YEDİNCİ BÖLÜM 7. FRİG KÜLTÜR ÖGELERİ
7.4. Küçük Buluntular
7.4.6. Dokuma Aletleri ve Tekstil Kalıntıları
A polêmica reclassificação dos campos de petróleo e gás natural, adotada nas leis de hidrocarbonetos nº 1.689 e nº 1.741, em abril e junho de 1996, beneficiou as companhias
46 Constitución Política del Estado, cujo artigo 139 afirma textualmente o seguinte: “Los yacimientos de hidrocarburos, cualquiera que sea el estado en que se encuentren o la forma en que se presenten, son del dominio directo, inalienable y imprescriptible del Estado. Ninguna concesión o contrato podrá conferir la propiedad de los yacimientos de hidrocarburos. La exploración, explotación, comercialización y transporte de los hidrocarburos y sus derivados, corresponden al Estado.”
petroleiras estrangeiras e, entre elas, particularmente a Petrobras. Graças a essa mudança jurídica, a empresa brasileira ampliou em grande escala sua participação nos lucros obtidos nos megacampos gasíferos de San Alberto e San Antonio (Sábalo), por ela operados. Esses dois megacampos respondem por cerca de 60% do gás natural exportado pela Bolívia e pela quase totalidade do volume despachado pelo Gasbol.
Em uma coincidência significativa, a adoção de um regime de impostos altamente favorável às empresas estrangeiras se deu no mesmo período em que foram assinados os contratos entre a Petrobras e a empresa estatal YPFB para a construção da parte boliviana do Gasbol, conforme mostra o cronograma seguinte:
Tabela 8. O ingresso da Petrobrás na Bolívia e a abertura do setor de Hidrocarbonetos no Governo de Goni (cronologia)
A introdução da figura dos campos de hidrocarbonetos “novos”, regidos por um regime fiscal altamente favorável às companhias estrangeiras, tinha o claro objetivo de ampliar os atrativos para os investimentos no gás boliviano com vistas à sua exportação, sobretudo ao mercado brasileiro (VILLEGAS, 2004, p.83). Contudo, faltou transparência em todo o conjunto de medidas adotadas pelo governo boliviano em favor das empresas multinacionais. O resultado é que o ingresso da Petrobras na exploração, produção, comercialização, transporte e distribuição do gás boliviano se deu em meio a uma nuvem de
suspeitas e de denúncias, muitas delas ainda não esclarecidas, que mais tarde iriam reforçar a campanha nacionalista contra a privatização dos hidrocarbonetos e, no governo de Evo Morales, dariam fundamento à adoção de medidas legais contrárias aos interesses da empresa e à decisão oficial de abrir um inquérito sobre supostas irregularidades cometidas no período anterior.
A desconfiança em relação à Petrobras tem como objeto principal o processo que permitiu à empresa brasileira adquirir o controle dos megacampos de San Alberto e San Antonio e sua exploração em condições fiscais privilegiadas, com o pagamento ao Estado boliviano de apenas 18% do valor dos hidrocarbonetos extraídos do subsolo. Em uma avaliação compartilhada por muitos outros autores qualificados, Carlos VILLEGAS (2003, p.42; 2005, p. 148-149) escreveu que a Petrobras definiu seu comportamento perante a liberalização dos hidrocarbonetos bolivianos a partir de informações privilegiadas obtidas junto a técnicos e executivos da empresa estatal boliviana. Essa relação nebulosa é o que explica, segundo ele, o fato de a Petrobras ter-se mantido à margem da “capitalização” da estatal boliviana, em contraste com outras empresas estrangeiras que arremataram os ativos da YPFB oferecidos aos investidores privados.
Na visão de Villegas, as relações da Petrobras com a YPFB nos anos que antecederam a “capitalização” (ocorrida em 1996) fornecem indícios suficientes para se supor que a empresa brasileira tinha conhecimento da presença de reservas importantes de gás em San Alberto e San Antonio muito antes que essas informações viessem a público. Por isso, teria preferido garantir o acesso às reservas mais importantes por meio de contratos de “risco compartilhado”, esquivando-se da obrigação de compartilhar quase a metade de seus ganhos com os cidadãos bolivianos, de acordo com as regras da “capitalização”. Sobre esse ponto, VILLEGAS (2005, p.148-149) afirma:
La privatización del sector hidrocarburífero nacional le permitió a la empresa estatal brasilera obtener la propiedad de los megacampos de gas San Antonio y San Alberto en condiciones notablemente favorables, tanto así, que no se puede descartar que Petrobras – por su permanente relación con YPFB, antes de la privatización – conocía la información técnica que señalaba la existencia de cuantiosas reservas de gas en los campos señalados, especialmente San Alberto.
Entre as supostas irregularidades cometidas em benefício da Petrobras, a mais importante diz respeito à classificação dos megacampos de San Alberto e San Antonio como “novos” – e, portanto, favorecidos por uma cobrança fiscal de apenas de 18% –, embora o
gigantesco potencial gasífero de suas reservas já fosse conhecido com muita antecedência. Essas reservas foram entregues pelo governo boliviano à Petrobras47, por meio de um contrato de “risco compartilhado” com a YPFB, em 28 de abril de 1996, ou seja, apenas dois dias antes de ser promulgada a Lei de Hidrocarbonetos 1.689, estabelecendo a diferença de regime tributário entre as reservas “novas” e as “existentes” (GANDARILLAS, 2008, p. 80-81). Menos de dois meses depois, a empresa brasileira se viu favorecida por uma nova medida legal, a Lei 1.731, de 26 de junho, que classifica como “novas” 85% das reservas gasíferas do país, inclusive os polêmicos megacampos de San Alberto e San Antonio, e mantendo na condição de “existentes” apenas aquelas (raras) que já tivessem sido oficialmente certificadas por alguma empresa internacional especializada. Essa reclassificação, como ponderam KOHL e FARTHING (2007, p.196), reduzia o risco econômico das empresas petroleiras, mas “aumentava o risco político na medida em que a população poderia reagir, tal como ocorreu, furiosamente perante o que considerou uma entrega dos recursos naturais do país”.
Justamente naquele período, o governo boliviano se encontrava em apuros diante do risco de fracasso do projeto de construção do ramo boliviano do Gasoduto Bolívia-Brasil – uma obra de responsabilidade das transnacionais Enron (estadunidense) e Shell (anglo- holandesa), que ao se tornarem sócias da YPFB em 1994, haviam se comprometido a obter o financiamento para a construção do gasoduto em território boliviano. Passados quase dois anos, o financiamento prometido ainda não tinha se concretizado e o presidente Sanchez de Lozada, que sempre mostrou uma predileção especial pelos negócios com a Enron, pediu à Petrobras para ingressar no empreendimento do gasoduto. Foi assim que, em 26 de julho de 1996, a Petrobras anunciou sua participação no financiamento, para o qual contribuiu com 280 milhões de dólares, viabilizando dessa maneira a inauguração do Gasbol em 1999.
Com base nas informações disponíveis, é impossível saber se o atrativo adicional da reclassificação dos campos influenciou a decisão da Petrobras de assumir os encargos financeiros da construção do trecho boliviano do Gasbol ou se a empresa brasileira teria tomado essa iniciativa de qualquer maneira, diante do risco de naufrágio desse projeto, de importância vital para o abastecimento energético do Brasil. O fato é que a proximidade
47 Devido à impossibilidade de cumprir com os custos financeiros da exploração e produção do gás natural nesses dois megacampos, a Petrobras vendeu uma parcela de sua participação acionária para a empresa francesa Total, de tal modo que, ao ser aprovado o contrato de “risco compartilhado”, em 1996, a YPFB possuía 50% das ações, a Petrobrás, 35%; e a Total, 15%. No ano seguinte, com a privatização da YPFB, a parte da empresa estatal boliviana foi assumida pela empresa “capitalizada” Andina, formada por um consórcio de empresas argentinas e espanholas (Pérez Companc, Pluspetrol e Repsol), com participação dos fundos de pensão que operavam na Bolívia. Mais tarde, com a reestruturação do mercado argentino de hidrocarbonetos, a Repsol assumiu o controle da Andina e, portanto, de 50% das ações de San Alberto e San Antonio. A Petrobras continuou, porém, como operadora, ou seja, responsável pelas tarefas de exploração e produção dos campos.
temporal entre os dois eventos ressaltou ainda mais a aparência nebulosa da concessão das maiores reservas gasíferas bolivianas à Petrobras em condições extremamente benéficas e, mais do que isso, sob um argumento (o de que se tratava de um campo recém-descoberto) em contradição com uma realidade facilmente verificável.
Desde 1960, quando se iniciaram as prospecções gasíferas em San Alberto, no departamento de Tarija, até 1996, a YPFB já tinha perfurado nove poços naquela área. Em abril de 1990, a estatal boliviana descobriu o campo SAL X-9, que apresentava reservas prováveis de 5,8 trilhões de pés cúbicos (TPCs) de gás (MARIACA, 2003, p.7). A perfuração feita pela YPFB alcançou a profundidade de 4.518,5 metros, suficiente para comprovar a presença de um enorme reservatório de gás natural, mas não foi feita uma avaliação técnica que permitisse declarar essas reservas como “provadas”. Pouco depois, os engenheiros bolivianos descobriram um novo poço, SAL X-10, com reservas de gás detectadas após uma perfuração de 4.345 metros.
Na ocasião, o presidente Jaime Paz Zamora comemorou publicamente a proeza, afirmando que o campo descoberto pela YPFB iria proporcionar uma renda de mais de 2 bilhões de dólares anuais para a Bolívia durante duas décadas, resolvendo os problemas econômicos do país. Mais tarde, em agosto de 1995, dirigentes da YPFB manifestaram a convicção de que a empresa estatal boliviana teria condições de colocar os campos de San Alberto e San Antonio em produção num prazo máximo de sete anos, caso contasse com a infraestrutura necessária (MARIACA, 2003). Nesse período a empresa brasileira vinha fazendo gestões para assumir a operação dos dois campos, mas esbarrava na resistência das autoridades em La Paz. O principal entrave ao ingresso da Petrobras nesse empreendimento era a relação que o governo boliviano fazia entre a aprovação do início da exploração dos blocos e o atendimento de suas reivindicações em relação ao projeto do gasoduto – notadamente, o compromisso de compra, pelo Brasil, de quantidades de gás maiores do que as definidas nos acordos iniciais de 1993.
Quando a Petrobras assumiu o controle do campo de San Alberto, em 1996, o empreendimento lá instalado pela YPFB já produzia e comercializava petróleo e mantinha uma pequena produção de gás, como resultado da abertura de poços exploratórios que permitiram o acesso às grandes estruturas produtoras de Huamampampa I e Huamampampa II. O que a empresa brasileira fez em 1998, ao iniciar seus trabalhos, foi retomar a perfuração do poço SAL X-10, que tinha sido deixado incompleto pela YPFB, da profundidade de 4.354 metros até os 5.220 metros onde foi possível atingir as reservas. Então a “descoberta” foi anunciada, oficialmente. O mesmo ocorreu com o poço SAL X-9, onde a Petrobras precisou
apenas fazer uma perfuração adicional de 46 metros para alcançar um imenso reservatório de gás. Novos poços, perfurados em seguida, evidenciaram a enorme riqueza do campo de San Alberto, cujas reservas totais foram estimadas em 11,2 TPC, garantindo o cumprimento do contrato de exportação para o Brasil. Na mesma época, a Petrobras anunciou também a descoberta de reservas de gás no campo de San Antonio (atualmente, chamado de Sábalo), a 100 quilômetros de distância. Esses poços, altamente produtivos, integram a mesma província gasífera de Huamampampa.
As denúncias contra a Petrobras no caso de San Alberto e San Antonio ganharam destaque junto à opinião pública boliviana no processo de revisão do marco jurídico dos hidrocarbonetos ocorrido após a queda de Sánchez de Lozada, em outubro de 2003, quando foi forçado a renunciar ao seu segundo mandato presidencial em consequência de uma insurreição popular que se tornou conhecida como a “guerra do gás”. Seu sucessor na presidência da Bolívia, Carlos Mesa, ordenou uma investigação para determinar as circunstâncias em que ocorreu a descoberta dos poços SAL X-9 e SAL X-10 e verificar se, pelas leis vigentes, eles deveriam ser considerados “novos” ou “existentes”. O relatório apresentado no dia 28 e junho de 2004 pelo físico Francisco Zaratti, ex-chefe da Superintendência de Hidrocarbonetos48, concluiu, em termos ambíguos, que as reservas hidrocarboníferas do campo de San Alberto eram “legalmente novas” (pois ainda não estavam em produção em 1996, quando foram promulgadas as leis nº 1.649 e nº 1.731), mas “tecnicamente existentes”, uma vez que – “sem qualquer dúvida”, segundo o relatório – foram descobertas pela YPFB em 1990, bem antes da “capitalização” e da mudança do marco regulatório para o petróleo e o gás natural. Zaratti, que elaborou seu relatório na condição de Delegado Presidencial para a Revisão e Melhora da Capitalização, um cargo com status ministerial, recomendou que o governo negociasse com as petroleiras que detinham participação no campo uma compensação financeira equivalente ao pagamento de 50% sobre o volume de hidrocarbonetos que já eram conhecidos antes de 1996. Jornais bolivianos noticiaram, na época, que essa compensação financeira poderia chegar a US$ 1,9 bilhão. Nem a Petrobras nem a diplomacia brasileira reagiram ao relatório de Zaratti.