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DOKUZUNCU BÖLÜM

9. BATI ANADOLU’DA FRİG KÜLTÜR ETKİLERİ

9.2. Frig Tapınakları ve Kaya Anıtlarının Etkileri

O intenso envolvimento da Petrobras nos conflitos em torno das regras para a indústria dos hidrocarbonetos na Bolívia é uma consequência direta e inevitável do papel central que a multinacional brasileira e as exportações de gás para o Brasil passaram desempenhar na economia boliviana a partir de 1996, com a privatização da estatal YPFB, o início das operações da Petrobras Bolivia e o acordo definitivo para a construção do gasoduto entre os dois países. A atuação da Petrobras Bolivia, como empresa integrada presente em toda a cadeia dos hidrocarbonetos, abarca a prospecção, extração, refino, comercialização, transporte e varejo de petróleo e gás natural. Em 2005, quando foi aprovada uma nova legislação boliviana para os hidrocarbonetos, de cunho mais nacionalista, controlava 45,9% das reservas prováveis e provadas de gás em território boliviano e 39,5% das reservas de petróleo. Seu faturamento representava cerca de 18% do PIB da Bolívia e a participação da empresa nos impostos arrecadados constituíam cerca de 24% das receitas fiscais. A Petrobras Bolivia, com sede em Santa Cruz de la Sierra, era, de longe, a maior empresa do país51. Naquele mesmo ano, as remessas de gás natural para o Brasil responderam por 34% das exportações totais.

O ingresso da Petrobras na Bolívia está estreitamente associado às reformas neoliberais implantadas a partir de 1985, e que afetaram de forma mais direta o setor de hidrocarbonetos a partir do primeiro governo de Gonzalo Sánchez de Lozada (Goni), entre 1993 e 1997. Essas reformas favoreceram a empresa brasileira de três maneiras mutuamente complementares: a) a privatização da estatal boliviana YPFB, abrindo espaço para o controle do setor de petróleo e gás natural por companhias transnacionais; b) a entrega à Petrobras e seus sócios de dois dos três maiores campos gasíferos bolivianos, San Alberto e San Antonio (Sábalo), oficialmente classificados como “novos”, com as vantagens fiscais daí decorrentes,

      

51 Com as mudanças na cena econômica boliviana iniciadas com o Decreto de Nacionalização (de 1º de maio de 2006), a estatal Yaciminetos Petrolíferos Fiscales de Bolivia (YPFB) retomou a sua posição como a maior empresa no país.

embora na realidade o volume das suas reservas já fosse conhecido; c) a adoção, no governo de Sánchez de Lozada, de um regime impositivo altamente favorável às transnacionais petroleiras, em prejuízo das receitas do Tesouro Geral da Nação. Conclui-se, portanto, que o esquema neoliberal na Bolívia era totalmente funcional aos interesses da Petrobras, na medida em que contribuiu para a sua política de internacionalização dos negócios e a conquista da liderança no setor de energia em âmbito latino-americano. A recíproca também se mostra verdadeira: sem a existência do mercado brasileiro como destino das exportações do gás boliviano – algo que só se tornou possível com a construção do gasoduto – a Bolívia dificilmente teria conseguido atrair investidores estrangeiros para a privatização de sua estatal mais importante, além de se privar de uma fonte vital de receitas externas, oriundas do gás enviado ao Brasil.

A implantação da Petrobras no espaço econômico boliviano se deu em um ritmo muito rápido, a partir da fundação da Petrobras Bolivia, em 1995, e se aprofundou com a compra das duas refinarias do país, privatizadas em 2001, e, no ano seguinte, com a incorporação dos ativos da transnacional argentina Perez Companc. No final de 2005, quando Evo Morales foi eleito presidente com a promessa de “nacionalizar” o setor de hidrocarbonetos, a Petrobras Bolivia controlava os seguintes empreendimentos:

• operação dos campos de San Alberto e San Antonio, no departamento de Tarija, responsáveis pela maior parte do gás natural52 exportado ao Brasil pelo Gasbol, com 35% das ações, em sociedade com a empresa “capitalizada” Andina (controlada pela espanhola Repsol-YPF), dona de 50%, e a francesa TotalFinaElf (mais tarde, apenas Total), com os 15% restantes;

• concessões para a exploração dos campos de hidrocarbonetos de Rio Hondo, em parceria com a Total na base de 50%; de Ingree, com 100%: e mais 20% do campo de Monteagudo, operado pela Maxus, subsidiária da Repsol-YPF;

• a propriedade, por meio da Empresa Boliviana de Refinación (EBR), uma subsidiária da Petrobras Bolívia, das duas refinarias de petróleo existentes no país, a de Gualberto Villaroel, em Santa Cruz, e Guillermo Elder Bell, em Cochabamba, com uma capacidade de refino de 60 mil barris de petróleo diários, utilizada na produção de gasolina, lubrificantes e asfalto;

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O campo de San Alberto tinha em 2004 dois módulos, cada um com capacidade para processar 6,6milhões de metros cúbicos diários (mmmcd) de gás natural, enquanto o campo de San Antonio (Sábalo) tinha capacidade inicial de 3 mmmcd e a possibilidade de alcançar um total de 14 mmmcd (VILLEGAS, 2004, p.143-144). 

• participação de 25% no mercado boliviano de distribuição de combustíveis, com 92 estações de serviço (equivalentes aos postos de gasolina no Brasil), espalhadas por todo o país;

• propriedade e operação, por meio da empresa Transierra (em que tem como sócios a Total e a Andina) do Gasoduto Yacuíba-Río Grande (Gasyrg), de 431 km, construído para transportar gás natural dos campos de San Alberto e San Antonio até a estação de compressão de Río Grande, onde o combustível se conecta com o Gasoduto Bolívia-Brasil.

No que se refere à exportação de gás ao país vizinho, a Petrobras exercia (e ainda exerce) uma dupla função, como vendedora (na Bolívia) e compradora (no Brasil) do mesmo combustível. Essa posição privilegiada, como apontou VILLEGAS (2004, p.149), outorgou à empresa brasileira um forte peso nas renegociações do contrato de compra e venda anteriores à queda do governo Mesa, quando o governo do Brasil pressionava a Bolívia para reduzir os preços e flexibilizar as cotas mínimas de importação de gás previstas na cláusula do take or pay. As negociações – suspensas pelo lado brasileiro logo após a queda de Goni, reiniciadas no governo de Carlos Mesa e novamente interrompidas, dessa vez em definitivo, com a queda de Mesa e a crise institucional boliviana – ocorreram num contexto de forte assimetria em favor do Brasil, a partir do próprio fato, recorrentemente lembrado por analistas, diplomatas e executivos do lado brasileiro, de que, apesar da interdependência energética entre os dois países, na realidade os custos de um corte nesse relacionamento seriam bem mais elevados para a Bolívia do que para o seu gigantesco vizinho. Em palavras simples: a Bolívia precisa muito mais do mercado e dos investimentos brasileiros do que o Brasil precisa do gás boliviano.

Tal assimetria caracteriza não apenas as relações entre os dois países, mas a própria relação entre a Petrobras e a Bolívia. É difícil encontrar, em mais de um século de história das empresas transnacionais, algum paralelo com a descomunal influência econômica, política e social que a Petrobras exerce na Bolívia. Pode-se comparar sua presença, talvez, com a da United Fruits na Guatemala da primeira metade do século XX (GRANDIN, 2006), ou a da Anglo-Persian Oil Company (atual BP) no Irã dos tempos anteriores ao do governo de Mossadegh, derrubado em 1953 num golpe articulado a partir de um complô anglo- estadunidense (KINZER, 2004). Mas, ainda assim, a proximidade geográfica do Brasil, que se traduz na interligação física por meio do gasoduto, amplifica a situação de dependência boliviana em um patamar que só encontra equivalente na dependência a que está submetido o Paraguai, igualmente perante o Brasil, a partir da Binacional Itaipu (CANESE, 2008). Isso,

sem contar a escala das operações da Petrobras no cenário doméstico da Bolívia e o peso de suas múltiplas atividades naquele país.

Tamanha desigualdade só poderia suscitar, do lado mais fraco, o boliviano, uma percepção de injustiça, que se combinou com a memória histórica da pilhagem colonial e imperialista do país para produzir um caudaloso anseio de revolta, concretizado nas jornadas insurrecionais de outubro de 2003 e junho de 2005. Não se trata de um mero “ressentimento”, como sugere a abordagem reducionista que impregna o discurso brasil-cêntrico, mas de uma postura política racionalmente orientada para a afirmação dos interesses nacionais bolivianos. Essa postura recuperou capacidade de mobilização na década passada ao apelar, com sucesso, para noções de forte apelo popular, como a independência, a soberania e a dignidade. Os bolivianos reagem à relação de desigualdade que os atores brasileiros chamam de “integração energética” do mesmo modo que outros povos latino-americanos submetidos a vínculos assimétricos, como se pode constatar nas provocativas declarações de Andrés Soliz Rada, em entrevista concedida a um jornal brasileiro quando já tinha deixado o cargo de ministro dos Hidrocarbonetos no governo de Evo Morales:

Quero esclarecer que tenho um profundo carinho e respeito pelo povo brasileiro. Infelizmente, suas classes dirigentes carecem, quase sempre, de uma visão latino-americana que permita alcançar um desenvolvimento harmônico da região. Preferem, ao contrário, que o Brasil esteja rodeado de países fracos, para obrigá-los a aceitar as imposições de Brasília. [...] Por isso, é possível adequar a meu país o que dizem os mexicanos sobre os EUA: “A desgraça da Bolívia reside em estar longe de Deus e muito perto do Brasil”. Essa é a relação que pretendemos mudar com a nacionalização, para que entre Brasil e Bolívia pudessem existir relações mais fraternas, harmoniosas e equilibradas53.