4.3.1 A importância da interpretação histórica e a sua validade na interpretação dos institutos jurídicos
Inicialmente, deve ser registrado que interpretar uma norma jurídica é reconstruir seu conteúdo, retirando suas obscuridades e dando-lhe uma tonalidade condizente ao contexto no qual será aplicado.
Viu-se que a Constituição Federal de 1988 inovou quando deu os primeiros passos na direção de um Estado democrático participativo de direito, fruto da evolução do Estado liberal e do Estado social, e fomentou uma maior participação popular no
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BONAVIDES; ANDRADE, 2004, p. 472.
processo institucional, abrindo espaço para uma interpretação das instituições de forma a propiciar uma maior legitimidade na aceitação da lei pelo cidadão.
Também foi registrado que a idéia básica do federalismo é a descentralização de poderes políticos e tributários para instâncias locais e regionais, cuja definição dos limites sempre é questão de graves tensões, por envolver disputa de poder.
Por oportuno, confirmou-se que o princípio da subsidiariedade aliado ao poder implícito dos municípios se faz também presente na forma interpretativa, adequando-se aos postulados de uma constituição efetivamente democrática, que deve ser do povo e da cidadania, tornando-a definidora de políticas públicas.
Segundo Bonavides, a interpretação integra o Direito à realidade, ao vincular o prescrito formalmente a questões concretas.
Todavia, vale a pena debater a validade da análise documental dos Anais da constituinte, fruto do trabalho legislativo para a interpretação legal dos textos constitucionais, especificamente os referentes à autonomia municipal.
Essa questão é deveras importante, pois envolve o próprio trabalho de interpretação da norma jurídica, qual seja: a interpretação da lei deve se dar, levando-se em conta o seu sentido histórico e incluindo a análise dos registros do processo legislativo ou deve ser interpretada independentemente da vontade do legislador, atendo-se única e exclusivamente ao sentido da lei, sem qualquer conotação histórica?
Segundo Bonavides, no método de interpretação histórica o processo legislativo e as anteriores formatações jurídicas da norma são fundamentais para a contextualização
e entendimento do sentido da norma que se pretende entender ou buscar.122
Em outras palavras, o método histórico busca a história da proposição legislativa, descendo no tempo, para investigar a ambiência na qual se originou a lei, bem como os fatores políticos, econômicos e sociais que configuraram o contexto da criação da norma jurídica.
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Não se quer aqui valorizar somente a interpretação histórica como único método legítimo de interpretação da norma jurídica, mas apenas confirmar sua utilização juntamente com o método teleológico, que busca efetuar uma adequação do passado histórico ao presente.
Para Bonavides, essa forma de interpretação também é denominada interpretação evolutiva ou progressiva, em que se adapta o conteúdo histórico da norma a
exigências surgidas após a edição da lei.123
Essa interpretação evolutiva da Constituição de 1988 busca reconstruir o Direito na sua realidade dinâmica, na medida das exigências variantes que a realidade social e histórica brasileira manifesta.
As normas constitucionais possuem conteúdo de natureza política em virtude da sistematização da estrutura fundamental do Estado, além de fixar a competência de
cada esfera federativa, estando sujeitas a um “influxo político considerável”.124
Por esse motivo, é um erro o jurista interpretar a norma constitucional somente por meio da norma posta gramaticalmente, retirando dela todo o manancial político e ideológico, que é o que lhe configura e torna dinâmico o valor deontológico das normas constitucionais.
Segundo Bonavides, cada sistema constitucional está imerso nos valores culturais peculiares de cada povo, sendo “[...] rebelde a toda uniformidade interpretativa absoluta, quanto aos meios ou técnicas aplicáveis”, o que reforça o entendimento antes exposto quanto à necessidade de interpretação voltada às especificidades de
cada cidadão em sua localidade, sob o manto da Federação brasileira.125
Merecerá registro, assim, os estudos sobre a Constituição pelo cientista político, historiador, sociológico, antropólogo e outros. Essa forma democrática de acesso e aplicação da Constituição é bem registrada por Peter Haberle, ao dissertar sobre a
123 BONAVIDES, 2007, p. 460. 124 Ibid., p. 461. 125 Ibid., p. 502.
sociedade aberta de intérpretes da Constituição, fulminando de vez o monopólio dos juristas na ciência da interpretação (hermenêutico-constitucional).
Vale a pena trazer à baila o registro de Bonavides sobre os valores políticos inseridos nas normas Constitucionais:
O caráter político da Constituição avulta também quando se trata de fixar o caráter normativo dos princípios constitucionais. Estes não são outra coisa senão princípios políticos introduzidos na Constituição. Adquiriram, graças a esta, uma juridicidade que, se por uma parte os limita, por outra, não quebranta de modo algum o elo axiológico necessário que os prendem às matrizes sociais donde brotaram e donde continuam aliás a receber inspiração, calor e vida.126
Segundo a doutrina norte-americana, todos os valores de uma Constituição devem ser interpretados de forma conjunta, sistêmica, como um todo, a fim de que se possa acessá-los.
Com esses delineamentos, pode-se agora justificar o título que encabeça a presente dissertação, relativamente à autonomia municipal na Federação brasileira.
Todo o contorno expresso ou implícito pelo legislador constitucional deveria (pois não é o que acontece) estar inserido na idéia da subsidiariedade, contemplada pela síntese do municipalismo e as relações informais ou formais de poder advindos da participação popular, em cada contexto específico da história política brasileira, seja no coronelismo, seja no populismo, seja noutros.
Os textos produzidos pela Assembléia Nacional no decorrer da história também modelam o poder local, na medida em que se integram no “Sistema Constitucional”, englobando a parte formalizada (escrita) da Constituição e os fatores reais de poder dela surgidos (o não escrito, mas que influenciou o escrito,) registrado nas falas dos congressistas impulsionados pelo municipalismo ou não.
Assim, em vez de parecerem contraditórias, as relações informais de poder do municipalismo na Constituição de 1988 influenciaram a moldagem do instituto jurídico da autonomia municipal, merecendo isso atenção especial, para
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propiciarmos uma interpretação evolutiva, aliando o passado histórico com o que a sociedade almeja para o seu futuro.