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DOSYA SAKLAMA VE DEPOLAMA

DOSYALAMA İŞLEMLERİ

VI.5. DOSYA SAKLAMA VE DEPOLAMA

A relação dos jovens com o universo do trabalho e as representações dessa dimensão diferenciam-se ao longo do tempo e espaço, e em um mesmo momento histórico-social, segundo as perspectivas dos diferentes grupos. Para uns, a juventude se constitui mais fortemente como um momento de preparação para o ingresso no mundo do trabalho; para outros, o trabalho faz parte de sua realidade desde muito cedo, principalmente se considerarmos países como o Brasil.

É possível perguntar, tal como o faz Castel (1999), se os jovens têm uma relação específica com o emprego e, poder-se-ia acrescentar, com a falta de emprego. À medida que o mundo do trabalho se transforma profundamente, variados estudos destacam como os jovens são mais atingidos pelo desemprego de massa e pelo aumento da precarização das relações de trabalho (Castel, 1999; Dubet, 1999; Pais, 2001). De fato, como já destacado, a partir da crise dos “Trinta Gloriosos” nos países centrais, a preocupação com a “transição” da escola para o mundo do trabalho foi tomada como centro do debate em torno da transição para a vida adulta.

Além disso, o debate sobre a própria maneira de medir as taxas de emprego e desemprego também tem ressonâncias na discussão em torno do lugar dos jovens no mercado de trabalho (Galland, 1997; Maruani, 2002; Pais, 2001). O fato de os jovens ainda não serem ou serem pouco socializados no mundo do trabalho, especialmente considerando os países mais desenvolvidos, também tem produzido inúmeras questões relativas às suas atitudes em relação ao trabalho e ao desemprego (Castel, 1999; Dubet, 1999; Gorz, 1991; Pais, 2001; Schehr, 1999). Parece razoável que o desemprego seja vivido de uma maneira diferente por um operário que tenha trabalhado por anos em uma fábrica e por um jovem que nunca trabalhou ou só realizou pequenos trabalhos temporários, o que não necessariamente significa uma recusa ao trabalho (Castel, 1999). Mas, além das diferenças geracionais, é possível encontrar, entre os próprios jovens, formas diversas de experimentar a relação com o trabalho e com o desemprego. Nesse sentido, é fundamental o diálogo com alguns estudos que tiveram como foco a análise dos significados do desemprego entre jovens. Sem a pretensão de uma

revisão exaustiva, serão apontadas algumas análises, em especial européias, que podem oferecer pistas para essa investigação.

Entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, o desemprego juvenil emergiu na cena pública européia como um problema, desencadeando um conjunto de políticas (Demazière, 1995a) e de estudos em que essa visibilidade não é questionada, como sugerem os estudos de Maruani (2000, 2002). Entretanto, a mais curta duração do desemprego nesse momento parece marcar, em boa medida, a maneira de olhar as experiências dos jovens desempregados (Schehr, 1999). Para além de explicar a experiência do desemprego propriamente dito, tratava-se de oferecer respostas à seguinte questão: estariam os jovens recusando o trabalho?52

Assim, de acordo com análises de Demazière (1995a) e Schehr (1999), a forte relação entre o valor atribuído ao trabalho e a experiência do desemprego marcou alguns estudos do início dos anos 1980 (Galland e Louis, 1978; Le Mouel, 1981; Schnapper, 1981). Le Mouel (1981)53 identifica dois tipos de desemprego entre os jovens: “desemprego doença” e “desemprego banalizado”. O primeiro está presente entre aqueles que consideram o emprego enquanto dever no sentido moral, e também fundamental para sua própria sobrevivência, vivenciando o desemprego como uma situação traumática, à semelhança do que já diziam alguns estudos mais clássicos sobre a experiência do desemprego (Lazarsfeld et al., 1981; Ledrut, 1966). Dentre os jovens que se demitiram de seus empregos assalariados e menos premidos pela necessidade, Le Mouel (1981) identificou uma menor valorização em relação ao mundo do trabalho e um intenso questionamento em relação ao trabalho assalariado. Nesse sentido, o tempo do desemprego é vivido como tempo de reflexão e de elaboração de projetos. Por este segundo grupo, o autor questiona a experiência do desemprego como sofrimento, presente em Ledrut (1966), e aponta a possibilidade de um “desemprego feliz”.

Não muito distantes dessa perspectiva, Galland e Louis (1981) irão identificar três categorias de desemprego entre jovens moradores de diferentes cidades da França: o “desemprego de resistência”, vivido negativamente entre jovens que eram em sua maioria operários e que viam o trabalho enquanto valor e fonte de dignidade; o “desemprego banalizado”, não vivido como uma catástrofe por jovens que eram na maior parte de classe média, desencantados com a inadequação entre sua formação e seus projetos; e o

52 Em resposta à tese da alergia ao trabalho entre jovens. Sobre essa tese ver: J. Rousselet, L’allergie du travail.

Seuil. Paris. 1974.

53 A partir do estudo de jovens que se dirigiam a uma Agência Nacional de Emprego, em um bairro da periferia

“desemprego de exclusão”, marcante para jovens sem formação adequada e com muitas dificuldades de inserção, para os quais qualquer trabalho é adequado, importando muito mais o estatuto de trabalhador. Contudo, e diferentemente de Le Mouel (1981), esses autores apresentam uma análise mais aprofundada da relação entre a experiência anterior de trabalho, principalmente entre operários, e as dificuldades de inserção no mercado54. São elas que marcam a vivência do desemprego, pois o período do desemprego não aparece como significativo para provocar mudanças de comportamento.

Embora o estudo de Schnapper (1981) não tenha sido realizado apenas com jovens, sua amostra era representativa dos desempregados em 1979, ano em que os jovens representavam 46% dos desempregados na França (Schehr, 1999), e é um dos estudos referenciais para pesquisas dos anos 1990. O autor identifica três tipos de experiências de desemprego: o “desemprego total”, que é caracterizado pela humilhação e o tédio, principalmente entre trabalhadores manuais; o “desemprego invertido”, significando uma vivência do desemprego desdramatizada, posto que o período do desemprego é considerado transitório, permitindo a redefinição de projetos pessoais (sendo este fortemente presente entre jovens com escolaridade mais elevada e trabalhadores não manuais) e, por fim, o “desemprego postergado”, no qual a situação de desemprego não é vivida como tal, mas como um período de busca ativa de um novo emprego e formação. Este último era predominante entre executivos e jovens com fortes perspectivas de ascensão.

A impossibilidade de o desemprego ser vivido de uma única forma é um dos avanços e consensos em torno dessas pesquisas. Embora com mais ou menos ênfase em um ou outro aspecto, é a relação do jovem com o mundo do trabalho e seus significados que pautam as experiências do desemprego. Em Galland e Louis (1981) e Schnapper (1981), elas também se diferenciam a depender da classe social, escolaridade e do perfil profissional. Mas a variável ainda mais central é o próprio trabalho. Praticamente inexistem referências às diferenças de sexo e etnia ou ao papel dos mecanismos normativos e institucionais.

54 A inserção e a formação profissional de jovens de 16 a 25 anos, associadas à qualificação dos territórios

regionais, são objeto de uma série de programas de iniciativa comunitária no caso francês contemporâneo, a exemplo dos projetos sob responsabilidade das missões locais de Trois Vallées e de Senart, no âmbito de um processo coordenado pela Comissão Européia e pelo governo francês (Comission Européene et al., ca. 2005). Por sua vez, Jean (2006) aponta a existência de três tipos de “contratos apoiados” (“contrats aidés”) via políticas públicas, específicos para certas categorias de demandantes de emprego: os contratos que vinculam emprego e formação em lógica de alternância, os contratos destinados a favorecer a inserção profissional de jovens sem contrapartida obrigatória de formação e os contratos que, embora não destinados aos jovens, são acessados por eles.

Nos anos 1990, com o aprofundamento das mudanças no mundo do trabalho assalariado, o acirramento do desemprego e a crescente precarização do mercado de trabalho, alguns autores irão enfatizar, por um lado, que as atitudes dos jovens em relação ao trabalho seriam a expressão mais visível de uma mutação cultural que marcaria o fim da centralidade do trabalho (Gorz, 1991; Schehr, 1999); por outro lado, encontra-se um conjunto variado de estudos problematizando essa perspectiva, e argumentando que não se estaria diante de uma perda da centralidade do trabalho (Bajoit e Franssen, 1993; Castel, 1999; Sanchis, 1997; Pais, 2001).

Partindo da tipologia do desemprego de Schnapper (1981), Bajoit e Franssen (1993) irão argumentar que a insatisfação dos jovens com o trabalho e emprego não implica uma valorização positiva do desemprego. Nesse sentido, acabam por questionar a relação direta estabelecida entre os sentidos e experiências do trabalho e a experiência do desemprego, pois localizam entre os jovens investigados uma experiência negativa do desemprego, mesmo entre aqueles que não valorizavam o trabalho enquanto dever moral. Evidentemente os autores não irão afirmar que o desemprego tem um mesmo sentido para todos os jovens.

De forma geral, o desemprego é vivido de maneira mais dramática entre jovens com menos recursos econômicos, escolares e culturais; e de forma mais banalizada entre jovens com maiores recursos. Bajoit e Franssen também identificam jovens, sobretudo executivos e com forte poder de negociação no mercado de trabalho, vivendo o desemprego enquanto momento ativo de busca de emprego, à semelhança de Schnapper (1981). Mas o instigante em sua análise relaciona-se à convivência dos diferentes sentidos. Não há, de um lado, o desempregado feliz; e, de outro, o desempregado deprimido. Mesmo um jovem com elevados recursos pode viver o desemprego de forma banalizada e sofrida simultaneamente. Essa combinação de lógicas associa-se aos recursos econômicos, culturais e escolares, às relações estabelecidas com a família, bem como à diversidade de orientações em relação ao mundo do trabalho – perspectiva que parece aproximar-se da análise dos percursos dos jovens aqui investigados, como será evidenciado. Mas a combinação das diferentes lógicas não significa para Bajoit e Franssen (1993) que o desemprego deixe de trazer consigo, em grande medida, o sentimento de desvalorização em função do “rótulo de desempregado”.

A partir de uma revisão detalhada de vários estudos, realizados em diferentes países, que focaram o desemprego entre jovens, Schehr (1999) enumera um conjunto de questões sobre o momento atual do desemprego, principalmente em sua nova forma, o desemprego de longa duração. Se o desemprego não é mais um “episódio” no interior de uma vida de assalariamento, como isso modifica os sentidos dados a ele?

Em relação aos jovens, essas questões ganham peso ainda maior, pois, como afirma o autor, boa parte deles nunca conheceu a identidade pelo trabalho e a seguridade do emprego. Embora sem negar que o desemprego possa comportar uma dimensão de sofrimento, Schehr (1999) questiona os estudos que tomam como ponto de partida o modelo de trabalho assalariado, onde o desempregado é representado apenas por aquilo que não é, ou seja, trabalhador assalariado. E reconhece que, para alguns jovens, o emprego estável não é mais a prioridade. Nessa perspectiva irá identificar experiências diversas do desemprego juvenil, localizando novas formas de relacionamento com o desemprego e com o tempo do desemprego. Assim, para uns, o tempo de desemprego ainda se opõe claramente ao tempo estruturado do trabalho; mas, para outros, pode ser o tempo de viver de modo mais tranqüilo ou fortemente ligado ao cotidiano, ao presente, ao maior tempo livre para vivenciar outras experiências. Nesse sentido, podem explorar novas atividades e projetos.

No entanto, bem como nos outros estudos, a análise de Schehr (1999) é restrita em relação à presença de outras instituições. Que mecanismos podem possibilitar ou não ao jovem viver o tempo de desemprego como um tempo para explorar novos projetos? Muitos podem apresentar para si e para o mundo outros desafios em relação ao trabalho, mas quantos conseguirão de fato ultrapassá-los?

Desse modo, Pais (2001) nos traz elementos muito significativos para a análise: olhar para os modos como jovens vivenciam o trabalho, o trabalho precário ou o desemprego a partir do cruzamento da análise de transição biográfica – a articulação de seu futuro com o passado, com uma análise mais estrutural das redes e dos recursos sociais com os quais os jovens podem ou não contar55.

No caso brasileiro, o acesso a empregos regulares e protegidos foi uma condição geralmente restrita. Ao mesmo tempo, as formas de institucionalização do desemprego são muito recentes e frágeis, poucas e atuais são as formas de apoio aos desempregados e as políticas para o enfrentamento da grave e profunda diminuição de empregos formais que se deu principalmente na década de 1990 (Guimarães, 2002). É certo que essa configuração tem

55 Telles (2006, p. 73) menciona a simultaneidade dos tempos sociais e biográficos, “que permitem traçar a

contemporaneidade entre, de um lado, os que falam, com um tom épico e também nostálgico, dos tempos do emprego farto, das trilhas que seguiram [...] nos espaços da cidade, das promessas dos anos 60/70 e, de outro, as gerações mais novas, cujas experiências [...] são conjugadas em um outro jogo de referências tecido entre a dureza do desemprego e do trabalho incerto, a atração encantatória do moderno mercado de consumo, e também os novos circuitos de sociabilidade tramados na interface das mudanças operantes no mundo do trabalho e na cidade. Simultaneidade entre a desestabilização ou erosão dos mundos sociais construídos em torno do trabalho regulado para os que foram afetados em cheio pela reestruturação produtiva e os que [...] constroem outros campos de possibilidades”.

efeitos significativos sobre as experiências subjetivas do desemprego (Guimarães, 2002). Nessa direção, cabe um olhar para as maneiras como o Estado brasileiro tem enfrentado a questão do desemprego, mais particularmente do desemprego juvenil. Antes, porém, parece importante um olhar mais aprofundado em torno do modo como alguns estudos brasileiros focalizaram a questão do emprego e do desemprego juvenil. Tal como anteriormente assinalado neste estudo, a dimensão do trabalho para os segmentos juvenis, particularmente aqueles oriundos das camadas populares, foco central desta tese, parece guardar um lugar diferenciado em relação ao contexto europeu, como destaca Hasenbalg (2003b):

A transição escola-trabalho apresenta grandes variações tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, havendo também, nesses dois grupos de países, importantes variações nos nexos institucionais entre o sistema educacional e o mercado de trabalho. Estudos recentes dessa transição em países desenvolvidos focalizam a relação entre qualificações educacionais resultantes do mercado de trabalho no ponto em que os indivíduos se deslocam da escola para o primeiro emprego [...] Por trás dessa assertiva existe a suposição de que, tipicamente, os jovens ingressam no mercado de trabalho depois de fechado o seu ciclo de educação formal. Esta é uma suposição realista nesses países, onde a norma é que os jovens façam trajetórias escolares relativamente prolongadas, cumprindo minimamente a educação compulsória estipulada [...]. Duas características da transição escola-trabalho no Brasil – bem como em outros países latino-americanos – dificultam a observação em forma ‘pura’ da relação entre qualificações educacionais e o ponto de entrada no mundo do trabalho. Essas características são (1) o ingresso precoce no mercado de trabalho e (2) a conciliação ou superposição de estudo e trabalho. (Hasenbalg, 2003b, p. 147-148).

No Brasil, considerando a relação dos adolescentes e jovens com o trabalho, as primeiras preocupações em termos de pesquisa datam dos anos 1970. Até esse período, eram os jovens estudantes de classe média, e não os trabalhadores que estavam no centro da preocupação de pesquisadores (Foracchi, 1972; Ianni, 1968). A partir de então, quando se verifica um aumento no número de jovens trabalhadores, resultado do modelo econômico da época e das necessidades de sobrevivência e ampliação do padrão de consumo entre as famílias (Madeira, 1986; Abramo, 1994), o interesse em compreender as razões que levam o jovem para o trabalho e a situação do mercado de trabalho para este grupo ampliam-se, especialmente em torno da questão do emprego e do desemprego juvenil. Já nos anos 1980, Madeira (1986) argumentava em torno da importância do trabalho entre os jovens, inclusive para a constituição de uma identidade juvenil, no Brasil.

Analisando as estatísticas oficiais dos censos demográficos (1970-1980) e das Pnads, no país como um todo e, particularmente, nos estados de São Paulo e Pernambuco, Madeira (1986) observa que ao longo da década de 1970 uma parte importante da população juvenil

passa a se inserir de uma maneira mais “moderna” na sociedade, seja pela escola, seja pelo trabalho ou pelo lazer. Nesse sentido, a identidade jovem estendeu-se para uma parcela maior da sociedade:

Assim, a expansão das oportunidades de trabalhos remunerados, dos empregos formais, reforça aspirações, ambições e também a onipotência, e torna mais claramente explícitos os conflitos entre as gerações. A democratização da escola, ao mesmo tempo que aviva as aspirações, satisfaz carências de sociabilidade (sobretudo no caso das jovens); os meios de comunicação se encarregam de criar símbolos visíveis e claros de identidade jovem, o sistema de ‘consumo’ torna-os acessíveis seja pela queda de qualidade, seja pelo barateamento do produto, seja pela criação do sistema crediário. (Madeira, 1986, p.18).

A referida autora atenta para o fato de que, ao mesmo tempo em que mudanças importantes ocorrem na esfera produtiva e a escolaridade se amplia, isso não impacta de modo negativo na contratação de “menores”, assinalando o que chama de “falácia da teoria da modernização”. Sem aprofundar esse debate, o que interessa aqui registrar é que nesse período crianças, e sobretudo adolescentes e jovens, inseriam-se com primazia no setor secundário da economia e, dentro desse setor, preferencialmente entre os empregados (Madeira, 1986, p. 22). Apenas para ilustrar, a autora acentua que na década de 1970 a taxa de crescimento de empregos para menores na faixa de 12 e 17 anos completos foi da ordem de 250%. Assim, Madeira conclui que, além do "rejuvenescimento" do trabalho urbano, houve também uma "formalização" do mesmo. Já nos anos 1980, a autora observa que, a despeito do período recessivo – em que se elevam os níveis de desemprego nos setores mais “dinâmicos”, aumentam os níveis de “subemprego” e observa-se “a deterioração das condições de vida da classe trabalhadora” –, os jovens não foram tão fortemente atingidos pelo desemprego quanto os adultos, especialmente adultos do sexo masculino.

O aumento da presença juvenil no trabalho urbano é um dos fatores que leva a autora a problematizar a compreensão do trabalho da criança e do jovem através da óptica mais recorrente que se concentra tradicionalmente nos aspectos aparentes da marginalidade e pobreza. Para Madeira: “é preciso recuperar analiticamente o trabalho da criança e do adolescente (como se fez com o trabalho da mulher) como parte integrante e estrutural do processo social de produção” (Madeira, 1986)

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O estudo da autora foi um dos primeiros a indicar que, para além da questão da necessidade de sobrevivência ou ajuda à família, o trabalho juvenil permitia que parte desse dinheiro pudesse ser utilizado pelo jovem para seu próprio consumo, seja para aquisição de vestimentas e calçados, seja para atividades culturais e de lazer, seja, inclusive, para possibilitar seus estudos (Madeira, 1986; Madeira e Bercovich, 1992). De certa forma, os diferentes estudos que abordam a questão do trabalho juvenil

concordam com essa visão (Corrochano, 2001; Dauster, 1992; Abramo, 1994; H. Martins, 1997; Sposito, 1994; 2005). A partir de suas análises, já nos anos 1980, Madeira (1986, p. 24) problematizava as taxas de desemprego juvenil:

Assim, as taxas de desemprego aberto [entre os jovens] são tradicionalmente muito baixas. Sabe-se, entretanto, que as informações expressas nesses indicadores pouco têm a ver com a real disponibilidade ou desejabilidade do exercício de uma atividade remunerada constante entre a população jovem brasileira. É que a grande maioria dos jovens encontram-se numa situação de desemprego mascarado, oculto, seja pela realização de trabalhos precários, comumente conhecidos como ‘bicos’, seja na forma de desempregados desalentados, neste caso entre aqueles que deixaram de procurar trabalho em função do desestimulo do mercado de trabalho.

Por outro lado, Madeira (1986) também evidenciava que o desemprego dos jovens apresentava valores altíssimos quando ampliavam-se as possibilidades concretas de conseguir trabalho. Na pesquisa qualitativa que realizou, observou parcela considerável de jovens que em sua maioria declaravam-se desempregados não pela dificuldade em encontrar emprego, mas porque era difícil encontrar um emprego que correspondesse às suas expectativas. Nesse sentido, para a autora, o conceito de intermitência estaria mais próximo do jovem que o conceito de desemprego e inatividade, muito embora ressalte a dificuldade em generalizar essa afirmação:

Na prática, no cotidiano, o jovem acaba imprimindo freqüentemente às atividades que exerce, inclusive àquelas mais regulamentadas – escola e trabalho – um caráter ‘intermitente’, de idas e voltas, próprio de quem não necessita socialmente arcar com `toda´ a responsabilidade. (Madeira, 1986, p. 17).

O mais interessante foi constatar uma enorme intermitência nas atividades destes jovens. Embora não tenhamos condições de generalizar esta afirmação, ela provavelmente reflete o comportamento de um número considerável de jovens. Com uma freqüência enorme, sobretudo crianças e adolescentes passavam da dupla atividade escola/trabalho, para uma única atividade – escola ou trabalho – ou para a inatividade total. Esta alta rotatividade dos jovens pelas diferentes categorias não significa que a natureza do trabalho do jovem fosse instável. Ao contrário, por vezes a