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Ao se referir ao Plano do Conteúdo, Borges (2008) menciona como um dos indicadores de qualidade, na televisão pública, seu caráter de democratização do acesso à arte e promoção de ideias e debates. Essa característica é também tratada na quinta acepção de Mulgan (1990), que ressalta a importância da comoção social, mobilização e participação pública proporcionadas por um programa de TV, o que confirma sua função de construção de fórum democrático que proporciona reflexão e debate.

Esse critério contribui para a avaliação dos programas televisivos no Brasil e, no caso da ficção, com grande destaque para a telenovela, é responsável por originar ou estimular debates sobre os mais variados assuntos de interesse público. Além da democratização e estímulo ao debate, a telenovela traz ainda outro aspecto da participação pública ao permitir que o público influencie o andamento da trama, por meio de pesquisas de opinião realizadas durante sua exibição.

Para Mulgan, ―os valores e as qualidades da televisão dependem de como nós valorizamos as várias comunidades das quais somos membros, e depende do papel que ela desempenha ao sedimentá-los (1990:22). Se uma determinada comunidade possui um conjunto de ideias afins sobre ―qualidade‖ é porque as diferentes concepções das pessoas manifestam maturidade e

79 visão crítica para refletir sobre os valores sedimentados pela televisão. Os valores assimilados atuam no cotidiano do cidadão ativo, consciente da vida política e social da comunidade. Tratar-se-ia, então, de uma televisão considerada ―patrimônio público da informação‖, que esclarece sobre o andamento do trabalho na sociedade e que se organiza em um circuito social que oferece informação, capacitação e debate participativo para os telespectadores conduzirem seu próprio destino.

A participação civil estabelece, então, um circuito político social no qual se instala o fórum democrático para o exercício da esfera pública, exibe-se a diversidade cultural do país, além de incitar os telespectadores a se mobilizarem e se organizarem em movimentos sociais e ações coletivas.

A autonomia do telespectador

Mulgan supõe que, em princípio, os telespectadores procuram a televisão com gostos e preferências totalmente formados. Para Medeiros (2008) essa suposição não constata uma autodeterminação do telespectador, de uma escolha autêntica e espontânea, mas sim de um ―condicionamento social dos consumidores instrumentalizado pelas técnicas de manipulação comunicacional, apoiadas pelo suporte tecnológico capaz de controlar o consumo pelo condicionamento‖ (MEDEIROS, 2008: 31), o que reduz a suposta autonomia do telespectador.

O telespectador é autônomo à medida que consegue satisfazer suas preferências iniciais e retirar da televisão ou de outros meios as informações com as quais se identifica. Porém, esse poder de escolha não é tão livre quanto parece. A diversidade da programação é pensada para constituir uma grade de consumo desejável e prazerosa, conforme o manejo do capital, em busca da lucratividade. Os conteúdos aos quais temos acesso na televisão e nos meios nos são dados, nossa seleção perambula pelos canais aos quais temos acesso. Os meios nos apresentam uma ampla série de opções para que escolhamos qual nos interessa, mas esse conteúdo será editado à maneira dos meios, e não à nossa. ―São essas mediações – instituições e pessoas – que selecionam o que vamos ouvir, ver ou ler; que fazem a montagem do mundo que conhecemos‖ (BACCEGA, 2002:79).

Em contrapartida, Wolton (1996) acredita que o espectador se desloca pela grade de maneira surpreendente. O limite de ofertas da grade de programação predetermina boa parte da

80 demanda, mas trata-se de uma estratégia que não dá nenhuma garantia em relação aos resultados. Pode-se saber quantos espectadores assistiram a determinado programa, mas é muito difícil saber por que assistiram. Justamente por esta incógnita sobre os motivos que levam os espectadores a optar por determinado conteúdo, pode-se considerar que a razão maior seja subjetiva, movida por interesses e gostos.

Forma-se então um processo cíclico, no qual o gosto é influenciado pela inclusão do sujeito em uma comunidade da qual se sinta membro e, ao mesmo tempo, o pertencimento a um grupo influencia o seugosto. E se o pertencimento ao grupo molda os gostos e costumes com certos pontos comuns, pode levá-lo a escolhas semelhantes na grade de programação da TV. Assim, o conjunto dos indivíduos que dedicam seus olhares à mesma produção forma uma comunidade imaginada (ANDERSON, 1983), pois compartilham de um interesse ou gosto comuns, de um senso comum, no sentido kantiano. A expressão comunidade imaginada, cunhada por Anderson para descrever a emergência dos Estados Nacionais na Europa do século XIX, associa a consolidação do sentimento de pertencimento a uma comunidade imaginária ao surgimento da imprensa escrita e das línguas nacionais. A audiência forma, portanto, uma comunidade com conceitos e premissas que controlam o aceitamento do conteúdo televisivo que deve, por sua vez, encaixar-se nesses valores. Nas palavras de Machado e Becker:

Um meio poderoso e penetrante como a televisão, ao tomar contato com uma sociedade diferenciada, só pode ser aceito pela ordem social na medida em que ajustar seus conteúdos ideológicos a predisposições sociais, isto é, a determinados sentimentos, costumes e tendências já existentes socialmente. (MACHADO E BECKER, 2008:45)

A telenovela talvez seja o melhor exemplo de inserção no universo cotidiano dos telespectadores, o que demonstra êxito de penetração no ambiente doméstico com aprovação das exigências sociais de seu vasto público. Tornaram-se então um exemplo sem precedentes de como um sistema de mídia televisual pode ser responsável pela emergência de um espaço público peculiar que se apresenta como uma alternativa para realização pessoal, inclusão social e poder, ou seja, uma nova forma de cidadania. A telenovela foi capaz de se infiltrar no espaço público brasileiro a ponto de atualizar e questionar a identidade nacional em um período de profundas e aceleradas transformações.

81 A força e a repercussão da novela mobilizam cotidianamente uma verdadeira rede de comunicação, através da qual se dá a circulação dos seus sentidos e provoca a discussão e a polêmica nacional. Através desse fórum de debates complexo e diversificado, as pessoas sintetizam experiências públicas e privadas, expressam divergências e convergências de opinião sobre ações de personagens e desdobramentos de histórias. A demonstração de envolvimento dos indivíduos com a trama ficcional e com as polêmicas abordadas é constante, o que os torna ativos em diversas esferas, derivadas por vezes de uma confusão entre ficção e realidade.

Houve grandes exemplos de manifestações impulsionadas pelas telenovelas. Um deles foi a passeata a favor da denúncia de violência contra as mulheres que ocorreu durante a exibição de Mulheres apaixonadas e contou inclusive com a participação de atores do elenco. A telenovela ficou associada ao tema por possuir na trama um homem que batia em sua esposa com uma raquete de tênis. Na mesma novela, os maus tratos sofridos pelos avós de uma personagem apressou a aprovação da lei do idoso no congresso, devido à pressão do público sobre o assunto.11

Para que a telenovela adquira essa inserção quase familiar no cotidiano dos espectadores, diversas estratégias foram construídas para que se tenha segurança do bom recebimento do público. Para isso, baseia-se a narrativa nos moldes do repertório comum de seus receptores. Os produtores utilizam o próprio público como fonte de informações de seus gostos e preferências, o que caracteriza um tipo de participação pública na construção da narrativa da telenovela, com base em pesquisas públicas para a criação e desenvolvimento do roteiro. As relações do público com as novelas são mediadas por uma variedade de instituições, pesquisas de audiência, relações pessoais, contatos diretos com autores, além da imprensa e da mídia especializada. Outra forma de abertura à opinião do público é propiciada pela produção das ficções nos sites oficiais das telenovelas. Os sites das telenovelas do SBT, como Amor e revolução, apresentam um blog com vídeos que permitem comentários do público, com possibilidade de resposta a outros comentários. Desse modo os usuários do blog podem deixar suas manifestações e comunicar-se entre si. Os comentários são abertos à visualização

11A contribuição de Mulheres apaixonadas é mencionada no próprio Estatuto do Idoso. Lei 10.741, de 1o de Outubro

82 de todos, inclusive dos que não querem comentar ou se cadastrar. Os sites da Globo não permitem comentários, mas elaboram enquetes para que o público manifeste suas preferências em relação à trama. Outras enquetes eram apresentadas nos portais de jornais ou revistas e buscavam a participação do público sobre as narrativas. A seguir um exemplo de enquete proposta pelo site da Folha de São Paulo sobre Passione, no dia 12 de janeiro, quando faltavam três capítulos para o final da trama:

"Passione"

Qual deveria ser o destino da personagem Clara, vivida por Mariana Ximenes na novela?

Prisão perpétua Ser assassinada

Viver ao lado de Fred e da avó Casar com um milionário

Não é comprovada a informação sobre o aproveitamento ou não das respostas às enquetes nos jornais, mas certamente ajudam a avaliar a relação do público com a trama. Já as enquetes dos sites oficiais da produção das telenovelas funcionam como parâmetro para a avaliação da opinião do público. Por sabermos que as tramas da Globo são construídas conforme a audiência, podemos deduzir que as enquetes têm na narrativa umaparticipação maior do que a simples interatividade como entretenimento.

O maior exemplo da influência do público na trama é demonstrado pela convenção de a novela ir ao ar com apenas os capítulos iniciais escritos e gravados (cerca de 30), para que o resto da trama seja construída em coerência com as preferências dos telespectadores. Os autores declaram expressamente à imprensa que procuram pessoas na rua para saber as suas opiniões sobre o que escrevem para assim ter ideias sobre o desenvolvimento dos personagens. A produção também incorpora os indicadores fornecidos pela realização permanente de grupos de discussão realizados pelo setor de pesquisa da Globo.

Nesse sentido, e porque vão ao ar enquanto estão sendo escritas, as novelas foram definidas como obras abertas (Eco, 1988). Elas são capazes de colocar em sintonia os telespectadores com a interpretação e a reinterpretação dos temas tratados. O público se manifesta no decorrer

83 da trama para, ao fim, emitir seu julgamento sobre diversos finais dessas tramas. Critica-se ou aplaude-se a produção pela condução da obra.

Mas não só nas rodas de bar a telenovela é comentada com louvor ou repulsa. Vimos que atualmente o julgamento dos telespectadores é aceito em premiações por voto do público, o que cede espaço na mídia para a opinião popular. Assim, o próprio objeto desta pesquisa pode ser considerado uma forma de mobilização social, que vem à tona após os debates contínuos durante a evolução da trama: a crítica e a avaliação dos programas pelo público, após sua transmissão.

Conforme será desenvolvido mais adiante, hoje se aceita que o público possui olhar e voz críticos, ao contrário da ultrapassada ideia de um receptor passivo. Bourdieu (2008) aponta que os indivíduos das classes populares manifestam seus julgamentos, seja por meio de críticas ou elogios, com um sistema de normas. Wolton (1996) distingue o discurso crítico dos políticos e dos intelectuais do discurso do público, alegando ser, este último, crítico porque existe sempre uma defasagem entre as expectativas e aquilo que a televisão realmente fornece. Ao comentarem aquilo a que assistiram, os espectadores emitem juízos sobre a televisão. Para o pesquisador, a televisão, assim como o poder político, estará sempre sujeita ao julgamento crítico do público.

Para Vattimo (1992), esse é o efeito mais evidente dos meios de comunicação de massa. O autor acredita que uma sociedade livre é aquela em que o homem pode se tornar consciente de si numa ―esfera pública‖, a da opinião pública, da livre discussão, etc, não ofuscada por dogmas, exclusões e preconceitos. Não teria sentido negar a ―realidade unitária do mundo‖, mas sim reconhecer que o que chamamos de ―realidade do mundo‖ se constitui como ―contexto‖ das múltiplas fabulações, e tematizar o mundo nesses termos é o dever e o significado das ciências humanas (1992:32).

Assim, se a qualidade de uma produção pode ser mensurada pela participação pública e pela mobilização social, a telenovela, produto cultural muitas vezes ainda desprezado nas classes mais intelectualizadas, pode ter sua qualidade associada à sua abertura da narrativa, submetida ao público, e por criar uma nação imaginada unida por um senso comum e por seu potencial de instigar o debate e a crítica popular.

84 A telenovela no Brasil possui a capacidade de se inserir na vida do cidadão, que chega por vezes a confundir a verossimilhança da telenovela com a realidade cotidiana. Além disso, ela cria um debate público em meio à comunidade sobre as polêmicas tratadas na trama e se apropria dos juízos comuns para dar continuidade à história, para, do mesmo modo, se inserir e captar a atenção do público. A relação do roteiro com o indivíduo constitui uma vida cíclica, na qual o próprio telespectador se torna responsável pela consolidação da telenovela em seus hábitos diários. Ainda, a análise desta construção como obra aberta leva o público a se sentir participante do processo de construção da narrativa, e lhe permite adquirir voz crítica para avaliá-lo