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Faria e Meneghetti (2002), além da tipologia ora apresentada, expõem que a violência passa por um processo de passivização, em decorrência do insucesso histórico das resistências empreendidas e do consentimento social e individual vigente. Percebemos, então, a instauração de um processo de naturalização e banalização da violência tanto nas organizações, como na sociedade como um todo.

Conforme observaremos no desenvolvimento desse tópico, naturalização refere-se a um processo sócio-histórico de racionalização e justificação da ocorrência de violências, bem como à decorrente passivização individual e coletiva. Já banalização alude ao descaso diante da instauração da violência que se tornou um imperativo da cotidianidade, possivelmente devido à mitigação da consciência crítica. Ambos os processos destinam-se e efetivamente mascaram a opressão e os males que advêm das violências que visam ocultar.

Sobre a naturalização, González-Rey (2006) expõe que a institucionalização de comportamentos socialmente tidos como corretos possibilita a naturalização da violência que

deles podem provir. Sem embargo a não intencionalidade de violentar outrem, situações violentas existem e são dissimuladas ao longo da história. Um exemplo é a violência velada das diversas formas de discriminação.

Sá (1999, p. 55), complementarmente, afirma que certas manifestações da violência se escondem em todos os processos e interações sociais.

Ela se torna um ingrediente da história natural da humanidade, racionalizada e justificada, presente nos sistemas políticos e econômicos, nas instituições, nos grupos e nas famílias. Presente inclusive nas pessoas “normais”, honestas, encontrando-se mascarada na habitualidade das relações sociais e interpessoais aceitáveis e respeitáveis, mas simultaneamente opressivas e danosas a muitos de seus semelhantes, violentas na sua essência.

Assim, a violência se estabelece por meio da absolutização de um ponto de vista, legitimação do arbítrio, desconsideração do outro, delírio do narcisismo, do dogmatismo e do sectarismo, primado da voracidade (SÁ, 1999).

Como contraponto, La Boétie (1986) expressa que a liberdade é natural ao homem. Assim, espera-se que os homens só se deixem subjugar se forem constrangidos ou ludibriados, nem que seja por uma autoludibriação. Todavia, percebe-se que a naturalização da tirania e, em contrapartida da violência, remete a uma construção histórica. As pessoas no presente não mais questionam as práticas e políticas que impedem a sua liberdade, dado que a obediência foi construída e ensinada pelas gerações. “A princípio, serve[m] com constrangimento e pela força; mas os que vêm depois, como não conhecem a liberdade nem sabem o que ela seja, servem sem esforço e fazem de boamente o que os seus antepassados tinham feito por obrigação” (LA BOÉTIE, 1986, p. 37). Destarte, apreende-se que a naturalização da violência origina-se na perpetuação de um comportamento servil, que entende tais práticas como imutáveis, tendo em vista que sempre foi assim, não é agora que vai mudar.

Outra maneira pela qual a violência se perpetua e naturaliza, seguindo as idéias do mesmo autor, é por meio da ação dos tiranetes, discípulos do tirano, que o auxiliam na submissão dos demais em troca de proteção e da possibilidade de também serem tiranos, mesmo que em proporções diferentes. A partir dessa apreciação, torna-se possível compreender que a violência se naturaliza e se perpetua também porque muitos homens, ao enxergarem a sua manifestação, omitem-se e tornam-se coniventes, buscando o mesmo tratamento quando tiverem a oportunidade de tiranizar.

Pierre Bourdieu sintetiza esse processo de naturalização na expressão doxa, a qual pode ser compreendida, seguindo as palavras de Rosa (2007, p. 40), como “[...] uma coincidência das estruturas sociais e mentais por meio das quais o mundo magicamente aparece como auto- evidente e sua composição é posta além do alcance do debate e da elaboração”, representando

um ponto de vista particular, o ponto de vista dos dominantes, que se apresenta e se impõe como ponto de vista universal [...] Por conseguinte, prevalece o silêncio perante a situação dada e o discurso que circula tende a reforçar e defender a doxa, assumindo a aparência de um discurso ortodoxo. Ao fazer isso, a doxa naturaliza as posições e as torna senso comum, produzindo uma distribuição desigual de capital simbólico e uma legitimação de cada produção, cujo resultado principal se traduz na violência simbólica.

Ainda sobre a naturalização da violência, Faria e Meneghetti (2002) afirmam que ela também passa por outros processos que a institui no seio social. Para os autores, a situação de letargia e consentimento da sociedade que impera nos dias de hoje frente à instauração da violência, tanto no ambiente de trabalho como nas próprias relações sociais, sustenta-se na existência de um pensamento unidimensional decorrente da quase extinção do axioma crítico, viabilizando a domesticação da violência. A violência sustenta-se também no totalitarismo, que rege e impele a maneira homogeneizada de o coletivo pensar e se firma pela promessa da “[...] exclusão econômica e social daqueles que criticam as práticas sociais” (FARIA e MENEGHETTI, 2002, p. 12) e no controle psicológico no trabalho, pois as organizações são por excelência espaços em que não vigora o uso da razão nas relações de trabalho e em que se

estabelece a manipulação de processos conscientes e inconscientes dos trabalhadores, assim enfraquecendo e minando a possibilidade de resistir.

Adicionalmente, esses autores tratam da questão da banalização da violência no ambiente de trabalho, principalmente, em pequenas violências, como a intensificação do trabalho, a rotinização dos processos, o achatamento dos salários, entre outras manifestações da precarização do trabalho; essas violenciazinhas tendem a ser toleradas devido ao temor da perda do emprego. “A essência da banalidade do mal reside na perda do pensamento crítico e na incapacidade de organização coletiva: o mal ganha espaço pela perda da consciência e da capacidade de questionamento das realidades vivenciadas e não pela falta de cooperação e consentimento social” (FARIA e MENEGHETTI, 2002, p. 10).

O processo de banalização da violência nas organizações também foi abordado por Dejours (2005), em seu livro A banalização da injustiça social. De acordo com Dejours (2005), a atribuição de causalidade ao destino, a ausência de indignação e a apatia coletiva diante das práticas de violência e injustiça que reinam na sociedade neoliberal, a qual cedia uma guerra econômica e uma guerra de empresas (termos utilizados pelo próprio autor, à página 117), poderia ser associada a uma psicopatologia denominada normopatia. Tal afirmação justifica- se por meio da análise de uma sociedade que se mostra indiferente e até conivente e cooperativa com os males, não reflete sobre e justifica os acontecimentos via estereótipos economicistas, como também não empreende ações coletivas direcionadas ao combate desses males.

Para Dejours (2005), a banalização do mal, que pode ser entendida como uma manifestação de violência, não advém de impulsos psicológicos, mas de uma manipulação política assinalada pela intimidação a partir da precarização e da exclusão social. Um instrumento utilizado pelas organizações para garantir a suspensão da capacidade de julgamento dos

trabalhadores é a distorção comunicacional, por meio da qual a descrição da realidade de trabalho difere da real, discurso este que é facilmente assimilado graças à instituição da divisão do trabalho, propiciadora da ignorância de tudo que se encontra além do mundo proximal do trabalhador. “A clivagem [da personalidade do trabalhador], para se manter, necessita de um discurso pronto, assimilado, retomado, encontrado pelo sujeito, individualmente, é verdade, mas num discurso fabricado e produzido externamente, enfim, proposto externamente ao sujeito” (DEJOURS, 2005, p. 125).

A banalização do mal, segundo Dejours (2005), possui três pilares: a existência de líderes organizacionais com estruturas de personalidade tipicamente perversa ou paranóica, de colaboradores diretos deste líder que revelam perfis psicológicos variados, porém estabelecem uma estratégia coletiva de defesa do cinismo viril e de uma massa de trabalhadores que apelam para estratégias de defesa individuais contra o medo. Ou, como diria Etienne La Boétie: os tiranos, os tiranetes e a massa subjugada e obediente.

Aqueles que não aderem a esse processo que dá suporte a banalização da violência ignoram essa realidade ou se opõem a ela. No primeiro caso, os sujeitos não têm o menor acesso à realidade, porém a consentem, mesmo sem ciência, uma vez que, apesar de inocentes em sua responsabilidade, adotam uma conduta semelhante à dos normopatas sociais. E os opositores da situação são aqueles que resistem ao mal e, por conseguinte, são rechaçados pela organização por intermédio de intimidações visando à construção do medo. Entretanto, não é comum a utilização de violência física contra eles.

Finalmente, Dejours (2005) não se mostra pessimista quanto ao fim da banalização da violência. Ressalta que o caminho não é a luta contra a violência, mas contra o próprio processo de banalização.

Discorremos, até este ponto, a respeito de algumas abordagens relativas à violência. Resta-nos retomar, no tópico seguinte, as discussões acerca do assédio moral e da violência simbólica, as quais serão alicerce para a definição das categorias que embasarão a pesquisa empírica e a análise dos dados do campo.