmente na era anterior à internet; ou por serem consagrados por um núcleo de fãs que trabalhavam para assegurar a raridade e o valor do filme. Estudiosos de cinema concluíram que os filmes cults nada mais eram do que obra de idolatria de fãs.

16 ―In the media, in common usage, and sometimes even in academia, ―cult‖ is often loosely applied to any television programme that is considered offbeat or edgy, that draws a niche audience, that has a nostalgic appeal, that is considered emblematic of a particular subculture, or that is considered hip.‖

94 Para Pearson (2010), a característica comum entre as produções consideradas cult não está nos textos, mas nos espectadores que exigem um alto nível de devoção. O filme cult provoca em seus espectadores uma atração que não é apenas fruto da busca por entretenimento, mas abarca também um envolvimento físico e emocional. Assim, para a autora, a melhor maneira de entender o cult não é por meio da produção, mas de sua audiência.

Fontes não acadêmicas concordam que o que determina um conteúdo cult é a legião de fãs. Apesar de não recomendarmos o uso da Wikipédia em pesquisas, por vezes é interessante constatar algumas definições traçadas por fontes públicas. Assim, de acordo com a enciclopédia coletiva Wikipédia:

Cult ou clássico cult é a denominação dada aos produtos da cultura popular que possuam um grupo de fãs ávidos. Geralmente, algo cult continua a ter admiradores e consumidores mesmo após não estar mais em evidência, devido à produção interrompida ou cancelada. Muitas obras e franquias, inclusive, atingem status de cult depois que suas "vidas úteis" supostamente expiraram.17

Também aqui a cultura do fã é ressaltada, mesmo fora do cenário acadêmico, para conferir à recepção a definição do termo. A longevidade cultural dessas obras é alimentada pelos fãs, que mantêm contato entre si e formam verdadeiras comunidades, responsáveis pelo não desaparecimento das produções, que se tornam raras, o que amplia ainda mais o seu status de cult.

Também tornaram-se cult aquelas produções em que o número de fãs formou um grupo com características fortes o suficiente para que se transformassem em verdadeiras comunidades. Exemplos são Star Treck ou admiradores de Mangás, cujos membros inclusive receberam popularmente os nomes de trekkers ou otakus, respectivamente. Os trekkers podem ser considerados o primeiro grupo a iniciar a cultura de fãs da TV norte-americana. Nesses casos, os adoradores são também responsáveis pela disseminação de novos produtos ou atividades culturais, como blogs, comunidades virtuais, sites ou até mesmo produtos com fins comerciais, como quadrinhos, brinquedos e acessórios. Angelini e Booy (2010) afirmam que a TV cult surgiu como uma resposta dos produtores às exigências da ―geração Y‖, ou

95 adolescentes que cresceram no ambiente multiplataforma. Hoje se caracteriza como um componente das estratégias de marketing da era transmidiática.

Umberto Eco (1985), em relação ao cinema, sugere que para um texto ser cult deve cumprir três critérios: 1) deve ser apreciado, por ao menos um pequeno grupo de fãs; 2) prover um mundo completo e mobiliado, para que os personagens e cenários possam ser citados pelos fãs como se estes o habitassem; e 3) ser composto de segmentos de história que possam ser lidos, vivenciados e recordados, independentes do todo. Interessante ressaltar que Eco escreveu esse ensaio antes da internet, com base na hipertextualidade que deu origem à transmidialidade hoje possibilitada mais facilmente pelas novas mídias.

Um quarto elemento dos filmes cults é ressaltado por Eco, não como critério a ser cumprido, mas como característica presente em filmes que já nascem com a proposta de se tornarem cult: as citações, ou menções de outros filmes embutidas na narrativa. Segundo o autor, os filmes que se propõem a uma narrativa rebuscada surgem, muitas vezes, com um nível consciente de intertextualidade que dificilmente o telespectador acompanha. A intertextualidade é bem sucedida quando a cena pode ser desfrutada e compreendida independente do conhecimento do espectador a respeito de outras obras ou diretores. Um exemplo interessante apontado por Eco (1985) ocorre no filme E.T, na cena em que o extraterrestre sai de casa para o Halloween, fantasiado, e encontra uma criança fantasiada do anão de O império contra ataca, e vai cumprimentá-la. Segundo Eco, essa cena só seria compreendida por quem tenha conhecimento de pelo menos três fatos: i) de onde vem o outro personagem; ii) a relação entre os dois diretores; e iii) que os dois monstros foram desenhados por Rambaldi e que, portanto, teriam algum grau de parentesco. Caso o espectador não conheça esses fatores, não será possível compreender o motivo da reação do E.T ao encontro. Esse grau de exigência do espectador, na visão de Eco, redefine um nicho, no qual quem assiste deve possuir competências de um verdadeiro fã de filmes cult, que não apenas os assiste, mas lê sobre os bastidores e troca experiências, criando uma cultura cult. Também as ficções televisivas, quando referidas como cult, são dotadas das mesmas características presentes no cinema cult, de onde o termo foi herdado.

96 Cinema cult e a temporalidade da produção

No cinema, alguns filmes são considerados cult por sua raridade, conteúdo filosófico ou crítica social, o que segrega o público e distancia o produto, novamente, das classes mais populares. Essas características marcam os produtos de tal forma que é possível encontrar, em locadoras, a classificação de certos filmes como ―filme cult‖ ou ―filme de arte‖. São casos de filmes antigos, de guerra ou de determinados diretores conhecidos por suas críticas, como Laranja mecânica, ou Dr. Fantástico ou Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba, nos quais Stanley Kubrik expõe uma pesada crítica social por meio do uso de fortes cenas de violência no primeiro e boas doses de humor negro no segundo. O Iluminado, do mesmo diretor, que apesar da regular classificação como ―terror‖, tornou-se um ícone para os adoradores do gênero e se espalhou por estampas de camisetas, relógios de parede e pôsteres para os amantes de cinema. Outros exemplos seriam aqueles filmes que obtiveram grande sucesso de bilheteria em sua época de lançamento, como os famosos E o vento levou, Dançando na chuva, Uma rua chamada desejo, Casablanca e Juventude transviada, para citar alguns. Diversos longas-metragens de diretores como Alfred Hitchcock, pelas histórias de suspense que encantaram o público e inovaram o gênero, ou Ingmar Bergman, pelo estilo lento da narrativa e fina construção estética dos enquadramentos e cenários. Ainda, filmes como Amarcord (Federico Fellini), O encouraçado Potemkin (Sergei Eisenstein) e Cidadão Kane (Orson Welles) tornaram-se de tamanha importância cinematográfica que não podem faltar no currículo dos cursos de cinema. Pelos exemplos acima, notamos que, na maioria das vezes, raramente uma película atual é considerada cult. Eco (1985) afirma que Casablanca não é uma obra de arte, pelo contrário, possui um alcance estético bastante modesto. Segundo o autor, a sequência das cenas não são plausíveis, os personagens são psicologicamente duvidáveis e o atores interpretam de modo ‗maneirístico‘. Contudo, o filme é ao mesmo tempo ―um ótimo exemplo de discurso cinematográfico, um palimpsesto para os futuros estudantes da religiosidade do século vinte, um sumo laboratório para pesquisa semiótica em estratégias textuais. Ademais, se tornou um filme cult.‖ (ECO, 1985: 3)

No cinema, é comum que o caráter de cult demande um tempo de maturação da obra para que seja conquistado. Essa não é uma regra, tampouco quer dizer que não existam filmes produzidos com a intenção de se tornarem cult, mas também não é coincidência que a maioria dos filmes cult sejam antigos, pois muitos são assim considerados, entre outros fatores, pelo

97 sucesso de público e de reações da audiência no contexto de exibição, como no caso dos exemplos citados. Esses filmes acabaram por conquistar seu lugar na história do cinema e são, muitas vezes, atemporais; isto é, conseguem emitir sua mensagem narrativa ou estética em qualquer época. Nesse sentido, a respeito da temporalidade da obra, no caso da ficção televisiva existe um fator simples que prejudica a condição de cult para as telenovelas: a sua unicidade de transmissão, ligada à não repetição ou disponibilização dos capítulos para que sejam revistos. A primeira telenovela a disponibilizar as cenas dos capítulos para o público foi Passione (Globo, 2010), ainda recente para se tornar um símbolo cult. As produções mais antigas foram, no máximo, reprisadas no Vale a pena ver de novo, o que pode lhes conferir um leve traço desse caráter, mas logo após desaparecem, o que dificulta o contato dos fãs com a obra. Em 2010, dois fatores trouxeram mudanças para este cenário: o início da comercialização de telenovelas em DVD, com Roque Santeiro (1985), e a estreia do canal Viva, da Globo, com reprises das ficções de maior sucesso, e que trouxe ficções como Vale tudo (Globo, 1988) de volta ao cenário de debates.

Logicamente, não é apenas o fato de terem sido disponibilizadas novamente ao público que tornou as telenovelas ícones da ficção. Roque Santeiro, de Dias Gomes, traz o histórico de ter sido censurada em 1975, em meio à ditadura militar. Antes disso, a história foi uma peça teatral, que foi igualmente censurada, o que concede à ficção um aspecto artístico. A censura, por si só, é um fator que incita a curiosidade e traz algo de ―sagrado‖, pois subentende a existência de uma crítica ou de algo ―proibido‖. Para tornar a história ainda mais interessante, o aviso de censura chegou à Globo no dia da estreia da telenovela, o que causou um alvoroço na emissora, que optou por levar ao ar a reprise de Selva de Pedra, de Janete Clair. Apenas dez anos depois, em 1985, no governo Sarney, a telenovela conseguiu ir ao ar. Para completar, apresentou uma narrativa leve e divertida, com personagens que ficaram marcados para sempre na memória do público, como o peculiar Sinhozinho Malta, a espalhafatosa viúva Porcina e a misteriosa Perpétua. Esse conjunto de fatores contribuiu para que a telenovela ganhasse a atribuição de cult e fosse escolhida como a primeira a ser editada e comercializada em DVD, escolha justificada pelo enorme sucesso.

Outro exemplo de telenovela que começou a ser tratada como cult foi Vale tudo, escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères e dirigida por Dênis Carvalho e Ricardo Waddington. A trama fazia uma crítica à política e uma provocação aos brasileiros,

98 questionando até que ponto valia a pena ser honesto no Brasil. Contou com atores que se tornariam grandes nomes da teledramaturgia brasileira e apresentou personagens fortes, que também jamais seriam esquecidos. Além da crítica social, uma dos traços mais marcantes da trama foi o mistério ―Quem matou Odete Roitman?‖, vilã interpretada por Beatriz Segall. A cena do assassinato foi comentada durante anos e foi um dos primeiros mistérios apresentados em uma ficção, origem do suspense na telenovela. Apesar de ter sido reapresentada na sessão Vale a pena ver de novo, a produção se manteve durante muitos anos como recordação dos telespectadores. Com sua reexibição em 2010 no canal pago Viva, a audiência voltou a se interessar pela ficção, que dessa vez foi vista por jovens que não assistiram à primeira exibição, mas sempre ouviram falar do assassinato de Odete Roitman. É interessante notar que a reapresentação de telenovelas que se tornaram verdadeiros ícones enseja uma releitura de narrativas produzidas em outro momento vivido pelo País, evidenciando mudanças e permanências de valores, costumes e pensamento da população. Dada a afinidade desse público mais jovem com as mídias digitais, a telenovela se tornou um fenômeno das redes sociais, com um imenso número de comentários que criaram uma arena de debates em torno da ficção. Com isso, Vale tudo não demorou a ganhar um valor cult.

Mas os elementos que estabelecem o valor cult de uma ficção televisiva são diferentes daqueles do cinema. Se os filmes, em grande parte, ganham seu status com o passar do tempo, na televisão alguns programas fogem ao padrão da temporalidade, considerados cult mesmo enquanto são veiculados, geralmente quando o programa apresenta uma estética bastante diversificada, conteúdo original ou inovações de algum tipo. É o caso de Alias, da ABC, série detetivesca com teor de ficção científica criada por J.J. Abrams, que tempos depois criaria Lost. Segundo Pearson (2010), Alias conseguia sobreviver mesmo com baixa audiência, pelos lucros que obteve com a venda de DVDs e produtos licenciados. A cross-medialidade e transmidialidade do programa contribuíram para que fosse por muito críticos chamado de cult.

Não é necessária análise profunda para perceber que os temas das séries americanas, de grande sucesso ou não, repetem-se constantemente. Sempre há, no entanto, o perigo de se acompanhar alguma tendência nas narrativas televisivas, a fim de alcançar a mesma qualidade ou sucesso de público. Há divergências de opinião sobre Lost ser ou não considerado cult, mas o que pode ser dito é que a série surgiu após outras tentativas bem sucedidas de séries de ficção científica, como Buffy – a caça vampiros e Arquivo-x. Essa última tornou-se cult após

99 estrondoso sucesso de público em uma época anterior à internet, conseguindo unir uma imensa legião de fãs. Durante e após o sucesso inquestionável de Lost, a tendência se segue com séries como Supernatural ou Heroes, além de diversas outras ficções que surgiram da combinação de elementos de ficção científica, narrativa fantástica ou sobrenatural. Ao mesmo tempo, o cinema deflagra a saga Crepúsculo, com os vampiros mais bem sucedidos dos últimos tempos. Nesse cenário, muitas outras tentativas de séries vampirescas ou de super herois com poderes sobrenaturais incorrem em fracasso e por vezes não duram mais que uma ou duas temporadas, pois caem no erro de tentarem seguir um sucesso inicial, quando os fãs tendem a uma espécie de fidelidade com a série, e muitas vezes fecham-se para o que pode parecer uma simples imitação. Pearson reflete que ―talvez os programas cult circulem pela grade televisiva dependendo do sucesso da sua encarnação atual‖ (2010: 13). Assim, o cult representaria um fenômeno cíclico.

No Brasil, algumas ficções conseguem o mérito de já se admitirem cult enquanto são veiculadas. É o caso das minisséries dirigidas por Luiz Fernando Carvalho, como Hoje é dia de Maria e Capitu, ambas do Projeto Quadrante; e Afinal, o que querem as mulheres?. Conforme já mencionado, a característica brasileira de ficções de autor influencia a visão do público e dos críticos sobre certos programas. Luiz Fernando Carvalho imprime um estilo peculiar a suas séries, marcadas por cenários e estética teatrais, movimentos de câmera e jogos de luz diferentes dos apresentados nas telenovelas. Os diálogos são comumente bem detalhados e trabalhados com riqueza de linguagem, em tratamento de temas com maior teor intelectualizado do que as tradicionais ficções. Capitu, adaptação do clássico livro Dom Casmurro, pelo próprio tema literário e pelas atuações bastante teatrais já se delineia como produção voltada para o que há alguns anos seria chamado de ―alta cultura‖. Da mesma forma, a minissérie Afinal, o que querem as mulheres? trouxe acabamento estético diferenciado, com mudanças súbitas de enquadramento e cenários e figurino com cores extravagantes. As cenas eram construídas de forma a remeter à ambiência psicodélica e atemporal das incontornáveis questões existenciais, além de tramas intercaladas e sobrepostas, como se estivessem passando no interior da mente do protagonista. A abordagem diferenciada dessas séries faz com que estes programas sejam considerados cult enquanto estão sendo exibidos, pois independentemente da época ou de sua raridade, eles já carregam em si elementos de exotismo e inovação que lhes confere esse caráter.

100 Ao mesmo tempo, muitos podem dizer que estes mesmo elementos atribuem qualidade ao programa. No entanto, se pensarmos na proposta desta pesquisa, na qual a qualidade estaria ligada também ao gosto do público, à popularização da arte e à abertura à participação e ao debate público, essas produções mantêm seu caráter cult, mas a qualidade pode ser questionada. Justamente pela abordagem de cunho ligeiramente non-sense e pelo desejo de se aproximar de uma ideia de arte na televisão, essas ficções voltam-se para uma elite intelectual que possui algum conhecimento do assunto tratado ou exigem um nível de abstração do completo entendimento em prol da fruição estética. Com isso, tornam-se de difícil compreensão, com prejuízo da função de comunicação e entretenimento e conseqüente afastamento do gosto popular.