A importância do planejamento foi um fator percebido pelos estagiários como
indispensável ao processo de ensino e está relacionada a uma boa organização da
aula, refletindo também os vários saberes que estão “por trás” da prática profissional
docente. O graduando, enquanto não desenvolve a prática de ensino no estágio,
parece que não se dá conta dessa realidade. Nesse sentido, concordamos com
Pimenta (2012, p. 29) quando afirma que é no confronto com a prática que o
professor constrói e reelabora os conhecimentos necessários ao ensino, o que foi
indicado na fala dessa estagiária:
(P9) – “O professor só ali dando aquela aula, mas eu não tinha tanta noção de como era por trás. Que pra ele chegar ali na frente é porque ele fez os seus planejamentos, teve todo um histórico. P: Isso não aparece?. E – É. Parece que não aparece”.
A respeito do que se passa por “detrás da cena”, Lüdke (2013), com base em
Labaree (2004), em uma recente pesquisa intitulada
“O lugar do estágio na
formação de professores”, analisa que estão enganados aqueles que pensam a
atividade do professor do ensino fundamental como algo fácil, tendo em vista que
todos os alunos das licenciaturas passaram pela escola básica,
o que apreenderam do trabalho dos seus professores foi o que viram, sentiram e aproveitaram para sua própria aprendizagem, mas não o que se passou atrás da cena, na reflexão do professor, na escolha dos materiais, na preparação dos programas, das aulas, das provas, do acompanhamento de cada aluno, na discussão e planejamento do currículo. (LÜDKE, 2013, p. 119).
De fato, o trabalho do professor não se limita à sua atuação em sala de aula
com o aluno, uma vez que a prática de ensino inclui uma dimensão colaborativa com
colegas, direção da escola, pais dos alunos e até mesmo órgãos externos, como,
por exemplo, o conselho tutelar, quando necessário.
Sacristán (1999) aprofunda essa questão ao ampliar o conceito de prática
docente e observa que o trabalho do professor não se circunscreve a uma prática
visível. Para além da sala de aula, a prática é condicionada pelo sistema de ensino e
pela organização escolar. Desse modo, embora os professores sejam responsáveis
pela ação educativa, esta não depende unicamente deles, pois são regidos por
normas organizacionais. Por essa razão, não se pode esquecer os vários contextos
que interferem na sua prática, o que não significa ter uma postura adaptativa, “mas
pode também assumir uma perspectiva crítica, estimulando o pensamento e a sua
capacidade para adotar estratégias inteligentes [de planejamento] para intervir no
contexto” (SACRISTÁN, 1999, p. 74, acréscimo nosso).
É inegável a importância do planejamento na atividade profissional docente,
conforme estudado na disciplina Didática, a qual é considerada pelos estagiários
como uma das disciplinas fundamentais para subsidiar a prática de ensino no
estágio. Contudo, destaca-se que essa disciplina, por si só, não é suficiente, uma
vez que a atuação dos professores que a ministram faz a diferença.
(P9) –“Didática foi a disciplina que mais contribuiu porque antes da gente chegar no estágio a gente fez bastante planos de aula, como se a gente fosse executar. É tanto que quando a gente realizava os planos de aula na disciplina de Didática a gente apresentava como se estivéssemos ali dando aula, entendeu? Mas por mais que eu visse isso em Didática, quando eu fui pra sala de aula foi que eu confirmei o qu’eu acha/considerava importante”.
(P7) –“Didática é uma disciplina muito importante, mas eu diria que a maneira como ela foi ministrada, [...] não foi tão boa não”.
Não vamos nos deter aqui na evolução do ensino da Didática, mas apontar a
que ela se destina. Enquanto uma alternativa no processo de formação de
professores, as pesquisas já descrevem e delimitam o que ela “deverá servir para
habilitar o futuro professor quanto aos modos de proceder na situação de ensino”
(CATANI, 2001, p. 55). Então, a organização do ensino é uma ação do professor
que permite uma melhor aprendizagem dos alunos, sendo, portanto, uma atividade
fundamental.
A importância do planejamento no processo educativo é observada em
algumas pesquisas como sendo responsável pela aprendizagem do aluno e até
mesmo pela disciplina em sala de aula. Contudo, não se pode atribuir tais fatores
(aprendizagem e disciplina) exclusivamente ao planejamento ou à atuação do
professor, visto que atualmente o contexto social do qual a escola faz parte, tem
trazido para a sala de aula alunos que desafiam a competência e a dedicação do
professor. No entanto, não se pode negar que,
“quando a aula está melhor
estruturada, as questões de disciplina são amenizadas” (CHAMLIAN, 2001, p. 87).
Como observado, o planejamento faz parte da atividade docente e os
conhecimentos da disciplina de Didática em muito colaboram para a prática de
ensino, revelando o quanto a teoria, nessa disciplina, está associada à prática.
Nesse sentido, pode-se pensar que a ação do professor é estruturada, segundo
Tardif (2012), em função de dois condicionantes: a transmissão da matéria (que
inclui os conteúdos, os objetivos a serem alcançados, a aprendizagem dos alunos, a
avaliação etc.) e a gestão da classe, incluindo a interação com os alunos
(preservação da disciplina, motivação da turma etc.), o que, para o autor, é o cerne
do trabalho docente, pois o grande desafio do professor é fazer esses dois
condicionantes convergirem.
Para a convergência desses elementos, o trabalho do professor, de certo
modo, já se encontra estruturado, visto que no planejamento das disciplinas os
objetivos a serem alcançados estão determinados e, no que se refere à gestão da
classe, a escola também tem suas regras de funcionamento. Contudo, a grande
tarefa do professor é refletir e planejar sobre o que depende dele para que o aluno
avance no processo de aprendizagem. Desse modo, ter consciência da necessidade
de o aluno dominar os conhecimentos é fundamental a todo professor, em qualquer
nível de ensino.
Pode-se pensar no quanto o trabalho “por detrás da cena” é conflituoso, de
modo a conciliar os projetos pretendidos pelo professor e a motivação dos alunos
para aprender, o que não significa manter os alunos disciplinados. A esse respeito,
Tardif (2012, p. 221) destaca:
A fim de aprender, os alunos devem tornar-se, de uma maneira ou de outra, os atores de sua própria aprendizagem, pois ninguém pode aprender em lugar deles. Transformar os alunos em atores, isto é, em parceiros da interação pedagógica, parece-nos ser tarefa em torno da qual se articulam e ganham sentido todos os saberes do professor.