No ano de 460, escreve Tito Lívio, Ápio Herdônio, o Sabino, liderou dois milhares e meio de exilados e escravos em uma invasão noturna à colina Capitolina (III, 15, 4). Ao amanhecer, o comandante da sedição esclareceu ao povo romano quais eram suas intenções, libertar todos os escravos do pesado jugo ao qual estavam submetidos, assim como retornar para a pátria todos aqueles injuriosamente exilados (III, 15, 9) (referência, quiçá, a Cesão Quíncio).
Neste ambiente, “a multidão, temerosa e consternada, não podia ser controlada pelas autoridades” (III, 15, 7), os cônsules Caio Cláudio e Públio Valério Publícola. Entretanto, embora diante de tão iminente ameaça, os romanos voltaram-se somente para a oposição que movia as duas ordens. Ainda durante a noite, desconhecendo a natureza e a motivação dos inimigos acampados no Capitólio, os cônsules hesitaram em convocar às armas os plebeus, pois temiam que estes fossem os reais inimigos, em razão do ódio que nutriam em relação ao patriciado (III, 15, 7). No dia seguinte, os tribunos da plebe, consumidos pela ira (furor), afirmaram que não havia uma guerra verdadeira no Capitólio, porém uma “vã representação de uma guerra” (vanam imaginem belli), tramada a fim de que se desviasse o ânimo da plebe daquilo que almejavam, ou seja, a aprovação da lei Terentília (III, 16, 5). Para tanto, advogaram que o povo não deveria pegar em armas (III, 16, 6).
A posição do historiador face este quadro é inequívoca. Suas inclinações moralizantes não permitiriam que aceitasse o fato da discórdia entre as ordens enfraquecer o corpo cívico73, de tal modo que propiciasse aos escravos articularem-se, sob a liderança de um sabino74, e
73 Acerca da ponte erigida pelo historiador entre discórdia interna e fortalecimento do inimigo, ver abaixo p.161. 74 Não obstante o epíteto de Ápio Herdônio, Tito Lívio parece indicar que a ação daquele configurou uma
insurreição doméstica, não um ataque externo. No versículo III, 15, 6, o autor cita que alguns cidadãos recusaram-se a conspirar e pegar em armas junto com os comandados do sabino. Considerando o livro III, no
provocassem tamanho tumulto no âmago da cidade. Resta a Tito Lívio, logo, suscitar nos leitores a aversão diante de qualquer tipo de desarmonia entre os cidadãos (MAZZARINO, 1983, p.50).
A invasão noturna promovida pelo séqüito de Ápio Herdônio atestaria a nocividade dos inimigos da cidade, na medida em que privou aos romanos a probabilidade de rechaçá-los quando perpetrada a incursão em si. Todavia, a negativa do tribunado da plebe no que concernia à natureza do ataque provocou no historiador repulsa ainda maior, a ponto de afirmar que os senadores manifestaram mais amplo temor pela atitude dos tribunos da plebe que pelo ataque noturno realizado pelo inimigo (III, 16, 6). Isto significa dizer que, segundo a ótica liviana, os eventos desenrolados em Roma, naquele período, subordinam-se ao confronto entre patrícios e plebeus.
Outra questão importante abordada pelo historiador neste episódio concerne ao terror
servilis, ou seja, o temor provocado pelos escravos. Em III, 16, 3, Tito Lívio externou-o, utilizando a seguinte frase: “muitos e variados eram os temores; dentre tudo o mais, sobressaía o temor dos escravos, de modo tal como se o inimigo estivesse em sua própria casa”, isto é, no interior da residência de cada cidadão. Para Mazzarino (1983, p.50), o relato liviano quanto ao levante de Ápio Herdônio põe em relevo caracteres similares aos observados na conjura capitaneada por Lúcio Sérgio Catilina em 63. Por sua vez, visto a apreensão que uma insurgência escrava despertou nos membros das camadas superiores romanas ao final da república, toda revolta ou distúrbio social que incorporasse o elemento escravo em suas fileiras foi, invariavelmente, condenado pelos analistas. Deste modo, não seria necessário à emergência de um modelo como o catilinário para que o obscuro e arcaico qual a narrativa dos eventos internos sobrepõe-se, quantitativamente, aos eventos externos (BRISCOE, 1971, p.17), talvez seja plausível sustentarmos que o episódio, para o historiador, tivesse se originado dentro das muralhas de Roma. Esta versão, de acordo com Capozza (1966, p.62), permitiria que o historiador desenvolvesse plenamente o tema da discórdia civil, assim como lançasse luz à intemperança do tribunado da plebe em contraste à moderação e à pietas (piedade, aplicando-se no quadro abordado à idéia de devoção ou lealdade) para com os deuses exibidas pelo cônsul Públio Valério e pelos senadores.
movimento liderado por Ápio Herdônio adquirisse, dentro dos limites da tradição analística tardo-republicana, os contornos de uma revolta na qual um líder popular conclama os escravos à liberdade, alimentando a perspectiva do terror servilis. A elite romana alardeava tais aspectos em relação às reformas de Caio Graco (MAZZARINO, 1983, p.51).
Assim, complementa Forsythe (2005, p.205), a narrativa exposta por Tito Lívio apresentaria, inclusive, pontos de contato com a sedição ocorrida em Roma durante o ano 100, na qual o tribuno da plebe Lúcio Apuleio Saturnino e seus clientes assumiram brevemente o controle do Capitólio.
Conforme Capozza (1966, p.58), as variações e as antecipações históricas aludidas na narrativa do evento ofertada por Tito Lívio indicam, essencialmente, a evolução em que se submeteu o relato do próprio acontecimento, demonstrando como uma dada ocupação do Capitólio por parte de um certo Ápio Herdônio assumiu uma fisionomia particular a partir do quarto século, moldada tanto pelas guerras travadas entre Roma e os latinos, os samnitas e os sabinos, quanto pela rememoração de tumultos provocados por cidadãos exilados ou escravos, alcançando a interpretação dos analistas tardios, alguns dos quais mais sensíveis aos conflitos civis, outros mais inclinados aos efeitos da guerra contra os aliados itálicos.
Prosseguindo a narrativa, destacamos a indignação do cônsul Públio Valério, confrontado à atitude do tribunado da plebe, proclamando:
Tribunos, o que isto significa, inquiriu ele. Vós estais a destruir a república sob a condução e os auspícios de Ápio Herdônio? Este, que não espertou os escravos, foi tão afortunado em vos corromper? Com o inimigo sobre vossas cabeças, considerastes melhor abdicar às armas e legislar? (III, 17, 2).
A negligência demonstrada pela multidão plebéia para com as divindades tutelares romanas (penates) igualmente foi destacada pelo cônsul, visto que os plebeus decidiram não enfrentar os inimigos que sitiaram a morada da tríade capitolina, Júpiter Máximo, Juno e Minerva (III, 17, 3). Defronte tal situação, Públio Valério convocou todos os cidadãos para a
formação da milícia e aqueles que se recusassem a atendê-lo seriam considerados inimigos públicos e detidos (III, 17, 7). Assevera ainda o cônsul que “ousaria tratar os tribunos de forma tal como o fundador de sua família ousara em relação aos reis” (III, 17, 8). Neste caso, vislumbramos uma inversão no que tange à remissão da queda da monarquia, uma vez que o tribuno plebeu Aulo Virgínio remonta à arrogância do último rei romano quando enfatiza o orgulho do patrício Cesão Quíncio (III, 11, 13) e, no trecho acima referente ao cônsul, evoca- se à memória do primeiro Públio Valério Publícola, cujas ações culminaram no fim do reinado de Tarqüínio, o Soberbo. Logo, a fala de Públio Valério (III, 17, 8) igualou as atitudes do tribunado da plebe ao comportamento do antigo monarca.
A aplicação do metus hostilis, noção por meio da qual a concórdia interna dependia da existência de ameaças externas, transparece no discurso em que os senadores conclamam todos os cidadãos à luta contra Ápio Herdônio e seu exército de escravos. “O conflito não reside entre patrícios e plebeus: tanto o patriciado quanto a plebe, [...] os templos da cidade, os penates públicos e privados foram cercados pelos inimigos” (III, 17, 11), ponto de vista cujo objetivo seria matizar a discórdia entre as ordens (III, 17, 12). Finalmente, os plebeus seguiram a autoridade do cônsul Públio Valério, sob a garantia de que ele não interferiria nas deliberações da assembléia da plebe (concilium plebis) (III, 18, 6) e combateram o inimigo, ainda que os tribunos da plebe tentassem dissuadi-los. Os tusculanos auxiliaram as tropas romanas, que alcançaram êxito (III, 18, 10), pois que Ápio Herdônio tombou mortalmente ferido, embora Públio Valério igualmente tivesse perecido durante a pugna (III, 18, 8). Esta personagem, por sinal, representaria “o elemento moderador que, com sua palavra equilibrada e com a promessa de permitir a discussão da lei, acolhe o consenso da maior parte do Senado e de todo o povo” (CAPOZZA, 1966, p.49, grifo nosso).
A inclusão do elemento sabino75 no conto voltar-se-ia à amplificação do significado da morte do cônsul Valério, a fim de que se acentuasse o heroísmo da personagem que se sacrificou pela pátria, defendendo-a contra um inimigo que circundou o solo sagrado da cidade, expressão da liberdade romana, ao passo que se minimiza o ato pouco digno de sucumbir em meio a um conflito interno e, sobretudo, “servil” (MARTÍNEZ-PINNA, 1987, p.89)76.