İKİNCİ BÖLÜM 2. FRİG COĞRAFYASI
2.3. Batı Frigya
A mobilização popular contra o controle dos hidrocarbonetos bolivianos por empresas estrangeiras desempenhou um papel central no confronto político que provocou a queda de dois presidentes – Gonzalo Sánchez de Lozada e Carlos Mesa – e abriu caminho para a vitória eleitoral, em dezembro de 2005, do sindicalista indígena Evo Morales, o líder mais destacado da luta contra as privatizações e o modelo político-econômico neoliberal. Desde então, Morales comanda uma coligação heterogênea, em que convivem diferentes projetos de reorganização da sociedade boliviana, em meio às tensões políticas associadas à oposição sistemática dos setores sociais mais conservadores e à ameaça de ruptura da integridade territorial do país por iniciativa das elites brancas que controlam o leste do país a partir do seu reduto em Santa Cruz de la Sierra.
Entre as elaborações teóricas originais presentes no debate político boliviano, destaca- se a idéia do “capitalismo andino”, formulada pelo vice-presidente Álvaro García Linera, ex- guerrilheiro, sociólogo e professor na Universidade Mayor de San Andrés, em La Paz. Apontado como o principal ideólogo do Movimiento al Socialismo (MAS), ele acredita que é possível construir um tipo de modernidade econômica vinculada aos mercados globais, ao desenvolvimento tecnológico contemporâneo a setores empresariais domésticos capitalistas, mas reconhecendo a existência de outras “plataformas da modernidade” existentes na Bolívia: forças comunitárias, artesanais, pequenos produtores de economia mercantil simples e portadores de outra racionalidade de organização do trabalho, do uso do excedente, de sistemas tecnológicos, dos saberes, das formas organizativas e da distribuição da riqueza (GARCÍA LINERA, 2005).
O “capitalismo andino”, na proposta de García Linera, é um modelo de desenvolvimento capitalista que combina o setor moderno da estrutura econômica vigente na Bolívia com o modo de vida e de produção existente nas comunidades camponesas indígenas. Em entrevista jornalística (GARCÍA LINERA, 2005), ele explicou sua proposta:
O capitalismo andino é como imaginar a modernidade no capitalismo por um período mais ou menos de curto prazo, mas no qual o potencial comunitário, artesanal e semimercantil possa desenvolver suas próprias capacidades de geração e distribuição de riqueza, de criação de saberes e de tecnologia. Essa economia de comunidades indígenas, de povoadores pioneiros e pequenos produtores está vinculada ao capitalismo clássico, mas não está triturada, subsumida ou desconhecida brutalmente por essa racionalidade.
García Linera imagina um tipo de modernidade no âmbito do capitalismo em que os segmentos majoritários da vida econômica boliviana – aqueles que foram ignorados, espoliados e humilhados pela modernidade de tipo industrial-capitalista clássico – tenham a capacidade de se auto-organizarem e de prosperar (GARCÍA LINERA, 2005):
É uma falsa utopia pensar que todos os micro-empresários se converterão em empresários. Seguirão trabalhando no nível familiar e no doméstico ao menos pelos próximos 50 anos. A ideia é que eles tenham suporte econômico, acesso a insumos e a mercados de modo a gerar em seu regime econômico, que continuará sendo familiar e artesanal, processos de bem- estar. Provavelmente a mobilidade social será pequena e permaneça em uma economia familiar de pequena e média escala, mas com melhores condições de vida e maior produtividade.
A proposta tem como base sua interpretação da sociedade boliviana como a de um país em que as marcas da colonialidade, entendida como uma relação de dominação que vai além do simples controle político pela metrópole europeia, permanecem presentes na política, na economia, nas relações sociais e na cultura. “Aqui não existe uma nação no sentido pleno, com objetivos e valores compartilhados por todos”, afirmou ele em entrevista ao autor desta tese. “Ao lado de uma sociedade moderna, que fala espanhol e se rege pelo mercado, há outra, estruturada a partir de comunidades indígenas e de costumes tradicionais13”.
García Linera atribui a instabilidade política do país às “promessas não cumpridas da modernidade, que acumularam décadas de decepções”. Ele aponta a existência de “um tipo de esquizofrenia” na conduta histórica do Estado boliviano, assentado sobre “regimes normativos e instituições que não possuem correspondência com a colcha-de-retalhos da nossa sociedade que, em sua maioria estrutural, não é nem industrial nem individualizada”. No seu ponto de vista, o país que o MAS herdou dos governantes neoliberais é um “simulacro de modernidade”, o que representa um desafio inédito para quem, como ele, se propõe a levar adiante um projeto de transformação social inspirado pelo marxismo.
Para desagrado dos setores mais ortodoxos da esquerda boliviana, ele não apenas rejeita o “socialismo do século XXI” defendido pelo venezuelano Hugo Chávez, como descarta a possibilidade de implantação de um regime socialista na Bolívia em um horizonte temporal previsível. Sua posição se estriba em dois argumentos (GARCÍA LINERA, 2005):
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Por um lado, o proletariado é minoritário demograficamente e inexistente politicamente. E não se constrói o socialismo sem o proletariado. Por outro lado, o potencial comunitarista agrário e urbano se encontra muito debilitado. Nos últimos sessenta anos, ocorreu um retrocesso da atividade produtiva das comunidades indígenas e a erosão dos laços comunitários. Continua-se a falar da comunidade, mas ela implodiu internamente e o que subsiste são as estruturas familiares. O potencial comunitário que permitiria vislumbrar a possibilidade de um regime comunitarista socialista no bom sentido do termo passa por potencializar as pequenas redes comunitaristas que ainda sobrevivem e enriquecê-las. Isso tornaria possível vislumbrar em vinte ou trinta anos uma utopia socialista.”
O desafio central, aqui, não é socialização dos meios de produção e sim o que chama de “descolonização do Estado”, tarefa que a Revolução de 1952 deixou de realizar. “É isso o que o movimento indígena está fazendo, essa é a sua grande contribuição”, afirmou, na mesma entrevista. “Para um revolucionário utópico, a descolonização do Estado não é o socialismo, mas para os índios é o acontecimento histórico mais importante que poderia suceder.” Ele define o MAS como o portador de um “novo desenvolvimentismo plebeu”, impulsionador de processos de modernização de linha neodesenvolvimentista no seio da qual as tradicionais clivagens povo/oligarquia e nação/antinação são atravessados por uma etnificação, não excludente, da política (STEFANONI, 2005).
A própria trajetória da luta de massas que levou Morales ao poder revela, na visão de García Linera, os limites do seu potencial emancipatório. “Se não pode haver dominação estatal sem o consentimento dos dominados – algo que se erodiu gradualmente na Bolívia desde os bloqueios de estradas em 2000 – tampouco pode existir uma oposição bem-sucedida sem a capacidade de propor uma ordem alternativa”, escreveu em artigo na New Left Review (GARCÍA LINERA, 2006). “Foi precisamente isso que os insurgentes descobriram: eles eram capazes de paralisar o Estado com seus bloqueios mas eram incapazes de avançar um projeto legítimo de poder alternativo.”
Na busca de um projeto nacional viável, a recuperação do controle estatal sobre os hidrocarbonetos, principal item da pauta de exportações do país, desempenha um lugar central. É com a receita da venda do gás natural e do petróleo que Morales está implementando as políticas públicas orientadas para levar a “modernidade” ao campo: hospitais, bônus contra a evasão escolar, planos de alfabetização, estradas, tratores, redução das tarifas de luz e de telefone, documentos de identidade e até a transmissão gratuita dos jogos da Copa do Mundo (STEFANONI, 2007).
No plano das ideias, o processo político boliviano reativou um imaginário desenvolvimentista que promove a utilização das reservas de hidrocarbonetos e minerais para
“industrializar o país” – um objetivo que, por enquanto, permanece apenas no plano das intenções – e emancipá-lo da sina histórica de permanecer como um mero exportador de matérias-primas para as metrópoles capitalistas. O resgate das propostas desenvolvimentistas convive com a ideia, tão cara aos neoliberais, da “disciplina fiscal” – um princípio que o governo tem feito valer na prática, com um superávit orçamentário inédito na história recente e um recorde de reservas internacionais, que alcançaram em 2007 a cifra de 4 bilhões de dólares.
Ao mesmo tempo que se mostra pragmático ao propor aos empresários bolivianos a renegociação da sua relação com o Estado, nos termos de um capitalista com a definição de metas claras de investimento e produção, García Linera causa inquietação nas elites locais ao inserir suas formulações políticas na linhagem do pensamento revolucionário de Karl Marx (GARCÍA LINERA, 2005):
Minha visão está enraizada na leitura de Marx que reflete sobre as possibilidades de transição ao socialismo em sociedades atrasadas e comunitárias. (...) O que eu faço como marxista é avaliar os potenciais atuais de desenvolvimento da sociedade. Nosso objetivo não é o capitalismo andino. Isso é o que se pode fazer hoje para potencializar processos de auto- organização e apontar a auto-afirmação econômica no longo prazo. Isso é o que hoje é preciso fazer na perspectiva da revolução socialista no médio prazo. E essa é uma leitura estritamente marxista.
CAPÍTULO II
2. A PETROBRAS E A INTEGRAÇÃO ENERGÉTICA REGIONAL