A análise dos dados foi desenvolvida a partir de uma técnica que não confrontasse a abordagem epistemológica adotada. Elegemos, então, a técnica hermenêutica-dialética, a qual fora desenvolvida por Ernildo Jacob Stein com base em conversações mantidas entre Jürgen Habermas e Hans-Georg Gadamer, a partir dos anos 1960, visando uma forma de objetivar a práxis da produção de conhecimento. Essa técnica foi sistematizada por Minayo (2008, p. 327) no intuito de propor um “[...] caminho de possibilidades de construção teórico- metodológica de base empírica e documental” para as pesquisas qualitativas, que não se limite a exposição do como fazer, mas que abarque também o como pensar.
Cumpre, primeiramente, argumentar por que não foi adotada outra técnica de análise de dados, entre aquelas que são mais comumente utilizadas na academia de Administração: Análise de Conteúdo e Análise do Discurso. Em harmonia com as idéias de Minayo (2008), consideramos que a técnica Análise de Conteúdo, por seu foco restrito ao discurso, apresenta
limitada disposição explicativa, atentando exclusivamente para a descoberta e validade dos dados, entendidos unicamente como um conjunto de signos a serem categorizados e decodificados, por meio de uma perspectiva que privilegia a manipulação de instrumentos em detrimento do conteúdo em si e desconsidera o contexto de inserção dos sujeitos de pesquisa e das informações coletadas (MINAYO, 2008). A Análise de Conteúdo direciona-se, ainda, para a generalização dos resultados, perspectiva que se opõe a adotada neste trabalho, tendo em vista que se pretende focalizar na singularidade e contrariar a generalização positivista (cf. ADORNO, 1989) das experiências humanas (vide BARDIN, 2008). Já em relação à Análise do Discurso, “[...] suas técnicas de análise põem a tônica na fala e, quando estabelece os procedimentos operativos, retorna ao rigor formal típico do estruturalismo” (MINAYO, 2008, p. 353), divergindo da delimitação epistemológica adotada. Aditamos que existem apropriações que divergem dessa abordagem tradicional da Análise do Discurso, as quais a empregam a titulo de método de análise, buscando se desvincular da epistemologia estruturalista que lhe é correlata (e.g. CARRIERI et al., 2006). Além do mais, ambas as técnicas, Análise de Conteúdo e Análise do Discurso, desprezam os aspectos extradiscursivos que compõem o espaço sociopolítico-econômico, cultural e relacional pelo qual o discurso se estende.
A técnica hermenêutica-dialética é apresentada por Gomes (1996, p. 77) como uma abordagem em que “[...] a fala dos atores sociais é situada em seu contexto para melhor ser compreendida. Essa compreensão tem, como ponto de partida, o interior da fala. E, como ponto de chegada, o campo da especificidade histórica e totalizante que produz a fala” (destaques no original).
A proposta de conciliação da hermenêutica com a dialética defendida por Minayo (2008) busca uma reflexão fundamentada na práxis, que seja ao mesmo tempo compreensiva e crítica da realidade social estudada. Para tanto, essa proposta se sustenta nas balizas hermenêuticas,
as quais se direcionam para a compreensão do sentido da comunicação interpessoal, com a ressalva de entender o processo de comunicação como finito e assinalado pela história e pela cultura, e fundamenta-se na intersubjetividade como sustentáculo do processo científico e da ação humana. Ela se firma também nos fundamentos da dialética frankfurteana (designativamente habermasiana), porquanto aprecia a linguagem como um meio de comunicação e de dificuldade de comunicação, por estar centrada em uma aparência harmônica dos significantes e significados, que encobrem e transparecem a realidade conflituosa marcada, de um lado, por desigualdades, dominação e exploração e, de outro, por resistência e conformidade. Diante disso, por intermédio da referida associação, torna-se possível apreender textos e fatos históricos, da cotidianidade e da realidade, graças à hermenêutica, bem como destacar o dissenso, a mudança e os macroprocessos, a partir da dialética. Em síntese,
uma análise compreensiva ancorada na hermenêutica-dialética busca apreender a prática social empírica dos indivíduos em sociedade em seu movimento contraditório. Portanto, tendo em conta que os indivíduos vivendo determinada realidade pertencem a grupos, classes e segmentos diferentes, são condicionados por tal momento histórico e por isso, podem ter simultaneamente interesses coletivos que os unem e interesses específicos que os distinguem e os contrapõem. Sendo assim, a orientação dialética de qualquer análise diz que é fundamental realizar a crítica das idéias expostas nos produtos sociais (textos, monumentos, instituições) buscando, na sua especificidade histórica, a cumplicidade com seu tempo; e nas diferenciações internas, sua contribuição à vida, ao conhecimento e às transformações (MINAYO, 2008, p. 347).
Compartilhamos então do juízo de Minayo (2008, p. 350), consoante o qual “[...] a hermenêutica e a dialética se apresentam como momentos necessários da produção de racionalidade em relação aos processos sociais” e, por conseguinte, “[...] a proposta da hermenêutica-dialética é a que oferece um quadro referencial mais completo para análise do material qualitativo” (MINAYO, 2008, p. 353).
A operacionalização da técnica hermenêutica-dialética se deu por meio da ordenação e classificação dos dados, seguindo as orientações de Minayo (2008). O procedimento
classificação dos dados, em especial, subdividiu-se em quatro etapas de execução: (1) leitura horizontal exaustiva dos textos; (2) leitura transversal; (3) análise final; (4) relatório.
Em sucintos detalhes, a execução da etapa ordenamento dos dados consistiu em: transcrever as entrevistas realizadas, reler o material transcrito e organizar os relatos de acordo com a proposta analítica. Já, na classificação de dados, iniciou-se pela etapa leitura horizontal e exaustiva dos textos, que consistiu na retomada das transcrições e anotação das idéias principais e impressões iniciais, esquadrinhando possíveis disposições nas informações. Na etapa seguinte, leitura transversal, o trabalho se direcionou para a apreensão de cada entrevista em particular e destas como uma totalidade, tendo em vista a captura das violências vivenciadas e o agrupamento e classificação das falas de acordo com as categorias estabelecidas a partir do referencial teórico: violência interpessoal e violência simbólica. Destaca-se que, conforme sugerido por Minayo (2008), as categorias previamente determinadas para o projeto de dissertação foram revisadas, visando uma melhor adequação ao referencial teórico que fundamenta a presente discussão e aos dados empíricos obtidos. As atividades atinentes à etapa de análise final se estribaram na efetiva ordenação e classificação dos dados, buscando correlacionar o empírico com o teórico e salientar as imbricações das vivências. E, por fim, na etapa de relatório, imprimiu-se um documento contendo a análise final dos dados da pesquisa, sem perder de mira que a “[...] sua obra desvenda os segredos de seus próprios condicionamentos, pois a investigação social como processo de produção e produto é, ao mesmo tempo, uma objetivação do investigador que se torna também produto de sua própria produção” (MINAYO, 2008, p. 359).