1. BÖLÜM: KARTEZYEN BEDENDEN SOMATİK OLANA: BEDEN FENOMENİNDE YAŞANAN KAYMA
1.2. Somatik Yaklaşımın Felsefi Zemini Olarak Fenomenoloji
1.2.2. Fenomenolojide Temel Kavramlar
POLICIAMENTO SOLIDÁRIO E BIOPOLÍTICA
As instituições policiais, responsáveis por prover a ordem pública, surgiram a partir de configurações específicas que estão associadas ao surgimento dos diversos Estados nacionais modernos que se formaram na Europa especialmente após a eclosão da Revolução Francesa ocorrida em 1789. E no que se trata especificamente da atuação das forças policiais militares em nosso país, acredita-se que a violência policial enquanto um excesso de poder (TAVARES DOS SANTOS, 2009) conformou-se historicamente contribuindo para o distanciamento entre instituições policiais e sociedade.
Baseando-se nessa constatação histórica, neste capítulo, com o fito de analisarmos o significado do vem a ser o “dispositivo de disciplinarização”, o qual se vincula a relações de poder que surgem no processo de implantação de uma “polícia de proximidade”, discorreremos inicialmente, a partir do conceito do que é a polícia, sobre como se caracterizavam as formas de policiamento anteriores ao modelo moderno de polícia. Esse último, pois, desenvolveu-se atrelado à centralização política própria do que passamos a conhecer como Estado-nação. Ao contrário do modelo de polícia atualmente conhecido, os modos anteriores de policiar a sociedade, localizados no período feudal europeu, firmaram-se pela descentralização política que vigorou no regime social citado. Dessa forma, a perspectiva sociológica eliasiana será adotada para demonstrarmos quais foram as dinâmicas sociais que desencadearam as transformações responsáveis pela criação das polícias modernas.
Então, se o nosso foco inicial é pousar o olhar sobre as instituições policiais criadas na modernidade a partir da administração estatal própria do mundo europeu pós-Revolução Burguesa, temos que, como já sabemos, surgidas do desdobramento de funções antes exercidas pelos Exércitos nacionais, os quais passaram a cuidar apenas dos assuntos voltados para a defesa externa dos nascentes territórios nacionais, após a institucionalização do Estado moderno, coube às polícias regulamentarem a ordem interna. Além disso, as polícias também passaram a se responsabilizar pela manutenção do estado de equilíbrio entre os indivíduos que começaram a viver numa sociedade mais complexa em suas estruturas sócio-político- econômicas. Essa complexidade, no entanto, será analisada sob o ponto de vista que reconhece na polícia um importante aparato de dominação estatal, o que levou as organizações policiais a participarem da lógica disciplinar sob as condições do militarismo,
fato esse explicado pela dimensão teórica foucaultiana, que dimensiona a polícia como um “mecanismo de segurança”.
Por fim, observaremos como se contextualiza a atuação das Polícias Militares de modo a dimensionarmos o que vem a ser uma “sociabilidade estratégica”. Importa melhor entender como as instituições policiais militares participam de relações estabelecidas por formas específicas de governar que se baseiam em sociabilidades que engendram relações estratégicas de poder e que conformam uma dissimetria mais sofisticada entre grupos humanos, neste caso, entre policiais militares e sociedade.
Buscaremos, pois, desenvolver uma forma de análise que descortine o caminho entre sociabilidade e relações de poder, onde a “vida nua” (AGAMBEN, 2010), ou aquela que merece ser extinguida, ganha notoriedade no processo de implantação do policiamento solidário. Segundo nossa perspectiva, o que está em jogo são formas de controle social mais eficazes por parte daqueles que dominam, onde se revela uma lógica em que, por meio do discurso da cidadania, todos ajudam a tornarem-se agentes imbuídos de seu próprio controle (PASSETTI, 2003), ao mesmo tempo que lutam para limpar a sociedade daqueles que se distanciam desse processo.
3.1 – A ORIGEM DAS ORGANIZAÇÕES POLICIAIS, O PROCESSO DE CIVILIZAÇÃO MODERNO E O MONOPÓLIO ESTATAL DA FORÇA
A origem do termo polícia, em consonância com a palavra política, remete-se etimologicamente ao grego politeia. Nesse âmbito semântico, tal termo, se observado a partir da época de Aristóteles e Platão, referiu-se tanto à cidade (polis) enquanto uma comunidade política quanto à arte de governá-la. Assim, a partir da época dos citados filósofos, o conceito passou a identificar o conjunto de leis utilizadas para administrar a cidade-Estado, bem como, aos guardiães responsáveis por se fazer cumprir essas regulamentações. Observa-se, nesse sentido, o início do processo histórico que determinará a distinção entre as autoridades que editam as leis e as forças policiais que, quando preciso, pelo uso da força, impõem o respeito ao que foi editado como regras legais (MONET, 2002).
Nesse curso, os romanos se apropriam do termo grego politeia para designar cidade, mas criam, a partir daquela, a palavra politia, de origem latina. Como forma de assegurar a administração do império sobre os súditos, cria-se em Roma a função de praefectus urbis (“prefeito da cidade”), a qual, sob certos aspectos, legitima também o caráter ambíguo das funções policiais ao garantir a constituição de leis que regulamentam a vida social como um
todo, bem como, o exercício da autoridade mediante a força. Ou seja, administração política e coerção caminham juntas para caracterizar a atuação policial antiga como mecanismo político de dominação.
Chegado o final da Idade Média retoma-se, na Europa, a noção de polícia, que reaparece juntamente com a redescoberta do direito romano que passa a ser lecionado nas diversas universidades. Na França e na Alemanha, em meio à aristocracia, o termo polícia ganha significância ao direcionar-se para traduzir um “bom governo” que edita “boas leis” que são aplicadas no corpo social.
A abrangência do termo consolida-se, de forma moderna, com a promulgação da Assembleia Constituinte francesa pós-revolução em 1791, onde além da função de vigiar a sociedade em nome da segurança, polícia também ganhou o sentido voltado para a atuação de outras instituições que passaram a garantir os recém-adquiridos direitos sociais, políticos e econômicos, tanto na esfera privada como na pública. De todo modo, dado que a força diretiva do modelo das polícias modernas e profissionalizadas é algo recente no contexto histórico, pois data da implantação do regime absolutista e de sua transição para o Estado- nação31, passamos a destacar as transformações históricas que, segundo o propósito que adotamos neste trabalho, tornam-se relevantes para melhor compreendermos o surgimento das instituições policiais modernas, se interpretadas pelo prisma sociológico. Nesse sentido, os estudos de Norbert Elias sobre o processo civilizador enquanto um empreendimento histórico que se configura ao longo do tempo e que, de modo análogo, enseja mudanças internas nos indivíduos ao mesmo tempo em que conforma as estruturas sociais será o caminho escolhido. Tal percurso se deve ao fato desse autor mostrar uma interrelação existente entre as mudanças nos comportamentos dos indivíduos e como essas transformações refletiram para a consolidação dos Estados modernos.
Segundo Elias (1993, 1994a, 2006, 2008, 2011), as dinâmicas sociais são estruturadas pelas interdependências que os indivíduos desenvolvem no meio social, ou melhor, pelos diversos elos e imbricações que, por se complexificarem no transcorrer histórico devido ao aumento das funções desempenhadas pelos indivíduos, acabam por formatar um contexto social que independe das vontades ou da intenção de cada indivíduo em particular. O que passa a importar para a compreensão do todo social é como através de processos de “longa duração”, por meio de integrações que surgem de tensões e conflitos entre os próprios
31 Mostramos no Capítulo 1 que a polícia moderna surgiu tendo como modelo a Polícia Metropolitana de Londres fundada por Robert Peel, no entanto, a polícia londrina tornou-se a consolidação de um processo que se estruturou a partir do Absolutismo, onde forças estatais remuneradas passaram a ter a responsabilidade pela segurança interna e externa dos Estados nacionais que surgiram com a derrocada do regime feudal na Europa.
indivíduos e entre classes e grupos de indivíduos, novas configurações (relações de dependência recíprocas) passam a atuar determinando condições específicas de existência que dependeram da maneira como pessoas do passado agiram socialmente e psicologicamente em relação a si mesmas.
E já que Elias leva em consideração, como dito, os processos ao longo do tempo para mostrar as transformações e surgimento de novas configurações no seio das sociedades, sua teoria sobre o processo civilizador no tocante à gênese do Estado moderno e suas instituições passa a nortear nosso percurso. Os estudos sobre o processo civilizador servem para sedimentar nosso conhecimento sobre o desenvolvimento histórico das organizações policiais militares e também sobre a constituição do modelo que condiciona seus profissionais no controle externo dos indivíduos e no intenso controle interno das pulsões afetivas e instintivas.
Para Elias (2011), o processo civilizador diz respeito à forma como os indivíduos, num tempo histórico decorrido a longo prazo, passaram por transformações que os levaram a adotar um controle do comportamento que de maneira gradativa foi interiorizado para controlar as pulsões, instintos, afetividades e formas de agressividade. Esse controle intenso dos modos de ser e atuar na sociedade passou a estar presente na conduta dos indivíduos com mais afinco na passagem do medievo para a era moderna e, segundo o autor, o estudo de diversas nuances (modos de se comportar à mesa e no trato direto com as pessoas na sociedade, formas de se expressar verbal e corporalmente, o uso da agressividade nas sociabilidades cotidianas, a expressão da sexualidade) dos padrões de relacionamento sociais comprovam essa passagem de uma coerção externa para um policiamento interno das condutas. Esse processo caminhou direcionado para privar as pessoas de situações de constrangimento, vergonha, nojo ou qualquer atitude que pudesse causar repugnância no outro mediante ao que fosse visualizado nas diversas interações sociais.
Ao analisar manuais de etiqueta lançados no medievo para ensinar, especialmente crianças aristocráticas, a como se distinguir através do regramento corporal de pessoas de estratos sociais inferiores, revela-se o surgimento de uma condição estrutural que independe da vontade individual de qualquer indivíduo e que também não foi projetada por nenhum deles. Eis que essa estrutura social, o processo civilizador, alcança projeções que, ao mesmo tempo em que mantém o equilíbrio de novas configurações, estabelece distinções entre os indivíduos que convivem no mesmo espaço territorial e também a visão etnocêntrica do povo europeu ocidental em relação aos demais povos ditos “descobertos”, os quais tiveram que civilizar suas culturas mediante a consciência civilizatória que o ocidente tem de si mesmo.
As análises de Elias sobre essa formatação social centram-se nas eras medieval e moderna como modelo para demonstrar como ocorrem as mudanças entrelaçadas nos campos psicológicos e sociais das redes de convivência desenvolvidas pelos indivíduos em meio a novas configurações de poder que são exercidas nessas mesmas redes. E é nessa época que o processo civilizador se mostra com mais concretude se analisados os tempos anteriores ao período humano historicamente conceituado de moderno. Nesse foco, para Elias (2006), o processo de civilização se descortina desde a aparição humana na Idade da Pedra, o que nos ensina que todas as sociedades possuíram ou possuem seus padrões determinados de coações externas e internas em níveis que oscilam de acordo com as exigências sociais, o que pode colocar a civilização dos costumes e comportamentos em fases de desenvolvimento e regressão. De todo modo, na análise histórica de longo tempo, Elias (1993) relata que a imposição de códigos sociais apreendidos para harmonizar as relações coletivas tiveram nas cortes aristocráticas da passagem da Idade Média para a moderna os espaços par excellence criadores das novas atitudes que fomentaram a perpetuação do processo civilizador baseado na internalização do controle externo.
Nessa esfera, segundo Elias (2011), podemos entender o processo civilizador ao reportarmo-nos à teoria do jogo esboçada por ele mesmo, a qual enseja a compreensão das relações de poder entre os indivíduos e grupos na sociedade, além do próprio conceito do que vem a ser a sociedade. Falamos, pois, da concepção das relações que os indivíduos estabelecem entre si a partir da interdependência recíproca e dos laços de interconexão entre as diferentes posições que assumem no meio social. Nesse sentido, para Elias (2008), os indivíduos – “jogadores” – assumem caminhos que não foram antecipadamente planejados ou pensados por nenhum deles, mas o desenrolar do “jogo” acaba por influenciar de forma constante as atitudes individuais de todos os participantes. Assim, o processo civilizador pode ser entendido, no que tange ao seu desenvolvimento, como o modelo em que
O processamento do jogo adquire uma autonomia relativa quanto a planos e intenções de qualquer dos jogadores individuais que, através das suas acções, criam e mantêm o jogo. Isto pode ser expresso dizendo-se que o decurso do jogo não está no poder de qualquer jogador. O reverso da moeda é que o decurso do próprio jogo tem poder sobre o comportamento e pensamento dos jogadores individuais, uma vez que as suas acções e ideias não podem ser explicadas e compreendidas se forem consideradas em si mesmas; precisam ser compreendidas e explicadas no interior da estrutura do jogo. O modelo mostra-nos como a interdependência das pessoas enquanto jogadores exerce coacção sobre cada um dos indivíduos que estão ligados deste modo; a coacção radica na natureza particular da sua relacionação e dependência enquanto jogadores (Ibidem, p. 104).
Essas ligações recíprocas, quando observadas na sociedade de corte, dizem respeito a uma lógica social ancorada por uma forma de racionalidade específica às interrelações mantidas nos estratos aristocráticos, sem delegar a origem do processo civilizador à ação individual das pessoas que estavam envolvidas nessa interdependência. Essas interações desenvolviam-se por meio de elos de proximidade (inclusive mediante conflitos) e, com as transformações que passaram a mudar o quadro social com a ascensão burguesa, os conjuntos de interdependência entre os indivíduos tornaram-se cada vez mais complexos, o que culminou com a fragmentação da monarquia absolutista e estabeleceu o Estado-moderno como nova realidade política. Nessa apreciação, destaca-se o fato de que a análise desses processos de longa duração, nos termos de Elias, deve levar em conta o comportamento humano de acordo com a realidade social vigente, pois a “realidade dos cortesãos é diferente da dos burgueses” (ELIAS, 2001, p. 109). No entanto, “a primeira é um estágio anterior e uma condição da segunda em termos de desenvolvimento. Comum a ambas é a preponderância de concepções de longa duração sobre as emoções imediatas quando se trata de controlar o próprio comportamento” (Ibidem, p. 109).
Nesse âmbito, Elias (2011) fala de uma “curva civilizadora” e, conceitualmente ele procura destacar como atitudes psicológicas humanas direcionadas para o autocontrole corporal podem estar conectadas com o desdobramento e formação de estruturas macrossociais, já que as dinâmicas sociais dependem das interconexões estabelecidas entre os indivíduos, ou melhor, das relações entre os diversos estratos sociais e das funções que cada pessoa assume que a faz estar ligada aos grupos sociais existentes num tempo histórico dado. Para ele seria a relação entre “psicogênese” e “sociogênese”, o que se traduz em processos sociais de “individualização” onde, através de socializações vinculadas ao controle interno das pressões emocionais ao mesmo tempo se distribuem relações e funções multidirecionadas entre os membros da sociedade. A partir dessa consideração, Elias (1993) buscou demonstrar como o controle interno das vontades pulsionais, quando estudadas as mudanças sociais em gerações distintas, influenciaram diretamente na consolidação de esferas sociais mais abrangentes como o são os Estados modernos.
Nesse contexto, Elias (1993) nos esboça o entrelaçamento sócio-histórico que, desde o processo de feudalização caminhou no sentido de mudanças nas relações de poder que estavam associadas à dinâmica da civilização. No período feudal, pois, os reis, em virtude do enorme império construído por conquistas, ao distribuir áreas aos senhores de terras ou “oficiais”, os quais representavam a autoridade central por elos de confiança e para se fazer
cumprir os ditames reais, delegava-lhes o exercício das funções judiciárias e policiais, assim como funções militares que os colocavam na posição de guerreiros que duelavam contra as ameaças dos inimigos externos. Mas, na verdade, esses homens que assumiam o comando das ações de governo eram agricultores e, só em tempos de imprevisibilidades e em épocas estabelecidas, exerciam o poderio da guerra como oficiais. Nesse estágio, que Elias identifica como uma fase constante de duelos entre forças articulam-se centralizações e descentralizações - estas últimas com maior predominância - que fazem as relações de poder basearem-se nas conquistas e manutenções dos territórios feudais. Era comum às classes guerreiras feudais utilizarem do artifício do embate físico como estratégia de sobrevivência e dominação.
O que percebemos no processo de feudalização é que não existiam instituições de controle social para coibir a prática da violência, pois essa fazia parte das interações sociais cotidianas próprias ao período de modo que, “o prazer de matar e torturar era socialmente permitido. Até certo ponto, a própria estrutura social impelia seus membros nessa direção, fazendo com que parecesse necessário e praticamente vantajoso comportar-se dessa maneira” (ELIAS, 2011, p. 185). Só que, o desenvolvimento a longo prazo das estruturas de conquistas caminhou na direção do monopólio territorial centralizado no rei, com a crescente fragmentação das classes guerreiras independentes e, ao mesmo tempo, com o surgimento das cortes feudais que exigiam a utilização de comportamentos refinados e o controle dos afetos que se traduzem na courtoisie. Com as modificações das condições sociais não só a courtoisie caiu em desuso para ceder espaço à civilidade dos costumes, mas no século XVIII, com o surgimento das monarquias absolutistas, consolida-se o conceito de civilização.
O que aqui buscamos demonstrar é como, nesse decurso histórico, o monopólio administrativo gerou instituições de controle social. Ocorre que a transição entre a cortesia e a civilização se deu com elementos da aristocracia feudal que se mantiveram, até certo período, nas monarquias absolutistas, até serem extintos por completo. Nesse sentido, os antigos guerreiros independentes da estrutura feudal transformaram-se em cortesãos e passaram a viver sob o regime da nobreza sendo subsidiados pelo rei e esse fato se desenvolveu concomitante às pressões exercidas pelos estratos burgueses emergentes que buscavam ascensão social. O que se destaca nesse ponto é que a criação da nobreza cortesã, onde os nobres disputavam a primazia da proximidade com o soberano e não exerciam nenhum tipo de atividade profissional a não ser participarem da corte e receberem privilégios reais, foi um ato estratégico por parte do monarca. Assim agia o rei para manter todos sob seus olhares e impedir a ascensão burguesa através da adoção de mecanismos sociais de distinção inerentes à
aristocracia, já que a interdependência e tensão entre nobres e burgueses caracterizava a vida cortesã. De modo sintético podemos dizer que,
A pressão constante exercida a partir de baixo e o medo que induzia em cima foram, em uma palavra, algumas das mais fortes forças propulsoras – embora não as únicas – do refinamento especificamente civilizado que distinguiu os membros dessa classe superior das outras e, finalmente, para eles se tornou como que uma segunda natureza. Isto porque a principal função da aristocracia de corte – a função que desempenhava para o poderoso suserano – era exatamente distinguir-se, conservar- se como uma formação social à parte, um contrapeso à burguesia. Tinha inteira liberdade para gastar o tempo refinando a conduta social distintiva, das boas maneiras e do bom gosto (ELIAS, 1993, p. 251-52).
Só que, com a fragmentação da vida na corte e a ascensão e afirmação dos estratos burgueses com o exercício de ocupações profissionais, a influência da sociedade de corte foi diminuída, embora não estivesse ausente por completo. O prestígio social passou a ser orientado para o dinheiro e as profissões em detrimento do refinamento da vida cortesã.
Temos que deixar claro que esse processo foi de certo modo comum a todo o Ocidente europeu regido pelo princípio aristocrático de corte, mas as análises de Elias se debruçam