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1. BÖLÜM: KARTEZYEN BEDENDEN SOMATİK OLANA: BEDEN FENOMENİNDE YAŞANAN KAYMA

1.2. Somatik Yaklaşımın Felsefi Zemini Olarak Fenomenoloji

1.2.3. Fenomenolojik Akıl Yürütme

DA VIOLÊNCIA À DISTINÇÃO POLICIAL MILITAR

Neste capítulo, procuraremos demonstrar como a violência policial ilegítima, sob certa perspectiva, na verdade surge como efeito do distanciamento que é criado entre policiais militares e sociedade devido ao processo de socialização pelo qual passam os policiais em formação. Para tanto, demonstraremos as consequências advindas da violência policial, a qual se tornou um problema a ser observado principalmente desde que voltamos a viver em um regime democrático.

O que deve ser ressaltado é como a cultura profissional apreendida nas casernas propicia o exercício de uma autoridade policial baseada em valores como o machismo, por exemplo. Segundo Bretas (1997), por existir concordância nos estudos que reconhecem uma “cultura policial” que regimenta uma “identidade policial”, estaríamos a identificar que uma importante característica que acompanha os organismos policiais seria “a resistência a inovações”, a qual acompanha a sociabilidade entre policiais militares e comunidades no projeto de policiamento solidário.

Na verdade, mostraremos como a distinção policial militar faz parte do “dispositivo de disciplinarização”, ou seja, funciona como mecanismo biopolítico que garante a socialização dos policiais e os tornam os veiculadores do ideal militarista de construir uma sociedade nos moldes militares só que através de um controle social com base no policiamento solidário. Assim, não se trata de “inovações” do policiamento, mas de “estratégias” pelas quais a distinção policial militar seria um dos instrumentos de manutenção do poder.

Em meio a essa discussão, seguiremos adiante para demonstrar que, antes que se configure a violência policial, neste caso, a militar, mostraremos quais são os elementos que perpetuam não só a violência policial, mas o distanciamento entre policiais e sociedade. Ademais, ao considerarmos a presença de um ethos voltado para uma práxis belicista por parte dos policiais militares devido à formação militarista que assim os condiciona, identificamos a importância de uma “honra policial militar” específica, que acaba por gerar uma crença coletiva que, segundo o vocabulário nativo se traduz como o “espírito de corpo”.

4.1 – AS INTERFACES DA VIOLÊNCIA POLICIAL MILITAR NO BRASIL

Visto que as primeiras lutas pelos Direitos Humanos na América Latina e no Brasil consolidaram-se para denunciar as arbitrariedades que eram cometidas contra os opositores dos regimes militares que vigoraram principalmente entre as décadas de 60, 70 e início de 80 do século passado, no caso específico do Brasil a abertura político-democrática serviu para fomentar a esperança de um povo silenciado por instrumentos como o AI-5 e o pragmatismo autoritário pautado pela violência institucionalizada. Nesse contexto, como já destacamos no primeiro capítulo deste trabalho, o período ditatorial em nosso país (1964-1985) foi marcado pela legitimação da violência política através das Forças Armadas e dos organismos policiais militares. No que tange especificamente à violência policial militar, apesar da abertura político-democrática a partir de 1988, a mesma não desapareceu. Manteve-se através de outros parâmetros como instrumento de controle social e também como forma de controle da criminalidade. Por esse foco, tivemos o declínio da violência policial de modo político, porém, essa violência emergiu contextualizada com a opressão à população pobre e marginalizada (MESQUITA NETO, 1999; COSTA, 2004; MACHADO et. al., 1997).

Segundo Belli (2004), pelo fato das violações dos Direitos Humanos constituírem uma política de Estado na ditadura, a restauração da democracia trouxe consigo a esperança de que o conjunto de direitos elencados pela Carta Magna de 1988 seria cumprido, além de ter sido reforçado pelos diversos pactos de Direitos Humanos que o Brasil passou a adotar. No entanto, “o fim do regime militar representou um avanço fundamental ao garantir os direitos políticos e o estabelecimento de instituições democráticas, mas não gerou, necessariamente, um grau mais elevado de respeito aos direitos civis” (BELLI, 2004, p. 23). O que a partir de então passou a ser problematizado em nossa sociedade não era a forma de ação das agências legitimadoras do Estado e o seu discurso de defesa em nome da Doutrina de Segurança Nacional, a qual não tinha mais garantias ideológicas para se manter. Se os presos políticos eram as pessoas visadas com a ditadura, com a transição democrática os presos comuns passaram a ser visibilizados e, decorre de tal fato que,

A década de 90 provou-se extremamente frustrante para aqueles que depositaram tantas esperanças na democratização do país. Tomando a questão de um ponto de vista estritamente empírico, há evidências claras de que as violações apenas se avolumaram. Não obstante, a doutrina de segurança nacional existia apenas para os opositores do regime. A busca da segurança contra o crime não contava com uma doutrina formalizada, mas certamente foi contaminada pelas duras técnicas de combate à subversão. De certa forma, a urgência de superar o regime militar e a esperança de que a democracia eliminaria os abusos de direitos humanos explicariam a menor visibilidade das violações praticadas pelos agentes do Estado na gestão da política de segurança pública propriamente dita (Ibidem, p. 23).

Mas, episódios envolvendo a atuação das Polícias Militares brasileiras ganharam repercussão até mesmo internacional como o que ficou conhecido como o “massacre do Carandiru”, onde 111 presos foram mortos quando da invasão da Penitenciária de São Paulo em 1992 pela PM, durante uma rebelião. Também se destacou a violenta intervenção policial militar contra integrantes do Movimento dos Sem Terra (MST) em Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996, onde 19 trabalhadores rurais foram mortos no confronto com a PM. Apenas para termos uma noção do fenômeno da violência policial militar, “em 1992, A Polícia Militar de São Paulo matou 1.470 civis, um terço do total de homicídios ocorridos no Estado. Este número é 61 vezes maior que o número de civis mortos pela polícia de Nova York no mesmo ano” (COSTA, 2004, p. 19). Ainda sobre a violência policial e o uso da força letal no Rio de Janeiro temos que,

Em 1995, a polícia matou 358 civis em confrontos armados. Para se ter idéia da magnitude desses números, as polícias norte-americanas mataram 385 civis em 1990. Ou seja, na cidade do Rio de Janeiro, com aproximadamente 5,5 milhões de habitantes, as polícias mataram quase o mesmo número de civis que todos os departamentos de polícia dos EUA, país com aproximadamente 240 milhões de habitantes (COSTA apud CANO, 2004, p. 85).

Em meio à complexidade que envolve o tema da violência policial também surge a corrupção e o envolvimento de policiais militares com os ditos marginais. Ao mostrar informações obtidas sobre a atuação de policiais militares em um bairro de Salvador Machado et. al. (1997, p. 217) nos dizem que “existem policiais que, visando extrair vantagens do crime demonstram tolerância, mantêm cumplicidade e se sentindo ameaçados por marginais que reclamam do montante das extorsões ou sabem demais, resolvem eliminá-los através de ações conhecidas como „queima de arquivos‟”.

As Polícias Militares, como sabemos, representam o uso da força física legítima por parte do Estado só que, ocorrem diversas situações nas quais essa legitimidade é posta à prova. Como exemplo, policiais militares podem usar da tortura ou extorsão, quando de serviço, no cometimento de práticas ilícitas que contrariam os preceitos jurídicos que regulamentam a paz social, ou até mesmo quando não estão investidos do exercício da autoridade legal em serviço, perpetuando assim a violência policial. O olhar sobre esse tipo de violência torna-se ainda mais delicado quando ao invés de violento, o ato de um policial é interpretado como o uso da força, como quando se prende alguém de modo excessivo ou desnecessário, mas não ilegal (MESQUITA NETO, 1999). Costa (2004) reconhece sete tipos

principais de violência policial, ou seja, a tortura, detenções violentas, mortes sob custódia, abuso da força letal, controle violento de manifestações públicas, operações policiais e intimidação e vingança.

Nessa consideração, se a sociedade brasileira esperava, com a transição democrática, garantir um controle maior sobre as instituições policiais, já que as Forças Armadas tiveram seus papéis restabelecidos de garantir a defesa externa do país, as forças políticas fizeram-se aparecer para engendrar o limite necessário do controle das instituições repressivas do Estado pela população através de seus representantes legais. E estratégias de Segurança Pública passaram a ser elaboradas. Como exemplo das políticas de Segurança Pública desenvolvidas, em 1995, no governo estadual de Marcelo Alencar, do PSDB, no Rio de Janeiro, foi implementada uma política de enfrentamento contra a criminalidade com o uso do aparato policial. Como forma de incentivo à ação policial o secretário de Segurança Pública à época, o General Newton Cerqueira criou uma gratificação e promoção por bravura que ficou conhecida como “gratificação faroeste”, a qual tinha o objetivo de gratificar policiais que participassem de ações e ocorrências violentas. O resultado de tal política governamental foi que, só nos primeiros quinze meses de vigência da nova gratificação a polícia matou 486 civis, enquanto nos vinte e oito meses anteriores ao referido programa tinham morrido 456 civis mortos por policiais (COSTA, 2004).

Dados mais atuais mostram que, a política de implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio de Janeiro também foi eivada pela utilização ostensiva da violência policial. O processo caracterizou-se inicialmente pela invasão conjunta das favelas por policiais e militares. De acordo com a situação participavam das operações o Bope e a PM, que foram apoiados pela Força Nacional de Segurança Pública, o Exército e a Marinha. Após a instalação física da UPP o policiamento militarizado tornava-se presente e, “os moradores passam a conviver cotidianamente com abordagens e revistas constantes, invasões de moradias por PM‟s em busca de possíveis armas, drogas ou traficantes, e um convívio, muitas vezes hostil, com as forças de ocupação” (ALVES & EVANSON, 2013, p. 20). Em entrevista coletada por Alves e Evanson (2013), uma professora de uma escola em um dos morros onde foi instalada uma base da UPP relatou:

“Aqui é assim, tiro todo dia. Violência. O Caveirão é o símbolo, o símbolo da temeridade. Quando ele chega, todo mundo se apavora porque, segundo as crianças, eles falam coisas horríveis independente de quem é. Se é bandido, se é morador da comunidade, não importa. Dizem “vou te pegar, vou te matar, vou sugar a tua alma”. As crianças têm pavor do Caveirão. Como se fosse um ser de outro mundo, quando falam “o Caveirão chegou”, é o fim do mundo, entram em pânico” (p. 70).

As formas de coibir a violência policial através de mecanismos legais podem ser por meio do controle interno (Corregedorias de Polícia e Justiça Militar) ou externo (Ouvidorias de Polícia, Ministério Público). No entanto, segundo a análise de Zaverucha (2010) sobre a aprovação da Lei nº 9.299, de 1996, que legitima a competência da Justiça Comum para apurar e julgar casos que envolvam crimes dolosos contra a vida praticados por militares contra civis, houve um retrocesso. Mesmo sendo eliminada a competência dos próprios militares para apurar as irregularidades policiais militares nos crimes dolosos contra a vida, ainda ficaram sob a alçada da Justiça Militar crimes mais corriqueiros cometidos por PM‟s como àqueles “contra o patrimônio, abuso de autoridade, espancamento, prisão ilegal, extorsão, sequestro, prevaricação etc.” (ZAVERUCHA, 2010, p. 60).

Neste caso, excluídos os crimes dolosos contra a vida, as demais infrações penais cometidas pelos policiais militares são investigadas e solucionadas por suas respectivas instituições. Se as infrações constituírem crimes militares próprios ou impróprios, da forma em que são elencados e entendidos pela legislação penal militar, utiliza-se o Código Penal Militar (CPM) e o Código de Processo Penal Militar (CPPM), nas considerações respectivas do uso que é feito de ambos os códigos. Nesse contexto, segundo o CPM,35 existem crimes que podem ser praticados em tempos de paz ou em época de guerra, mas o mesmo código é aplicado tanto para as Forças Armadas como para as PM‟s, visto que as últimas são Forças Auxiliares do Exército brasileiro. O que deve ser questionado neste sentido é até que ponto existe corporativismo nos julgamentos de policiais militares que cometem crimes, já que são os próprios PM‟s que julgam os casos desviantes nas instituições policiais militares.

Assim, quando os policiais militares sofrem sanções que não constituem crime, eles cometem transgressões disciplinares, as quais são normatizadas pelo Regulamento Disciplinar da Polícia Militar (RDPM). O campo de aplicação desse código prescritivo institucional compete em apurar as transgressões disciplinares que consistem em “qualquer violação dos princípios da ética, dos deveres e das obrigações policial-militares, na sua manifestação elementar e simples e qualquer omissão ou ação contrária aos preceitos estatuídos em leis, regulamentos, normas ou disposições, desde que não constituam crime”.36 Assim, fica estabelecido que os crimes militares devem ser apurados formalmente por meio de Inquérito Policial Militar (IPM). Caso ocorram transgressões disciplinares, o processo formal para

35 Ver Código Penal Militar.

36 Ver Decreto nº 8.962, de 11 de março de 1981, que dispõe sobre o Regulamento Disciplinar da Polícia Militar do Estado da Paraíba e dá outras providências.

constatar a veracidade do fato será avaliado numa Sindicância, que se trata de um Procedimento Administrativo. Assim como no IPM, segundo o dispositivo constitucional elencado no Art. 5º, inciso LV, “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes” (BRASIL, 1988).

Ao destacar, pois, a ampla defesa e o contraditório como recursos democráticos legítimos inerentes ao acusado policial militar (sindicado), estamos também a falar de que, o recurso da Sindicância é o modo que as pessoas podem utilizar para denunciar violações cometidas pelos policiais militares. Poderíamos dizer que esse Procedimento Administrativo trata-se de uma primeira instância em que as pessoas podem formalizar suas denúncias, pois, ao final da Sindicância, que deve ser realizada no período máximo de vinte dias prorrogado por mais dez dias, o responsável pela apuração do caso (que se trata de um Oficial policial militar),37 pode indicar se houve a transgressão ou se houve crime militar. Se for constatado o último, é aberto um IPM para um levantamento mais acurado das provas.

No momento dos depoimentos das supostas vítimas dos policiais militares ou das testemunhas que possam ter observado a ação transgressora ou criminosa por parte de um policial militar, pela força do dispositivo do inciso LV, do Art. 5º da Constituição Federal, vítimas/testemunhas e acusados ficam frente a frente, “olhos nos olhos”, pois, os acusados podem comparecer em todo o processo acusatório para garantir os seus direitos de defesa. Caso os supostos acusados não sejam avisados pelo Oficial responsável (sindicante) do horário e local dos depoimentos das pessoas que os acusam, o mesmo pode relutar contra tais acusações mediante o dispositivo constitucional citado e pedir pela anulação do Procedimento Administrativo. Até mesmo nas situações em que as pessoas da sociedade que são vítimas ou testemunhas de delitos praticados pelos policiais militares têm a chance de denunciá-los, por falta de uma legislação específica, acabam desistindo, em muitos casos, mediante uma “violência simbólica” sustentada pelo medo de ficar de frente aos seus supostos algozes, já que neste sentido “a insegurança é símbolo de morte” (DELUMEAU, 2009, p. 23).

O que estamos a destacar é que o sistema de justiça militar funciona de modo a favorecer a impunidade e a prática da violência policial militar, visto que são os próprios policiais militares os responsáveis por julgar as infrações cometidas pelos “companheiros de

37 De acordo com as normas regulamentares policiais militares, o quadro organizativo das instituições PM‟s comportam dois quadros funcionais distintos: o de Oficiais e o de Praças. Apesar de ambos os quadros terem divisões hierárquicas que distinguem as diversas localizações dos servidores policiais militares dentro das organizações PM‟s, a divisão basilar permite especificar que aos Oficiais cabem as funções de comando e às Praças às funções de execução. Para conhecimento do Quadro Hierárquico da Polícia Militar do Estado da Paraíba ver Lei nº 3.909, de 14 de julho de 1977.

farda”. Além disso, se existe uma legislação penal específica para os militares, é também porque estamos tratando de uma profissão que demonstra a existência de diferenças entre os policiais militares e a sociedade, a qual é sancionada pela Justiça Comum.

Por esse escopo, o que está em jogo é a regulamentação da conduta dos policiais militares, pois, “tais normas têm por finalidade disciplinar a atuação dos policiais em diversas situações, sobre as quais a legislação penal não é muito clara. Visam, portanto, estruturar a relação entre a polícia e a sociedade” (COSTA, 2004, p. 103). O que deve ser observado, no entanto, é que o RDPM tem por princípio a correção de atitudes e comportamentos com fins de fortalecimento da disciplina e da hierarquia pouco se atendo a regular as ações que dizem respeito ao policiamento nas ruas, ou seja, “como o policial será avaliado pelas normas ditadas pelo RDPM e não por sua atitude com a população, freqüentemente “bons” policiais (do ponto de vista da hierarquia e disciplina) são flagrados em cenas de abuso de autoridade e violência contra cidadãos” (Ibidem, p. 104). Então, se os desvios praticados pelos policiais militares quando dizem respeito à quebra da disciplina e hierarquia têm mais relevância para a instituição do que a violência praticada por seus agentes contra a sociedade, como se estrutura, então, essa crença na importância da disciplina e hierarquia como forma de tornar os policiais militares distintos da população civil?

4.2 – SOBRE A DISTINÇÃO POLICIAL MILITAR

Para entendermos como se estrutura o distanciamento entre a Polícia Militar e a sociedade no cotidiano, comecemos este tópico relatando situações obtidas durante a observação de campo. Ao conversar com um Capitão,o mesmo narrou-nos o fato de que, quando ainda era Tenente, ele estava sendo levado por sua esposa de carro para o Centro de Educação, quartel de formação dos policiais militares paraibanos, pois lá era seu local de trabalho. Ao chegarem, sua esposa avistou o “corneteiro” do quartel e ela perguntou-lhe o que aquele corneteiro fazia ali, o que foi respondido pelo então Tenente que: “ele estava ali para dar os toques de corneta durante as formaturas e quando o Comandante entra e sai do quartel”. E sua esposa ainda indagou-lhe: “E o Estado paga ele pra isso? Não era mais fácil gravar os toques em um CD e colocar num sistema de som?”

No relato de um Sargento, o mesmo contou-nos que, quando da realização de uma das edições do CESP (Curso de Especialização em Segurança Pública),38 um fato chamou sua

38A participação no Curso de Especialização em Segurança Pública é obrigatória para os policiais militares que estão no posto de Capitão, pois o referido curso funciona como requisito institucional para a promoção ao posto subsequente de Major.

atenção. Um dos capitães do curso exigiu que a camisa branca usada pelos alunos do CESP tivesse sua cor modificada para que eles não fossem confundidos com os alunos do CHO (Curso de Habilitação de Oficiais), já que esses últimos também usavam cotidianamente no curso que frequentavam uma camisa branca como fardamento, só que eles são hierarquicamente inferiores aos capitães,39 pois quando se formam podem ser promovidos a 2º Tenente, dois postos anteriores ao de Capitão.

A partir dos fatos narrados podemos começar a explicar o que passamos a conceituar por “distinção policial militar”. Para tanto, também serão discutidos aspectos da literatura que podem ajudar a compor um modelo “típico-ideal” da experiência e identidade de PM. Em “Memórias de um Sargento de Milícias”, livro lançado em 1854 por Manuel Antônio de Almeida, o autor nos traça um perfil do que era ser um meirinho “nos tempos do rei”,40 já que eram esses os homens responsáveis por manter a ordem social, ou seja,

Os meirinhos desse belo tempo não, não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos: nos seus semblantes transluziam um certo ar de majestade forense, seus olhares calculados e sagazes significavam chicana. Trajavam sisuda casaca preta, calção e meias da mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático espadim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco, cuja significação ignoramos, e coroavam tudo isso por um grave chapéu armado. Colocado sob a importância vantajosa destas condições, o meirinho usava e abusava de sua posição (ALMEIDA, 2012, p. 13-14).

Observamos nas palavras do autor um tipo de descrição que lembra a forma como Foucault (1987) nos mostra que, durante o século XVIII o soldado passou a ser algo