As primeiras fotografias obtidas pelo processo patenteado por Daguerre, os daguerreótipos, mostravam imagens positivas impressas em placas de cobre. Essas placas5, revestidas por lâminas de prata que, expostas à luz através de uma câmera fotográfica, obtinham uma imagem latente do objeto fotografado, precisavam ser reveladas em vapor de mercúrio cromo e fixadas em uma solução de hipossulfito de
5 Etapas do processo de daguerreotipia, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais.
soda para que se obtivesse a imagem final, em um processo que podia demandar muitas horas de trabalho.
Figura 07 – Daguerreótipo – Natureza morta, Daguerre, 1837.
Fonte:http://en.wikipedia.org/wiki/Daguerreotype
Nesse mesmo momento, segundo Rouillé (2009), a Europa vive, historicamente, um período de fortes mudanças na vida cotidiana, na cultura e nos modos de produção, em função de um amplo processo de industrialização e urbanização das cidades. O surgimento do capitalismo industrial traz consigo a modernidade, a sociedade industrial, apoiada pelo espírito da racionalidade, da mecanização do fazer, do crescimento econômico, das comunicações e das grandes metrópoles.
A fotografia apareceu com a sociedade industrial, em estreita ligação com seus fenômenos mais emblemáticos – a expansão das metrópoles e da economia monetária¸ a industrialização, as modificações do espaço, do tempo e das comunicações –, mas também com a democracia. Tudo isso, associado ao seu caráter mecânico, fez da fotografia, na metade do século XIX, a imagem da sociedade industrial, a mais adequada para documentá- la, servir-lhe de ferramenta e atualizar seus valores (ROUILLÉ, 2009, p.16). O que podemos observar nas reflexões de Rouillé é a busca em relacionar o desenvolvimento técnico e os usos da fotografia, nesse primeiro período da sua história, com o contexto histórico, econômico e social mais amplo. Ou seja, Rouillé (2009) acredita que a fotografia se estabelece como forma de documentação e reprodução do real, ideia que é reforçada pela crença na objetividade das imagens fotográficas. Mas, para ele, isso acontece porque ela legitima as regras e
paradigmas de uma sociedade envolta pelo desenvolvimento industrial e pela busca da racionalidade. Seria então, a fotografia no seu início uma manifestação do imaginário moderno? Retomando as reflexões do capítulo anterior, parece-nos que os usos e as funções da fotografia no século XIX estão fortemente relacionados com os paradigmas da racionalidade e da objetividade, tão caros ao período histórico da modernidade.
Ponto de vista compartilhado por Kossoy (2001), para quem a invenção da fotografia tornou o mundo mais familiar e possibilitou que o homem pudesse conhecer, de maneira mais precisa e ampla, outras realidades.
A descoberta da fotografia propiciaria, de outra parte, a inusitada possibilidade de autoconhecimento e recordação, de criação artística (e, portanto, de ampliação dos horizontes da arte), de documentação e de denúncia graças a sua natureza testemunhal (melhor dizendo, sua condição técnica de registro preciso do aparente e das aparências) (KOSSOY, 2001, p. 27).
Entretanto, Kossoy salienta que esta natureza de testemunho atribuída à fotografia, em função de seu caráter técnico de obtenção de imagens análogas ao real, constituiu a fotografia como uma “arma temível (...), na medida em que os receptores nela viam, apenas, a expressão da verdade, posto que resultante da imparcialidade da objetividade fotográfica” (KOSSOY, 2001, p. 27).
Assim como Kossoy (2001) parece questionar o atributo de veracidade plena que as imagens fotográficas recebem nesse primeiro momento de sua história e que determina muitos de seus usos, Rouillé (2009) também põe em dúvida esta relação da imagem fotográfica com a realidade. Para ele, apesar de ser plural, será a forte relação de ligação da fotografia com o real e com a objetividade, ou seja, o seu valor de documento, que determinará e caracterizará seus usos e suas funções na modernidade. Parece claro que Rouillé acredita que a fotografia não é somente documento e que, desta forma, também não é totalmente objetiva, mas é vista e utilizada desta maneira pela sociedade moderna.
Por outro lado, apesar de também questionar o valor de testemunho da fotografia no início de sua história, como já vimos, Kossoy salienta que a fotografia surge como um novo documento para a história e que as inúmeras imagens produzidas, desde sua invenção, preservam a memória visual das sociedades a partir de fragmentos do mundo. Ou seja, mesmo colocando em suspeita seu valor de
veracidade, ou de “verdade fotográfica” para Rouillé, Kossoy considera a fotografia como ferramenta de documentação histórica.
Para Freund (1995), cada momento da História é acompanhado por modos de expressão artística particulares, que correspondem às maneiras de pensar, aos gostos e às estruturas sociais vigentes. Desse modo, a fotografia seria o meio típico de uma civilização apoiada na tecnologia, e “seu poder de reproduzir exatamente a realidade exterior – poder inerente à sua técnica – empresta-lhe um caráter documental” (FREUND, 1995, p. 20). Mais uma vez, vemos os paradigmas da modernidade manifestando-se na produção de imagens visuais a partir das técnicas fotográficas.
Assim, tanto em Rouillé quanto em Kossoy e Freund, percebemos uma forte ligação da produção fotográfica com o contexto histórico e social em que está inserida. Ou seja, podemos entender que, segundo eles, a fotografia representa visualmente o pensamento e as características das sociedades em cada época. Desse modo, estaria na fotografia uma representação visual dos imaginários de cada época? Se a resposta for positiva, esse fato poderia explicar a crença na objetividade das imagens fotográficas na sociedade moderna, assim como o seu caráter documental.
E esse caráter documental será ainda mais reforçado pela aproximação da fotografia ao jornalismo. O fotojornalismo, estilo fotográfico adotado pelos jornais impressos e, posteriormente, a fotografia documental irão sedimentar ainda mais o uso da fotografia como documento.
No final da década de 1880, surge um processo de impressão, chamado
halftone, que é capaz de reproduzir uma fotografia através de uma superfície
múltipla de pontos que passa a imagem fotográfica juntamente com os textos em uma prensa que os imprime conjuntamente (FREUND, 1995). Assim, pela primeira vez, a técnica facilita o uso da fotografia pelos veículos impressos.
A introdução da fotografia na imprensa é um fenômeno de importância capital. Ela muda a visão das massas. Até então o homem vulgar apenas podia visualizar os fenômenos que se passavam perto dele, na rua, na sua aldeia. Com a fotografia abre-se uma janela para o mundo. (...) Com o alargamento do olhar o mundo encolhe-se. A palavra escrita é abstrata, mas a imagem é o reflexo concreto do mundo no qual cada um vive (FREUND, 1995, p. 107).
“A imagem é o reflexo concreto do mundo”: quando diz isso, a autora não parece estar assegurando o caráter de verdade da imagem fotográfica, mas buscando demonstrar que é a partir desta lógica de reconhecimento que a fotografia vai ganhar espaço no jornalismo. E acrescenta que ela se tornará uma forte ferramenta de poder, na medida em que une sua própria credibilidade com a credibilidade do jornalismo.
A fotografia fortalece assim, ainda mais, seu principal uso na modernidade: a fotografia-documento (ROUILLÉ, 2009).