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Como já observado, embora os morros auríferos tenham sido minerados desde o início das Minas, a sua importância era ínfima quando comparados com as explorações de aluvião. Corrobora isso o fato de o Regimento de 1702, criado para atender às necessidades imediatas da

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AHU-MAMG. Caixa 73, doc. 4; 18/01/1758.

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AHU-MAMG. Caixa 73, doc. 6; 23/01/1758.

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AHU-MAMG. Caixa 119, doc. 35; 05/06/1783.

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Coroa em administrar um contexto onde se multiplicavam os descobrimentos dos ribeiros, nada mencionar sobre a repartição de terras ou a forma de minerar os veios de ouro no interior das formações rochosas.

Na ausência dessas regulamentações, a tendência observada entre os mineradores foi considerar os morros realengos e gerais, especialmente aqueles que não podiam ser minerados com a força da água. Isso seria praticado pelo menos desde 1711, quando os moradores de Vila Rica recorreram ao governador Antônio de Albuquerque pedindo que todos os morros daquela vizinhança (dentre eles o de Ouro Preto e o de Antônio Dias) ficassem livres para a faisqueira de seus escravos. O governador ordenou então aos Guardas-mores que “não dessem datas nos ditos morros, nem houvesse repartições e que qualquer que quisesse trabalhar neles adquirisse seus domínios por posse, e desta seria senhor para a lavrar e vender”504.

O primeiro documento oficial a tratar da exploração dos morros foi o Bando de 26 de setembro de 1721, expedido pelo governador D. Lourenço de Almeida para o morro de Mata- Cavalos, localizado entre a Vila do Carmo e o arraial da Passagem. Como esse morro já estava repartido em datas e ainda sobrava muita terra “para cima da água que corre do dito morro para umas lavras de pessoas que meteram a dita água, e por ser conveniente a razão que o povo possa minerar fazendo buracos no dito morro em parte donde não prejudiquem a correnteza das águas e lavras repartidas”, o Governador permitiu a qualquer um a abertura de buracos. Como acima do referido canal de adução não era possível minerar com água, o que tornava a área desinteressante para os mineiros mais abastados, as terras foram consideradas realengas e, enquanto tais, comuns a todos que se disponibilizassem para o serviço de mineração.

Com o intuito de organizar a exploração praticada nas áreas desimpedidas, o Bando determinou que os mineiros deveriam iniciar suas escavações com uma distância de pelo menos 40 palmos (9,0m) uma da outra. Além disso, toda pessoa que abrisse buraco estava obrigada a tapá-lo, “de forma que fique a terra igual para que não sucedam as desgraças que têm sucedido nestes morros onde se minera com buracos, e os têm deixados abertos”, sob pena de ser presa por dois meses, o primeiro carregada a ferros. Também determinava que “ninguém possa ir vender nenhuma coisa no dito morro do Mata-Cavalos, nem levantar rancho nenhum de nenhuma qualidade [...] ainda que se façam os ditos ranchos com pretextos fingidos [...]”505.

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ANÔNIMO. Relação de algumas antiguidades das Minas. In: CCM, 1999. Doc. 07, v. 1, p. 225.

505

[BANDO do Excelentíssimo Senhor Gov. D. Lourenço de Almeida para o morro da Passagem], 26 de setembro de 1726. CPOP-AJ, LIVRO de Registros de Terras e Águas Minerais [Guardamoria], 1735-1838. v. 85, fl 60.

Da mesma forma, o Bando expedido para o morro de Catas-Altas506, já mencionado aqui, permitiu ao povo minerar “como lhe parecer”, sobretudo nos lugares que não causassem prejuízos aos mineradores que mineravam com água.

Assim, toda a extensão do morro podia ser considerada comum, como acontecia em Vila Rica ou, provavelmente, na maioria dos casos, apenas determinadas áreas que não estivessem já repartidas ou sendo utilizadas pelos grandes serviços minerais. Nas áreas realengas, a ocupação não se fazia por meio da repartição e concessão de datas. Nessas condições, os mineradores garantiam o direito de explorar determinada área de acordo com o serviço que seria adotado. Restava ao Guarda-mor o papel de vistoriar as explorações e resolver as contendas.

No entanto, ao que tudo indica, esse direito foi adquirido com a manipulação das disposições do Regimento, ou melhor, com as reinterpretações das suas “brechas”, que os mineradores propunham em favor dos seus interesses. Essa questão pode ser entendida tomando- se como exemplo o requerimento dos mineradores de São João Del Rei de 1728. Diziam eles que se achavam:

[...] notavelmente oprimidos, e vexados por razão de não terem terras algumas minerais em que possam tirar ouro por estarem todas senhoreadas, assim as dos morros, como das vargens por mui poucas pessoas, tocando-lhes infinitas datas de terras assim em uma, como em outra parte contra a ordem de S. Majestade que Deus guarde que em muitos séculos as não poderão lavrar impedindo nelas os faiscadores do povo mandando os espaniar [sic] pelos seus escravos, e tomar-lhes bateias, e ferramentas e ainda algum ouro que tem tirado, por cujas causas tem desertado muito povo da dita Vila [...]507.

Por não acharem nenhuma paragem onde pudessem trabalhar sem que já estivesse tomada pelos “poderosos”, pediam que as terras dos morros fossem consideradas comuns de modo que cada um pudesse se estabelecer conforme a possibilidade de escravos e serviços. Acrescentavam ainda que isso poderia ser concedido a eles, suplicantes, visto que de nenhuma forma queriam prejudicar aqueles que já tivessem feito serviços nos morros nem perturbá-los na paragem em que trabalhavam com catas, minas ou buracos: “só sim querem a faculdade de os não poderem impedir os ditos particulares aos suplicantes trabalharem nos ditos morros para a extração de ouro [...]”.

Contudo, mais significativa é a argumentação desses mineradores para que lhes fosse permitido minerar livremente nos morros. Por um lado, expressa certa incapacidade da administração colonial em controlar as práticas perniciosas dos poderosos, combatidas desde os primeiros momentos da exploração das Minas. Por outro, atesta a capacidade dos mineradores,

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CÓPIA do Bando da repartição em Catas Altas, 14 de junho de 1722. CPOP-AJ, LIVRO de Registros de Terras e Águas Minerais [Guardamoria]. v. avulso, fl 107v-108v; APM-SC, códice 21, fl 23.

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especialmente os menos favorecidos, em defender seus interesses reformulando as próprias determinações régias, de tal forma que estas adaptações acabavam por se concretizar em “direito” e “costume” no espaço das lavras. Nesse sentido, afirmavam que:

[...] era muito acertado serem os morros gerais, e comuns, a todos; e com efeito este é o

uso nestas Minas desde que se trabalha em morros, e o foi também muito tempo

naquelas, até que os poderosos se foram sós apoderando deles com os pretextos de grande multidão de cartas de data, e foram passando de uns a outros as inumeráveis datas, e grandes porções de terras em dano comum, e público; sendo que o tal uso de serem

gerais e comuns os ditos morros para a extração do ouro se conforma muito com o Regimento pois nele só se acha mandarem-se repartir as terras de córregos, e Ribeiros, mas não os morros [...]508.

Com o intuito de solucionar o problema da mineração nos morros de São João Del Rei, em 24 de novembro de 1728, o Governador D. Lourenço de Almeida publicou um bando pelo qual ordenava ao Guarda-mor que repartisse os terrenos entre os mineradores que tivessem aberto regos d’água com grande despesa e de acordo com o número de escravos de cada um. E, da mesma forma, o estilo de minerar nos morros, consolidado em direito adquirido e socialmente legitimado pelo costume, favoreceu os suplicantes, pois o mesmo Bando determinou que o restante das terras não ocupadas poderia ser minerado livremente de acordo com as possibilidades de cada minerador509.

A administração colonial, por sua vez, ao regulamentar, através dos Bandos e outras ordens, essa prática costumeira de minerar nos morros, não apenas procurava acomodar os seus vassalos, mas também aumentar a produção do ouro. Com efeito, liberar as áreas desocupadas dos morros era uma forma de garantir a exploração de toda a extensão do terreno aurífero e de aumentar os contribuintes do quinto, visto que até os mais pobres, que não precisariam ter gastos para adquirir a carta de data, ficariam estimulados a concorrer à atividade.

Sobre as formas como se realizavam as explorações nas áreas de acesso comum, o documento Modo e estilo de minerar nos morros de Vila Rica e Mariana merece especial consideração. Elaborado em 1750 por alguém prático na mineração, esse documento foi referência para os despachos e sentenças do ouvidor Caetano da Costa Matoso (1749-1752) sobre as contendas e brigas dos mineradores pela posse dos veios auríferos e das águas e para a

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AHU – MAMG. Caixa 14; Doc. 23; 02/04/A729.

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ESCHWEGE. Pluto Brasiliensis, 1985. v. 1, p. 109. O Bando foi feito com base nas sugestões dos próprios camaristas ao pedirem que “acomodados racionalmenteas pessoas que tiverem serviços abertos no dito morro, e nos mais q se acharem nesta Vila fique toda a mais terra livre e liberta para todo o povo nelas faiscarem [...]”. AHU – MAMG. Caixa 14; Doc. 23; 02/04/A729.