• Sonuç bulunamadı

BÖLÜM 2: GERİ ÖDEME YÖNTEMLERİ

2.3. Sağlık Hizmetlerinde Geri Ödeme Yöntemlerinde Yeni Kavramlar

2.3.3. Ödenmeyen Önlenebilir Olaylar (Non-Payment Preventable Events)

2.3.3.4. HKD 04-III ve IV. Evre Bası Yarası

Este momento da pesquisa foi desenvolvido ao longo de duas viagens às aldeias Satere Mawe.

O procedimento efetuado na primeira viagem foi delineado a partir da necessidade de ampliar, para os demais participantes da pesquisa, o diálogo sobre as categorias trazidas pela professora Cristina no primeiro momento da tradução – mi’akurek/feitiço e mikyry’iwo

hap/judiação. Tomamos como referência, para orientar-nos, as considerações efetuadas por

Giordano (2009). Essa autora evidencia que interlocutores/tradutores em um diálogo intercultural necessitam ser “muito mais do que intérpretes, peritos em encontrar equivalências entre línguas; [...] [é necessário] que sejam malabaristas de palavras e conceitos, suficientemente flexíveis para que os façam ressoar na língua do Outro [...]” (GIORDANO, 2009, p. 161).

A categoria mikyry’iwo hap/judiação, identificada preliminarmente como uma

experiência de loucura, remete-nos ao que, do ponto de vista da Psicologia, delimitamos

como a dimensão psíquica da experiência. O sentido de psíquico, por sua vez, reporta-nos a dimensões como o espírito, a alma. Assim, visando oferecer uma indicação conotativa mais próxima da visão de mundo dos Mawé, consideramos sofrimento da alma como uma expressão flexível para ressoar em sua língua. Além da perspectiva de trazer esse argumento para a zona de contato, consideramos a importância de apresentar a expressão sofrimento

mental, por ser representativa do contexto em que vêm se dando as atuais propostas de

mudança na atenção à saúde mental no Brasil.

Em relação ao argumento sofrimento mental, contudo, como lidar com a dicotomia corpo e mente a que remete e que entendemos estar ausente na tradição cultural Mawe? O malabarismo de palavras e conceitos apontado por Giordano (2009) começou a ser exercitado durante o encontro com os professores Mawe nas aulas de Psicologia da Educação. Nessa ocasião refletimos sobre o fato de que, embora o objeto da Psicologia esteja voltado à dimensão psíquica/mental, esta não pode ser dissociada das outras dimensões da experiência humana. Assim, consideramos que os professores Mawé participantes do diálogo, duplamente tradutores – de línguas e de saberes –, têm informações para problematizar e reinterpretar, para os demais Mawé, o argumento do sofrimento mental.

Para dar continuidade ao diálogo e delimitar o campo psíquico da loucura, optamos pela realização de mais um diálogo com um grupo, sobre o sofrimento da alma, o sofrimento

mental definido como o que não é do corpo (uma pessoa com dor de barriga, com dor de dente...) e sim da alma, da mente das pessoas, ao mesmo tempo referindo-o ao sentido de mikyry’iwo hap/judiação informado pela professora Cristina. Esses foram os topoi/argumentos que trouxemos para a zona de contato no segundo diálogo com um grupo,

durante o XXVIII Encontro Pedagógico dos Professores e Lideranças Indígenas Satere-Mawe dos Rios Marau e Urupadi, realizado na comunidade Santa Isabel no final de abril de 2008. Participaram desse diálogo 17 Satere Mawe: três tuxauas; um pajé e tuchaua; um capitão; um capataz; dois professores; uma professora; um agente indígena de saúde; duas parteiras e idosas; dois idosos; um jovem; uma jovem; e um agricultor e caçador.

A seguir, apresentamos o quadro de integrantes do segundo diálogo com um grupo.

Nome Papel Social Aldeia de Moradia Idade Fala

Português

Vitor Alves Tuxaua Sagrado Coração (Rio Urupadi) Não sabe Não

Ferdinando Ribeiro Tuxaua N. S. de Nazaré (Rio Marau) 59 anos Não

Deusdete Alves Tuxaua Terra Nova (Rio Marau) 49 anos Sim

Caetano de Oliveira Pajé e Tuxaua Livramento I (Rio Marau) Não sabe Pouco

Álvaro Tibúrcio Neto Capitão Nova Liberdade (Rio Marau) 62 anos Sim

Alcides Neto Capataz Nova Liberdade (Rio Marau) 39 anos Não

Cristina de Souza Professora Terra Nova (Rio Marau) 38 anos Sim

Edvaldo de Oliveira Professor Monte Salém II (Rio Urupadi) 33 anos Sim

Euzébio Torquato Professor Santa Izabel (Rio Marau) 33 anos Sim

Garnete Santana Agente de Saúde Santa Izabel (Rio Marau) 26 anos Sim

Nadir Pereira Parteira (idosa) N. S. de Nazaré (Rio Marau) 55 anos Pouco

Sebastiana Oliveira Parteira (idosa) Nova Liberdade (Rio Marau) Não sabe Não

Hermínio dos Santos Idoso Vila Batista (Rio Marau) 61anos Não

Danilson (não inf.) Idoso N. S. de Nazaré (Rio Marau) 59 anos Sim

Laidisson Batista Jovem São Benedito (Rio Urupadi) 22 anos Sim

Raquel Miquilhes Jovem Nova Esperança (Rio Marau) 23 anos Sim

Lourenço Torquato Agric./Caçador Santa Izabel (Rio Marau) Não inf. Não

Produção e reflexão em um diálogo Intercultural | 131

Dentre esses participantes, oito estiveram presentes no primeiro grupo (nomes em negrito). São dez as comunidades nas quais os participantes residem, sendo que duas não tiveram representantes no primeiro grupo (em negrito) e quatro do primeiro grupo não tiveram representantes no segundo (Boas Novas, no Rio Marau, e Santa Maria, Vale do Quiinha e Menino Deus, no Rio Urupadi). Desde o primeiro grupo participaram, portanto, representantes de 14 comunidades Mawe (12 diferentes comunidades no primeiro diálogo e duas novas no segundo). Podemos observar, assim como no diálogo anterior, que estiveram presentes mais de um representante da mesma categoria social.

Observamos, ainda, que uma das parteiras, que também participou do primeiro grupo, durante o segundo já fala um pouco da língua portuguesa e comunica a sua idade, que antes referiu não saber. Este fato auxilia-nos a refletir sobre a velocidade com que os Mawe vivenciam mudanças, além de demonstrar, no caso do conhecimento da idade – aspecto que, para os idosos, não tem maiores significados, mas que solicitávamos informarem em sua apresentação –, a efetividade das interações que estabelecemos ao longo da pesquisa. A tradução de uma língua para a outra foi efetivada pelos professores Euzébio, Edvaldo e Cristina, os mesmos que haviam realizado essa tarefa no diálogo com o primeiro grupo.

Na viagem seguinte à área do Marau, antes de nos dirigirmos à aldeia Terra Nova, sede do XXIX Encontro Pedagógico realizado em novembro de 2008, visitamos a Casa de Saúde do Índio (CASAI) da cidade de Maués, com o objetivo de consultar os registros de hospedagens de pessoas Mawe indicadas como pacientes psiquiátricos e encaminhadas para serviços de saúde mental. Nessa ocasião, fomos informadas de que um dos indígenas Mawe ali hospedados se encontrava em sofrimento mental e que havia retornado, recentemente, de consulta psiquiátrica em Parintins (município sede do Distrito Sanitário Indígena responsável pela atenção à saúde dos Mawe). O diálogo que realizamos com esse Mawe, no qual a tradução entre línguas foi efetivada por outro indígena também hospedado na CASAI e que era bilingue, não foi gravado em respeito ao estado dele naquele momento.

Além disso, tivemos acesso a uma relação de 20 (vinte) Mawe da área do Marau que fazem uso de medicação controlada (no Anexo Q apresentamos o documento modificado, para resguardar o anonimato das pessoas citadas). Embora alguns medicamentos listados possam ser utilizados em casos de surtos psicóticos, também são empregados para outros problemas de saúde. Contudo, uma indígena da relação (citada pelo nome de Maria) faz uso de uma medicação que, em geral, somente é empregada nos primeiros casos (Haloperidol 5mg).

Embasadas nas informações obtidas na CASAI de Maués e nas argumentações já desenvolvidas, procedemos a novos diálogos: (1) com o indígena (ao qual chamaremos Carlos) em sofrimento mental, hospedado na CASAI (acima referido); (2) com os familiares desse indígena na aldeia em que residia, à qual tivemos acesso por situar-se próxima da localidade de realização do XXIX Encontro Pedagógico (a tradução entre línguas foi efetivada pelo professor Deoclides, que não participou dos diálogos anteriores); (3) com um professor, presente no Encontro, que reside na mesma comunidade da indígena usuária de medicação antipsicótica (a qual chamaremos Maria) e tem familiaridade com o seu caso (esse professor é bilingue); e (4) com uma agente indígena de saúde que mora na aldeia em que se deu o Encontro e que não participou dos diálogos com os grupos (a professora Cristina fez a tradução entre línguas).

Produção e reflexão em um diálogo Intercultural | 133

Apresentamos, a seguir, o quadro de participantes dos quatro últimos diálogos.

Participantes Papel Social Aldeia de

Moradia

Motivo do Diálogo

Fala Português

Carlos Adulto (sem papel

de liderança) São Jorge (e, anteriormente,

aldeia da Área do Andirá) Hospedado na CASAI de Maués; em sofrimento mental Muito pouco

Família de Carlos Adulta (esposa) e

idosa (avó da esposa), ambas sem papel de liderança

São Jorge Conhecer a

problemática vivenciada por Carlos

Esposa: muito pouco; avó: não fala; tradução feita pelo professor Deoclides

Ana Cássia Agente Indígena

de Saúde (AIS) Terra Nova Ampliar a compreensão

sobre o ponto de vista dos AIS

Razoavelmente; auxiliada pela professora Cristina

Emílio Professor Santa Maria Obter

informações sobre a problemática de Maria, moradora na mesma aldeia

Sim

Quadro 3. Outros participantes de diálogos