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HABER GAZETESİ 16 AĞUSTOS 1974

A importância do planejamento foi um fator percebido pelos estagiários como

indispensável ao processo de ensino e está relacionada a uma boa organização da

aula, refletindo também os vários saberes que estão “por trás” da prática profissional

docente. O graduando, enquanto não desenvolve a prática de ensino no estágio,

parece que não se dá conta dessa realidade. Nesse sentido, concordamos com

Pimenta (2012, p. 29) quando afirma que é no confronto com a prática que o

professor constrói e reelabora os conhecimentos necessários ao ensino, o que foi

indicado na fala dessa estagiária:

(P9) – “O professor só ali dando aquela aula, mas eu não tinha tanta noção de como era por trás. Que pra ele chegar ali na frente é porque ele fez os seus planejamentos, teve todo um histórico. P: Isso não aparece?. E – É. Parece que não aparece”.

A respeito do que se passa por “detrás da cena”, Lüdke (2013), com base em

Labaree (2004), em uma recente pesquisa intitulada

“O lugar do estágio na

formação de professores”, analisa que estão enganados aqueles que pensam a

atividade do professor do ensino fundamental como algo fácil, tendo em vista que

todos os alunos das licenciaturas passaram pela escola básica,

o que apreenderam do trabalho dos seus professores foi o que viram, sentiram e aproveitaram para sua própria aprendizagem, mas não o que se passou atrás da cena, na reflexão do professor, na escolha dos materiais, na preparação dos programas, das aulas, das provas, do acompanhamento de cada aluno, na discussão e planejamento do currículo. (LÜDKE, 2013, p. 119).

De fato, o trabalho do professor não se limita à sua atuação em sala de aula

com o aluno, uma vez que a prática de ensino inclui uma dimensão colaborativa com

colegas, direção da escola, pais dos alunos e até mesmo órgãos externos, como,

por exemplo, o conselho tutelar, quando necessário.

Sacristán (1999) aprofunda essa questão ao ampliar o conceito de prática

docente e observa que o trabalho do professor não se circunscreve a uma prática

visível. Para além da sala de aula, a prática é condicionada pelo sistema de ensino e

pela organização escolar. Desse modo, embora os professores sejam responsáveis

pela ação educativa, esta não depende unicamente deles, pois são regidos por

normas organizacionais. Por essa razão, não se pode esquecer os vários contextos

que interferem na sua prática, o que não significa ter uma postura adaptativa, “mas

pode também assumir uma perspectiva crítica, estimulando o pensamento e a sua

capacidade para adotar estratégias inteligentes [de planejamento] para intervir no

contexto” (SACRISTÁN, 1999, p. 74, acréscimo nosso).

É inegável a importância do planejamento na atividade profissional docente,

conforme estudado na disciplina Didática, a qual é considerada pelos estagiários

como uma das disciplinas fundamentais para subsidiar a prática de ensino no

estágio. Contudo, destaca-se que essa disciplina, por si só, não é suficiente, uma

vez que a atuação dos professores que a ministram faz a diferença.

(P9) –“Didática foi a disciplina que mais contribuiu porque antes da gente chegar no estágio a gente fez bastante planos de aula, como se a gente fosse executar. É tanto que quando a gente realizava os planos de aula na disciplina de Didática a gente apresentava como se estivéssemos ali dando aula, entendeu? Mas por mais que eu visse isso em Didática, quando eu fui pra sala de aula foi que eu confirmei o qu’eu acha/considerava importante”.

(P7) –“Didática é uma disciplina muito importante, mas eu diria que a maneira como ela foi ministrada, [...] não foi tão boa não”.

Não vamos nos deter aqui na evolução do ensino da Didática, mas apontar a

que ela se destina. Enquanto uma alternativa no processo de formação de

professores, as pesquisas já descrevem e delimitam o que ela “deverá servir para

habilitar o futuro professor quanto aos modos de proceder na situação de ensino”

(CATANI, 2001, p. 55). Então, a organização do ensino é uma ação do professor

que permite uma melhor aprendizagem dos alunos, sendo, portanto, uma atividade

fundamental.

A importância do planejamento no processo educativo é observada em

algumas pesquisas como sendo responsável pela aprendizagem do aluno e até

mesmo pela disciplina em sala de aula. Contudo, não se pode atribuir tais fatores

(aprendizagem e disciplina) exclusivamente ao planejamento ou à atuação do

professor, visto que atualmente o contexto social do qual a escola faz parte, tem

trazido para a sala de aula alunos que desafiam a competência e a dedicação do

professor. No entanto, não se pode negar que,

“quando a aula está melhor

estruturada, as questões de disciplina são amenizadas” (CHAMLIAN, 2001, p. 87).

Como observado, o planejamento faz parte da atividade docente e os

conhecimentos da disciplina de Didática em muito colaboram para a prática de

ensino, revelando o quanto a teoria, nessa disciplina, está associada à prática.

Nesse sentido, pode-se pensar que a ação do professor é estruturada, segundo

Tardif (2012), em função de dois condicionantes: a transmissão da matéria (que

inclui os conteúdos, os objetivos a serem alcançados, a aprendizagem dos alunos, a

avaliação etc.) e a gestão da classe, incluindo a interação com os alunos

(preservação da disciplina, motivação da turma etc.), o que, para o autor, é o cerne

do trabalho docente, pois o grande desafio do professor é fazer esses dois

condicionantes convergirem.

Para a convergência desses elementos, o trabalho do professor, de certo

modo, já se encontra estruturado, visto que no planejamento das disciplinas os

objetivos a serem alcançados estão determinados e, no que se refere à gestão da

classe, a escola também tem suas regras de funcionamento. Contudo, a grande

tarefa do professor é refletir e planejar sobre o que depende dele para que o aluno

avance no processo de aprendizagem. Desse modo, ter consciência da necessidade

de o aluno dominar os conhecimentos é fundamental a todo professor, em qualquer

nível de ensino.

Pode-se pensar no quanto o trabalho “por detrás da cena” é conflituoso, de

modo a conciliar os projetos pretendidos pelo professor e a motivação dos alunos

para aprender, o que não significa manter os alunos disciplinados. A esse respeito,

Tardif (2012, p. 221) destaca:

A fim de aprender, os alunos devem tornar-se, de uma maneira ou de outra, os atores de sua própria aprendizagem, pois ninguém pode aprender em lugar deles. Transformar os alunos em atores, isto é, em parceiros da interação pedagógica, parece-nos ser tarefa em torno da qual se articulam e ganham sentido todos os saberes do professor.

Concordamos que fazer o aluno assumir seu processo de aprendizagem não

é tarefa fácil, principalmente com alunos da escola pública, e, considerando os

conflitos pelos quais o professor enfrenta na organização da aprendizagem do aluno,

há de se concordar que o professor pode ser considerado um herói como observa

outro estagiário.