SEKİZİNCİ BÖLÜM
8. DEMİR ÇAĞ BATI ANADOLU’SUNDA KÜLTÜR BÖLGELERİ
Os brasileiros – diplomatas, executivos da Petrobras, jornalistas – costumam reagir com indignação às acusações de que a empresa teria cometido ilegalidades na sua atuação na Bolívia anterior ao processo de revisão dos contratos com as empresas estrangeiras, iniciado no governo de Carlos Mesa e aprofundado, de forma conflituosa, a partir da ascensão de Evo Morales à presidência, em 2006. Trata-se de um tema complexo, na medida em que durante todo o período chamado de neoliberal o comportamento da Petrobras se deu mediante o aval e a concordância das autoridades bolivianas – elas próprias acusadas de violar leis do próprio país, em especial a Constituição. Por outro lado, essas denúncias não podem ser simplesmente descartadas como pura retórica, com finalidades políticas instrumentais, ou expressão de “ressentimentos” associados à assimetria, geralmente desfavorável, que marca as relações a Bolívia com o mundo exterior. Ao contrário, um exame dos documentos críticos à atuação das empresas estrangeiras no setor de hidrocarbonetos naquele país revela a existência de argumentos consistentes, que merecem ser levados em consideração. Os temas relativos a condutas ilegais, irregulares ou anti-éticas que envolvem a Petrobras podem ser agrupados nos seguintes tópicos:
a) Efeitos fiscais da classificação das reservas, apontada como ilegal ou, no mínimo ilegítima. Quando se observa a polêmica da reclassificação dos poços, em claro benefício da Petrobras e de outras empresas estrangeiras, constata-se que a definição dos megacampos de San Alberto e San Antonio (Sábalo) como “novos” ou “existentes” na ocasião das mudanças jurídicas de 1996 possui implicações fiscais muito concretas. Se essas reservas fossem consideradas como “existentes”, a Petrobras e seus sócios nos dois empreendimentos arcariam com uma carga impositiva equivalente a 50% do valor produzido entre 1999 e 2006 (quando o Decreto de Nacionalização, no governo de Morales, mudou efetivamente as regras do jogo). Mas, como esses campos eram definidos como “novos”, a cobrança se limitou a 18%. Os ganhos adicionais (e ilegítimos, de acordo com os críticos) Petrobras e suas sócias nos dois campos (Total e Repsol) são de grande vulto. Somente a reclassificação do campo San Alberto como “novo” teria representado para a Bolívia uma perda de 2 bilhões de dólares nos primeiros seis anos de operação (ORGÁZ, 2005, p.137).
b) Ausência de aprovação dos contratos de “risco compartilhado” com empresas petroleiras estrangeiras pelo Congresso Nacional, tal como determina a Constituição vigente
na ocasião da assinatura desses contratos. De fato, nenhum dos 77 contratos firmados entre a YPFB e as empresas transnacionais nos marcos das leis de hidrocarbonetos nº 1.689 e nº 1.731 foi referendado pelos parlamentares. No entanto, o artigo 58 da Constituição Política do Estado que vigorou até 2009 inclui claramente entre as atribuições do Poder Legislativo “autorizar e aprovar a contratação de empréstimos que comprometam as rendas gerais do Estado, assim como os contratos relativos à exploração das riquezas nacionais”. Por esse motivo, todos os 77 contratos – inclusive os que se referem às concessões que permitem à Petrobras explorar, como empresa operadora, os megacampos de San Alberto e San Antonio – poderiam ser considerados ilegais, nulos de pleno direito. O especialista Mirko ORGÁZ (2005, p.138) comenta, com ironia, que não obstante sua condição irregular, as empresas estrangeiras têm o descaramento de invocar o princípio da “segurança jurídica” quando veem seus interesses ameaçados e ameaçar com processos internacionais para defender seus privilégios sobre o gás.
c) O direito da propriedade dos recursos petrolíferos a partir da sua extração, atribuído às empresas do setor pelo Decreto Supremo 24.806, promulgado em 4 de agosto de 1997 pelo presidente Sánchez de Lozada. Esse decreto, elaborado com a assistência técnica das empresas petroleiras, contradiz frontalmente a Constituição, segundo diversos analistas (VILLEGAS, 2004, p. 73; MARIACA, 2009, p. 17). A sutileza embutida na questão é que o DS 24.806, embora reafirme a norma jurídica segundo a qual o Estado é proprietário das reservas de gás natural, estabelece que isso só é válido enquanto elas se encontram embaixo da terra. Em conformidade com essa nova peça de legislação, as reservas se tornam propriedade das empresas contratantes (na prática, as transnacionais) na “boca do poço”, isto é, no momento da lavra, quando afloram à superfície durante o processo de produção. Na avaliação de Carlos Villegas, apresentada num dos textos de referência mais importantes para o debate sobre o marco jurídico do petróleo e do gás, não apenas o DS 24.806 está em contradição com a Carta Magna, mas também a Lei de Hidrocarbonetos nº 1.689, já comentada no presente trabalho. De acordo com VILLEGAS (2004, p.73),
[...] el gobierno de Sánchez de Lozada, al conferir los derechos de propiedad de los hidrocarburos a las empresas petroleras, vulneró la estructura institucional o pirámide jurídica nacional porque, en primer lugar, el decreto Nº 24806 contradice plenamente el Artículo 139 de la CPE49 y, en segundo lugar, porque la Ley 1.689 les concede a los
49 Constitución Política del Estado, cujo artigo 139 afirma textualmente o seguinte: “Los yacimientos de hidrocarburos, cualquiera que sea el estado en que se encuentren o la forma en que se presenten, son del dominio directo, inalienable y imprescriptible del Estado. Ninguna concesión o contrato podrá conferir la
contratistas plena libertad para la comercialización, el transporte, la refinación y la exportación de hidrocarburos. En términos aún más concretos, el mencionado decreto y la citada ley permiten la apropiación del excedente hidrocarburífero por la parte de las empresas petroleras y condenan al Estado a percibir, únicamente, los beneficios que provienen de los impuestos y tributos”.
d) A validade da previsão de arbitragem internacional em caso de controvérsias entre as autoridades bolivianas e as empresas transnacionais. Na perspectiva dos críticos do marco jurídico neoliberal (ORGÁZ GARCÍA, 2005, p.137), o Decreto Supremo 24.806, ao estabelecer tribunais internacionais como árbitros para a resolução de controvérsias entre o Estado e as empresas petroleiras, violou o artigo 24 da Constituição. Esse artigo afirma que as empresas e súditos estrangeiros estão submetidos às leis bolivianas, sem que em nenhum caso possam invocar situação excepcional nem apelar a reclamações diplomáticas. Igualmente o artigo 135 reafirma o fato de que todas as empresas estrangeiras que operam em território boliviano serão consideradas nacionais e estarão submetidas à soberania, às leis e às autoridades da Bolívia.
e) Violação das normas éticas e jurídicas que coíbem a corrupção e o tráfico de influências, especificamente no que diz respeito à conduta dos funcionários públicos do setor de petróleo e gás natural. Uma das facetas mais questionáveis do processo da privatização dos hidrocarbonetos bolivianos foi a intensidade que se praticou o sistema conhecido como “porta giratória” – aquele em que executivos com altos cargos e acesso a informações estratégicas transitam entre o setor público e o privado, dando margem a suspeitas de favorecimentos ilícitos às empresas particulares, em que vigoram salários incomparavelmente mais elevados, e em prejuízo dos interesses público50s.
De fato, a lista de executivos graduados do Estado boliviano no setor de hidrocarbonetos, e em especial na YPFB, que foram contratados por transnacionais petroleiras logo após deixarem a condição de funcionários públicos é extensa e sua divulgação extrapola os propósitos do presente trabalho. Mas vários desses casos envolvem diretamente a Petrobras. O mais notório deles, alvo de denúncias veiculadas pela imprensa boliviana, refere- se a Arturo Castaños, que deixou o cargo de presidente da YPFB em 5 de agosto de 1997 e
propiedad de los yacimientos de hidrocarburos. La exploración, explotación, comercialización y transporte de los hidrocarburos y sus derivados, corresponden al Estado. Este derecho lo ejercerá mediante entidades autárquicas o a través de concesiones y contractos por tiempo limitado, a sociedades mixtas de operación conjunta o a personas privadas, conforma la Ley.” ( BOLIVIA, Constitución Política del Estado, 1956).
50 “La Danza de Millones”, Jorge Aramayo Montes, Indymedia – Qollasuyu Invi Iyambae Bolivia, La Paz, 4 de julho de 2004.
quatro dias depois, em 9 de agosto, tomou posse como representante oficial da Petrobras na Bolívia, com um salário mensal de 25 mil dólares. Mais tarde, tornou-se diretor corporativo da empresa brasileira. Durante sua gestão na YPFB, Castaños atestou que os megacampos de San Alberto e San Antonio, operados pela Petrobras, se enquadravam na condição de poços “novos”. Também foi ele quem negociou o contrato final de venda do gás ao Brasil e o traçado do gasoduto. Em sua defesa, Castaños afirma que foi contratado devido à sua capacidade profissional. Outro caso noticiado de forma crítica pela imprensa boliviana se refere ao executivo Hugo Peredo, que foi presidente da YPFB em 2001 e 2002 e assumiu em 2003, na Petrobras Bolívia, o cargo de diretor de Novos Negócios e Estratégia.
Outro ponto da atuação da Petrobras que suscitou questionamentos de caráter ético diz respeito a pagamentos feitos pela empresa brasileira que nada tinham a ver com as suas tarefas regulares. Em 2004, eclodiu na imprensa boliviana um escândalo em torno dos pagamentos feitos à YFPB pela Petrobras e pela Total, entre outras companhias, para o custeio de cursos de capacitação, despesas gerais e remuneração de consultores. Na visão da pesquisadora boliviana Patrícia MOLINA (2006, p.97),
aún que en esse momento la Ley no estableciera mucho al respecto, resulta muy poco ético que una empresa que se autodefine ‘com una enorme responsabilidad social y profundamente preocupada com la preservacion del médio ambiente’ realice este tipo de practicas.
CAPÍTULO VI
6. AS MULTINACIONAIS PETROLEIRAS PERANTE A CRISE ESTATAL E A ASCENSÃO DE UM “NACIONALISMO PLEBEU”