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HABER GAZETESİ 17 AĞUSTOS 1974

No choque com a realidade da escola pública, quando ainda estagiária, P5

percebe as múltiplas responsabilidades que a docência exige. O contexto social das

escolas, além do baixo salário, parece que foi determinante para ela pensar em

outra profissão. Nesse sentido, fazer outro vestibular ou investir em outra carreira é

o caminho que ela pretende trilhar para buscar sua realização profissional, que

parece não estar definida. No seu caso, o fato de concluir o curso ainda jovem (22

anos) possibilita buscar outras oportunidades, visto que não se sente realizada com

essa primeira escolha.

Outra estagiária, P7, também percebe o professor como um profissional com

muita responsabilidade. Contudo, parece tomar a profissão como um desafio,

afirmando que gosta de criança e que pretende assumir a docência, bem como

destacando a importância do estágio para conhecer a realidade escolar.

(P7) –“Deu pra ter uma noção de como é dar aula pra criança dessa idade, como é as crianças de hoje, como se comportam, principalmente, porque vê-las em casa no dia a dia é uma coisa, na escola parece que é diferente. Foi suficiente pra saber, assim, se é o que você quer, se é o que você gosta”.

Com base no fragmento observamos que a prática confirma a intenção de P7

de trabalhar na educação infantil. Apesar de informar que sua família “conta com

vários pedagogos”, relata que esse fator não influenciou na escolha do curso,

podendo-se pensar que, no contato constante com o repertório de saberes da área,

tenha iniciado um processo que colaborou para sua identidade profissional, a qual

parece estar consolidada

.

Nos relatos, a visão do professor como um herói (porque a profissão se

apresenta com muitas responsabilidades), revelada por P5, pode estar atrelada ao

que já foi mencionado no início deste trabalho, a saber: o ensino é uma atividade

complexa. Como observado, atualmente, ao professor são atribuídas outras

responsabilidades que antes cabiam aos pais. No seu início, a escola se restringia

basicamente a sistematizar e transmitir conteúdos culturalmente acumulados,

cabendo ao aluno aprender. A atividade do professor não era questionada.

Atualmente, outras necessidades se impõem, fruto das mudanças estruturais na

sociedade, exigindo dos professores outras ações, o que acentua a importância do

seu papel em relação à qualidade do ensino. Essa realidade cria uma imagem de

“como deveriam ser os professores nas suas múltiplas facetas” (SACRISTÁN, 1999,

p. 64).

Quanto a essa questão, deve-se analisar que nas suas responsabilidades

como profissional, sendo considerado um herói, o professor não está sozinho, uma

vez que a prática pedagógica, como sinaliza Popkewtiz (1986 apud SACRISTÁN,

1999), ocorre na interação entre três contextos diferentes, quais sejam: o contexto

pedagógico, que se refere às práticas na sala de aula e diz respeito ao professor; o

contexto profissional dos professores, que corresponde ao subgrupo de profissionais

que elaboram um modelo de comportamento profissional, produzindo um saber

técnico que legitima a prática profissional; e o contexto sociocultural, que

proporciona ao professorado os valores e conteúdos considerados importantes.

No que se refere ao contexto pedagógico, entende-se que a sala de aula é

um lugar privilegiado não só para o professor ensinar, mas também para aprender,

pois, no processo de socialização profissional, as influências informais “são mais

decisivas do que as formais, mais eficazes do que os cursos de formação”

(SACRISTÁN, 1999, p. 70). Contudo, para além da sala de aula, sabe-se que o

trabalho do professor é condicionado pelo sistema educativo, com suas leis e

normas, bem como pelas regras de organização da própria escola. Nessa direção, o

professor não atua sozinho, tendo em vista que a cultura profissional deve ser

entendida como um jogo de influências educativas. Tratando-se de uma profissão

que é socialmente partilhada, essa realidade explica sua dimensão conflituosa em

uma sociedade complexa, na qual coexistem significados que divergem entre grupos

sociais, econômicos e culturais. Sendo assim, concordamos com o autor quando

afirma que para uma “mudança educativa deve assumir-se, em primeiro lugar, como

uma mudança cultural.” (SACRISTÁN, 1999, p. 71).

De acordo com Esteve (1999), as profundas transformações ocorridas no

sistema educativo nos últimos anos resultam da passagem de um sistema de ensino

reservado às elites para um sistema de ensino destinado a todos, ou seja, à massa.

Esse contexto implica que, ao ensinar hoje aos cem por cento das crianças, os

professores se deparam com todos os problemas que elas trazem para a sala de

aula, perdendo, desse modo, a referência do que antes era mais homogêneo. Diante

de tais mudanças, os professores não souberam redefinir o seu papel, não havendo

como voltar à escola que dominavam e conheciam. Diante disso, quando comparam

essa escola à que trabalham atualmente, o sentimento de desencanto gera recusa

às novas políticas educativas.

Entretanto, como lembra Silva (2009, p. 48), a partir das contribuições de

Melucci (2004), “somos todos herdeiros e fruto de um contexto que exige mudanças

e para tanto é imprescindível exercermos as atividades com autonomia, mesmo que

relativa, apoiada na capacidade de reflexão”. Para Esteve (1999), essas mudanças

trazem surpresas, tensões, incertezas e novos conhecimentos, que podem levar o

professor a não desempenhar o seu trabalho de modo satisfatório, pois, sem

analisar essas mudanças, esses profissionais sofrem críticas e são considerados

responsáveis pelas falhas do sistema de ensino. Nesse caso, independentemente

de quem provocou tais mudanças, o problema está em responsabilizar os

professores em encontrar saída pelo que acontece na sala de aula, o que gera o

conhecido mal-estar docente

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.

Com base nas reflexões de Esteve (1999), concordamos quando ele afirmar

que, como qualquer ser humano, diante de mudanças, esses profissionais enfrentam

uma crise de identidade, cada um a seu modo. Há os que aceitam as mudanças,

vistas como necessidade inevitável, e reconhecem que devem transformar a atitude

em sala de aula, pois acreditam que as reformas educativas consistem em uma

tentativa de encontrar respostas para novas situações. Já outros se sentem

incapazes e têm atitude de inibição. Esses não se opõem abertamente, mas

continuam a fazer o que sempre fizeram, enquanto que os outros ainda

experimentam sentimentos contraditórios, quando não conseguem esquemas para

sua atuação frente ao real da sala de aula e aos ideais do sistema de ensino.

3.3.4 Ser professor não é somente transmitir conteúdos, mas também considerar se