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Em seus livros e cursos finais, Foucault sugere que os historiadores abandonem seu foco na soberania e, no primeiro volume de História da Sexualidade, invoca a

64 “liberação do privilégio teórico da soberania” (FOUCAUδT, 19ι6, p. κ0). Agamben parece ouvir atentamente esse conselho e parte em uma direção precisamente oposta. Em vez de se desvencilhar do conceito de soberania, o filósofo italiano o radicaliza. Se Foucault localiza a passagem do modelo soberano jurídico-institucional de dominação para o paradigma biopolítico - a inserção da vida no cálculo político - no advento de determinadas técnicas associadas a natalidade, longevidade, saúde e segurança pública na passagem do XVII para o XVIII, Giorgio Agamben parece propor um curto-circuito entre as noções de soberania e gestão da vida nua, de forma a reconstruir a noção de biopoder. Essa foi a hipótese inicial de nosso projeto, que buscou até aqui reconstruir de maneira abreviada o noção de biopolítica tal como desenvolvida por εichel Foucault. Buscaremos, no decorrer do texto, aprofundar a apropriação que o pensador italiano faz do tema em suas análises, destacando deslocamentos, a nosso ver, bastante peculiares.

De saída é preciso notar que a modificação inicial que Agamben imprimi ao pensamento foucaultiano é a ideia de que o biopoder – para Foucault a marca maior da vida política e das formas específicas do poder na modernidade política18 - seria na

verdade tão antigo quanto a próprio tradição política no Ocidente. Para Agambenμ a implicação da vida nua na esfera política constitui o núcleo originário – ainda que encoberto – do poder soberano. Pode-se dizer, aliás, que a produção de um corpo biopolítico seja a contribuição original do poder soberano. A biopolítica é, nesse sentido, pelo menos tão antiga quanto a exceção soberana. Colocando a vida biológica no centro de seus cálculos, o Estado moderno não faz mais, portanto, do que reconduzir à luz o vínculo secreto que une o poder à vida nua (AGAεBEN, 2002a, p. 14)

Afirmando a necessidade de se perguntar por que a política ocidental se constitui primeiramente através de uma exclusão, que seria, em mesma medida, uma implicação da vida nua, Agamben parece questionar diretamente as afirmações de Foucault que buscavam justamente apartar a relação entre biopolítica, o direito e a

18 “A possibilidade de encarregar-se da vida e de seus mecanismos, fazendo com que a espécie entre em duas próprias estratégias políticas, penetrando no domínio do cálculo e da transformação da vida humana, é o que Foucault considera o ''limiar da modernidade biológica' de uma sociedade. Esse limiar é coetâneo do aparecimento, na modernidade, do homem em sua especificidade, na modernidade, do homem em sua especificidade de ser vivo, como um corpo concreto, sujeito e objeto de si mesmo, com uma historicidade própria. Foucault ressalta, nesse limiar, a importância da proliferação de técnicas políticas investindo todo o espaço da existência” (PORTOCARRERO, 2004, p. 141).

65 exclusão. Dirá Foucaultμ “O biopoder não se manifesta pela segregação, banimento e degredo”ν trata-se de um poder que “não tem que traçar a linha que separa as pessoas que obedecem, os inimigos do soberanoν ele opera distribuições em torno da norma.” (FOUCAUδT, 1999, p. 2κ5-6).

Para Agamben, o que caracterizaria a modernidade política não seria tanto a inclusão da zoé na polis – o que é, em si, bastante antigo – ou ainda o fato da vida enquanto tal ter se tornado o objeto fundamental de cálculos e projeções do Estado, mas, antes, o estado de exceção no qual zoé e bíos entrariam em uma “zona de irredutível indistinção” (AGAεBEN, 2002a, p. 12). Será nessa zona de indistinção que Agamben localizará a frágil figura do homo sacer, exercendo um papel fundamental e oferecendo um novo paradigma.

Homo Sacer divide-se em três partes. A primeira, intitulada A Lógica da Soberania, busca traçar, através do esquema foucaultiano que descrevemos há pouco, a ideia de soberania desde as leituras e interpretações modernas até suas raízes greco- romanas. No entanto, será pelas mãos do pensador berlinense que Agamben encontrará toda a força do termo. Em sua obra sobre o drama barroco alemão, Walter Benjamin afirmaμ “O soberano representa a história. Ele segura em suas mãos o acontecimento histórico, como se fosse um cetro” (BENJAεIN, 19κ4. p. κκ).

Embora Agamben não cite diretamente essa passagem, percebe-se claramente sua força ao longo de toda a obra. Em sua Teologia Política, Carl Schmitt dará a definição lapidar da soberania, que levou Benjamin a escrever ao futuro jurista do Terceiro Reich. É tal definição que representa o coração do projeto Homo Sacer, tanto do primeiro livro, quanto em Estado de Exceção e O Reino e a Glória. Carl Schmitt define o soberano como aquele que tem poder de decidir sobre o estado de exceção (ou iustium) onde a lei é indefinidamente suspensa sem ser abolidaμ

Não existe nenhuma norma que seja aplicável ao caos. Primeiro se deve estabelecer a ordemμ só então faz sentido o ordenamento jurídico. É preciso criar uma situação normal, e soberano é aquele que decide de modo definitivo se esse estado de normalidade reina de fato. Todo direito é “direito aplicável a uma situação”. O soberano cria e garante a situação como um todo na sua integralidade (AGAεBEN, 2002a, p. 1κ).

No entanto, se o objetivo de Schmitt é incluir a necessidade do estado de emergência dentro da esfera do direito, de modo a garantir a natureza metafísica do político (AGAεBEN, 2002a, p. 19), Agamben, ao contrário, procura desvelar as

66 coordenadas da lógica constitutiva do poder-vida em relação à soberania. A estrutura do estado de emergência operaria também pela inclusão da vida na ordem jurídica somente na forma de exclusão - e, como situação-limite, se destaca como espaço privilegiado de reflexão sobre a natureza da relação entre poder e soberania. Sendo assim, o soberano não apenas declara, mas também exemplifica o estado de exceção, permanecendo, dessa maneira, dentro e, ao mesmo tempo, uma parte operante do sistema legal baseado no princípio da soberania. No entanto, enquanto fundamento do sistema, o soberano ocupa a posição singular de estar além desse mesmo sistema e, por essa razão, pode declarar sua suspensão.

A noção de soberania parece ter interessado Agamben por muito tempo, ao menos desde A Linguagem e a Morte até Bataille e o paradoxo da Soberania - assumindo papel central em Homo Sacer. A lógica do estado de exceção parece seguir a mesma do exemplo, ou antes da exemplaridade, tal como descrito em A comunidade que vem, e envolve o mesmo paradoxo aparente de pertencer a um determinado conjunto de fenômenos e ser, como seu representante, independente dele. Assim como o exemplo é simultaneamente parte e independente daquilo que exemplifica, o soberano é ao mesmo tempo parte da estrutura legal e autônomo do julgo da lei. A primeira parte de Homo Sacer busca examinar justamente as coordenadas lógicas, ontológicas, legais e históricas do paradoxo da soberania, questionando como a figura do soberano pode estar dentro e apartada de um sistema que depende dele em sua coerência lógica e legal. A questão se apresenta com tal complexidade que será abordada isoladamente em Estado de Exceção - objeto de análise da segunda parte de nosso projeto.

A tese dessa primeira parte do livro circula em torno da afirmação de queμ

a relação política original é o bando (ou banimento). Aquele que foi banido não é, na verdade, simplesmente posto fora da lei e indiferente a esta, mas é abandonado por ela, ou seja, exposto e colocado em risco no limiar em que vida e dinheiro, externo e interno se confundem (AGAεBEN, 2002a, p. 36).

Notemos que o que está em jogo aqui é nada menos que a própria tradição contratualista na filosofia política. Agamben parece desafiar a posição do pacto contratual enquanto fundação e origem do poder do Estado, juntamente com todas as tentativas de estruturar comunidades políticas a partir de noções de pertencimento, seja de matriz popular, religiosa ou qualquer outra forma de identidade. Vemos ainda aqui a ressonância das questões de A comunidade que vem, em que Agamben envereda para

6ι um caminho inesperado e aponta à figura do campo de concentração como paradigma moderno por excelência. Será no sentido de elucidar a maneira pela qual se dá essa articulação que o projeto encaminhará seu desenvolvimento no próximo capítulo.

CAPÍTULO 3 - ESTADO DE EXCEÇÃO, WALTER BENJAMIN E

CARL SCHMITT

Benzer Belgeler